Projeto Cronos
7 07 - Julian
—Quem é você? O que você fez com o segurança? — perguntei.
—Eu sou o Enzo, mas se eu fosse você eu correria agora.
E saiu correndo. Não tivemos muito tempo pra pensar, apenas o seguimos pelas ruas até que ele entrou em um beco e nós atrás dele. Paramos cansados nos escorando no primeiro lugar que vimos e tentamos regular nossa respiração.
—Como – pausa – fez aquilo? – Mari disse com a voz falha de cansaço.
—Do mesmo jeito que eu aposto que você também faz alguma coisa. – ele respondeu nos olhando sério.
Não consegui identificar nenhum tipo de sentimento ou qualquer outra coisa que chegasse perto disso em sua voz que é rouca e profunda. Seus olhos são de um verde muito próximo do tom do seu cabelo que me fez duvidar ser sua cor natural e ele nos analisava de forma estranha que me deu calafrios.
Eu não podia simplesmente dizer: “Ah, você descobriu meu poder, vamos ser amigos. Aliás, eu te vi em uma visão do meu passado”. Eu acabei de conhecê-lo – ou reconhecê-lo — e não sei se podemos confiar nele. E acho que Mari e Juan pensam o mesmo, pois Mari o respondeu antes que eu pudesse dizer algo.
—E como pode ter certeza que podemos fazer algo assim como você?
Tinha cautela na sua voz. Tomando cuidado pra não revelar nada que nos comprometesse.
—Ah é? – ele disse estreitando os olhos pra nós – Então –fez uma pausa dramática – Por que aqueles homens estavam te perseguindo?
Começou a se aproximar lentamente. Ele olhou de uma forma estranha pra Mari e ela correspondeu seu olhar como se estivesse hipnotizada.
—Por que eles nos viram na praça enquanto executávamos nossos poderes.
O garoto ajeitou sua postura e sorriu pra nós.
—Eu sabia.
Mari piscou varias vezes acordando do transe assustada.
—Como fez isso? – Exigi. Indo em direção à Mari. Tomando cuidado pra não tocar na sua pele seguro seu ombro. — Você está bem? – pergunto preocupado.
—Sim – ela responde confusa – eu... Minha cabeça ta doendo.
—Como fez isso? – Juan perguntou. Estive tão ocupado vendo se Mari estava bem que não percebi quando ele se aproximou de nós.
—Aqueles caras estão me perseguindo desde ontem. Me escondi em cima de um prédio próximo à praça e vi quando vocês passaram correndo e eles logo atrás. – Falou como se fosse algo que acontece com todo mundo.
Ele também estava fugindo e tem poderes. Eu o vi em uma visão do meu passado, talvez tenhamos sido amigos ou ele apenas estava realmente cansado de me ver lamentar. Mas de repente fiquei interessado em saber sua parte da história.
—Como foi parar em cima do prédio? – Juan perguntou, mas ninguém deu atenção à sua pergunta.
—Ontem? – pergunto – De onde você veio?
—Olha só amigão – ele disse. Sua voz carregada de sarcasmo – Eu salvei sua vida então, primeiro: — começou a contar nos dedos – Não há de quê; Segundo: Você deveria responder minhas perguntas, aposto que tenho mais direitos à isso que você. E terceiro — completou apontando para Juan – existe uma coisa chamada escada de incêndio ok?!
Juan deu de ombros e foi em direção á entrada do beco.
—Acho melhor nós resolvermos isso em outro lugar – Juan disse voltando agora a passos largos e ar preocupado – Temos companhia.
Enzo correu para um canto do beco e se abaixou atrás de uma lata de lixo. Juan puxou a mim e Mari para a parede aposta de Enzo e ficamos atrás de outra lata de lixo, só que maior no exato momento em que alguns homens passaram. Todos usando a mesma roupa que os outros dois que nos atacaram minutos antes, terno e gravata pretos, que se encaixava tão bem neles que parecia ter sido feito sob medida.
Esperamos até que tivemos certeza de que já tinham ido embora e saímos lentamente de trás das latas de lixo.
