Projeto Cronos
1 01 - Mari
Notas iniciais
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PÂNICO!
Esse é o sentimento que sinto ao acordar. Não sei onde estou. Olho ao redor, tudo me parecia conhecido, porém tudo estava tão nublado. Com um pouco de esforço acabo formulando uma palavra: beco. Era isso! Aquele lugar era um beco, escuro. Como vim parar aqui? Tento lembrar-me alguma coisa, qualquer coisa que faça sentido, mas, por mais que eu tente, a única coisa que lembro são lembranças inúteis, nada de onde vim e quem é minha família.
Levanto-me do chão e só então percebo que estou completamente desarrumada. Acho que quem me olhasse me confundiria com uma pessoa sem teto, tecnicamente é isso que sou, porém essa não é a questão principal. Estou vestida em uma calça de algodão azul toda suja e estou com uma blusa, também azul, feita de um material fino, então já sei de onde estou vindo: um hospital psiquiatra. Será que eu sou uma louca que fugiu do hospício? Afasto logo esse pensamento antes que eu comece a acreditar que seja verdade.
Preciso sair daqui, mas como uma garota de... quantos anos eu tenho mesmo? Não importa. Como eu vestida nestas roupas poderia andar livremente pela cidade sem ser notada? Só então percebo que tem um pacote perto de mim, não é grande, mas com certeza ajudaria. Abri a caixa de papelão e tinha uma peça de roupa, uma carta e um maço de papeis verdes enumerados em 50 e 100 (acho que o nome daquilo seria dinheiro). Também havia uma carta, pelo visto ainda me lembrava de como ler. Peguei ela e fiquei admirando-a. Seria de quem me deixou aqui? Quanto mais o tempo passa, mais me convenço que tudo isso é muito louco. Talvez a minha teoria do hospital psiquiátrico não seja só uma teoria.
Coloco a carta na caixa e pego um troço de plástico, parece uma sacola verde. Aquilo era uma bolsa! Ri me lembrando do nome do objeto (é sou uma louca mesmo). Dentro da bolsa têm uma carteira com meus dados. Eu me chamo Mariana e nasci no ano 2000. Além disso, existem outras informações, mas nada sobre meu passado. Fico intrigada com a data que nasci, e só então me toco que não sei que dia é hoje. Seria eu uma garota de trinta anos? Com certeza não! Impossível! Pelo pouco que lembro, meu corpo é de uma garota mais jovem.
Visto minha roupa, uma camisa preta cheia de detalhes e uma calça jeans. Também calço meu sapato e arrumo meus longos cabelos pretos. Apesar de estar agradecida com os presentes e tudo mais, ainda havia questões que preciso resolver, onde eu vou dormir? O sol já estava quase se pondo. Não conheço ninguém, nem mesmo sei pra onde devo ir. Será que tenho família aqui nesta cidade? Olho para os prédios altíssimos e luxuosos, todos bonitos, e ao mesmo tempo desconhecidos. Na minha frente há uma praça bem simples, com apenas alguns bancos e árvores. Atravesso a avenida e a medida que avanço posso ver o mar lá em baixo.
Era tão azul que dava vontade de mergulhar, mas eu sobreviveria pulando de uma altura tão grande? Não precisaria de minha memória para saber que não.
SOCORRO!
Um grito em minha mente ecoa e cambaleio para trás tropeçando em um banco, quase caio. O grito de socorro ainda era claro em minha mente. Aquela voz era de um menino? Por um momento um rosto me veio à mente e sua expressão era de medo. Quem seria ele? Eu o conhecia? Eram tantas perguntas. Não poderia respondê-las, nem mesmo sabia quem eu era, mas a forma como ele gritou era apavorante. Algo me dizia que ele fazia parte do meu passado. Minha mente girava e eu me sentei para não cair, algumas pessoas que passavam por mim me olhavam e cochichavam entre si. Minha visão ficou turva, quase não conseguia ver. A última coisa que lembro antes de adormecer é um par de mãos me segurando.
