Promessa matrimonial

1 Eu os declaro, marido e ex-mulher


A suspensão do SUV enverga nas curvas feitas numa velocidade muito superior à que seria minimamente segura. Ele sente o suor brotar da testa e escorrer deixando trilhas salgadas pelo caminho. Sangue escorre pela orelha esquerda dilacerada e mancha seu paletó e o couro dos bancos. O motor urra em protesto ao uso extremo, mas ele sente aquele par de faróis chegando cada vez mais perto.

Era para ser apenas uma happy hour normal. Algumas doses no Broke Leg, pequeno pub na saída da estrada 25. Algumas cervejas e gim tônicas pra esquecer as reuniões estafantes e repetitivas. Isso nem é pedir muito, apenas uma escapada de sexta à noite, pensa enquanto os faróis do Land Rover rasgam o negrume da noite.

O Broke Leg é conhecido como um pub esportivo predominantemente masculino. Vez ou outra você pode ler sobre hooligans que iniciaram seus habituais acertos de contas nessas mesas gastas e sob o olhar conivente do proprietário, o bom e velho sr. McArthur. Cheiro de cerveja quente e fumaça de cigarros caseiros ferem as narinas dos marinheiros de primeira viagem. Não parece ser um local indicado para um pai solteiro, mas já faz anos que ele não precisa se preocupar com o avançar dos ponteiros toda vez que sai. Sua filha menor está na casa de uma amiga e seu filho maior, embora não seja o maior gênio de todos, é responsável o suficiente para não colocar fogo na casa.

Eram apenas algumas doses. Ninguém vai naquele bar para conseguir mulher. Até porque ele não precisa de uma. Mesmo que não faça a menor idéia de onde ela esteja, ele é casado com uma loira estonteante. Olhos azuis como o amanhecer e um corpo escultural. Se conheceram na universidade do condado. Ele cursava relações exteriores, ela arquitetura. "Legal, mas quando a gente surtar quem vai cuidar das crianças?" Ela ria desses gracejos idiotas que só namorados conseguem fazer. Um sorriso lindo e brilhante como que desafiando o cinza de Londres.

Mas quando ela apareceu, ele simplesmente esqueceu-se de tudo. É fato raro mulheres botarem os pés no Broke Leg. Normalmente elas se embebedam nos bares da cidade enquanto falam sobre compras e o tamanho do pau dos maridos. Pode-se contar nos dedos de uma mão as mulheres que já haviam passado por aquelas portas e a maioria delas queriam apenas informações de como voltarem à cidade. Mas aquela valia por todas. Todas e muitas mais.

Mesmo usando um sobretudo de couro era possível perceber que seu ombros eram delicados. Peitos nem grandes nem pequenos demais. Olhos verdes em contraste com o cabelo negro que descia escorregadio até a altura dos ombros. Lábios carnudos dentro de um rosto levemente bronzeado. O tipo de pele que você não vê todos os dias na terra da rainha. Sem maleta a tiracolo e sem a expressão cansada de quem passa o dia atrás de uma mesa era impossível afirmar com exatidão o que fazia para ganhar a vida. Antes que pudesse continuar sua análise ela senta ao seu lado e pede um whisky duplo. Sem gelo. "Deixe o gelo para os pinguins e esquimós", disse em resposta a cara tão desconfiada quanto enrugada do velho Mc.

Ele dá um risada por cima do copo e aproveita a deixa para se apresentar.

― Não ligue para esse velho ranzinza. Ele é da época que as mulheres não podiam beber nada mais forte que um chá da tarde.

O velho então começa a se defender, mas logo para, pois tem que apartar um início de briga entre dois rapazes que jogavam pôquer no fundo do bar. Ficam sozinhos no balcão falando inutilidades, até que ela faz a pergunta valendo o grande prêmio.

― Você é casado?

