Projeto Valkyria 2025

4 O Inimigo se Mostra


SPA Francorshamps, Bélgica.

Eram 11:00 da manhã e o autódromo estava cheio, alguns carros estavam na pista enquanto outros não, pilotos podiam decidir se esperavam diminuir o fluxo de gente para seu treino ou não. O V2025 vermelho doce não estava lá, porém o amarelo e verde estava, Jean Ninnet não tinha o menor motivo para ter raiva de Jason Valentinus, porém simplesmente era algo que ocorria, como se algo de ruim rodeasse aquele ser.
Sentado em uma cadeira no box aonde estava ele observava simplesmente a parede do Pit Lane enquanto os motores extremamente altos dos carros podiam ser escutados, era como se esperasse algo, com apenas seu macacão colocado e no chão a seu lado o capacete ele ficava apenas a pensar em nada, pelo espaço diminuido do box ele acabava por ficar do lado de seu carro que estava ali suspenso enquanto uns funcionários rodeavam por ali ajeitando poucas coisas.
Simplesmente do nada aquele clima foi quebrado pela voz confortável de Jeanne logo atrás de si, sempre com suas vestes negras ela ali estava se aproximando dele, sem seu segurança.

—Ora rapaz… Parece pensar bastante.

Ninnet olhou para trás e deu um pequeno sorriso de canto, se levantou e foi até ela parando a frente.

—Jeanne, ultimamente ando pensativo com algumas coisas, só isso.

—Sei… Eu sei no que anda pensando… Jason Valentinus sua preocupação, não?

Brevemente Jean abaixou seu rosto para novamente a olhar levando as mãos a cintura.

—É… Ele não me passa uma boa energia, tem algo nele que não sei explicar…

Jeanne olhou para seu lado, o Projeto Valkyria, apenas ficou a encarar aquele carro.

—Sabe garoto… O Projeto Valkyria, eu banquei bons custos deste projeto, o carro não foi feito exatamente em homenagem a meu irmão, afinal ele não foi alguém memorável igual outros nomes… Porém eu queria alguém que tivesse a garra que ele teve pilotando isto... Isto sim conseguiria ser uma homenagem a ele…

Ninnet olhou ao carro também, era estranho, o carro parecia ter uma energia só dele de uma maneira que carro algum passava, seus traços não ocasionais e até ousados talvez explicassem algo.

—Posso estar louca Jean… Mas eu estou conseguindo ver isto...

E ela olhou para ele.

—E vejo em você ele Jean.

Jean a olhou por um momento, quieto, pareceu pensar um momento para então voltar a olhar o carro.

—Jeanne… Eu até sei pilotar, mas como você vê algo em mim?

A mulher deu uma breve risada e se virou para ele, o que fez Jean também se virar de frente para ela e a olhar.

—Meu irmão tinha brigas constantes com a família por conta do que escolheu ser, eu mesma tentava o fazer desistir daquilo, afinal, parecia ser uma loucura. Ele seguiu até o fim de sua vida aquilo Jean, ele tinha uma garra que vejo em você mesmo não o conhecendo bem.

—Problemas de família… Entendo bem...

O barulho de motor que conseguiam escutar era o de um V2025 em velocidade controlada passando pelo Pit Lane, ambos olharam para o lado de fora ver quem estava passando e justamente era aquele carro amarelo e verde, Jean pareceu fechar a cara e então se virou a Jeanne.

—Ele saiu da pista Jeanne, eu queria conversar mais porém eu estava esperando por este momento... Se eu saio para treinar com ele na pista eu posso acabar batendo o carro com ele, eu realmente não ando o suportando.

O piloto ia seguindo passando pelo lado da idosa, mas a mesma o fez parar colocando uma das mãos sobre seu ombro.

—Podemos nos encontrar mais tarde?

A olhou de canto um momento para então responder com outra pergunta.

—Bem… Que horas?

—Quando sair do seu treinamento, vamos até algum local saindo daqui sim?

Jean concordou com a cabeça e assim foi seguindo até algum funcionário para então pedir seu equipamento para poder adentrar o carro, Jeanne foi saindo lentamente a seu ritmo em direção ao Pit Lane, a idade não parecia lhe fazer mal pois com 85 anos em comparação a outros ela ainda conseguia andar sem ajuda de bengala e ainda tinha cabeça.
Talvez o ambiente que viveu a fizesse ter uma boa cabeça ainda, mas aquilo parecia que logo iria mudar, encostado em um dos Boxes lá estava ele, Jason Valentinus, com macacão e capacete e sem a proteção de pescoço ele estava a olhando e de braços cruzados, era estranho, até então ninguém tinha visto seu rosto.
Jeanne o olhou e uma pequena raiva interna a fez franzir o cenho, foi andando até ele sem mudar seu ritmo enquanto o mesmo continuava ali até ela parar a sua frente.