***
Abro os olhos devagar, uma luz intensa me cegava e tive que colocar uma mão pra conseguir enxergar melhor. Olhei para o lado e encontrei um garoto de olhos verdes me observando. Quase surtei quando o vi, mas ele fez um gesto com as mãos pra me acalmar. Ele era jovem, da minha idade (isso se eu tivesse dezesseis ou dezessete) era alto e branco, de cabelos loiros. Não sabia muito bem a definição de bonito, mas a palavra veio a minha boca assim que o vi. Sua bermuda amarela combinava perfeitamente com sua camisa verde e suas sandálias pretas, seu sorriso era contagiante.
— Onde estou... – digo ainda meio grogue com o fato de ter desmaiado – e quem é você?
— Meu nome é Juan e está na minha casa. E você, quem é?
— Ei – protesto, sentando-me – você trouxe para sua casa?
— Tenho certeza que não seria prudente deixa-la em uma praça há uma hora dessas, poderia ter acontecido algo pior. Além do mais fiquei com medo de você ter batido a cabeça.
— Hospital – lembro – não seria esse o lugar que eu deveria estar?
— Não se preocupe, não foi nada que a levasse para um hospital. Minha vez de perguntar. Quem é você?
Poderia respondê-lo se eu tivesse a resposta. Queria dizer a ele que não sabia quem eu era e nem de onde vim, mas confiança era uma palavra fácil der ser dita, no entanto difícil de pôr em prática. Não é porque me socorreu que significa que devo confiar nele.
— Meu nome é Mari – digo com um tom baixo – obrigado por me ajudar.
— Não foi nada. Minha mãe me ensinou que devemos ajudar aqueles que mais necessitam. Ajudar é legal! – Notei que alguma coisa mudou quando ele falou sobre sua mãe, algo em seu tom de voz era triste e distante. Sua mãe dever ter morrido ou algo do tipo, mas não me atreveria a perguntar. Também existe a possibilidade dele estar apenas tentando ganhar minha confiança – Está com fome, Mari?
Se alimentar.
Isso é uma das memórias que mais me recordo, precisamos nos alimentar pra manter o corpo em funcionamento e devemos fazer isso com certa regularidade. Juan é um garoto bom. Não sei como, mas eu sei disso. Ele me serve um pouco de carne, salada e um pouco de feijão, estava muito bom. Depois que me alimentei, Juan me convidou pra conversar um pouco. Sua sala de estar era linda. Tinha uma mesa no centro, era feita de vidro e aço, o brilho cinzento do aço a tornavam mais bela, sobre ela existia um jarro com uma flor vermelha e bonita. Havia uma lareira na parede à minha frente, e duas poltronas de veludo, vermelha e preta. Em cima de lareira estava um retrato, uma mulher de longos cabelos loiros e olhos tão verdes quanto os de Juan. O físico lindo e a semelhança com Juan me ajudaram a deduzi que ela era sua mãe.
Abaixo da foto tinha um relógio. Não foi o design que me impressionou, foi a data. Era impossível ser aquela data! Vinte e cinco de abril de 2050. A matemática não era complicada pra mim, uma conta simples de se fazer. Segundo aquele relógio eu tinha 50 anos.
— Juan, quantos anos eu aparento ter? – tento manter o tom de voz calma, mas ele percebe mesmo assim.
— Uns dezesseis. Não é essa a sua idade?
— Sim.
Digo aquilo por que é isso que quero acreditar. Se ele acreditou em mim eu não sei, mas eu não me convenci. Quem sou eu? O pânico toma novamente o meu corpo, comecei a chorar. Por que aquilo estava me destruindo? E por que isso estava acontecendo comigo? “É essencial pra raça humana descobrir quem é, ninguém é nada sem sua identidade”. Essa era uma frase conhecida, só não sei quem a disse. Se for verdade então eu não sou nada? O que sei sobre mim? Uma garota que acordou em um beco e não sabe quase nada sobre sua vida, a única coisa que sei sobre mim é que tenho 50 anos e um corpo de dezesseis anos. Isso não faz sentido, nada faz sentido!
Juan se levanta e me toca nos ombros tentando me consolar, em nenhum momento perguntou o porquê estava chorando. Nada aconteceu quando ele tocou em meu ombro, mas assim que tocou em minha mão, uma enxurrada de lembranças veio à minha mente.
“EU ODEIO VOCÊ” Juan gritava para um homem estranho “VOCÊ A MATOU!”