É uma boa pergunta. Muito boa mesmo. É engraçado como coisas ruins acontecem quando menos se espera. Poucos meses depois do segundo aniversário da filha, sua esposa precisou viajar para resolver alguns problemas de uma filial em Portugal. Questão de licenças e autorizações ambientais. Começava a nevar quando o pequeno avião rasgava os céus. O avião teve uma pane mecânica, causado por falha humana segundo o inquérito, e caiu perto da fronteira espanhola. O que realmente interessa é que todos os ocupantes do avião morreram. Quase todos, na verdade. Destroços e corpos se espalharam num raio de quase um quilômetro, mas o corpo de sua esposa nunca foi encontrado. O que não é exatamente incomum nesses desastres. Mais de quatro anos depois do acidente, ele não sabe qual foi o destino da sua esposa. Pode tanto estar enterrada debaixo de toneladas de neve e gelo como estar em alguma praia paradisíaca se esfregando em algum cara bronzeado. Quando está realmente bêbado, como agora, a paranoia o faz acreditar cegamente na segunda opção.

Enquanto está perdido em reflexões sobre o ocorrido a desconhecida vai se aconchegando nele.

Talvez ela estivesse dando para algum gerente ou faxineiro.

Ela começa a massagear seus ombros.

Na última festa de natal antes do ocorrido aquele faxineiro latino parecia bem atraente.

Suas mãos passeiam por sua nuca e pelo colarinho da camisa.

Calma cara ― pensa pegando o copo sem perceber que já está vazio. É o primeiro ou décimo primeiro? A segunda opção, senão a correta é a mais próxima da verdade ― ela te amava e você ainda ama ela.

Os lábios dela deixam marcas vermelhas em seu pescoço.

Que se foda aquela vaca oxigenada.

Deixam algumas libras sobre o balcão e saem no frio do estacionamento. Ela o leva em direção a um pequeno TVR Griffith verde. Não o British Racing Green, apenas verde. O vento o pega de surpresa e queima suas faces já vermelhas pelo álcool, mas ela parece não se importar com isso. Ela o empurra contra o capô ainda quente pelo uso contínuo do grande V8. Ele a abraça e começa a explorar suas curvas por baixo do sobretudo. Sua esposa ocupa uma área desconhecida e inútil dos seus pensamentos. A desconhecida acaricia o volume crescente de suas calças enquanto beija seu pescoço. Ele resmunga e reclama do fecho do sutiã ser extremamente complicado enquanto ela passa a mordiscar sua orelha. Os dentes se cravam na carne macia do lóbulo de sua orelha. Ele nem repara quando o sangue quente começa a escorrer pois a circunferência perfeita sob a saia apertada prende sua atenção e, com um misto de espanto e êxtase, sente o frio da noite arrepiar seu pênis enrijecido. Quando sua mão encontra a fina seda da calcinha ela inclina a cabeça para trás em um legítimo e inesperado orgasmo.

Seu cérebro acostumado com a lógica demora um instante para processar a dor vinda do lado esquerdo do crânio. Espantado, ele percebe que a desconhecida tem um pedaço de carne em sua boca. Carne que até segundos atrás formava a parte baixa de sua orelha. Viu entre os dentes incrivelmente brancos o cintilar do pequeno brinco de diamante que trazia consigo desde a adolescência. Sangue escorre pelos lábios que ele ansiava beijar. Ele a afasta com um soco e aperta os retalhos da orelha dilacerada. Foi um soco mais forte do que planejou, capaz de nocautear um cara muito maior que ele. Ela cai no pavimento rachado, sem maiores danos ou machucados. A cena seria cômica, até mesmo erótica, se alguém a presenciasse. Ele em pé com o pênis fora das calças e ela deitada no chão mascando um talho de sua orelha. A carne se desfia e o sangue suja seu queixo.

Ele atravessa o estacionamento correndo. Ela fica onde está, estirada mas consciente, como se estivesse aproveitando o frio da noite para mascar um chiclete. O chiclete em questão é o pedaço que falta da sua orelha esquerda. Tem a impressão de ouvir o som seco das cartilagens sendo esmagadas. Nunca mais poderá usar um fone de ouvido. Ele arranca com o carro e, ao tirar a mão que a segurava, a orelha volta a sangrar e rapidamente lambuza seu pescoço e paletó com o líquido escuro. O cheiro concentrado de ferro incomoda seu nariz.

