Projeto Cyberpunk
2 Capítulo 2 - Novo lar
– Parece que ele está acordando, venham ver!
Abri meus olhos vagarosamente enquanto recobria a consciência.
– Você está bem?
Nada parecia nítido, mas ouvia vozes bem fundo. Aos poucos foi melhorando e então levantei daquele chão duro, sentia dores de cabeça e no corpo.
– Ond... Onde estou?
– Te trouxemos conosco para Xibalba, você dormiu por praticamente 3 dias!
– Três... Dias?!
É muito tempo, eu preciso me recompor, minha mãe deve estar preocupadíssima comigo, preciso voltar!
– Me levem de volta, eu tenho de voltar, entenderam?
– Você ao menos lembra da noite em que nos encontramos?
– Pouco... Por quê?
– Aqueles soldados à nossa procura morreram, de uma forma muito estranha. Eles falavam sobre portas Teta e Gama, algo assim.
– O que tenho eu com isso?
– Nós demos uma volta pelos portões de Xibalba e ouvimos boatos sobre as buscas terem se intensificado...
– Ainda não entendi qual minha relação...
– Como não? Você foi visto por eles, visto conosco e eles morreram. Isso é motivo mais do que suficiente para estarem nos procurando, sem levar em conta a forma estranha como tudo aconteceu!
– Mas, eu tenho família lá fora, pessoas que precisam de mim e me esperam à cada dia que saio de casa... Eu não posso sumir de uma hora para outra!
– Os soldados devem ter ido à sua casa de certeza, acho que não deva voltar...
Meus olhos marejaram, logo senti lágrimas descendo e logo elas se intensificaram.
– Não chora, tadinho... Satisfeito, Marco?!
Uma garota veio de encontro comigo, segurou forte meu corpo e apertou contra o seu. Pelo momento eu não percebi, mas ela exalava um perfume delicioso e agradável.
– Vai ficar tudo bem... Ta? O Marco é assim mesmo, não liga.
– Parece que ele gostou de você, fiquem os dois aí.
O sujeito que se chamava Marco saiu do quarto, agora éramos só eu e ela.
– O Marco não é uma má pessoa, ele só não é bom com palavras... Qual sua idade?
– Eu tenho quatorze...
– Tão novo... Nós um dia vamos acabar com o sistema, você verá!
– Sistema...?
– Sim, os tiranos que controlam toda Shangri-La.
– Quem são vocês?
– Somos do movimento de resistência, ou Fantasmas como as pessoas de Midgard nos chamam.
– O que vocês fazem?
– Nós lutamos contra aqueles que destruíram nosso continente, os malditos que sentam e assistem à tudo na proteção da Yggdrasil.
– É por isso que os soldados estavam atrás de vocês?
– Sim, exatamente.
– Ei vocês dois, a comida ta pronta, venham.
– Vamos? Você precisa comer algo. — Ela tinha uma voz doce que entorpecia como uma droga.
Agora olhando em volta, percebi que estávamos em uma espécie de galpão. Mas era diferente, talvez eles tenham customizado toda a estrutura para adequar às necessidades. Andamos um pouco até um compartimento mais espaçoso, dava pra sentir o cheiro de comida, e era bom.
– Sentem-se, já vou servir.
Uma mesa improvisada, algo como um caixote sustentado por tijolos e cadeiras armáveis como de botecos.
– Garoto, qual seu nome? — Quem perguntou foi o suposto cozinheiro que vinha com a panela em mãos, era forte e alto com uma palavra tatuada no braço direito.
– Está me ouvindo?
– Ah, desculpe... Sim, meu nome é Jagun.
– Gostei do seu nome, o meu é Krieg. Agora sirvam-se, hoje é ensopado.
No total tinham cinco pessoas ali contando comigo. Marco devia ser o líder, Krieg aparentemente o cozinheiro, um magro de cabelos louros e óculos com ar de inteligente, A garota que estava junta de Marco na noite onde tudo aconteceu, depois lembrei que ele a chamou de Dariya, deve ser o nome dela. Por fim eu, ainda me habituando à ideia de ser um deles.
– Esse ensopado ta uma delicia ó...
– Você é suspeito, Marco. Nunca te vi falar mal da minha comida!
– Tenho que concordar, está realmente divino. — Disse o louro de óculos.