A cena que vi foi desastrosa. A mulher do retrato estava em um leito de hospital. Segundo os médicos, tinha uma doença chamada Câncer. A beleza, que um dia ela possuía se fora. A mãe dele morreu em seus braços, apesar dos esforços dos médicos e da dedicação do filho, nada puderam fazer por ela. Juan culpa o pai pela sua morte. Ele a maltratava com suas duras palavras. Um homem que não ligava para a família, só para os negócios.
“Eu não sou seu filho e não quero seu dinheiro! Não irei ser como você! Não serei o monstro que você é! Nunca mais me procure.”
Quando saio do meu devaneio olho pra Juan e encontro os mesmos olhos tristes que vi na cena. Juan perdeu a pessoa que mais amava no mundo. Sabia como ele se sentia, vendo a cena com os olhos dele senti o que ele sentiu ao presenciar a morte de sua mãe. O que aconteceu comigo? Aquilo realmente foi verdade? Como eu pude ver seu passado? Era muita informação pra minha mente. Livrei-me de suas mãos e perguntei onde era o banheiro.
— No corredor, segunda porta a esquerda.
Saí correndo, queria ficar só e algo me diz que a carta poderia me dar algumas respostas para as minhas perguntas. Tranco a porta e me sento no chão colocando a mão no bolso e pegando a carta. Estou nervosa. Será que ali diria quem sou? Ou diria o motivo de poder ver o passado de alguém pelo simples ato de tocá-las? Abri a carta e comecei a ler:
“Querida Mari,
Queria que você se lembrasse de quem é você. Saiba que você é uma boa garota, nunca deixe que pense o contrário de você. Saiba também que só fiz o que fiz por amor, acho que foi uma loucura da minha parte, mas não me arrependo do que fiz. Apesar de não saber de nada, saiba que você é especial. Nunca toque nas pessoas e então assim poderá não enlouquecer. O passado lheforatirado, mas seu dom permite que veja o de outros.
Algum dia, quando nos encontrarmos, poderei explicar sobre quem você é e do que é capaz, mas enquanto isso sobreviva, não faça nada que chame a atenção. Eles podem estar procurando você, não tente lutar contra eles e nem saber quem são.
Uma coisa que deverá saber é que existem outros aí como você, melhor não procurar por eles. Só um conselho de um velho amigo. Prometi a mim mesmo que os manteria em segurança, por isso enviei um amigo pra ajudá-los e acredito que ele não seja tão agradável assim. Você poderá encontrá-lo em sua casa em frente à Praça do Memorial Richard Flind. Ele dará uma identidade nova a vocês.
Mari não se preocupe com sua idade, esse é mais um segredo que deverá ser mantido.
Mari, o mundo hoje em dia é difícil, mas acredite, ele já foi pior. Tente sobreviver e juro que lhe contarei quem é. Agora tenho que ir. O tempo a mim não é permitido, por isso tenho que me despedir. Então até mais.
—L"
Não me importando com mais nada, coloco as mãos na cabeça e choro. Tudo que li é demais para mim. Eu sou especial. Ver o passado das pessoas me torna especial? Eu não me lembro de absolutamente nada de relevante sobre minha vida, mas até eu sei que isso não é normal. No entanto isso pode me ajudar. O que sou hoje pode me ajudar a descobrir quem eu era antes. A primeira peça do quebra-cabeça já fora colocada, agora tenho que ir até o amigo que “L” menciona na carta, quem seria ele? Será que já nos conhecíamos? Tento lembrar algo, mas nada sai da minha cabeça. Como posso sobreviver se nem mesmo eu sei como fazer isso? Não tenho ninguém, não conheço ninguém. Como poderia confiar em alguém se nem mesmo confio em mim? Minha cabeça está embaralhada, tudo o que sei é que tenho um poder e que não funciona em mim. Sei que sou importante ao ponto de ser procurada e que tenho que sobreviver. Ótimo, me ajudou muito.
Depois de organizar meus pensamentos, decidi que vou aonde “L” me mandou ir. Quero descobrir mais um pouco sobre mim, se ele souber algo basta eu tocar em sua pele e saberei. Vou descobrir quem eu sou, que alternativa tenho? Tentar viver uma vida falsa e forjada? Não sei por que, mas eu tenho que descobrir sobre minha vida. E se eu tenho uma pequena chance, não irei deixa-la passar. Não me importo se meu passado é ruim e perigoso, era aquilo que eu era. Sei quem poderá ajudar, mas ele fará isso por conta própria?