Ele repassa isso diversas vezes enquanto segue em disparada para sua casa. Ela o poderia ter alcançado facilmente, mas parece que a caçada a excita. Sempre que alcança o Land Rover, o pequeno roadster diminui o ritmo. Pelo retrovisor ele vê seus cabelos negros balançando com o vento noturno. Chegando ao subúrbio encontra o trânsito carregado e consegue despista-la usando algumas vias transversais. Esta cada vez mais perto de casa e fica animado ao não ver o maldito carro em seu encalço.

Vira na sua rua já acionando o botão do portão automático da garagem. Faltando cinquenta metros vê o portão se abrindo e iluminando a rua praticamente deserta. Embica para a entrada iluminada e no momento que para o carro ouve o ruído característico de plástico bolha estourando. Atropelou o hamster da filha. O barulho vai persegui-lo pelo resto da vida.

Pega o telefone para ligar para a policia quando percebe que sua voz pastosa não convenceria nem um policial em treinamento. Apenas um bêbado carente que diz estar sendo perseguido por uma canibal peituda. Coloca o telefone novamente no gancho e vai ao banheiro dar um jeito na orelha. Rastros de sangue o perseguem aonde vai. Encontra gaze e esparadrapo no armário e estanca o sangramento. Seu rosto abatido se reflete no espelho. A gaze já encharcada com seu sangue. O som de plástico bolha reverbera em seus ouvidos. Mais alto. Mais longo. Mais perto. Sua carne sendo mastigada e estraçalhada. O barulho ecoa no silêncio do quarto.

Balança a cabeça e acorda do seu transe paranoico. Pequenas gotas vermelhas batem e respingam no espelho, já opaco com a sua respiração. Decide verificar todas as portas e janelas da casa. Devia ter feito isso logo quando chegou, mas estancar o sangramento parecia mais importante no momento. Tudo trancado. Ao olhar pela janela do terraço tem a impressão de ver a silhueta de um roadster estacionado na frente da casa dos Wilsons, a uns cem metros descendo a rua, mas não vê ninguém por perto. Foda-se. Mastigue e engula o Wilson e morra engasgada com a banha dele.

Continua a checar todas as portas e janelas e quando se da por satisfeito vai até seu criado mudo pegar o pequeno revólver 22. Mas antes que possa realmente colocar as mãos na empunhadura de mogno ele percebe um pequeno círculo dourado esquecido sobre o tampo do lado de trás do abajur. Sua aliança de casamento. Por um problema de circulação, não podia dormir usando o pequeno adorno ou seu dedo amanheceria completamente roxo. Assim o retirava toda noite e o colocava novamente toda manhã, mas havia se esquecido desse ritual matutino por ter acordado atrasado. A coloca distraidamente no dedo anelar sem saber porque continua fazendo isso depois de todos esses anos. Só pensa que esse pequeno pedaço de ouro branco o teria salvo de toda essa situação. Mulheres sempre olham as mãos dos homens atrás de alianças que as impeçam. Lembra de algo que sua mulher havia dito pouco antes do casamento. "Se você me trair, vou te comer vivo". Tratou aquilo como um pequeno gracejo. Mas parece que, na terra do humor negro, até as piadas mais infames tem um fundo de verdade.

Coloca o revólver carregado no cós da calça e passa a andar a esmo pelo andar superior. Finalmente se da conta que está cansado. Sua respiração está irregular e pastosa. Mal sinal. Se encontra novamente no banheiro lendo distraidamente os nomes e bulas quilométricas e indecifráveis dos remédios da sua esposa. Devia te-los jogados fora, afinal são remédios controlados e já estão vencidos à muito tempo, mas não o fez, na esperança débil que sua esposa, em algum momento desses quase cinco anos, retornasse como se nada tivesse acontecido e precisasse toma-los.