Um leve flashback fez Jeanne relembrar em 1970 em Mônaco quando confrontou Cassian ali no Pit Lane mesmo antes de seu acidente, de fato a energia que aquele piloto passava era a mesma, repugnante.

—Conseguiu achar algo que queria em meu quarto pequeno ladrão?

Deu para ouvir a risada breve de Jason, sua voz calma era abafada por aquele capacete, porém dava para o entender perfeitamente.

—Tola… Eu não quis achar algo seu. O que pensa que eu procuro hm? Jóias? Provas de algo? Não tem como se ter provas de algo feito em 1970, não é?

—Jason, ninguém sabotou o carro de seu parente, o carro quebrou por falha mecânica, pare com isto e não me persiga e nem tente mais entrar em meus locais, senão terei de chamar atenção dos organizadores do evento em relação a você.

—Sim… Igual disse... Não estava procurando o que você pensa. Bem, pode chamar, eu quero ver o que acham de quem bancou o projeto e agora está adulterando carros.

—Como?

Jason abaixou a cabeça e negou, rindo novamente.

—Haha Jeanne... Jean Ninnet faz você lembrar seu irmão, não faz? Eu vi que vocês dois andam próximos... Não sei que relação vocês tem, nem se chegam a serem amantes. Com esta idade dele isto é repulsivo.

—Como ousa falar isto!?

Por um momento Jeanne pareceu digerir a frase inteira do outro, e tomou um leve susto, pareceu entender o que estava ocorrendo.

—Espera… Como disse?

—Não sei se também gostariam de ver um piloto ganhando vantagem com algum dos financiadores do projeto. Quero que saiba que eu não quero adulterar o carro de Jean para que ele não corra, eu adoro quando ele perde uma corrida para mim, você viu não viu? Ele ganhou em Mônaco por muito pouco e perdeu em Monza, aqui apenas irei ganhar novamente, igual disse, eu quero ver ele tentar de todas as maneiras tentar ser melhor que eu e falhar, igual seu irmão contra meu avô.

Neste momento o V2025 de Jean estava saindo da garagem lentamente, Jeanne deu uma leve avançada contra Jason mas logo parou e olhou para trás ao escutar o ronco do motor, o carro ao andar poucos metros no Pit Lane fez um barulho de estouro e parou completamente, Jeanne entendeu tudo, Jason estava criando uma situação para que ela se passasse por ruim e estava conseguindo, com toda certeza ele levou qualquer coisa dela para colocar dentro do carro e o fazer parar, Jeanne deu uma leve corridinha até o carro que já estava com funcionários um de cada lado elevando o carro nos macacos para o levar de volta a garagem.
Lá o vidro do V2025 se abria para a frente e cerca de 3 funcionários iam ajudando Ninnet a sair do carro, retiraram sua proteção de pescoço e então ele pareceu se desplugar da cadeira, um funcionário de cada lado segurou no braço dele e o puxou para ele conseguir se levantar e assim ir saindo do carro com cuidado, ao chão já retirando o capacete Jeanne chegou.

—Jean! Eu tenho algo muito sério a falar! Realmente preciso conversar a sós contigo!

Jean não entendeu bem obviamente, apenas entregou seu capacete a um funcionário a seu lado e assim se aproximou da mesma.

—Bem… Podemos ir saindo daqui, o carro talvez não fique pronto tão cedo, estava tudo certo com ele…

—Jean… Se arrume, temos bastante o que falar.

Ele apenas concordou com a cabeça e se virou para sair dali.

Caminhando do lado de Jeanne em meio as instalações do autódromo o papo foi rolando por ali mesmo, Jeanne já tinha explicado o encontro que teve com o piloto e aquilo tinha deixado Jean no mínimo pensativo.

—Eu não sei o que pensar… Ele quer uma vingança e irá armar algo então? Igual armou o meu carro?

A idosa já mais calma o respondia firmemente igual sempre fazia, ela parecia ser boa com situações daquele tipo até.

—Não posso te confirmar algo, mas… Seu carro foi sabotado com algo meu com certeza, quando seus mecânicos terminarem de ver o que ocorreu eu tenho certeza que terá algo meu...