—Então – Juan disse – Ahn... Posso ir pra casa?
***
Fomos todos para a casa de Juan. Quero dizer, eu e Mari fomos com Juan para a casa dele enquanto Enzo apenas no seguiu, por que antes de sair do beco Juan disse: “Mari, que tal voltarmos pra minha casa?” e ela respondeu: “Claro, vamos Julian?” e eu respondi: “Sim vamos”. Mas ninguém chamou Enzo. Começamos a caminhar tomando cuidado para não chamar atenção, o que não é fácil quando se tem um garoto de cabelos verdes te seguindo.
—Mari – sussurro no seu ouvido – acho que devemos dar uma chance ao Enzo.
—Por que? – respondeu no mesmo tom – ele não tem cara de quem está disposto a ajudar.
—Eu o vi na minha visão. Quando nos tocamos na praça.
Ela parou fazendo que todos nós, inclusive Enzo parássemos também e me encarou surpresa. Ela abriu a boca pra falar algo, mas nada saiu. Desistindo de dizer algo ela se virou pra trás e encarou Enzo por um instante e depois olhou novamente pra mim.
—Ele? – ela me olhou incrédula apontando pra ele.
Apenas assenti balançando a cabeça.
—Isso quer dizer que... – ela começou a dizer, mas eu tive que a interromper.
—Quer dizer que ele tem que ir conosco pra casa do Juan.
Ela suspirou exasperada e assentiu.
—Tudo bem, ele pode ir conosco.
—Ahn... Eu iria de qualquer jeito. – Enzo disse dando de ombros.
Continuamos a caminhar em direção á casa de Juan que estava longe se levarmos em conta o tempo que levamos correndo pela cidade fugindo daqueles homens. Seguimos Juan até pararmos em frente de uma casa grande de paredes brancas e persianas da mesma cor.
Entramos na casa e Juan foi muito gentil dizendo que poderíamos ficar a vontade e oferecendo água. Só naquele momento é que fui me dar conta de quão desidratado eu estava.
Nos sentamos na sala de estar. Mari em um sofá grande ao lado de Enzo, mas mantendo certa distância. Me sentei em uma poltrona de frente pro sofá e Juan ficou em pé encostado na soleira da porta que dava para a cozinha.
—Tudo bem – disse Mari passando as mãos no rosto em sinal de ansiedade – comece a falar – olhou para Enzo – de onde veio e por que veio atrás de nós?
—Eu não sei de onde vim ok? – falou depois de hesitar um pouco – Ontem eu acordei em um beco do outro lado da cidade. E tudo o que tinha comigo era...
—Uma carta? – interrompi. Ele assentiu.
—E uma bolsa com um documento e essas roupas.
—Essa bandana também? – Juan perguntou com escárnio.
—A bandana já estava na minha cabeça – Enzo respondeu rude e levemente ofendido e começou a rodar um anel prata em seu dedo.
—E como nos achou? – Perguntei ignorando a piada de Juan.
—Ontem eu não tive muito tempo de conhecer a cidade. Passei apenas duas horas tentando entender onde eu estava até que um desses caras me abordou na rua. Ele disse algo sobre “voltar pra cela” e “congelar por mais trinta anos”. Eu não sabia o que era, mas algo em mim dizia pra correr... E eu corri – completou como se descrevesse algo que acontece com todo mundo se recostando no sofá.
O encarei perplexo e percebi que os outros faziam o mesmo. Ele falava com uma naturalidade tão grande que acho que na cabeça dele ele estava apenas dizendo: “Ontem eu tomei sorvete de chocolate, mas hoje escolhi o de morango.” E não que havia acordado num beco com amnésia e que foi perseguido por homens de terno e gravata.
—E o quê mais sabe sobre você? – perguntei.
—Ow, — ele respondeu levantando um dedo e se sentando reto – esse não era o combinado. Eu também tenho que saber por que aqueles homens pararam de me perseguir pra perseguir vocês.