Chegou até mesmo a pensar em manter o estoque sempre atualizado, mas isso não foi possível devido ao acesso restrito à esses tipos de remédios. Drogas legalizadas com efeitos ilegais. Quando se conheceram ela tomava apenas calmantes e soníferos. Com o passar dos anos a quantidade e gramatura dos remédios aumentavam num ritmo acelerado. A prateleira de remédios ficava cada vez mais pesada. Durante a gestação da filha, ela parou de toma-los mas, meses após o nascimento da filha voltou a tomar em quantidades e períodos de tempo visivelmente exagerados. Sempre que a questionava, recebia como resposta que os remédios eram tomados de acordo com a prescrição médica. Depois de tentativas frustradas viu que era melhor não tocar no assunto.

Ouve o portão automático sendo acionado e corre para a varanda do quarto a tempo de ver o Vauxhall Astra azul do filho entrando na garagem. A cobiçada versão OPC e, mesmo nessa situação lembra do plano de comprar um igual, vermelho, e chamar o filho para um mano a mano no autódromo local. Encara esse pensamento banal como prova que finalmente está se acalmando. Amanhã poderá ir para o hospital e receber um curativo decente. Quando saiu fugindo do pub sabia que nunca iria conseguir encontrar o hospital mais próximo, a vinte quilômetros no emaranhado confuso que os turistas chamam de Londres. Amanhã, totalmente sóbrio, poderá prestar queixa na polícia e esquecer que isso aconteceu.

Desce as escadas e ouve seu filho falando com alguém. O pânico nasce na garganta, mas logo é extinguido quando encontra seu filho e a namorada conversando na cozinha.

― Boa noite, sr. Uris ― diz ela enquanto seu filho dispensa apenas o aceno de cabeça habitual ― O que aconteceu com sua orelha?

― Não diga esse nome em voz alta. Suspeito que estejamos no meio de nazistas loucos para denunciar judeus e ganhar um cafuné do Führer. Tive um problema inesperado com o meu brinco ― espera que o esparadrapo consiga disfarçar a falta da parte inferior ― ele inflamou e foi preciso tirar.

Ela abre um sorriso diante do gracejo já conhecido sobre a longínqua e ignorada origem judia da família, mas seus olhos permanecem fixos no curativo com sangue já seco. Seus olhos apresentam uma mistura de preocupação, desconfiança e outro sentimento incapaz de descobrir.

Ela não é idiota, pensa rapidamente, nem a pior das inflamações causaria um sangramento desses. Meu filho talvez perceba alguma coisa, mas provavelmente não vai se importar. Sabe que isso não é problema dele. Não é problema de nenhum dos dois.

― Bem ― disse seu filho com o costumeiro tom desinteressado ― já estamos indo. Boa noite.

Eles saem da cozinha e seguem pelo corredor em direção ao andar superior. Não é preciso ser um gênio para saber aonde vão e o que provavelmente vão fazer. Acompanhando a saída deles com o olhar, ele encontra o relógio na parede e se dá conta do arrastar do tempo.

Fica espantado ao perceber que já se passou pouco mais de uma hora desde que chegou em casa num estado de pânico imensurável. Mas bastou esse curto espaço de tempo para as coisas voltassem a um estado, em falta de termo melhor, quase normal. Pensa que ainda faltam duas horas para o horário que ele planejava chegar em casa e, sem perceber, começa a sentir o que chamam de coceira fantasma. Amputados relatam sentirem coceira e pontadas na parte do corpo que perderam e, em meio à crises de desespero, tentam se livrar do crescente incômodo coçando o local onde não há mais nada. Coçando o vazio.

Prepara um dry Martini sem se preocupar se a mistura de bebidas pode lhe fazer mal nem com a quantidade de copos que tomou antes. A bebida desce queimando sua garganta, seu estômago reclama e ronca exigindo algum alimento sólido. Encontra alguns sanduíches na geladeira e, apoiado no balcão, os come sem se preocupar com o gosto quando percebe o piscar solitário da secretária eletrônica.

Novas mensagens.

