Promessa
1 Capítulo Único
Notas iniciais
É tão estranho pensar em como tudo é tão frágil em nossas vidas. Destruição. Vivemos nos destruindo a cada dia; vícios, alimentação, sedentarismo... até mesmo o tempo nos destrói. E aí nos destruímos também pelo que sentimos.
Uma vez você me disse que nunca iria embora, que o pra sempre é pra sempre enquanto é. Você me disse que nós éramos as donas do nosso próprio tempo e aí eu acreditei que tínhamos todo o tempo do mundo. Eu acreditei tão veementemente naquilo tudo que nem percebi que havia começado a me destruir.
Só queria te olhar nos olhos mais uma vez e dizer que valeu a pena, mas talvez nem tenha mesmo valido. Talvez, assim como você, tudo que eu fiz foi me matar devagar. Aprendi tarde que as promessas não valem de nada.
A primeira vez foi uma grande coincidência, mas particularmente prefiro acreditar em destino. Acho que uma vez cheguei a comentar isso com você. Engraçado, né? Eu que sempre fui a mais “racional” acreditando em coisas como ‘destino’... as pessoas mudam demais. Enfim, me lembro perfeitamente de como eu estava lá e você também; e, sem mais nem menos, foi assim que começou.
– Desculpa te incomodar, mas preciso que me ajude. – Foi o que me disse naquela noite; estávamos na calourada de... não me lembro de quê. Pelo visto minha memória não está tão boa quanto antes, ou talvez tudo que me venha à mente daquela noite seja só você; de como estava linda e de como sorria. E de como também estávamos bêbadas, muito bêbadas. Olhei pra você quase sem entender.
– Precisa de ajuda com o quê?
– Só preciso que converse comigo. Ou pelo menos finja. – Você me disse e riu, me contaminando com aquele som singular. Entrei logo no jogo. No maldito jogo.
– Está fugindo de alguém?
– É tipo isso. Acha que pode me ajudar?
– Acho que já estou te ajudando. – Falei e sorri e lembro como aquele sorriso que você me devolveu me atingiu. Aquela havia sido a primeira vez.
Até hoje, nunca soube de quem você estava fugindo, nem ao menos sei se havia verdade naquilo; tudo que eu sei é que aquilo bastou pra eu ter te escolhido também.
Lembro de como nos encontrarmos “coincidentemente” mais algumas vezes e, diferente da primeira vez que te vi, a primeira que te beijei estávamos sóbrias.
Beijar-te... Beijar-te é como sentir um pedacinho do paraíso no inferno em que vivemos. A troca de energia que tínhamos toda vez que eu beijava a tua boca estremecia todo o meu corpo; o modo como os teus lábios se encaixavam nos meus era como se eles tivessem sido feitos exatamente para isso.
– Está me seguindo? – Você me perguntou sorrindo, quando nos encontramos pela rua na segunda vez. Perguntou e sorriu e eu me enfeiticei por aquele sorriso e não consegui falar nada de imediato, apenas fitar você. E então eu ri.
– Acha mesmo? Que tal tomarmos um café pra eu te fazer admitir que você se esconde do lado da minha casa?
– Café, então.
E foi o que fizemos; fomos à cafeteria mais próxima e passamos a tarde toda conversando. Quando estávamos no caminho de volta à minha casa, não pude evitar senão te beijar. Foi assim que começou.
Vivemos, vivemos tão intensamente, que era como um sonho; teu toque, teu corpo, nossa troca de fluidos; eu podia te sentir em tudo.
Até que eu não pude mais; até que você quebrou nossa promessa.
Eu deveria saber, estava tudo bom demais.
Apaixonamos-nos tão de repente, foi tão rápido; te pedi em namoro... não; nos pedimos em namoro logo nas primeiras semanas. Lembra que tínhamos combinado isso? Quando você me ligava e passávamos madrugadas conversando, toda despedida tinha gosto de “eu te amo”, mas não queríamos dizer aquelas palavras antes de oficializar.
– Escolhe uma data – eu te dizia. – É só o que basta.
Como éramos apaixonadas... Mas apaixonadas de verdade; tão, mas tão apaixonadas, que eu tinha certeza que você e só você era o meu amor, o amor da minha vida. Acho até que você pensava o mesmo.
Só que as coisas mudaram, de repente, assim; do mesmo jeito que foi te conhecer naquela calourada.
Agora eu entendo que você realmente foi a apaixonada da história. Apaixonada por tudo, apaixonada por todos; essa é você: apaixonada por se apaixonar.
E eu acho que é por você ser tão apaixonada que lutávamos tanto por essa paixão; a nossa paixão.
Hoje quando eu passo por aquela velha cafeteria, fico rezando para nos encontrarmos sem querer; costumo sempre passar pelos mesmos lugares que costumávamos frequentar, como se você fosse simplesmente aparecer, de repente, como sempre foi.
De repente.
Mas você nunca está.
Sabe? Talvez fosse pra ser assim... a verdade é que eu não saberia nem o que te dizer, se te encontrasse. Provavelmente eu só iria sorrir pra ti e ir embora sem dizer absolutamente nada.
Quebrando mais uma promessa.
Mas não importa, porque eu sempre quero te culpar de tudo.
Mas no fundo eu sei, é, eu sempre soube. Eu fui a que mais quebrei.
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