Projeto Cyberpunk

1 Capítulo 1 - Mudanças


A chuva estava exageradamente forte naquele dia. Saí como sempre para o trabalho, as condições climáticas não significam que eu deva ou não ir. Se você quer sobreviver hoje, precisa trabalhar, ou tentar roubar, mas, com certeza a primeira opção é a mais lógica. Com a tecnologia que possuímos, infratores são apagados em minutos pelos soldados da Segurança Nacional.

- Não esqueça sua capa de chuva!

- Ah, mãe. Eu não quero...

- Jagun, não tem de escolher. Veste isso e pronto.

- Mas...

- Sem mas, está careca de saber que essa chuva é poluída e prejudicial. Nós mal temos o que comer, se você adoece eu morro do coração.

- Ta bom, já entendi.

Vesti a capa de chuva como mamãe mandou, eu odeio essa capa porque ela gruda na pele quando fica molhada e é horrível.

- Espere, um beijo antes de ir. Pronto, boa sorte.

- Obrigado, eu volto mais tarde.

Assim que botei os pés na rua, pude senti a agressão da chuva, gotas escuras e fortes atingiam a capa e logo ela estaria grudenta da forma que odeio.

Eu sou Jagun, como vocês sabem. Sou órfão de pai, na verdade o meu pai morreu quando eu ainda estava engatinhando por complicações estomacais, culpa do alimento que nos é servido.

Minha mãe é a pessoa que mais amo. Ela é uma pessoa bem normal do tipo super preocupada, deve estar na casa dos 46 anos e por isso não pode pegar pesado, assim eu sou o encarregado de botar comida na mesa.

Quase esqueci de me descrever, no momento eu tenho 14 anos, olhos castanhos escuros, quase negros. Pardo e baixo para minha idade, mas sou forte e encaro bem uma briga.

No momento estou me dirigindo para o trabalho, eu trabalho em uma mina de ouro para os pobres, como costumam chamar. O nome correto é Depósito de Aparelhos tecnológicos, aqui todo e qualquer equipamento eletrônico que não funciona é jogado neste lugar. Nosso trabalho é ver o que serve e o que não serve para ser reutilizado.

O salário? Algumas míseras moedas e o lucro depende do seu dia, alguns dias eu encontro coisas muito boas e as levo para casa, ou vendo nas portas de Xibalba.

Xibalba é como se chama um complexo gigantesco onde vive a ilegalidade, marginalidade e todo tipo de bizarrice.

Nossas cidades são divididas em distritos, como uma pirâmide. No fundo, o nível mais baixo é Xibalba, que para a alta sociedade é chamado de "Zona Fantasma", pois todos que vivem nela não são reconhecidos como pessoas por nenhuma organização, eles vivem ilegalmente. Seguido disso temos o Distrito 1.0, é onde os mais pobres vivem. Eu, por exemplo, vivo neste distrito.

Os seguintes são Midgard, lá vivem os famosos, cientistas, pesquisadores e pessoas que trabalham para o sistema e a força de Segurança Nacional ou NASEC e por fim a Yggdrasil. Este é o maior prédio de toda a cidade, tão alto que toca os céus como uma torre. Nele ficam os manda-chuvas, a palavra deles é lei e inadmissível ser contestada.

Nossa cidade é lacrado por um muro gigantesco e totalmente equipado com soldados e máquinas potentes ordenadas para matar. Ninguém que tentou ou conseguiu sair, voltou vivo para contar-nos a história. Segundo boatos que já vi de pessoas, antes não era assim. Nós podíamos viajar por toda a esfera terrestre chamada de Planeta Terra, um globo enorme e vasto, quase sem fim. Existiam campos e bosques verdes, seres diferentes de nós que eram chamados de animais silvestres, rios de água limpa onde podia-se tomar banho.

Hoje tudo é censurado pelo sistema. TV? Computador? Celular? Qualquer mídia que chegue a todos nós passa por um processo onde é escolhido o que pode ou não ser mostrado, fora propagandas que escondem a fria realidade de cada dia com falsos sorrisos.

O Depósito de Aparelhos, ou ferro velho como prefiro chamar, não é lá muito longe de casa. Eu levo um tempo caminhando, nada de mais. As pessoas de lá são muito prestativas, sou amigo de todos. À passos pesados devido a chuva que encharcou meus calçados. Depois de vinte minutos de caminhada eu já podia ver a fumaça do Depósito indo de encontro com o céu, era um sinal de que o trabalho já havia começado.