Pensa em deixar as mensagens pra lá e ir dormir. Parte dele sabe que é a coisa certa a fazer. Mas uma voz em sua cabeça, que ele não reconhece imediatamente como a sua própria, repete sem parar

vamos lá, você sempre verifica as mensagens quando chega. Faça tudo voltar ao normal. Damos um jeito na sua orelha depois. Depois você esquece tudo, mas agora verifique as mensagens. Faça tudo voltar ao normal. Ao normal

Ele estremece e balbucia essas palavras. Aperta o botão e escuta a fita rebobinar e parar com um clique seco quando chega ao início das gravações. Vozes mais graves que as originais ecoam em seus ouvidos, ele reconhece seus donos, mas é incapaz de discernir seu conteúdo.

No silêncio entre uma mensagem e outra escuta gemidos e o ranger do colchão vindos do quarto do seu filho. Eles não esperavam encontra-lo em casa tão cedo. Seu filho está na idade que transaria até mesmo com um travesseiro, se isso fosse possível. Ele dá um meio sorriso quando essa idéia passa pela sua cabeça, uma definição perfeita da puberdade desenfreada desses jovens, mas o sorrido morre quando se lembra que ele mesmo tinha sido um jovem desenfreado.

Clique. Outra mensagem termina. A quinta ou sexta. Clique. Outra começa. Os barulhos vindos do quarto aumentam enquanto uma voz feminina, que ele não reconhece como sendo de ninguém do escritório, começa a declamar seu recado.

"Boa noite, aqui é a Cindy falando. Senhor Uris, sei que provavelmente vai ser o senhor que vai ouvir esse recado, poderia avisar ao Tony que não poderei me encontrar com ele hoje? Nós havíamos combinado, mas tive um problema aqui em casa. Nada para se preocupar, meu irmão quebrou o braço subindo numa árvore e vou ter que acompanha-lo pro hospital. Aliás, era pro Tony ter aparecido aqui em casa já, mas não consegui ligar no celular dele. Acho que deve ter ficado preso com algum serviço na oficina. Enfim, amanhã eu tiro satisfação com ele. Tenha uma boa noite, senhor Uris."

Clique.

A secretária indica mais duas mensagens, as quais ele ignora completamente. Seu senso lógico é posto em xeque pela segunda vez esta noite.

Reconhece a dona da voz. Mesmo se não conhecesse, o contexto da conversa bastaria para identifica-la. A mensagem foi mandada à menos de quarenta minutos. Quase ao mesmo tempo que a dona da voz estava na sua frente, o cumprimentou e se mostrou preocupada com o estado da sua orelha.

Trabalhando ao máximo seu cérebro encontra a resposta, ilógica, mas correta.

A mesma voz. Mas não a mesma pessoa.

Percebe que os gemidos se transformaram em gritos abafados. Sente a certeza, embora não saiba do que exatamente, crescer em seu peito enquanto corre em direção ao andar superior.

Ouve pedidos de socorro quando se aproxima da porta do quarto do filho. Se certifica que o revólver continua em sua calça enquanto bate na porta e chama por eles com os últimos fiapos de racionalidade que lhe restam.

― Vocês estão bem? Seja lá o que for que vocês estão fazendo, já não é o bom e velho papai e mamãe da minha época ― tenta parecer cômico, mas bate na porta com mais força e urgência do que planejava. Tem a impressão de ouvir sussurros ecoando em seus ouvidos, mas não consegue entender o que eles dizem.

Experimenta a maçaneta e a encontra aberta. As dobradiças rangem e antes mesmo de ver o que ele já espera, mesmo que negue para si mesmo, os sussurros explodem em seus ouvidos com palavras acusatórias.

Você os tomava. Seu nome em todos os frascos.

Seu filho, com o rosto nos pés da cama, o encara com o olhar desfocado, perto da inconsciência.

Pílulas brancas, vermelhas e azuis. Porções do arco íris para manter sua cabeça sã.

O corpo leve e torneado subindo e descendo, alheio as condições do homem que o penetrava.

As ligações ignoradas eram do seu médico, não é mesmo? Você os tomava e fingia ser um marido ideal e sua esposa fingia acreditar.

