Projeto Doppelgänger
4 Relatório de Michaelson Wright: área restrita
Notas iniciais
O helicóptero pousou. Susie, sua amiga Hannah e eu descemos da aeronave. Apesar de ser bem menor do que a sua "vizinha", a Área 51, a base secreta S4 possuía uma segurança bastante intensa. Por todos os lados haviam sensores de movimento e câmeras escondidas. Os soldados que ficavam em frente à entrada que levava ao subterrâneo estavam todos bem armados, cada um empunhando um fuzil M-16.
Estava um calor muito grande, o sol estava de rachar. Quando olhei em direção às montanhas que ficavam próximas à base secreta, vi que nelas haviam dezenas de soldados também armados. A camuflagem era tão incrível que eu não havia percebido a presença deles na primeira vez que olhei.
— Dá pra ver que eles se preocupam muito com a segurança daqui, não é? — eu disse a Susie.
— As teorias da conspiração são inúmeras! Dizem que é na base S4 onde eles realizam engenharia reversa de OVNIs, realizam autópsias de extraterrestres, entre outras coisas.
— Mas isso não era na Área 51?
— Dizem que a Área 51 apenas estuda superficialmente os objetos extraterrestres. Quando precisam de uma análise mais profunda, é para aqui que enviam.
— Você acredita nessas coisas, Susie?
— Até onde sabemos, a Área 51 nada mais é do que uma base militar criada para desenvolver e testar tecnologias novas, como aviões invisíveis ao radar, perfeitos para espionagem. Porém, tanto ela quanto a base S4 escondem muitos segredos. Existem coisas feitas nas duas bases que são secretas até para nós, agentes da CIA!
— E o que você acredita que sejam esses segredos?
— Acredito que não tenham nada a ver com OVNIs, alienígenas ou coisa do tipo. O mais provável é que se tratem de estudos e experimentos polêmicos, como o próprio Projeto Doppelgänger. Talvez eles não queiram revelar isso porque sabem que a desaprovação seria grande.
— Da mesma forma que esconderiam um possível extraterrestre?
— Falar de vida em outros planetas é complicado. Há quem acredite, há quem duvide. São vários os planetas que, teoricamente, poderiam abrigar vida. Em 2009, a NASA lançou em órbita a sonda espacial Kepler, que desde então já descobriu uma variedade de planetas que possuíam condições semelhantes à da Terra. Mesmo assim, é pouco provável que alguma forma de vida já tenha se desenvolvido a ponto de viajar centenas de anos-luz em tão pouco tempo.
Hannah se aproximou de um dos guardas da entrada, mostrou-lhe um crachá e ele permitiu a passagem.
— Esses dois estão com você? — perguntou o soldado.
— Afirmativo. — Hannah respondeu.
Os soldados abriram caminho. Entramos na área S4.
Mesmo nos dando permissão para entrar, os soldados não paravam de nos encarar. Descemos as escadas que levavam a uma sala subterrânea até perdermos eles de vista. A escuridão aos poucos foi cedendo lugar às luzes de diversos computadores e equipamentos, enquanto o barulho de soldados treinando e funcionários seguindo ordens ia aumentando. Era inacreditável que toda aquela base tecnológica estava escondida ali, debaixo daquele enorme deserto.
Hannah nos levou até um local isolado de todos os trabalhadores, que aliás estavam tão concentrados que pareciam nem notar nossa presença ali. No local para onde Hannah nos guiou, estava nos esperando um homem alto, de uma cor parda meio escura, maxilar grande e forte e uma expressão séria. Pela farda, notei logo que se tratava de um militar, e pelo distintivo percebi que era um general.
— Fez um bom trabalho, senhorita Harper. — disse o general, olhando seriamente para Hannah.
— Obrigada, senhor. — ela respondeu.
— Agora está dispensada.
— O quê?
— Eu fui claro, senhorita Harper! Está dispensada. Seu trabalho aqui acabou.
— Tem certeza que não quer minha ajuda? Eu posso ser útil, lembre-se que eu passei as últimas semanas estudando o experimento 10, eu posso...
— Senhorita Harper! — o general gritou tão alto que assustou a mim e a Susie. — Já disse que sua presença aqui é dispensável neste momento. Deixe-me a sós com os agentes Susie e Michaelson. Pode ir.
— Sim, senhor.
Hannah saiu cabisbaixa, nem sequer se despediu de nós dois. Olhei para Susie e ela parecia muito nervosa.
— Eu nunca vi Hannah obedecer calada alguém que trata ela assim. — Susie me disse, cochichando.
— Esse cara é um general, Susie. — respondi também cochichando. — Ela tem que obedecê-lo.
O general fez um sinal com a garganta para que prestássemos atenção nele.
— Devem imaginar porque pedi para que Hannah trouxessem vocês aqui.
— O Projeto Doppelgänger. — Susie respondeu. — Os dois gêmeos que fugiram...
— Mas vocês verdadeiramente o perigo que isso representa?