Mari e eu nos encaramos em um acordo silencioso. Ela me olhava apreensiva como que pedindo permissão pra contar. Assenti levemente.
—Eu acordei ontem num beco também – Mari começou – bem próximo daqui. Juan me achou e me ajudou.
—Pelo jeito todos nós acordamos num beco – eu disse – eu acordei num beco mais próximo do litoral. Uma senhora me ajudou.
—Eu acordei ontem na minha cama – Juan disse com sarcasmo e nós o olhamos– acho que tem alguém sobrando aqui, vou fazer café.
E saiu da sala sem dizer mais nada. Eu e Mari nos encaramos e ela deu de ombros.
—Qual o seu poder? – perguntou Enzo.
—Eu vejo o passado, e Julian vê o futuro. E você?
—Eu controlo as pessoas – disse com naturalidade e um sorriso de lado – ou melhor... Os sentimentos delas.
—Como? – Mari perguntou.
—Assim...
Ele encarou Mari por uns instantes, e ela retribui o olhar.
—Você quer me beijar – ele disse com um sorriso malicioso.
Mari então começou a se aproximar de Enzo. Quando eu percebi que ela ia mesmo beijá-lo, num impulso só eu me levantei da poltrona e puxei Mari pela cintura tendo cuidado pra não tocar em sua pele exposta. Ela ficou de pé e eu me pus entre ela e Enzo que continuava sentado com um sorriso vitorioso.
—Você não vai beijá-la – falei sem pensar e percebi quão estranho isso soou saindo da minha boca.
—Ah, vamos lá – Enzo se levantou – É só um beijo, ou você quer me beijar também? – disse com humor, apesar de que eu não achei graça nenhuma.
Eu não quero beijar Mari, só quero que ele não a beije. Será que é tão complicado assim?
—Não ouse usar seu poder em mim.
—Eu poderia – deu de ombros deslizando as mãos para os bolsos da bermuda – mas se eu usar em você, ela não vai querer me beijar e infelizmente, meu poder se limita a uma pessoa por vez.
Levantou as mãos na altura dos ombros fingindo indignação.
Mari tocou meu ombro por cima da blusa.
—Julian, ta tudo bem, deixa.
Meus ombros estavam tensionados e o toque dela me acalmou. Era como se ela já tivesse feito isso antes.
Nessa hora Juan apareceu na porta da cozinha com uma xícara nas mãos.
—Hmm... Cheguei numa hora ruim?
—Não – interrompeu Mari saindo de trás de mim – chegou na hora certa.
Ela se sentou no sofá novamente e eu e Enzo também. Juan se aproximou e se sentou no braço do sofá ao lado de Mari.
—Então, sobre o quê estavam falando? – perguntou.
—O Enzo pode controlar as emoções das pessoas – Mari disse – você também tem uma carta não é? Perguntou á Enzo.
—Sim, assinada por L. você sabem quem é? Ele me disse pra achar um amigo que...
—Descarte essa ideia – Juan interrompeu – acabamos de vir de lá, Alfred, o amigo de L é um verdadeiro carrasco. Mal nos deixou entrar na casa dele. E L, também é um verdadeiro desconhecido pra nós.
Enzo franziu o cenho pensativo. Mais uma vez notei ele mexendo no anel que ele usava no dedo do meio da mão direita.
—Droga, estava contando com isso. E os poderes de vocês? Como ele é útil?
—Eu posso descobrir seu passado – Mari respondeu fazendo uma careta de “como não percebeu isso antes?”.
—E eu o futuro, apenas tocando na sua pele.
—Pode prever como vou morrer? – perguntou.
—Eu não sou vidente. – respondo.
Enzo levantou os braços em sinal de rendição enquanto levantava uma das sobrancelhas sem dizer nada.
—Claro – Mari estalou os dedos e me olhou nos olhos, seus olhos brilhavam agora – nossas visões, Julian! Esquecemos totalmente delas.
—É mesmo – digo – o que você viu Mari?
Seus olhos perderam um pouco do brilho e ela hesitou um pouco antes de responder.
