Notas iniciais
Será que é possível sair de uma situação assim sem perder nada?

As palavras saturadas de intenções lascivas daquele desgraçado foram o ápice do que Alexander Hill podia suportar:

—NÃO TOQUE NESTA MULHER, ELA PERTENCE A MIM! –Ele voou sobre o bandido com o desejo fulminante de arrancar os órgãos daquele miserável. Seus olhos de ametista chispavam em fúria. Nem pareciam ser seus, mas os de outra pessoa.

Ao ver o jovem vindo velozmente em sua direção, queimando de ódio, Chuck se assombra, enxergando claramente a vontade de Alex de arrasá-lo. O desprezível segurava com força o tecido do uniforme de Elizabeth, e seu abraço causava repulsa à moça, que tentava desvencilhar-se das presas daquele homem perigoso. O infame mira num ponto crítico do jovem, para neutralizá-lo, mas devido sua mão trêmula, acaba atirando no ombro dele.

A impressão do projétil perfura a carne de Alexander Hill, se instalando ali. Contudo seu sangue fervia e o rapaz estava totalmente fora de si. Desprezando a dor, como se não a estivesse sentindo, não se refreou. Investiu contra o pistoleiro e prendendo o tambor da arma com a mão nua, impediu que este girasse. Alex agarrou então o pescoço do bandido, apertando-o gradativamente, sorrindo, se deliciando com a agonia de seu inimigo, enquanto este turbinava fervorosamente o gatilho da arma, buscando atirar em Alex novamente. Mas o tambor do revolver não girou, estava amassado.

Jarryd não ficou parado, com a espingarda em punho, mirou no rapaz que esganava seu comparsa. Instantaneamente, o rapaz percebe o intuito do bandido, do outro lado da sala. Sem soltar Chuck, colocou-se na frente de Elizabeth para proteger-lhe de qualquer eventual risco. Antes que Backer pudesse alcançar o bandido, o líder dispara, intencionando acertar chumbo nas costas do loiro.

O empregado da família Hill, apropriando-se do coice dado pela arma de Jarryd, tomou-a do homem e dando-lhe uma coronhada no nariz, levou-o ao chão, onde ficou gemendo, segurando o osso nasal que sangrava sem parar. Contudo, o jovem mestre sofre um impacto violento no lombo.

Alex sente as costas arderem e sua pele rasgar-se. Ao que parece, Hill teve os pulmões perfurados pelos projéteis. Tossiu, respingando sangue no avental imaculado e na face de Bennett, cobrindo-lhe o sinal. O fluido vermelho pingava de sua boca e encharcava-lhe o conjunto azul que vestia.

—NÃO! MESTRE ALEXANDER! –Ela gritou desesperada ao ver que seu senhor fora alvejado impiedosamente. E pior, por causa dela, para resguardá-la, que não fora forte o suficiente para evadir-se dali.

No entanto, o rapaz mantinha-se tão absorvido no seu ódio que almejava neutralizar aquele homem pérfido definitivamente. Pressionou-o contra a parede sólida e agora com as duas mãos, apertava-lhe a garganta mais fortemente, até que este libertasse a moça. O bandido já havia desistido da arma e tentava defender-se esmurrando o loiro no rosto, embora o jovem sequer parecesse sentir os golpes. Seus olhos brilhavam como fogo e um sorriso sinistro estampava-lhe a boca. O maldito debatia-se enquanto tentava lutar, em vão, e por fim desvaneceu sufocado. No entanto, Hill não estava satisfeito. Queria mais. Torturar aquele desgraçado lhe causava um prazer indescritível. Ele estava a ponto de segurar o homem pela cabeça e bater a nuca dele contra a parede, quando a jovem governanta interveio, implorando a Alex que parasse:

—Mestre Alexander, ele já está caído. Por favor, pare, ou você vai matá-lo! Esses monstros merecem o que há de pior, mas o senhor é melhor que isto, não vale a pena que seja pelas suas mãos... –Ela puxava o braço de seu mestre, clamando para que ele não se igualasse àqueles mercenários desumanos. Senhor Backer, ajude-me a acalmá-lo! –A garota pedia ajuda ao outro.

Mas Alex não conseguia ouvi-la, estava em transe absoluto. De longe, o empregado apenas observava. Não iria intrometer-se nos assuntos de seu patrão. A moça angustiada não sabia mais o que fazer, as lágrimas rolavam-lhe no rosto de marfim. Porém cabia a ela, não deixar o jovem descer a ponto de tornar-se um assassino frio, pois... Elizabeth Bennett veio à mansão incumbida de ser “tutora de Alexander Hill”.