– Só saberemos a verdade através de Jagun, e então, o que achou do meu ensopado?
– Bem... Muito diferente do que costumo comer no Distrito 1.0
– Ele aprovou, então oficialmente tu é o mestre da cozinha. — Marco disse soltando uma gargalhada logo em seguida.
Todos caíram em risadas, a atmosfera era divertida e relaxante, me lembrou fortemente os momentos com Fred...
– Acho que já podemos nos apresentar para Jagun, concordam? — Propôs Dariya.
– Krieg, agora oficialmente o cozinheiro. Também entendo de engenharia e sou bom em Karatê.
– Praticamente, Krieg é nosso lutador ágil. Eu sou Marco, só o líder mesmo, vejamos... Sei lutar bem, mas nenhuma arte em especial.
– Promovido o cabeça do grupo, eu me chamo Apolo. Geralmente sou eu quem elaboro as estratégias durante nossas missões e tenho conhecimento em tecnologia ACCEL.
– Tecnologia ACCEL seria a usada atualmente por toda Midgard incluindo a NASEC?
– Exato, Jagun.
– Então agora é minha vez, eu sou Dariya. Não sei o significado do meu nome, mas sempre me senti encantada por ele. Eu sou boa em passar despercebida pelas pessoas como uma gatuna, então eu uso isso como uma vantagem nas nossas operações. Também sei manipular bem armas de fogo e armas brancas.
– Krieg, Apolo, Marco e Dariya. São nomes fáceis de decorar. Sobre mim... Bem, eu vivo no Distrito 1.0 desde que nasci, meu pai morreu quando eu ainda era pequeno, logo eramos apenas eu e minha mãe. Para nos manter eu trabalhava meio período em um ferro-velho próximo de casa, já que mamãe não tinha disponibilidade para fazer esforços.
– O que você estava fazendo nos portões de Xibalba? — Indagou Dariya.
– Eu costumo... Err, costumava vender algumas peças aproveitáveis que encontrava durante a coleta no trabalho, então vinha até aqui para negociar.
– Você não estava carregando nada quando nos encontramos, ou deixou cair no meio da confusão? — Perguntou Marco.
Verdade, eu nem lembrava mais do cristal... Tateei meus trapos na procura dele e logo o achei, sorte não ter perdido naquela noite.
– Sim, aqui está.
Mostrei-os o fragmento, todos ficaram olhando encantados para aquela pequena pedra vermelha e brilhante.
– Espere, isso é um fragmento de cristal Sahqo!! — Exclamou Apolo.
– Aquele que eu e Dariya tentamos roubar ontem?!
– Sim, não há dúvida de que é legítimo, apesar de ser apenas um fragmento.
– E quanto ele pode nos ajudar?
– Muito! Só um fragmento desses já é suficiente para destruir um pelotão inteiro.
– Jagun, onde você conseguiu isso?
– Estava misturado com a montanha de lixo enquanto eu coletava.
Parece que a pedra em questão era algo muito valioso, e todos não acreditavam no que seus olhos viam.
– Você nos daria essa pedra, Jagun? — Perguntou Dariya esperançosa.
– Eu não sei... Vocês falaram em destruir pelotões e tentaram roubá-la naquela noite, não foi? Por quê eu ajudaria nisso?
– Porque nós somos a esperança daqueles que estão sofrendo lá fora, você também! Precisamos acabar com a tirania, quanto tempo vamos observar o povo de Yggdrasil fazer o que bem quer, censurar nossas TV's e ocultar a verdade? — Apolo parecia um pouco nervoso.
– Calma, Apolo. Tudo foi muito repentino para ele... Tive uma ideia, você vai estudar a pedra no laboratório enquanto eu mostro a cidade para Jagun, deixa tudo com o Marco aqui! E você, Jagun, apenas tenha paciência. Vamos mostrar que não somos nós os vilões de tudo, ok?
Aquilo era confuso, eu não sabia se podia confiar neles. Apesar de que prostraram-se pessoas amigáveis incapazes de fazer mal a uma mosca.
– T-Tudo bem... — falei abaixando a cabeça, estava um pouco envergonhado.
– Oh, que meigo! Não fique assim, Jagun. Estarei esperando você voltar aqui.
