Projeto Paralelo

1 The First Shot - Night


Notas iniciais
One shot difícil de escrever e que não combina nada com meu estilo de escrita atual, rs. Mesmo assim as ideias mais excêntricas fluem quando você ta com sono e essa foi uma delas. Não sei porque, sempre tive interesse no mundo das prostitutas apesar de recriminá-las. Vai entender...

- Não mesmo!

- Eu juro, eu também não acreditei na hora!

Sorri com o caso, mas é claro que ela não acreditaria em mim! Também, quem acharia que é verdade um caso sobre um peixe que sai do aquário todo dia? Bom, é o meu caso. Meu não, do meu peixe. Todo dia ele resolve pular no aquário e acaba caindo pra fora. Mas quem sou eu pra culpá-lo? Ouvi dizer que peixes têm uma memória máxima de 4 segundos e que depois desse tempo, esquecem-se de toda a situação a sua volta.

Fomos andando e conversando besteiras até chegarmos a um ponto particularmente escuro da cidade. Ela disse tchau e beijou minha bochecha, eu fiz o mesmo e dei meia volta, murmurando uma música qualquer. Mas ai percebo que ela esqueceu sua echarpe comigo e tento entregá-la. Antes que um grito de socorro possa encontrar meus ouvidos, me viro para achá-la.

E acho.

E acho também outros homens perto dela.

Arrancando a roupa,

Destruindo sua moral e felicidade,

Violentando ela.

E eu não posso olhar pra essa imagem! Então eu corro o mais forte que meus pés me permitem, sem nem perceber que ela nunca me perdoaria por aquilo. Eu tive a chance de ajudá-la, mas não o fiz. Por egoísmo. Por medo. Mas nada disso importava agora: Eu descubro que por mais fraca que fosse o meu instinto de sobrevivência me faz mais forte nessas horas.

E eu me odeio por isso. Como posso ser uma pessoa tão detestável a ponto de deixar minha amiga em uma hora dessas? Mas meus pés não estão na sinfonia da minha mente e eu continuo correndo. Pra onde? Pra longe. Pra fugir. Pra me sentir segura. Então porque eu fui conduzida inconscientemente pra um ponto de prostituição?

E eu me vejo em uma luta comigo mesma. Avançar e encarar cenas como a de segundos atrás, ou ver cenas piores. Mas por outro lado, voltar e sofrer os olhares de uma amiga que trai. E sofrer a dor caso os agressores ainda tivessem lá. O sangue entre as minhas pernas. Manchando minha história. Queimando em minhas noites. O pecado que não era meu e que nunca deveria ter sido cometido. Não, voltar, definitivamente, não era uma ideia segura.

Então a opção que me restava era me esconder nessas ruas promíscuas e imundas. Mais uma lágrima se cai. Mais uma? Droga, estou chorando. Sabendo que seria pior deixar outros verem meu choro, baixo minha cabeça e deixo meu cabelo ciano esconder meu rosto. Dou meus primeiros passos em direção a rua tão estranha. A música, os vagos e ofensivos gemidos, os insultos. Tudo era muito familiar.

- Ei, Gostosa!

- Não vai parar não? Eu sei de um lugar em que você pode descansar...

E eles riem. Riem de mim, riem da minha situação e acabam me humilhando por completo. Até que escuto o motor de motos muito longe. Não tão longe agora. A buzina está tão alta. O som, a rua tremendo. Tudo se tornando distante. Fecho meus olhos.

- Cuidado!

Algo duro se choca contra meu corpo. É o concreto? Eu fui morta? Eu estou só flutuando? Está macio de alguma forma. É definitivo, estou morta. Ou em coma.

- O que você tem na cabeça, sua maluca?

Eu olho pra cima, esquecendo por um segundo meu rosto molhado. Merda! Abaixo o rosto de novo ao encontrar o olhar daquele homem. Aquele olhar tão odiado, culpado de tantas desgraças que eu passei. E desnecessárias! Ninguém com 12 anos precisava ter passado por aquilo!

- Porra, o que você ta fazendo aqui?

- Não é da sua conta.

