Projeto Princesa

9 POV Celina Couller


Coloquei a touca rendada envolta da cabeça e ajeitei o coque. Eu parecia tão diferente agora, com a pele limpa e o cabelo ruivo — que antes parecia castanho de tão sujo — bem escovado.

Rodei, segurando a barra do uniforme — um vestido cinza que ia até os meus pés — em frente ao espelho. Isto era tão bom!

Enquanto tiveres no castelo, ouvia ainda a voz dela na minha mente, este será o seu quarto.

Meu quarto. Eu, Celina Couller, tinha um quarto! E que quarto, devo dizer, pois testei cada coisa assim que vi Maélina sair pela porta e me deixar sozinha. A cama, apesar de um pouco pequena para mim, era tão macia, assim como o travesseiro. O guarda-roupa já tinha um uniforme extra, este preto com detalhes brancos, e uma toalha para poder me enxugar do banho. Falando nisso, o banheiro. Bastava eu abrir a porta para encontra-lo, do outro lado do corredor. Bem mais pratico de antes, quando ainda vivia escondida no porão.

"Adeus banhos frios de canequinha!" Falei para mim mesma em sussurros, rindo baixinho.

"Celina? Já tás pronta?" Ouvi novamente Maélina, que com um pequeno toque, abriu a porta por inteiro. "Tenho que te mostrar o restante do castelo. Aliais, cuidado com esta porta," ela fez careta em direção ao pedaço de madeira. "a fechadura está estragada. Deves passar a chave quando quiser privacidade." assenti com a cabeça, e vi o sorriso gentil novamente estampar seu rosto. "Bom, então vamos!"

O castelo era bem grande, de verdade, e eu perdia a atenção facilmente da conversa que a velha criada me dizia. Era tudo tão brilhante e com tantas luzes, eu estava simplesmente exposta para todos me olharem. Era tão estranho e tão libertador ao mesmo tempo!

"Celina!" Maélina tinha parado de andar e eu, que não percebi nada, havia continuado caminhando e já estava alguns passos longe dela. "Bem que Catrina me avisou de que eras desassuntada. Você ouviu o que eu lhe disse?" Respondi apenas que não com a cabeça. Ainda era um tanto difícil me comunicar com outras pessoas, uma coisa que preciso melhorar urgentemente. Parece que todos amam conversar! "Certo. Olhe, é um prazer poder retribuir um favor, logo vindo de Catrina. Mas te manter aqui no castelo será complicado, não irei negar." Me lembrei da noite passada, quando me despedia de Catrina. Ela insistia em deixar um grande sorriso a mostra, mesmo que seus olhos esbanjassem medo. Eu sabia de que, por mais que eu queria parar de me esconder de todos, isto tudo fazia de mim apenas mais um alvo. "Ainda se lembras do que lhe disse para quando perguntarem de você?"

"Sim, senhora." Fiquei séria no mesmo momento, concentrada. "Sou uma Seis, vim da província de Lakedon,-" apertei os olhos, me recordando de toda a história. "sou órfã, e a senhora é a única família mais próxima que me restou após o ataque."

"Muito bem, menina." Maélina suspirou, o rosto pálido em uma mistura de alivio e cansaço. "Bom, é melhor eu te levar de volta para a cozinha antes de eu ir arrumar a princesa para dormir. Você conhecerá todo o castelo conforme suas tarefas. Mas agora, acho que Windy vai querer sua ajuda para fazer os bolos de chocolate." Ela me deu um sorriso largo que logo contribui. Já podia até imaginar o cheirinho maravilhoso das caldas e recheios!

E na verdade, todos aqui pareciam bem legais. Tinha algumas exceções, claro, e isto logo percebi; Miranda, uma criada que, simplesmente, parece ter decidido não gostar de mim, ao julgar pela carranca que faz toda vez que me olha. Além de que, meu deus, não para de falar do príncipe um só minuto! OK, todas aqui falam bastante dele e também dos selecionados que haviam acabado de chegar, mas ela ultrapassava todos os limites. É insuportável ouvi-la, e eu mal havia passado tempo suficiente com ela ainda.

"Ahh, o príncipe fica cada dia mais bonito, não acham?" Suspirou Miranda, me fazendo revirar os olhos por trás dos copos de cristais que enxaguava. "E olha que ele tinha ido agorinha dormir!" Ela amontoou as roupas que trazia na balcão, fazendo Windy a olhar feio.

"Balcão para os bolos, Miranda. Não para roupa suja."

"Tá, tá. Urrg!" ela resmungou. "Só queria bater um papinho, posso?"

"Não, ainda estamos em horário de serviço. Se Sarah te ver, você já era! E bem que eu gostaria." Dei um sorrisinho para Windy, me aguentando para não abraça-la. "Agora vá! Tás atrapalhando a mim e Celina."