Dariya me beijou no rosto, mais precisamente na bochecha esquerda. A sensação foi muito boa e o perfume dela ficou impregnado em meu rosto, corei na hora.
As ruas de Xibalba eram uma noite eterna, sequer um brilho de luz que não fosse artificial não existia ali. Becos estreitos, vapor por todos os lados e um cheiro não muito agradável, Marco e eu caminhávamos pisando em poças de água e nos guiando pela pouca iluminação.
– O que você sabe sobre Shangri-La?
– Não muito, apenas que tudo é controlado pela Yggdrasil.
– Acreditaria se eu te dissesse que o lugar onde vivemos já foi diferente, digo... Sem os grandes muros, vasta luz ao invés dessa escuridão e enormes rios de água onde podia-se tomar banho?
– Você acha que eu sou o quê? Isso é no mínimo absurdo.
– Eu sei que você não acreditaria, por isso estamos indo até o Alex.
– Quem é esse?
– Um conhecido nosso, ele é colecionador de preciosidades que se NASEC botasse as mãos sobre, destruiriam sem pensar duas vezes. São provas do que acabei de lhe dizer entre outras coisas que mostram a verdadeira natureza da Yggdrasil.
Aquilo era estranho, as coisas que Marco diziam só faziam sentido em novelas e histórias de fantasia, não tem lógica... É muito surreal para se acreditar.
– É aqui, espere. Vou ver se ele está em casa.
Marco me deixou no meio da rua e foi até uma porta discreta de ferro com uma luz na parede que dava uma boa iluminação da calçada. No topo da porta tinha um buraco do tamanho de uma tampa de refrigerante, aposto uma meia furada que era um olho-mágico improvisado.
– Alex, você está aí? Alex! É o Marco. Abre essa porta, rapaz!
Mais e mais Marco batia na porta, e o som de colisão do punho dele com o ferro era alto o suficiente para acordar uma vizinhança inteira, mas o tal sujeito Alex não atendia. Nenhum sinal. Como eu vi que aquilo ia demorar, resolvi pegar uma caixa de madeira amontoada em outras da mesma perto dali. Trouxe-a até a calçada e sentei-me nela.
– Caramba, Alex. Abre essa joça! Não está me ouvindo bater não?!
Marco desistiu de bater, sua mão já estava cansada, então mudou a tática e começou a chutar a porta.
– CALMA! Já estou indo... — uma voz gritou de dentro, o som estava bem fundo e por pouco não ouvimos.
Esperamos por três minutos e alguém veio à porta.
– Marco, é você?
– Claro que sou eu, quer abrir essa droga logo?
– Ta bom, ta bom. Já estou abrindo.
Uns barulhos estranhos podia-se ouvir enquanto ele abria a porta, parecia estar destrancando cadeados, seria uma proteção reforçada?
– Você é surdo ou o quê? Eu quase morri te chamando!
– Malz man, é que eu peguei no sono pesado hoje, sacomé... Opa, quem é esse guri aê? Pô, não traz problema pra mim não brother...
– Deixa dessa frescura que não é nada do que está passando na sua cabeça. Ele é um novo membro do movimento, eu trouxe para você mostrar pra ele aquelas gravações que revelam os podres da Yggdrasil, ele ainda não acredita na verdade.
– Ah, tranqüilo então cara, podem entrar e não liguem pra bagunça.
Bagunça?! Aquilo era um caos, e mal dava para andar direito. A casa estava cheia de coisas jogadas no chão, desde roupas à objetos pessoais, revistas, DVDs entre outras coisas.
– Qual seu nome, guri?
– Jagun.
– Putz, que nome estranho!
Você age como um retardado, pensei em dizer. Mas preferi manter-me calado.
– Aqui estão todas as fitas que eu guardo e que tem filmagens chocantes.
Alex veio trazendo um caixote aparentemente pesado e cheio.
– Vocês podem levar o tempo que quiserem assistindo, enquanto isso eu vou preparar algo para comermos porque eu estou com uma baita fome!
Marco foi vasculhando fita por fita, verificava o nome e então botava de volta na caixa.
– O que você está procurando?
– As fitas que comprovam o que eu te disse mais cedo.
Como a iluminação não era muito boa, não foi rápido para achá-las. Após uns cinco minutos procurando, Marco finalmente as encontrou.
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