- Jagun! — Me chamou Frederic que trabalhava no mesmo setor que o meu, uma das pessoas com quem eu mais falava lá.

- Fred! Essa chuva está horrível, não acha que devíamos entrar logo?

- Sim, isso mesmo.

Entramos correndo no Depósito, boa parte dos trabalhadores já estavam em serviço, logo nos juntamos à eles.

- Ei, Jagun.

- Oi?

- Você acha que algum dia iremos à Midgard ou quem sabe Yggdrasil?

- Ta pensando alto demais hoje, Fred.

- Desculpa. — Ficou cabisbaixo voltando ao trabalho.

- Mas quem sabe? Por enquanto vamos nos preocupar conosco, certo?

- Pode deixar!

Soltei uma leve risada, Fred era um ano mais velho. Eu o considerava uma ótima pessoa para se conversar, pois ele sempre viajava em coisas assim e isso quebrava a realidade do momento.

- Vocês aí, trabalhem duro, ok? — Gritou o Capitão Jack, gerente do ferro velho em tom de brincadeira.

- Sim, senhor! — Respondemos em quase uníssono.

Esse não é o nome verdadeiro dele, eu não sei qual é, pois nunca tive a preocupação de perguntar. Nós o chamamos assim porque ele usa uma prótese na perna esquerda que lembra à Piratas Espaciais, uma série de TV muito antiga que passava censurada em partes todas as manhãs. Segundo ele, essa prótese foi resultado de um corajoso confronto durante o que ele chama de "Guerra Mundial". Eu não sei bem do que se trata, mas era algo que aconteceu antes do sistema dominar nossa cidade.

- Olha lá hein, Fred? Estou coletando mais rápido que você.

- É o que se esperava do irmãozão!

- Ei, não se renda assim e trate de conseguir mais que eu!

Essa manhã não foi diferente das demais, no geral eu conseguia mais equipamentos reaproveitáveis que Fred, nós brincávamos de competir. Mas, aquele definitivamente não era um dia comum quando eu encontrei o estopim de tudo.

- Ai!

- Que foi, Jagun?

- Acho que espetei meu dedo em algo pontudo, espera vou tentar pegá-lo.

Estava na mistura com toda montanha de lixo mecânico que eu passara o dia separando.

- Parece que peguei, é bem duro. Vou puxá-lo!

Nas minhas mãos eu segurava o que parecia um fragmento de cristal, era vermelho-coral e brilhava.

- Caraca Jagun, isso deve ser raro!

- Imagino...

Eu nunca tinha visto uma pedra como essa antes, era encantadora. Como regra do Depósito, qualquer objeto valioso encontrado era propriedade de quem achou, então agora ela era minha e por hora decidi guardar.

- O que vai fazer com seu novo tesouro?

- Não sei, acho que vou vender em Xibalba. Se conseguir um bom dinheiro, vamos comer juntos naquele restaurante do Senhor Tanaka perto dos portões de Midgard.

- Ih, aquele velho cobra muito caro pela comida...

- Mas é japonesa, você já comeu alguma coisa do Japão, Fred?

- Não, deve ser gostoso.

- Também acho, mas agora vamos trabalhar que ainda falta tempo para acabar.

- Irmãozão é quem manda!

- Bom garoto.

Passamos o resto do dia coletando e no fim até que foi uma boa coleta, consegui moedas suficientes para pegar um trem-bala até Xibalba e ainda sobraria para a janta de hoje, mamãe vai ficar orgulhosa!

O trem não demorou muito, embora estivesse cheio como maioria das vezes, o percurso é tão rápido que parece ter entrado em um buraco de minhoca. Por acaso o trem não completou o percurso e tive de descer alguns metros antes da estação para Xibalba e logo eu descobri o por quê.

Lacraram todos os arredores que conduziam para o portão de Xibalba. Aparentemente isso foi trabalho da NASEC, o motivo? Não faço ideia. Fui até as proximidades, o cheiro dali não era muito agradável e subia vapor constante de buracos, tubos e bueiros.

- Você aí, parado! — A voz vinha de trás.

Virei e avistei o que pareciam serem soldados armados, apontavam suas luzes em meu rosto e um deles aproximou-se.

- O que faz aqui? Quem é você?

- Eu sou Jagun do Distrito 1.0, me perdi de meus pais e os estou procurando.

- Então você não sabe que aqui é proibido?

- Não, senhor.

- Onde está sua identificação?

- Meu número de serialização é: "334175-5822134#11"

- Aguarde um momento.

O soldado imediatamente consultou um micro-computador que portava consigo.