— As bombas PEM? — eu questionei.
— Exatamente. Meu nome é Frederick Green. Eu sou um dos generais da base S4 e um dos principais idealizadores do Projeto Neogênese.
— Então a culpa é sua? — Susie perguntou.
— Culpa minha do quê? — o general perguntou.
— Susie! — cochichei e tentei impedir Susie de irritar o general.
— O descontrole dos gêmeos. O fato da sociedade estar prestes a enfrentar o perigo sem precedentes, você é o responsável.
— Susie! — tentei calá-la antes que o general se enfurecesse mais.
— Fica na sua, Mike. — ela me disse.
— Eu não tive nada a ver com a mudança de comportamento repentina dos gêmeos Owens. Isso foi uma inesperada falha no projeto.
— O seu projeto.
— O que está querendo insinuar, senhorita Byron?
— Apenas que a sociedade não estaria em perigo se não tivesse passado dos limites.
— Onde foi que passei dos limites?
— Transformar humanos em ciborgues, em armas de guerra, não é passar dos limites, general?
— Era uma questão de segurança.
— E a família deles? Não pensou nisso?
— Os gêmeos Owens não tinham família.
— Não?
— Não. Nem eles, nem os demais soldados que foram submetidos ao Projeto Neogênese. Os gêmeos eram órfãos de pai e mãe, e não tinham esposa ou filhos.
— Mesmo assim...
— Ainda não terminei. Muitos soldados que passaram pelos testes estavam tão solitários e entristecidos, que alguns já tinham ideias suicidas.
— E daí?
— Eu imaginei que, se transformados em armas, seriam mais úteis para a pátria do que se tivessem se matado.
— Tem ideia do que você está falando? Isso é doentio!
— Susie, o nosso país é a maior potência do mundo. Isso traz vantagens e desvantagens. Uma desvantagem é que ganhamos muitos inimigos. Poderosos inimigos. Se algum deles resolver nos atacar, precisamos estar preparados.
— Existem outras formas de proteger a nação.
— Mas a mais eficaz é esta.
Os dois ficaram se encarando em silêncio, até que eu quebrei o silêncio.
— Me desculpem... Mas se já acabaram a discussão, seria bom falarmos sobre o que viemos fazer aqui, não é?
— Tem razão, senhor Wright. — o general me respondeu. — Meu nome é Frederick Green. General do quarto esquadrão da base S4.
Ele estendeu a mão para mim e para Susie. Apesar de desconfiada, ela o cumprimentou.
— Então, como foi que tudo aconteceu? — eu perguntei.
— Difícil explicar. — Frederick me respondeu, começamos a andar pela base enquanto ele explicava. — Achávamos que os gêmeos Owens eram o nosso trabalho de maior sucesso. Mas a coisa começou a ficar séria quando percebemos que eles brigavam muito.
— Sim, Hannah nos falou isso. — Susie comentou. — E em uma dessas brigas, eles poderiam ativar suas bombas PEM.
— Exatamente. — Frederick continuou. — Por isso resolvemos separá-los, deixamos o gêmeo Jimmy Owens, intitulado por nós de "experimento 10" preso aqui na base S4, enquanto o experimento 11, Franklin Owens, foi enviado para a ilha de Diego Garcia.
— Mas como ocorreu essa mudança repentina de personalidade deles?
— Difícil saber. Em um determinado dia, o experimento 10 começou a ficar inquieto. Ele se jogava nas paredes e gritava alto como se alguma coisa estivesse perturbando sua cabeça. Algumas horas depois, ligaram da ilha de Diego Garcia e disseram que o experimento 11 estava apresentando o mesmo comportamento.
— Mas vocês já fazem alguma ideia do que possa ter causado isso? — eu perguntei.
— Provavelmente algum defeito nos aparelhos que implantamos em seus cérebros. O fato é que no dia 5 de julho, recebemos a notícia de que Franklin Owens havia escapado. No dia seguinte, o irmão dele fugiu daqui.
— O curioso é que os dois fugiram em aeronaves. — disse Susie. — Devem estar indo para algum lugar.
— Realmente.
— O quê?
— Veja ali.
Frederick apontou para um mapa dos Estados Unidos em um dos monitores. Dois pontos vermelhos se aproximavam um do outro.
— Esses dois pontos vermelhos são os gêmeos? — perguntei.
— Sim. Estão indo na mesma direção. Alguma hora eles vão se encontrar. E vocês sabem qual será a consequência disso.
— Vocês já sabem aonde eles vão se encontrar?
— Pela velocidade e direção em que se movem, tudo indica que se encontrarão em um condado na Virgínia.
— Virgínia? — Susie questionou. — Só não pode estar de brincadeira! Acabamos de vir de lá.
— Então acho que terão que voltar. Os gêmeos devem se encontrar já nas próximas seis horas.
— Em qual condado eles vão se encontrar? — eu perguntei.
— Arlington.
— Arlington?
— Isso.
— Estamos em sérios apuros.
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