Projeto Alex - Livro I - Cidade de Metal
5 Trégua e Chá
Notas iniciais
O jovem mestre se mantinha entretido com seus questionamentos e pensamentos. Tanto, que nem ao menos percebeu o raiar da aurora. Os feixes de luz passavam despercebidos por entre a trama das cortinas, as quais voavam, balançadas pela leve brisa matinal. O rapaz havia reunido com os anos, diversas informações sobre a tão conhecida Cidade de Metal, onde seus pais trabalharam por décadas, como pesquisadores de certa organização, segundo o que descobriu.
Os raios solares já começavam a lhe encadear, invadindo todo o aposento pela abertura. Alexander esfregou o rosto descorado e tirou os cabelos de cima da testa: —Já é de manhã? —Seu estômago roncou, visto que não comera nada há dois dias. Suspirou.
—Outra vez trevas em claro
Barganhando o Sol, recebendo a Lua
Sou este animal raro
Perseguindo a voz e a sombra tua...
Recitou esta pequena estrofe a qual resumia bem o que se passava consigo. No fundo do seu coração, Alex sabia que algo muito errado estava acontecendo, e o mundo fazia questão de lhe esconder isto. Suspirou novamente, balançando a cabeça, fazendo com que a juba retornasse ao seu lugar costumeiro. Deu de ombros, e guardou os papeis de volta na gaveta e em seu compartimento secreto. Confiava em demasia no velho Backer, mas ao mesmo tempo sabia que o homem de tudo faria para mantê-lo seguro. Não duvidava que o empregado pudesse dar fim aos documentos, mesmo que isto significasse desobedecer ao patrão dele.
Ergueu-se então da cadeira, exibindo o dorso pálido descoberto. Foi até o banheiro pra assear-se e aproveitou para observar o trabalho feito por Elizabeth ao pontear sua carne.
Aproximou-se do espelho e tateou sobre os curativos, removendo-os um por um, olhando fixamente para seu reflexo no vidro. O couro estava seco sem sinal de infecção. Preso nos fios restava apenas um filete de casca sobre a lesão. Mesmo que já tivesse visto isso diferentes vezes em si, ainda considerava impressionante a velocidade com a qual um golpe como esse cicatrizava. O que uma pessoa geralmente precisaria de meses para total recuperação, para ele bastavam apenas poucos dias. Tal fato não era alheio ao rapaz, embora pouco se ausentasse daquele lugar, tinha um vasto estoque de conhecimento a sua disposição na sua biblioteca particular.
—Aberração. —Disse, encarando a imagem que refletia o seu ser, buscando ofender a si próprio.
Pensou também em Elizabeth, no cuidado que ela teve para com ele. De fato a moça fora bem zelosa ao tratar de suas feridas, e ele enxergava bem isto ao passar as mãos no contorno do alinhavo, onde ela também tocara. Notou a costura impecável e os mimosos nós que lhe atavam a pele: —Mulher exagerada! Nem precisava disso tudo. —Sorriu.
Alcançando a prateleira de cima, o mestre pegou a maleta de primeiros socorros, uma tesourinha, e começou a remover os pontos. Devagar, ele cortava os nós e delicadamente puxava com a lâmina, a linha negra. Uma minúscula gota de sangue brotou dos buracos e secaram logo. E foi só! Tomou então uma gaze coberta com um pouco de óleo e passou sobre o local, limpando o sangue e removendo as cascas que se desprendiam facilmente, deixando visíveis apenas as enormes cicatrizes externas, que surpreendentemente, não depreciava seu corpo, mas concebia a ele, certo charme.
Deu de ombros e preparou-se para descer.
Quando seus pés tocaram o primeiro degrau, o mestre avistou Backer lá embaixo o esperando com uma agradável expressão serena. O velho convidou seu patrão para uma de suas tradicionais conversas a sós, e juntos foram para o grande salão. Passando pelas enormes colunas e debaixo do lustre de ouro e cristais, Alexander ia à frente de seu empregado, ambos andando sobre o comprido tapete.
