Projeto JAZ - Livro Zero
2 Capítulo 1: Causas perdidas
Era uma tarde de inverno, apesar de o inverno nunca ter feito diferença alguma no Rio de Janeiro. Com a temperatura na casa dos vinte e cinco graus, a cidade funcionava naquela sexta-feira da mesma forma que funcionara em todas as outras sextas de sua história: a toque de caixa. Tudo deveria estar pronto antes do fim do expediente, para que o final de semana na praia fosse sem remorsos para todos. Em um dos altos prédios do Centro da Cidade, em que funcionava um grande escritório de direito penal, à sombra, recostado na fachada do térreo, um homem se encontra coberto por jornal. A paz de seu sono durou até o momento em que o porteiro voltou de seu horário de almoço.
– Seu vagabundo, levanta daí agora! Vai deitar no meio da Avenida Presidente Vargas para ver se algum carro patrocina seu sono. — Enquanto dizia, chutava o sem-teto levemente, para fazê-lo se mexer. — VAMOS, CIDADÃO! Antes que o meu supervisor apareça. Se eu tomar uma advertência por sua causa, eu juro que vou lá dentro pegar uma vassoura pra enfiar no seu...
– Isso não vai ser necessário, Chico — Um homem de terno se interpunha no caminho entre o porteiro e o sem teto — Deixa que eu resolvo isso.
– Mas Seu Barbosa, o senhor está todo alinhado, todo arrumado, e vai mexer com mendigo? O senhor tem cer...
– Sim, eu tenho certeza, Chico. Pode ficar tranquilo que eu assumo daqui. — O homem carregava nas mãos uma sacola plástica, que parecia ter um embrulho dentro, o que deixava Chico ainda mais preocupado. Ele poderia ser roubado ali, em frente ao prédio, e causar ainda mais problemas ao porteiro. No entanto, ele obedeceu às ordens que lhe foram dadas e entrou para a portaria. — Trouxe seu almoço.
O homem manteve-se em sua posição, apenas estendendo as mãos para receber o embrulho que o outro lhe trouxera.
– Obrigado
– Por nada. — E enquanto via seu interlocutor abrir a sacola plástica e atacar vorazmente a quentinha composta por arroz, feijão, ovo e um bife, continuou — Você tem certeza que não quer ajuda?
– Tenho, doutor. Eu sei ler. Eu sei o que estou fazendo.
– Não é o que parece. Faz quase um mês que eu te encontro por aqui, todos os dias. Às vezes dormindo, às vezes olhando para a mesma carta, tentando entendê-la... Mais do que isso. Parece que você tenta decifrá-la!
– Mas é exatamente isso que eu estou tentando fazer todos esses dias. Decifrar a carta.
– Como alguém que sabe ler, tenta decifrar UMA PÁGINA de carta, e demora UM MÊS para isso? Você, com toda certeza do mundo, precisa de ajuda. É algum processo legal que você tem nas mãos? Uma ordem de despejo? Você sabe que eu sou advogado, que eu posso te ajudar.
– Doutor, sem ofensas, mas eu sei ler e o senhor sem dúvidas não pode me ajudar. Eu conheço o seu escritório lá em cima, no oitavo andar, e as pessoas lá fazem de tudo, menos ajudar as outras — O advogado que estava agachando, nesse momento, pôs-se de pé com um olhar desconfiado — Eu tenho que resolver isso sozinho, não tenho condições para pedir ajuda... Ou foi isso que vocês me disseram da outra vez, há algum tempo. Tudo bem que não foi o senhor, que desde que me encontrou aqui embaixo, sempre me tratou bem... Mas eu prefiro não pedir favores. — Ao terminar a frase, voltou a devorar a comida que sobrava.
– Rapaz, eu não sei o que aconteceu aqui com você, mas você pode confiar em mim. Seja lá quem te atendeu lá em cima, ou qual circunstância tenha sido... Essa aqui é uma outra. Não sei qual é a sua situação, não sei quais os problemas que você está passando, mas sei que tem algo de diferente em você. Sua presença aqui é praticamente notória. Enquanto ninguém dá atenção aos outros moradores de rua, é impossível se desviar de você, por algum motivo.