O rosto da falsa Cindy se ilumina com um sorriso brilhante quando vê o voyeur improvável parado, estarrecido, na porta.

Suas iniciais nos rótulos, sua assinatura nos recibos. Quando ela sumiu, você não precisava fingir ser normal para mais ninguém.

Ele tenta inutilmente sacar o revólver mas desiste ao perceber a frente das calças aumentando de volume, incapaz de resistir a tal perversidade, seu cérebro deu lugar aos instintos vis e carnais.

VOCÊ OS TOMAVA!

Ela se levanta e interrompe a penetração com um som igual ao quando se abre uma embalagem a vácuo. Seu filho, com cortes e arranhões brotando sangue, não esboça reação e apenas o leve movimento do peito atesta que está vivo.

VOCÊ!

Tudo isso se passou no espaço de poucos segundos mas suas juntas estavam rígidas como se tivesse passado horas assistindo aquele grotesco espetáculo.

― Você tem razão ― diz a estranha com a voz de Cindy ― Nosso filho transaria com um travesseiro se fosse possível.

Ela começa a caminhar em sua direção. Ele quer fugir, se afastar o máximo possível daquele cenário, mas suas juntas parecem cimentadas e qualquer tentativa de movimento causa ondas de dor na base da sua coluna.

Sua vista fica turva enquanto sente todos os sentidos se esvaindo numa torrente de pensamentos e informações desencontradas. Ele se apoia à parede do quarto enquanto vê a estranha chegando mais perto.

A falsa Cindy começa a se alongar como se seu corpo se transformasse.

A canibal do Broke Leg.

Suas coxas se tornam mais grossas.

A secretária que sempre usa saia curta.

Sua cintura se afina.

A viúva do fim da rua.

Seus seios crescem e seus mamilos ficam maiores e completamente rosados.

A mãe de uma das amigas da sua filha.

Os cabelos se tornam loiros e se alongam até as nádegas redondas e firmes.

A colega do escritório com quem bebe às vezes.

Os olhos encarando o pobre homem que finalmente se dá conta do que está enfrentando.

Os olhos.

Azuis como o amanhecer.

O sorriso, que ele conheceu tão bem durante anos, lhe parece estranho emoldurado num rosto vazio e no corpo que se transforma em algo que ele não vê a cinco anos.

Sua esposa.

O corpo rijo e torneado. As curvas que ele pensou conhecer.

Não foi nada parecido com qualquer coisa que ele poderia ter imaginado. Desde que recebeu a notícia do acidente, imaginou as mais diversas possibilidades de como poderia reencontrar sua esposa. Ela chegando em casa como se nada tivesse acontecido ou até mesmo um encontro casual numa rua qualquer, depois de anos. Não se lembra quando admitiu para si mesmo que algo assim nunca aconteceria.

O tão esperado encontro finalmente aconteceu.

Ela, desprovida de qualquer pudor, encara com certo divertimento o homem aos seus pés. Os olhos vidrados encarando seus pelos púbicos enquanto murmura frases desconexas, buscando um sentido para tudo que ocorreu nas últimas horas.

Seu marido.

Se agacha para o olhar cara a cara. Olhos azuis contra castanhos. O clima frio eriça seus pelos e os músculos flexionados brilham e refletem a fraca luz do quarto. Ela mesma não encara esse reencontro com a importância que seu marido. Homem com quem se divertiu durante um tempo, até que sua luta para se manter normal a entediasse. Outros antes dele tentaram o mesmo, mas perdidos de paixão e cegos pela própria ignorância diante do inexplicável, não percebiam que era ela que trazia a loucura. Ela trazia o infortúnio e a desgraça.

― Querido, se serve de consolo você foi um dos que mais duraram. Mesmo que nunca tenha tido nenhuma chance. As suas dores de cabeça, seus distúrbios, suas alucinações. Foram todas por minha causa. Eu, que sou mais velha que o próprio tempo humano. Que tantas vezes vi homens se digladiarem e se matarem em meu nome. A insanidade, como os homens me chamam, encarnada na forma daquilo que mais desejam.