Ele fica em silêncio e é quando eu percebo os olhares na nossa direção. Prostitutas curiosas e vendedores intrometidos. Isso nunca vai representar uma coisa boa na minha vida, é incrível.

- Vem, riquinha.

O apelido me provoca arrepios. Mas que ódio! Como, depois de tanto tempo, ele ainda se lembra? 6 anos não era o bastante pra ele se esquecer, assim como todos os outros? Aparentemente não. Ele me puxa pelo braço com força, mas eu me recuso a reclamar. Depois de algum tempo em silêncio, meu orgulho me manda fazer com que ele solte.

- Onde acha que vai me levar?

Ele rola os olhos.

- Qualquer lugar pra você vai ser melhor que o atual, certo?

Mais arrepios. Malditos anos, maldita família, malditas situações. Estou preparada pra dar meia volta e ir ajudar minha amiga, ser estuprada até a morte se for o caso, por que qualquer lugar seria mesmo melhor que o atual.

- Pra onde você acha vai agora, riquinha?

- Pra casa!

- E você sabe que direção fica, por acaso?

Penso por um momento. Claro que sei, é só andar reto e pegar a segunda esquina. A mesma segunda esquina em que ela ta agora. A mesma esquina. A mesma. Mas algo na minha cabeça se move.

- Como você sabe?

Ele sorri com um ar arrogante e dá as costas pra mim. Isso faz meu sangue ferver, não posso negar. Mas não posso perder o controle das minhas ações aqui.

- Tenho meus informantes.

- Informantes?! – Viro até ele pra encarar seus olhos negros – Eles saíram daqui? E VOCÊ SABIA? E NÃO OS TENTOU IMPEDIR?

Ele rolou os olhos mais uma vez e suspirou sem uma mínima paciência.

- Somos todos prostitutas, bêbados e pobretões sem sorte alguma. Com que moral a gente ia parar eles? Pense bem antes de falar, sua imbecil.

- Você devia ter feito alguma coisa! Sabia que eles pegaram minha amiga? E se eles tivessem me pegado também?

Ele sorri sinicamente e fala naquele tom de voz tão odiado.

- Não é problema meu a vítima. A propósito, se você fosse uma boa amiga eles teriam te pegado.

- Óbvio que sim! Por isso eu corri.

Só penso naquelas palavras depois de dizê-las. Eu corri. Eu fugi. De novo. Porque eu estava assustada, como sempre, e não sabia como lidar com a situação. De repente, as lágrimas tão bem guardadas começam a rolar de novo. Ele abaixa seu rosto até ficar da minha altura e para o meu “conforto” responde:

- Isso é tudo sua culpa. Deveria ter vergonha na cara.

E essas palavras fazem efeito. Eu nunca ligaria pra algo que ele dissesse, mas tudo era tão doloroso. E esse “tudo” me assusta.

- Sabe que não é! Você que sabe que é mentira!

- Deveria ter pensado em mentiras antes de foder com a minha vida, certo?

- Eu era uma criança! – começo a soluçar pensando nisso – E você também!

- Mas eu tinha sentimentos. Você não. Você vai sempre ser uma riquinha que se acha superior e é por isso que eu acho tão satisfatório ver seu sofrimento.

Não aguento mais ficar no mesmo lugar que ele. Dou meia volta e começo a andar ignorando os pedidos dele de atenção. Mas não é minha culpa: Eu tinha onze anos. Ela era a amante de um homem rico e casado, e na minha cabeça isso era absolutamente errado, sei que nada justificaria uma morte, mas, se eu fosse minha mãe, o que eu faria? Eu não sei. Porque eu matei o meu pai e aquela mulher nessa mesma rua. E no final, ele ainda gritou o nome dela. A amante. E ele, que me salvou da mesma morte que eu provoquei, era o filho dela. O garoto que sentava comigo nas aulas de espanhol e acompanhava ela no trabalho.