—Bem... Eu me vi numa praia conversando com Alfred, mas não me lembro mais do que falávamos e depois eu vi novamente sua morte e dessa vez eu vi um diálogo, você e uma mulher ruiva e você estava sangrando muito e então ela atirava em você.
Engoli em seco. Mari parecia escolher com muito cuidado suas palavras e senti que aquela não era a história completa. Não esperava que ela visse logo minha morte. Mas pelo menos, ela se viu conversando com Alfred, talvez isso signifique que num futuro próximo ele nos ajude e acho que Juan leu meus pensamentos.
—Pelo menos você estava conversando com Alfred, talvez isso seja algo bom, talvez ele nos ajude.
—É, pode ser. – respondeu vagamente. – E você Julian? O que viu?
—Bem como que já disse, eu vi Enzo. Eu estava numa cela fria e escura, eu estava num canto e eu dizia coisas como “Ela não poderia ter feito isso” e “Ela disse que estava me protegendo” e então eu ouvi ele me chamar, eu fui até onde ele estava. Ele tocou na minha testa e então eu fiquei feliz.
—Isso quer dizer que eu posso controlar os sentimentos das pessoas tocando nelas? Interessante – sorriu fraco – não me lembro disso.
—Eu também vi quando me deixaram naquele beco. Era uma van preta e pude ver que dentro haviam também um menino e uma menina, e eles eram muito parecidos, provavelmente irmãos, talvez gêmeos, o homem me colocou no chão e disse para sobrevivermos e procurar os outros e nos reunirmos, que assim seriamos mais fortes e então antes de ir ele disse começou a falar de um tal de “Lago Black” mas foi interrompido e eu voltei. Eu ainda não sei o que ele quis dizer, mas...
—Eu sei – Enzo respondeu.
—O que?
—Eu sei – disse novamente.
Ele começou a mexer freneticamente nos bolsos da sua bermuda até tirar de dentro de uma delas um papel branco amassado. Ele abriu o papel e começou a ler rapidamente em silencio.
—Aqui – exclamou – “Prometi a mim mesmo que manteria vocês em segurança, — começou a ler em voz alta – por isso enviei um amigo pra ajudá-los e acredito que ele não seja tão agradável assim. Você poderá encontrá-lo em sua casa em frente à Praça do Memorial Richard Flind. Ele dará uma identidade nova a vocês. Deixei também algo que talvez possa ajudá-lo no Lago Black, mas tome cuidado...”.
Ele parou de ler e nos encarou. Eu fiquei perplexo e tentando digerir aquelas palavras com a maior calma possível, mas é difícil. “Lago Black” é um lugar e nós devemos ir até lá... Minha cabeça se encheu de perguntas num redemoinho dolorido.
Por que na carta de Enzo fala sobre o Lago Black e na minha e de Mari não? Eu não consigo entender.
—Precisamos ir até esse lago então – Mari disse exasperada.
—Vamos com calma, ok? – a repreendi – Onde fica essa lago? – perguntei pra ninguém em particular.
—Aqui não diz nada – Enzo respondeu.
—Ah, claro! – Juan disse e saiu apressado da sala voltando depois com um caderno de metal.
—O que é isso? – Enzo perguntou demonstrando grande interesse.
—Isso, — disse se sentando entre Enzo e Mari e apoiando o caderno colo – é um notebook, é a evolução dos computadores.
—Pra quê isso serve? – perguntei. Definitivamente isso não é da minha época.
—Isso acessa a internet. – começou a digitar e percebi que havia teclas pequenas na frente de uma tela que brilhava parecida com uma televisão.
Me levantei da poltrona e dei a volta no sofá apoiando meu braços no encosto atrás de Juan.
—Hm... São muito lagos blacks no mundo, assim fica difícil – disse analisando as imagens na tela.
Havia várias imagens de vários lagos diferentes. Ele voltou a digitar em um espaço em branco “Lago Black Honora”. As imagens começaram a mudar e novas fotos apareceram, mas dessa vez, fotos diferentes de um mesmo lago.
—Achei – sorriu – Lago Black.
Fale com o autor