"Ah é, Celina. A novata. Como é que chamaram o cargo dela mesmo? Aprendiz de criada? Pra mim, isto é só desculpa para manter a orfãzinha no castelo." Ela tinha um sorriso orgulhoso no rosto, e eu tive vontade de simplesmente estapeia-la até que ele desaparecesse de seus lábios.

"Oh, Miranda! Volte ao trabalho!" Windy agitou o pano de louça para Miranda, como se espantasse um cachorro da porta de casa. Tive vontade de rir, mas por sorte, me segurei. "Desculpe, Celina. Miranda não sabe o que fala. É uma sem coração, isso sim!"

"Tudo bem, Windy." Foi tudo o que disse, embora já sentisse tanto carinho por ela.

"A aprendiz! Onde está a aprendiz!" Sarah entrou porta a fora, os cabelos em pé. "Ah, aí está você!"

Ela apoiou o seu caderninho de desenhos no peito, recuperando o folego. Era engraçado que, por mais que ela quisesse passar a imagem da organizada e mandona, ela ainda era tão jovem e imatura.

"Tenho uma nova tarefa para você. Sala de dança. Preciso que limpe ela toda, ou então estarei acabada! Os outros criados já tem serviços, e a princesa Keira está, literalmente, me ameaçando de morte com a sua fita de ginasta!" Ela gritava enquanto me puxava. Olhei por trás de seu ombro para tentar dizer desculpas para Windy por não poder mais ajuda-la, mas quando olhei para ela a vi gargalhando atrás do balcão. Ri baixinho também, enquanto me deixava ser guiada pela Sarah.

"Ah, e se por acaso encontrar a princesa lá, ou qualquer outro membro real, já sabes o que fazer, não é?"

"Sim, senhorita." Sorri, lembrando das regras favoritas que recebi até agora. "Nunca devo falar com eles a não ser que me direcionam a palavra. E devo sempre recebe-los com apenas sorrisos." Finalmente, ao menos com eles, eu não precisaria falar. Bom, ao menos era uma probabilidade maior de não precisar.

"E chama-los de alteza, sempre." Ela me olhou por cima de sua agenda, me fazendo encolher um pouco. "Mas está perfeito! Você aprende rápido!" Ela voltou a colocar o caderninho em frente do seu rosto. "O que é ótimo! Estou tão alotada de horários e aulas práticas com as selecionadas... Imagine, mamãe me deixou a tarefa pior! Enquanto ela vai apenas dizer para os selecionados sorrirem e fazerem poses de machos, eu tenho que ensinar as selecionadas a se comportarem como gente! Muita sorte a minha, muita sorte!" Ela parou em frente a uma porta, abaixando o tom de sua voz. "Bom, esta é a sala. Quando acabar, já estarás dispensada por hoje. Boa noite, Celina."

Ela me lançou um olhar triste, e eu apenas a sorri antes de vê-la virar as costas e seguir de volta pelo mesmo caminho que passamos.

Quando abri a porta, não segurei um gemido assustado.

Os rebeldes invadiram o castelo e eu não soube?, pensei. Isto está uma bagunça!

Caminhei devagar até o centro da sala, sem desconsiderar ainda a ideia de que alguém atacou o castelo e deixou uma bomba por aqui. Os espelhos, que cobriam todas as paredes da sala, estavam completamente pichados com palavras bem ofensivas, e assim era o chão. Vestidos estavam jogados por toda parte, alguns até rasgados e sujos de tinta. Um armário grande que ficava no canto de uma parede estava aberto, e o material que tinha antes nas prateleiras agora estava no centro da sala, um bambolê jogado bem perto de meu pé. Era como se um furacão tivesse atingido apenas esta parte do castelo com a missão de destruir cada coisa do cômodo.

"Agradecimento da Princesa Keira pelo ótimo serviço." Li a grande frase escrita com batom vermelho no espelho que ficava bem de frente para mim. Sarah então não estava sendo dramática quando nos contou da ameaça que sofria em mãos da pequena princesinha.

Respirei fundo algumas vezes, apenas encarando toda aquela sujeira.

Não tinha muito tempo que eu estava no castelo, uma tarde apenas, mas já havia aprendido mais que um ano inteiro nessas poucas horas. E uma delas era como tirar manchas de molho em tecidos — Windy era mesmo uma salvadora! — usando apenas vinagre. Não achava que conseguiria esta mesma proeza jogando vinagre por todos os espelhos, mas também não sabia qual dos produtos usar dentro daquela cesta. Eram muitos, acreditem, e nada parecia ser a solução. Passeis minutos descobrindo qual tirava a mancha, qual apenas manchava ainda mais, qual deixava mais brilhoso. E foi o mesmo com o chão. Eram tantas coisas, e os dedos das minhas mãos estavam tão doloridos, que no momento que vi aquela sala limpa pela primeira vez, tive até vontade chorar.