- Jagun;14 anos; ID: 11; Distrito 1.0, está tudo correto. Quanto ao seu problema eu não posso lhe ajudar. Agora peço que distancie-se daqui imediatamente.

Falando isso o soldado prontificou-se em voltar para seu grupo e juntos continuaram o que parecia uma busca por criminosos. Eu era bom em elaborar desculpas nesses momentos, então não tenho esforços quando sou abordado. Eles devem estar ocupados, caçar rebeldes ou fugitivos por essa área é difícil, vendo que mal possui iluminação artificial, muito menos natural, pois como sabemos os raios solares são bloqueados pelas nuvens negras poluídas que obscurecem o céu.

- Ei, garoto. — Alguma coisa falava comigo, não dava para saber de onde vinha nesse escuro.

- Aqui, pode vir.

Fui sendo guiado pela voz até encontrar seu dono, um sujeito com cabelo desgrenhado, calçados sujos e uma jaqueta rasgada.

- Quem é você?

- Nós somos do movimento de resistência.

- Nunca ouvi falar.

- Então pelo visto você não é de Xibalba, meu jovem.

- Sim, eu moro no Distrito 1.0.

- E o que fa--

- Marco, urgente!

Uma garota corria em nossa direção, estava ofegante.

- Que houve, Dariya?

- Eles estão vindo, um grupo de 6 perto daqui!

- Cacete, não vai dar tempo.

- E agora?

- Agora só nos resta o plano B

- E qual é?

- Acabei de criar.

O sujeito virou pra mim novamente.

- Você, garoto. Vai nos ajudar?

- De que jeito?

- Apenas observe.

Ele me segurou brutamente e me imobilizou com facilidade.

- O que vai fazer comigo?!

- Você vai garantir nossa fuga.

- Por quê eu?!

- Escolha do destino.

Eu senti medo de verdade, o cara parecia ter parafusos soltos e era do tipo maluco que topa qualquer coisa. Totalmente imóvel, fui arrastado por ele e batemos de frente com os guardas.

- Fim da linha para vocês, vermes.

Seis soldados armados apontando seus infra-vermelhos em nossas testas e fortes luzes nos cegando.

- Contatando a Central Urbana de Shangri-La, acabamos de encontrar os dois fantasmas fugitivos, pedindo medidas de ação.

- Não podem atirar, vejam! Eu tenho um refém que não é de Xibalba!

- Encontramos com esse garoto hoje e segundo o registro, ele vem do Distrito 1.0, ninguém se importa caso ele desapareça.

- Vocês estão falando sério? Desprezíveis! Urrou a garota que estava com o sujeito de cabelos desgrenhados, até o momento andava calada.

- Rebeldes fugitivos se escondendo em Xibalba, que direito vocês têm de nos chamar de desprezíveis? Ótimo, permissão para abrir fogo acaba de ser concedida pelo CUS.

Minhas pupilas dilataram-se. Abrir fogo? Eu iria morrer ali? Não pode ser. E os meus planos? Para o que, pelo o que eu vivi até agora? Papai, mamãe, onde vocês estão? Eu preciso de ajuda! Fred? Ninguém?! Vi toda minha vida passar dentro dos meus olhos, pela primeira vez senti o que era o medo da morte. A pior coisa do mundo, posso afirmar.

- O que estão esperando? Atirem!!

- Senhor, os sensores indicam uma forte reação Neurológica.

- De quem? Qual o nível?

- Vindas direto do garoto. Ultrapassou os portões de Beta, Alfa, Teta e Delta... Chegou em Gama!!!

- Como?! Isso é absurdamente impossível, atirem agora!!!

- Invadiu Gama com sucesso, está hackeando nosso sistema.

Os soldados entraram em pânico, em alguns minutos pararam de obedecer seus próprios comandos e atiraram contra si mesmos, uma cena bizarra.

- O que aconteceu?!

- Eu não sei!

Os dois fugitivos abismados ficaram parados olhando aqueles corpos no chão derramando uma considerável quantidade de sangue.

- O que faremos, Marco?

- Não é óbvio, vamos entrar em Xibalba o quanto antes!

- Mas e o garoto?

- Ele está abalado, não age de forma alguma. Vamos levar ele conosco!

Aqueles dois caíram fora dali, não tinha como entrar em Xibalba via portões principais, pois foram lacrados pela NASEC. Mas, eles conheciam uma rota aleatória. Uma porta de um casebre dava para um porão que conduzia para o esgoto dali, então era só seguir reto até chegar nos esgotos de Xibalba e descer até a cidade em questão.