No fundo do amplo recinto havia a gigantesca pintura, o quadro de um casal. Como de costume, o jovem mestre ergue a vista para admirá-lo mais uma vez: um homem de queixo proeminente e com barba por fazer, sentado desleixadamente em uma luxuosa cadeira de prata, e uma belíssima mulher de cabelo encaracolado e curto, que punha os braços em volta do pescoço do homem, envolvendo-o. Sempre que entrava naquele lugar, Alex ponderava sobre o momento em que aquele retrato estava sendo feito. Ela certamente fixava o olhar sobre o artista, no fundo de seus olhos enquanto este pintava tal casal; tanto que o artesão foi capaz de transferir para a obra a sensação de fascínio o qual aquela mulher exercia, tal como uma cobra encanta e entorpece sua presa antes lhe dar um único e mortal bote.
Havia também no salão, ligeiramente abaixo do quadro, uma cadeira. Alexander subiu o escalão e sentou-se ali, no mesmíssimo acento de prata retratado pela obra.
O jovem ajeitou-se no assento a frente de Backer, e sem ao menos permitir que o empregado articulasse frase alguma, principiou: —Velho, eu sei sobre o que você quer falar. Veja, eu não a odeio... —O rapaz diz, lembrando-se do que a governanta falara: Que ela era a escolhida para ser sua tutora, a pessoa que ensinaria a ele, tudo o que não poderia aprender sozinho. —Isto não vai dar certo. Você sabe bem o quanto é estressante ter uma garota nesta casa. Eu não me entendo com elas, são melindrosas, choronas, irritantes e quebram fácil. Não vejo o que posso ganhar fazendo amizade com uma mulher. —Alex escora o queixo com um dos punhos.
—Patrão Hill, mais que depressa o senhor vai perceber o quão úteis são as mulheres. Elas podem ser grandes aliadas. São compenetradas e completamente dedicadas a cumprir com seus objetivos. E quando elas amam, meu caro, nada é capaz de pará-las, elas vão até o fim mesmo que estejam em pedaços, mesmo que lhes sejam arrancados os braços e as pernas. Além disso, metade das pessoas do mundo são mulheres, você vai acabar topando com uma a qual quer hora, então será necessário saber lidar com elas. Foi pensando nisso também, que o senhor Hill decidiu enviar a senhorita Elizabeth, ainda por cima como tutora.
—Isto não vai dar certo, velho. — O jovem repetiu mais uma vez, balançando a cabeça, negativamente. —Eu fico muito nervoso perto daquela mulher. Tenho receio de quebrá-la.
—Pólos diferentes, patrão. Logo vocês irão descobrir como se entender.
De repente, enquanto ainda falavam, sente-se um aroma delicioso no ar. Um cheiro que em nada se parecia com a comida repugnante que seu empregado costumava servir-lhe. O cheiro doce invade toda a mansão, bem como a narina do rapaz, enchendo sua boca de saliva e fazendo sua barriga estremecer. O motorista cumprimenta o jovem de forma respeitosa, inclinado levemente o corpo. Em seguida, ele dá as costas a seu patrão e começa a retirar-se da presença dele. Porém, antes sair e sem se virar, Backer faz uma última recomendação a Alex:
—Quando estiver pronto, meu senhor, venha à mesa. Daqui posso ouvir seu estômago reclamar.
O jovem mestre olhava para as costas daquele homem à medida que ele ia se distanciando. Continuou em seu lugar, ainda por um bom tempo, analisando tudo àquilo que Backer falara. Alexander reconhecia que os muitos invernos vividos pelo velho empregado, o haviam impregnado de sabedoria. Não seria muito inteligente da parte dele continuar a ignorar os conselhos de seu leal empregado, até porque, foi razoavelmente desastroso da ultima vez. Assim, Alexander Hill se eleva do assento, meio cambaleante, pressionado o estômago com a mão: —Velho, detesto quando você acerta tão precisamente, coisas sobre mim. —Ele fala consigo mesmo, deixando escapar um milésimo de carinho por aquele homem o qual dedicara tanto suor pelo seu bem e de sua família.
O jovem mestre alteia novamente os olhos em direção a grandiosa moldura trabalhada em ouro:
—Mamãe, papai... —O jovem franze as sobrancelhas, inundado de pensamentos inquietantes. —O que vocês querem, afinal?
Na cozinha, os três empregados preparam caprichosamente, um requintado desjejum, pondo sobre a alva toalha rendada, biscoitos, pães frescos, chá, um lindo bolo e ramos de amoras silvestres num vaso de cristal, no centro da mesa. A bela Elizabeth fatiava finas camadas de queijo e as enrolando, ajeita-as numa travessa, ao passo que o pequeno Bennett dispõe a prataria quase nunca usada, sobre os lugares designados. Quanto a Backer... bem, este apenas evita ficar no caminho de jovens tão eficientes, animado com o empenho deles em agradar seu tão querido mestre.