Ele não tem consciência de nada do que ela estava falando. Sua mente se esvaia cada vez mais rápido agora. Sem os remédios está totalmente vulnerável contra as vontades da estranha criatura nua que assumiu a forma de sua esposa.

― Na falta de uma palavra melhor sou uma deusa pagã. Esquecida pelos tempos modernos, mas continuei habitando esse mundo. Justo quando os homens julgam estar livres de mim é quando estou mais forte. Uma deusa da insanidade com um nome grego que, francamente, não faz jus a tudo que sou capaz de fazer. – Ela, indiferente sobre a vontade ou alguma reclamação que o pobre homem tenha, se vira e monta sobre ele e começa a se movimentar. – Considere isso como um presente por tudo que me fez. Mesmo que tenha me dado um soco mais cedo, ainda lhe devo uma.

Durante o ato sexual ela permite que ele recobre parte da lucidez. Alheio ao que está acontecendo, ele se surpreende ao ter sua consciência de volta, como se estivesse trancafiada num baú ao qual nunca teria acesso, e ter a imagem nítida de sua mulher cavalgando nele. O menor pensamento lhe causa dores de cabeça horríveis, mas sua ereção parece inabalável. Consegue focar apenas no suor que escorre pelas costas dela e no movimento do seu quadril. Para cima. Para baixo. A única certeza que tem é que, por mais que esteja gemendo, não sente prazer nenhum. Tenta implorar que ela pare, mas só consegue balbuciar palavras desconexas.

― Você foi o único que conseguiu me dar uma filha – se levanta e começa a cavalgar novamente, dessa vez de frente para ele. – Deuses são seres nem um pouco divertidos. Acabei sendo amaldiçoada por um deles só porque ele não gostou que eu tenha provocado uma guerra entre algumas tribos que deviam devoção a ele. Ele queria me tornar incapaz de gerar uma herdeira dos meus dons. Mas ninguém pode controlar o acaso, nem mesmo os deuses. Eu sabia que conseguiria ter uma filha, só seria muito mais difícil que o normal. Durante séculos me deitei com todos os tipos de homens, lhes dava o maior prazer da sua vida, mas nenhum foi capaz de me gerar uma menina. Alguns homens que gerei até tinham certos dons, que vocês humanos chamariam de mágicos, mas isso não me bastava. Apenas uma mulher seria digna de me acompanhar pela eternidade. Quando me deu um menino, um dos mais patéticos que eu já gerei, pensei em desistir de você como já tinha feito inúmeras vezes antes, mas, confesso que nem eu mesma sei por que, resolvi tentar mais uma vez. Foi divertido ver sua luta para permanecer normal e, finalmente, você me deu uma filha. Durante todo esse tempo eu estive observando o desenvolvimento dela até que estivesse pronta para me acompanhar. Ela já está me esperando no carro, então é hora de dar adeus.

Ele ainda tenta encontrar racionalidade em tudo que está acontecendo quando sente os dentes, afiados como agulhas e quentes como brasa, se cravarem em seu pescoço. Não sente dor nenhuma enquanto nacos da sua carne são mastigados por aquela criatura que não sabe mais como chamar. Sua esposa? Sua ruína? Só sente a ereção cada vez mais rígida e o prazer que não é prazer enquanto é comido vivo. Ela se levanta e ele pode ver seu esperma escorrendo por suas pernas.

Finalmente sente o sangue quente sair do seu corpo e o frio da noite tomar o seu lugar. A dor domina todo o seu corpo. Ela se veste rapidamente enquanto fala palavras que ele não consegue entender. Diante de tudo que aconteceu não ficaria surpreso se soubesse se tratar de um ritual para que ambos, pai e filho, deixem de existir. Quando os vizinhos ligarem para a policia reclamando do mal cheiro, encontraram apenas dois sem-teto mortos que invadiram uma casa vazia. Pela ultima vez, vê sua esposa contra a luz do luar e escuta o som de plástico bolha estourando. Mas ele próprio é o hamster dessa vez.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!