—Irei avisar os mecânicos sobre a situação, mas também vou falar sobre não comentarem algo com a direção ou algo maior, realmente você tem razão, ter pelo menos parte da situação em nossas mãos sem nenhuma diretoria dando pitaco será bom para uma coisa que agora eu ando querendo bastante dona Jeanne…

Neste momento ele parou, ela acabou por fazer o mesmo e olhar para o outro que encarava o chão um momento e logo virou seu olhar para cima.

—Eu vou ser o campeão do Projeto Valkyria e irei passar por cima do Jason, eu não sei quais problemas exatamente você e a família dele tiveram, porém...

Inconscientemente Jean fechou seu punho direito e o elevou a frente de seu peito.

—Não vou deixar que ele tente queimar a sua imagem e nem nada!

Por um momento Jeanne se lembrou de seu irmão…

1958
Inglaterra

No jantar de família todos estavam reunidos e Jean Mason parecia não conseguir conter sua felicidade, o patriarca, um homem alto de bom porte, dono de uma barba grande e um cabelo bem cortado, estava sentado a ponta da mesa, o mesmo então levou seu garfo a taça fazendo pequenos barulhos interrompendo a refeição da família para que todos parassem para o escutar.

—Hoje o jantar é especial… Jean parece que decidiu sua vida e me pediu para que pudesse falar sobre, eu honestamente não sei o que ele irá falar então também será uma surpresa para mim. Jean?

O mesmo então se levantou da cadeira e olhou um momento a todos, uma grande família ali, levou ambas as mãos atrás de si e pareceu pensar por onde começar.

—Ah como eu posso falar isso? Eu já tive muitos estudos e talvez eu tivesse mais, porém eu decidi o que irei fazer da minha vida a partir daqui em diante, o automobilismo parece estar ficando em alta e isso parece ser um bom mercado, eu sempre quis escrever meu nome na história e acho que aí será onde irei conseguir.

O pai parecia interessado, teve de perguntar no momento.

—Pretende comprar uma fábrica ou montar uma sobre filho?

Jean levou ambas as mãos a mesa e olhou o pai com um sorriso em seu rosto.

—Não pai, eu serei um piloto de Fórmula 1.

Aquilo surpreendeu todos, quando que Jean do nada quis aquilo? O pai não pareceu tão feliz também.

—Filho… Isto não irá dar futuro a você.

—Pai, isto foi o que eu sempre procurei na minha vida.

—Você é jovem, irá arranjar outra coisa.

Jean não tirou o sorriso de seu rosto, olhou para a mesa e novamente a seu pai.

—Pai, eu irei me tornar um piloto de Fórmula 1 com ou sem sua ajuda, eu realmente quero isto, você entende?

Com uma de suas mãos alisando sua barba ele pareceu pensar, então simplesmente ajeitou sua cadeira para ficar novamente a frente da refeição.

—Bem, contanto que você realmente não desista, mas não darei apoio nisto, é algo sem futuro.

Jean poderia ter ficado bravo, magoado, mas não.

—Obrigado pai.

O que teve foi gratidão, ao menos o fato de seu pai pelo menos deixar ele ter sua chance na vida para ele era o bastante.


2025

—Jeanne.

Disse Jean a mulher, a mesma pareceu voltar ao mundo real com aquilo.

—Oh… Sim?

—Terei de deixar nosso café para outra hora, verei se os mecânicos arrumaram meu carro e se não darei meu jeito de treinar em algum simulador por aí, quero que esteja preparada para no Domingo ver eu acabando com o Valentinus, sim?

Simplesmente ele se virou e foi a sair andando, Jeanne ali ficou parada o observando ir.

—Como pode?…

Perguntou ela a si mesma baixinho.

—Ele é idêntico a meu irmão...


Sábado.


Dia de classificação, todos os carros já estavam fazendo suas voltas e justo quando o carro de Valentinus saiu, 25 segundos depois o de Ninnet saiu, motivo? Para não se esbarrar com o mesmo na pista, tanto não saindo na mesma hora quanto saindo tarde demais pois o outro poderia estar completando já a volta e ficando atrás dele, sim os Valkyrias eram rápidos demais então questão de 20 segundos o piloto já estava em outro canto do autódromo.
O combinado com sua equipe eram três voltas contando com a saída do Pit Lane, a primeira ele iria reconhecer todo o terreno e ter certeza do que fazer então não iria acelerar tanto, a segunda ele tentaria acelerar mais porém iria ver se não tinha feito uma curva errada e a terceira seria a volta de fato para marcar tempo.
Era bom lembrar que o carro tinha gasolina apenas para as voltas que ele ia dar para ficar mais leve, logo adiantava nada Jean alongar mais voltas na pista pois além de poder quebrar o limite de tempo ele não teria gasolina o suficiente para tal.