Nem bem eles terminaram de arrumar tudo, perceberam Alexander escorado com o ombro na parede, divertindo-se em observar a trabalheira que estavam tendo, sorrindo.
A governanta, de imediato, organizou os servos em fila, ficando entre eles e juntos, cumprimentaram formalmente seu mestre.
—Parecem estar decididos a ficar nesta casa, mas tanta etiqueta não seria exagero demais? —Hill expõe indiretamente para a moça, embora com a face voltada para o outro lado. De fato, havia sido preparado mais do que seria necessário para os quatro ali. Além disso, ela conseguiu a proeza de por sobre o velho Backer, o traje formal, coisa que ninguém conseguira antes, nem mesmo a mulher do quadro.
O jovem mestre aproximou-se da mesa e logo foi auxiliado por Nathan, o qual empurrou a cadeira para acomodar adequadamente seu amado amigo. A jovem governanta pegou o bule de porcelana e despejou algo delicadamente sobre a xícara:
—Mestre Alex, eu não sabia exatamente o que preparar para o senhor. Fiz chá branco com amora. Espero estar ao seu gosto. —Ela pronunciou pomposamente, de cabeça abaixada, aparentemente confiante em seus dotes culinários.
O jovem a olha de uma maneira como só ele consegue... —Odeio chás. Onde está o café? —... maneira de deixá-la vexada.
Porém, ao contrário do esperado por todos, tomando a xícara, o rapaz aprecia o aroma da bebida feita pela dama e bebe um gole do líquido quente, limpando a boca suavemente com o guardanapo:
—Está aceitável. —A expressão inesperada causa espanto a todos, e certa alegria em Elizabeth, a qual mal podia conter o sorriso gracioso que lhe escapava dos lábios róseos. —Pelo visto, qualquer coisa produzida por você é melhor do que a comida repugnante que o velho aí costuma me servir.
Backer gargalha, sem se ofender: —Que coisa terrível de se dizer, patrão!
—isto foi engraçado, mas quero que vocês sentem-se. —O rapaz ordenou repentinamente, mudando seu semblante para um sério. Até mesmo a voz tornou-se mais grossa e áspera. —Preciso lhes falar algo importante.
Nathan antecipa-se ao jovem, dizendo algo que o surpreendeu verdadeiramente: —Eu sei que ontem foi estressante e perigoso. Já conversamos sozinhos e não ligamos pra isso. Sei também que nós estarmos aqui, diminui a necessidade dos senhores Hill estarem com o senhor, ou mesmo de virem a esta casa para vê-lo. Mas nós fomos criados para servi-lo, senhor Alex. Não temos outro objetivo nesta vida! Por favor, Alex, nos use como você desejar. Estamos as suas ordens.
Alexander absorvia as palavras doces de seu pequeno subordinado, tentando compreender os motivos daquele garoto. Francamente! Como um indivíduo pode jurar lealdade assim a alguém que acabara de conhecer? Não faz sentido.
Porém tudo poderia se tornar ainda mais perigoso, até violento. Não queria vê-lo sofrer, mas ao mesmo tempo, sentia-se atraído por aquelas pessoas tão curiosas. Contudo, se estes servos continuassem ao seu lado, poderiam acabar mortos, ou vítimas de destinos ainda piores! Ele não poderia expor esses inocentes assim, só por capricho. Certamente teria expulsado o velho motorista, se o homem não fosse mais teimoso que o próprio patrão. O jovem esteve todo esse tempo sozinho, e era assim que deveria continuar. Fechar-se novamente em sua bolha e ser enterrado nas entranhas daquela mansão. Sozinho.
Subitamente, Alex mergulhava num mar escuro e profundo, sendo envolvido por algas as quais se assemelhavam a cumpridas correntes esverdeadas, atando seu corpo desprotegido* e o puxando cada vez mais para baixo. Ele estendia as mãos vigorosamente para cima e se debatia, lutando contra o peso de si, mas em vão. As cadeias o arrastam cada vez mais para o fundo, onde a pressão o esmaga. Impedindo de alcançar o ar, o rapaz sufoca completamente, enchendo os pulmões de água turva a qual rasgava-lhe os órgãos!
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