Saio do banheiro, depois do que me pareceram horas, guardei a carta, me lembrava de cada palavra que estava escrita, já que minha mente estava sem nenhuma outra memória. Juan está me olhando, seus olhos verdes me encantam, apesar da tristeza que eles demonstram. Ele me ajudou quando desmaiei e me trouxe até aqui, mesmo não me conhecendo ele me ajudou. Não confio nele, aliás em ninguém, além do mais o que posso fazer? Se ele for mesmo perigoso não deixará nem ao menos sair. Decido que ele poderá ser útil. Irei retribuir a sua confiança, vou contar a ele quem sou. Se depois não quiser mais me olhar não vou culpá-lo, vou dar a ele uma escolha e só ele poderá decidir se aceita ou não. Não há nada que possa ser feito agora. Preciso arriscar se quero saber quem sou eu.
— O que aconteceu? — Sua voz era cautelosa e com um tom preocupado — Você está bem?
Como poderia dizer a ele sem que pense que sou louca? De qualquer maneira ele vai achar isso, porque tudo isso é uma grande loucura, então decido contar do início. Digo a ele cada detalhe, de como acordei em um beco escuro e com medo, quando desmaiei por uma voz desesperada gritando por socorro. Ele é um bom ouvinte e nunca me interrompe. Tento decifrar em seu rosto alguma coisa que ele esteja pensando, mas não consigo. Quando conto a ele sobre o que aconteceu quando o toquei sua expressão fica triste e sombria, percebo que aquilo é pessoal pra ele, explico-lhe que não foi por querer, tudo é aleatório. No final vejo uma lágrima em seu rosto, sei que ele acreditou em mim, mas me sinto mal por isso. Ele olha pra mim e subitamente pega minhas mãos.
Estou de volta ao passado de Juan, sei disso porque uma versão mais nova dele está correndo alegremente por uma campina e atrás dele vem sua mãe, ambos sorrindo. Logo descubro que aquele fora o último dia que eles foram à ali e o último dia que sua mãe teve saúde. Aquele pensamento me enche da felicidade, porque era isso que ele estava sentindo, uma linda e pura felicidade. Juan estava a meu lado, o verdadeiro, de algum modo o trouxe comigo, pelo visto eu tinha descoberto mais uma propriedade do meu poder. Ele está chorando, mas tinha um sorriso no rosto. Eu sorri pra ele e ele retribuiu com um brilho nos olhos.
Afinal o passado é algo que muitos querem esquecer, pois acham que não vale a pena ficar preso a ele, isso é completamente verdade. No entanto existem momentos que valem a pena, as pessoas acabam se esquecendo de que os melhores momentos estão no passado e que jamais voltarão. Quem nunca desejou voltar ao passado e rever uma cena de sua vida, do sorriso de quem ama, do nascimento do filho ou algo mais simples, não importa. Por mais que digam que não querem perder tempo se lembrando do passado, sempre haverá um momento que ficará preso na memória, um momento que apesar de não mais voltar sempre ficará ali.
Senti tudo o que Juan sentiu, pareceu tão autentico, talvez ele seja mesmo apenas alguém disposto a ajudar. Toda essa situação me deixou alerta. Decido por fim dar uma carta de confiança para ele.
Juan solta a minha mão e ainda sorri. Esse é o momento que Juan guarda. O último dia na campina.
— Tá legal, vou te ajudar. — diz ele ofegante — Vou te levar onde você quer. Apesar de parecer loucura, eu confio em você. Apesar de ainda estar em pânico, me convencendo que tudo que aconteceu comigo é real. É loucura! Quando começamos?
Eis um pequeno detalhe sobre as pessoas: elas não conseguem se livrar do seu passado, por mais que tentem, ele sempre acha uma maneira de entrar em sua vida. Por mais que nos isolamos, ele vai procurar alguma brecha, e sempre há uma. Preciso do meu passado para saber o que aconteceu comigo. L disse que ele foi tirado de mim, agora preciso recupera-lo, e só poderia fazer isso indo até o seu amigo.
Notas finais
O próximo capítulo será postado no sábado dia 9 de Setembro. Até mais e não esqueçam de comentar o que acharam e curtir a página:
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