Os carros marcavam cerca de 1:14:00 de volta rápida, Jason parecia um robô que não errava nunca, volta após volta ele conseguia eliminar cerca de 1 centésimo o que era muita coisa, por sorte ou azar ele não iria topar com Jean já que a diferença que o mesmo tinha pego para sair dos Boxes não estava aumentando para ele dar uma volta a mais no mesmo, mas sim diminuindo. Durante a primeira volta Ninnet estava tentando fazer um ritmo rápido e estava conseguindo, igual ele mesmo falou ele iria arranjar um simulador por aí e conseguiu um, ocorre que ele acabou treinando até demais.

Em SPA o V12 dos carros gritava a ponto de ensurdecer um, era mágico mesmo em ritmo de classificação os carros estarem sobre aquele ritmo, o carro ainda não estava utilizando toda sua velocidade e sinal disso era que faltava ainda utilizar sua oitava marcha, sim, porém o carro estava chegando a incríveis 615 km/h na reta Kemmel.
O jeito que o carro segurava nas curvas era incrível ainda mais na Eau Rouge, famosa curva aonde muitos por não saberem controlar o carro se foram, para Ninnet ao menos a curva era sem problemas e ele conseguia a fazer com o pé abaixado no pedal.

No fim de sua primeira volta Valentinus já estava nos Boxes pois tinha terminado a classificação para ele, 1:12:615 seu melhor tempo. Ninnet em sua segunda volta conseguiu fazer 1:11:533, ou seja, um segundo mais do que o outro e nem era sua volta final, enfim na terceira volta ele pareceu pegar firme o volante para realmente dar tudo de si.
Os olhos estavam todos virados para Ninnet que estava absurdamente rápido naquela pista, ninguém imaginava tal motivo que o fazia estar daquele jeito, sua raiva pelo jeito o fazia correr melhor do que já corria e sem cometer erros, uma pilotagem suave embora ainda agressiva por freiar bem tarde.
Após fazer as chicanes para a reta da largada ele acelerou para logo passar a linha de chegada e assim freiar logo a frente já virando a direita e saindo a pouca velocidade sem acelerar, tentando entrar em alguma área do autódromo para sair da pista. Seu rádio logo falou com ele.

—Ninnet, 1:10:520 de volta! Você fez um recorde absoluto na pista! A Pole é sua!

Sua reação foi apenas apertar o botão do rádio para o responder.

—Eu sabia que iria conseguir equipe, ótimo trabalho pela estratégia de combustível, conseguem me buscar?

—Claro Ninnet, aguarde em uma área fora da pista.

Dentro do asfalto nas instalações do autódromo fora da pista ele parou o carro e ali ficou por não conseguir sair, tirou seu tempo para refletir um momento naquilo que fez, como conseguiu tirar tanta força para aquilo?
Os funcionários da equipe logo estavam chegando com os instrumentos para elevar o carro nos macacos e assim ir o empurrando para a garagem, um sentimento bom fazia com que Jean por um momento sorrisse ali por baixo de seu capacete, era indescritível, o automobilismo tinha dessas de fazer pessoas maduras parecerem crianças perante situações.
No box o vidro do V2025 foi aberto para a frente e logo duas pessoas foram ajudar o piloto a se retirar do carro, já de pé um dos funcionários foi chegando até Ninnet com um laptop.

—Você realmente foi incrível lá Jean, não sentiu nada mesmo? A força G passou dos 9G.

—9G?

Perguntou Ninnet ainda com seu capacete, a voz saiu abafada por isto.

—Sim, impressionante como o Projeto Valkyria é tão excelente eles realmente conseguiram fazer algo que um piloto corra o bastante para ir contra um avião e consiga sair vivo e sem sequelas. Você sentiu nada mesmo Jean?

O piloto apenas retirou se capacete e com um sorriso de canto se virou para ir andando até a saída da garagem para o Pit Lane.

—Eu senti sim… Mas não foi sobre o que você fala, eu me senti vivo…

E parou um passo após a garagem no PitLane, olhou para cima e respirou profundamente.

Jean então novamente olhou para baixo e se virou aos funcionários.

—Vamos descansar, amanhã quero empenho total pois irei vencer o GP da Bélgica!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.