Suspirei, cansada, e quando dei um único passo para sair dali, tropecei em um aparelho pequeno que se ligou de imediato. Era bem parecido com aquela televisãozinha de mão de Catrina tinha, mas com mais botões que o necessário e de uma cor rosa vibrante. Uma música alegre saía pela caixa de som, e era tão contagiante que logo me vi chacoalhando os ombros no ritmo, ignorando a dor que sentia ao faze-lo. E eu me animava, cada vez mais, e queria dançar sem nunca mais parar.

Gargalhei de mim mesma, correndo em direção ao armário para pegar um dos vestidos que por sorte se escaparam da ira da princesa. Como queria ter certeza de que não o estragaria também, decidi não o vesti-lo, e sim apenas colocar em frente ao meu corpo.

Dei giros e mais giros, deixando que meus cabelos se soutassem do coque e jogassem minha touca longe. E foi aí que vi, um homem, parado logo na entrada. O susto foi tão grande que acabei deixando que o vestido caísse de minhas mãos e fosse parar debaixo de meus sapatos, fazendo com que eu tropeçasse, os joelhos se chocando contra o piso.

"Me desculpe," ele disse, já me levantando, fazendo com que eu olhasse pra seu rosto. E descobrir que ele era o príncipe não me ajudava em nada, fazendo com que meu desespero apenas aumentasse. "eu não queria assusta-la. Só-" Sua voz parecia detida pela culpa, e eu me perguntava porque de tanta preocupação. "Só me diga que estais bem."

Desconsiderando a parte em que eu estava usando algo que não era meu, provavelmente da sua irmã assassina, e DANÇANDO no meio da madrugada, pensei. Ah, estou ótima! Quando preferes me enxotar do castelo. Agora ou pela manhã?

"Sim." respondi, o ar parecendo fugir de meus pulmões pelo cansaço que a dança havia me causado. "Sim, eu estou bem," e acrescentei bem rápido "alteza."

"Mesmo? Você pode ter machucado o pé, ou talvez o braço. Ou pior!" Os gesto de seus braços aumentaram, as mãos indo parar nos seus cabelos. "Deus, eu devia ter ficado no meu quarto."

Eu não queria que aquela interação fosse a frente. De verdade. Por isto, levantei os braços, esticando o máximo que podia. "Não se preocupe alteza, eu estou bem. Veja, não foi nada. Podes ficar tranquilo."

"Ótimo." Ele finalmente entendeu o que eu vinha dizendo desde o começo, já que vi seus ombros relaxarem. " Qual é seu nome?"

Qual é meu nome? Bom, havia um motivo para os criados não terem buttons nos uniformes, não é? "Celina, senhor."

"É um nome muito bonito, Celina." Ele disse, sorrindo.

"Obrigada," apertei os olhos, recordando das regras. "alteza".

"Você é nova por aqui, não é?" Ele perguntou, percebendo minha confusão. "Pode me chamar de Kaylon, se preferir. Ou do que for mais fácil de lembrar. Não me importarei se me chamar de guri, também."

Na mesma hora, imaginei a cena de como seria eu chamando-o assim, e depois uma outra com a reação de Sarah. Ela ficaria louca, disso tenho certeza, e pensar nela arregalando os olhos por trás do caderninho fez com que eu começasse a rir, e a única solução que arranjei pra tentar parar foi voltar a falar. "Kaylon me parece bom, senhor. Mas Sarah não-"

Ele levantou o braço, me fazendo parar. "Me chame como preferir, esta é a minha ordem." Fiz um pequeno movimento com a cabeça, imaginando de que se eu não fizesse com tanta firmeza, talvez ele nem considerasse mais a ordem. "Agora, se não for um incomodo, poderia me fazer companhia? Estou com um problema enorme para conseguir dormir." Ele pediu, e eu apenas pensei que ele estava brincando. Mas seu rosto continuava sério, que me peguei arregalando os olhos. "Ah, não! Não quis dizer isso! Eu quero conversar, somente conversar!" Ele explicou, se atrapalhando com as palavras, e vi seus olhos se arregalarem tanto quando os meus.

Apenas concordei com a cabeça, incapaz de pensar em qualquer outra coisa. Até que me lembrei dos bolos que Windy tinha preparado para os trabalhadores. Não achava que era uma boa ideia servir bolo para o príncipe, mas mesmo assim nós fomos para cozinha, e no momento que mordi um pedaço, não pensei em mais nada.

"Hmmm, isto está uma delícia!" Ele disse, e era tudo aquilo que eu tentava falar. Definitivamente, nada era melhor que bolo de chocolate. E aquele estava divino! Como Windy conseguiu fazer?

"Eu amo a Windy!" Sussurrei para não acordar os criados, e o príncipe sorriu para mim.

"Eu amo mais!" Ele fez o mesmo, cochichando, fingindo dizer mais alto que eu.

"Sem chances."

"Eu a vi primeiro, não tente rouba-la de mim. Isto é feio."

Ri, erguendo minha xícara de café e deixando que as bordas da porcelana se encostassem na dele. "A Windy."

"A Windy," ele repetiu, e eu sorri ainda mais.