– Talvez porque seres humanos de dois metros de altura, e barbas cheias, chamem bastante a atenção do povo — Disse em tom debochado enquanto mastigava.
– É mais do que isso. E você sabe que é mais do que isso. Eu também sei. Mas eu ainda não sei o porquê. Tome, caso você mude de ideia — E, com os dedos da mão direita em riste, passou ao mendigo um de seus cartões. — É só me ligar.
– Se você estiver certo, e eu não souber ler, está aí uma despesa de 20 centavos em tinta e papel.
– Eu posso conviver com meus erros, seja um ou outro — Ao terminar a frase, foi andando em direção à porta do prédio — Todo o caso, só pedir ao Chico para me interfonar. Ruy Barbosa. Você sabe a sala — E entrou no prédio.
"Ele tem me dado bastante atenção na última semana, mas é a primeira vez que parou para conversar de verdade comigo. Talvez ele realmente se importe", pensou o mendigo. Não por muito tempo, no entanto. Terminou seu almoço e de pronto se descobriu dos jornais. Em seguida, buscou algo por baixo de seu corpo, e suas mãos retornaram à cima com um envelope. De um lado, apenas um selo, uma moeda alada com um raio no centro; do outro lado, nada. Abriu aquele já massacrado envelope para retirar de dentro uma ainda mais maltratada carta, desdobrá-la e fitá-la. Corria suas linhas pelo que parecia ser, em sua cabeça, a bilionésima vez, e talvez fosse.
“Todos acabam lá, mas o seu é especial. Onde tudo começou para você, jaz o seu final. Leve o tempo que levar para entender, pois se tu tarda, chegará de qualquer forma ao lugar que o aguarda. Pode ser que ouça o último grito, onde ouviu o primeiro, e que o primeiro suspiro se confunda ao derradeiro, no entanto, nunca se esqueça: Só terá o que quer, caso você não pereça. Não acredite nos fatos, eles vão confundi-lo. Só acredite nas folhas, elas que dão o caminho.”
Ele já sabia tudo de cor. Se dignava a ler apenas para buscar, em vão, alguma vírgula que perdesse das últimas quatrocentas vezes que fitara o papel. Estava começando a desistir... Sabia que não podia, mas estava começando a desistir. Havia meses que recebera aquela carta, meses que tudo ocorrera, meses que sua vida já não era a mesma... De alguma forma ele sabia que aquela folha de papel era tudo que resistia do passado como ele conhecera e se acostumara, mas suas esperanças esvaiam-se exponencialmente à cada leitura. Por quê? Por que aquela sensação de que uma folha de papel trazia a resposta para as perguntas mais inexoráveis? Por que a esperança não ia-se de vez, para dar lugar ao conformismo, já que ele sabia que tudo estava perdido? Por que, de todas as pessoas que trafegavam rapidamente na avenida em sua frente, ele fora o escolhido para passar por todo aquele percalço? Àquele momento, talvez ele já cresse que toda essa história de destino, vontade dos deuses, karma, era tudo uma baboseira sem tamanho, e a única força que havia no mundo era o azar. Alguns são assolados por ele, e outros não. Era além de sua capacidade pensar num Deus que traçasse um destino tão cruel a um homem, como era o seu... Chegava a ser covarde! Afinal, naquele momento, ele era um mendigo, maltrapilho, deitado na calçada de pedra portuguesa da avenida Rio Branco, rezando para morrer e nascer de novo... Quem sabe se as coisas acabassem e recomeçassem... Quem sabe ele tivesse uma chan...
– NASCER DE NOVO – Aquele grito soou como uma pancada no ar, dada pela própria epifania que o causou. À quem passasse na rua, talvez fosse estranho um ser de estatura quase vinte centímetros acima da média, em pé de um pulo, olhando uma folha de papel pouco maior que o tamanho ofício, amassada e amarelada como se viesse diretamente do passado. Mas para ele, aquilo era pouco ainda. Se Arquimedes saiu pelas ruas da Grécia, nu, quando teve sua revelação sobre a dinâmica dos fluídos, aquele grito de “Eureka”, que perpassava o concreto cinza do centro do Rio faria jus suficiente à comparação das situações.