A vida é mesmo muito irônica. E eu fui forçada a assumir uma nova. Fugi de casa e nunca mais voltei aqui, assim eu não teria que enfrentar meus crimes. Mas é claro que uma hora ou outra isso ia acontecer. Eu não podia fingir ser uma garota inocente e doce a minha vida toda. Uma hora eu teria que confrontar a verdade, de um jeito ou de outro. E esse é um problema: Eu não estou pronta para confrontá-la. Não ainda, não quando eu não tenho pra onde voltar (ir pros meus pais adotivos e ter que inventar uma história sobre porque estou chorando? Muito obrigada, mas eu passo, pelo menos por agora). Então eu só tenho a opção de voltar e encará-lo de novo.

- Vai embora!

Ele balança suas mãos violentamente como se tivesse tentando assustar um cachorro. Eu só fecho meus olhos e deixo mais lágrimas escorrendo.

- Não posso.

Ele ri em escárnio.

- Eles só te expulsariam de lá quando descobrissem o que você fez, não é? Pois eu tenho pena de você.

Abro meus olhos e encaro ele, seu sorriso sínico e vitorioso. E eu queria poder me controlar, mas antes que eu tenha uma resposta eu movo minha mão na direção do seu rosto e dou um tapa nele. Ele não reage e só olha cheio de ódio pra mim.

- Você pediu por isso, droga!

Olho pra ele mais uma vez, mas não por muito tempo. Os outros segundos se passam como câmera lenta na minha mente. Em um segundo ele está olhando pra mim como se estivesse pronto pra me matar, no outro ele está me puxando pra um beco e me beijando.

Não se engane, não é um beijo como aqueles dos filmes, em que os amantes se beijam e riem. Ele está forçando minha boca contra a dele, sua língua entrando na minha boca sem a intenção de parar pra perguntar “estou machucando você?”. É só uma forma de humilhação.

Em quanto as lágrimas caem descontroladas pela sensação ruim que cresce em meu estômago, eu resolvo retribuir. Porque não, afinal? Se ele parece tão interessado em me ver assustada, não vou deixar que seu desejo se concretize.

Eu coloco minhas mãos em seu pescoço, como se estivesse realmente gostando daquilo. Mexo minha língua tentando acompanhar o ritmo frenético dele. Ele para quando vê que eu não vou me queixar e me joga com violência contra a parede, olhando pros meus olhos. Mas eu não me deixo assustar, já presenciei olhares piores e mais perversos.

- Qual o seu problema? Aqui não é lugar pra crianças.

- Então suponho que devesse ir embora.

Ele olha pra mim surpreso.

“Desnecessário” penso comigo mesma.

- Você tem tantos anos quanto eu. Não aja como se já fosse ancião.

Eu não sei porque, vai ver eu só tava cansada de fugir, mas eu continuei lá, sem ligar pro fato que tava sendo imprensada por alguém que odiava. E vai ver ele só tava cansado de tentar me provocar, porque ele repetiu o gesto de antes. E eu nem me importei.

Ah, aquela é a parte de como eu falo o quão bem ele beija e acabo percebendo que, magicamente, me apaixonei por ele, certo? Errado. Ainda nos odiamos e os beijos são só uma tentativa de me machucar. Ele só não está sendo bem sucedido e por isso continuamos, até eu dar uma brecha emocional.

Mas eu não vou. Porque não há emoção. Continuamos a nos beijar com um ritmo mais lento do que antes, talvez porque não estávamos mais com tanta raiva. Os braços dele começaram a puxar minha cintura. Minha vontade era de afastá-lo, mas eu não iria deixa-lo ganhar. Passei meus braços em volta dos ombros dele.

Eu senti a pressão. Não, não a pressão vinda das calças dele. A pressão na parede. Ele estava me pressionando mais? Porque? Ele sabia que não tinha como vencer, ele não era burro assim. Se eu não cedi a esse ponto, o que ele iria fazer? Me foder ali mesmo? Isso não condizia com a razão. Empurrei ele.

- Idiota.

Ele sorri, pela primeira vez, não tão sinicamente.

- Volte pra sua mansão, riquinha.

E ele vai embora. E pela primeira vez, naquela noite, eu não me sinto tão livre. Mas essa é a pior sensação, certo? A de que não se tem liberdade. E é dela que tenho fugido a tanto tempo. Então só continuo a tentar esquecer o projeto paralelo que foi essa noite e não condiz com meus planos enquanto coloco minha máscara de novo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!