Assustado, Chico saiu da portaria para ver o que acontecia na frente do prédio. Teve medo de que o mendigo tivesse assediado alguém, ou mesmo assaltado um transeunte. Para sua surpresa, nada disso ocorrera. Ele saiu do prédio apenas para encontrar um homem completamente diferente daquele cabisbaixo que deixara deitado junto ao advogado. Aquele era um homem com esperanças renovadas, energia vistosa, e que pela primeira vez aparentava ter alguma razão para viver.
– Sr. Francisco – Aquela era provavelmente a primeira vez que alguém chamava o porteiro por seu nome, e ainda usando um pronome de tratamento – Por favor, interfone para o Dr. Ruy Barbosa. Eu preciso falar com ele.
– Sim, claro – Chico sabia que não devia fazer aquilo. Como deixaria um sem-teto entrar no prédio e falar ao telefone com um dos advogados, donos do oitavo andar inteiro daquele edifício? Mas ali, no olhar daquele cidadão, havia um brilho que ia além da compreensão de seu interlocutor, e não caberia a ele, nem a ninguém, impedi-lo de falar com o advogado. Chico, então, entrou no prédio, chamando o outro com um aceno de cabeça. Parou em sua bancada, interfonou para o ramal do escritório e foi prontamente atendido por uma das secretárias.
– Barbosa Lima Advogados, boa tarde, Suzane falando. Em que posso ajudar?
– Su, aqui é o Chico, da portaria. Você pode me passar o Seu Ruy, por favor?
– Claro, Chico. Aconteceu alguma coisa? Você está com uma voz estranha.
– Fica tranquila, meu amor, eu só preciso falar com Seu Ruy. É importante.
– Você não fez nenhuma besteira, né?
– Suzane, pelo amor de Deus, passa pro Seu Ruy que é urgente!
Mediante a bronca, a mulher rapidamente discou o ramal do advogado.
– Fala, Chico. O que houve aí?
– Seu Ruy, o rapaz que tava aqui deitado na porta quer falar com o senhor.
– Por essa eu não esperava. Bota esse teimoso na linha.
Chico passou o telefone para o sem-teto. Ao pegar o telefone, já foi recebido com brincadeiras ao outro lado da linha.
– Se rendeu, rapaz? Vai pedir ajuda pra resolver esse seu enigma?
– Não senhor. Eu finalmente entendi o que está escrito na carta. – Do outro lado da ligação, conseguiu ouvir o homem engolindo um seco, como quem acabou de ser pego num blefe de pôquer, e agora se vê sem reação mediante as circunstâncias.
– Bem, então por que você resolveu me ligar? – Questionou, com um fio de certeza de que pegaria o outro em uma mentira ou algo do gênero. No entanto, não foi isso que aconteceu.
– Na verdade, eu pensei em te agradecer. – Ruy sentiu um calafrio e ficou pálido. Ficou feliz por não se tratar de uma videoconferência, pois toda sua arrogância disfarçada de solicitude, se tornara vergonha em apenas um instante. – Acho que a nossa conversa hoje me ajudou de alguma forma a chegar na conclusão que eu precisava.
– Fico feliz, amigo! – Disse após hesitar alguns segundos.
– Eu só tenho um pedido para te fazer, na verdade.
– Me diga o que é, que se eu puder, te ajudarei com toda certeza. – Sua cor retornou e o ar gélido o abandonou. Sabia que o mendigo precisaria dele para alguma coisa.
– Eu preciso de três reais, e saber qual ônibus eu pego daqui para Santa Teresa. – A simplicidade do pedido fez o advogado rir ao outro lado.
– Vou pedir para a Suzane descer aí levando o dinheiro e essa informação, porque sinceramente, eu não faço a mínima ideia. – E riu-se mais um pouco – Um abraço e boa sorte, seja lá o que você for fazer!
– Muito obrigado! – E desligou o telefone, feliz pela generosidade daquele homem, que em apenas um dia lhe dera atenção e os meios para buscar aquilo que queria. Talvez os seres humanos não fossem movidos apenas pela cobiça. Talvez houvesse algo mais. Mas apenas talvez.
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