—Já chega Alex, por favor, é o suficiente! –Ela envolveu seu mestre num caloroso e apertado abraço. –Não se deixe engolir pela escuridão... –O choro baixinho da donzela junto ao seu ouvido, despertou o rapaz, fazendo-lhe retornar a consciência. Ela em fim o acalmara.

Ele soltou então o homem, deixando que despencasse. Limpando o suor que lhe descia pela testa, o jovem mestre enunciou: –Perdoem-me pelo excesso, eu exagerei. Já não havia motivos para continuar a castigar este miserável.

Os empregados se entreolharam. Era mesmo realidade, isto? Alexander Hill estava a se desculpar! Pelo pouco que vira de seu mestre, nem mesmo a moça acreditava ele ser capaz de um gesto tão ameno, mesmo que comum de se realizar para a maioria das pessoas. Isto se tratava praticamente de uma impossibilidade, a julgar pela personalidade intimidadora daquele garoto. Mas estava acontecendo:

—Mulher... Eu sinto muito que vocês tenham passado por este sufoco... –Ele fala de cabeça baixa. –Deve ter sido assustador para vocês! –O loiro estava genuinamente pesaroso. Apesar de ter sido de grande ajuda para se livrarem dos bandidos, ele não se sentia um herói, mas como a causa principal do problema. Devido sua inabilidade de acatar os bondosos conselhos de seu motorista, era culpado por permitir que as coisas chegassem a este ponto.

—Que cena tocante! –O velho Backer sorri disfarçadamente. –Este coração velho não aguenta tanta emoção! –Visto que o líder dos bandoleiros continuava a gemer, rolando no tapete da sala, melecando tudo, o empregado fala: –Ei Sr. Mercenário, não vamos atrapalhar este momento sublime, sim? –Falou para o homem no chão.

Bennett, cautelosa, desejava tratar seu senhor o quanto antes, para evitar os riscos de uma infecção: –Mestre Alexander, por favor, permita-me cuidar de suas feridas. –Ela mirava, apreensiva, os machucados do jovem.

Alexander mordeu o lábio tão forte a ponto de sangrar. Não acreditava ser merecedor do cuidado que a moça tinha para com ele, apesar da maneira em como ele a tratava. O rapaz ergueu o braço, cobrindo a boca com as costas da mão: –Eu permito. –Disse, desviando a vista do olhar cativante de Elizabeth, ao passo que a jovem vinha examinar-lhe o ombro.

Entretanto, sem que os demais percebessem, Chuck começava a recuperar os sentidos. Todavia, antes que fizesse qualquer movimento, o pequeno Nathan empurra sobre ele, um enorme armário de mogno africano, terminando de prostrar o malfeitor, e vingando-se do que o homem fizera com ele. Ao ouvirem o baque, aqueles ali presentes admiraram-se do feito realizado pelo menininho, pois o armário era de fato muito pesado. O garotinho franziu a sobrancelha:

—Sou só eu que acho que seria mais inteligente amarrar todos eles logo?

Enquanto Backer dava um jeito nos palermas. Alexander e os irmãos Bennett iam pela escada rumo aos aposentos do rapaz. Os dois, gentilmente auxiliavam o jovem a subir os degraus. Lá chegando, colocam-no no divã negro. Enquanto Nathan procura no banheiro, a maleta contendo um conjunto de primeiro socorros, a governanta começa a abrir os botões da camisa de Alex, deixando-lhe a mostra a aveludada e pálida pele.

Ao passo que tirava a parte de cima do traje de seu mestre, exibindo-lhe todo o dorso, bem como os inúmeros ferimentos, a moça não conseguia conter o rubor, até porque o rapaz não parava de encará-la por um só instante. Logicamente, o Alex observara o quão vermelha ela estava:

—Você está entusiasmada demais para uma pessoa que vai enfiar uma agulha em mim. Excita-te causar dor nos outros? Você é algum tipo de sádica?

Os óculos da garota embaçaram-se: –M-mestre Alexander, p-por favor, não diga essas coisas! –Gaguejava, envergonhada. Ela se perguntava como este rapaz tinha coragem de fazer esse tipo de brincadeira num momento como esse. Pelo visto ele gostava mesmo de provocá-la.

Nathan trouxe os apetrechos e assistia a irmã, enquanto esta abria as fendas usando o bisturi e com a pinça, catava os fragmentos de munição alojados na carne de Alexander.

Sobre o divã, Hill conservava-se em silêncio, mesmo que apertando os lábios e dando uns espasmos aqui e ali. –Está doendo muito, senhor Alex? –O menininho perguntou afetuosamente a seu querido mestre, tocando-lhe o rosto. Se antes já gostava tanto dele, sem ao menos o conhecer, considerando-o até como um herói, que dirá agora que viu com seus próprios olhos, o jovem salvá-los.

—Sim, mas gritar e espernear, não vai me ajudar agora, vai? –responde. –Além disso, esta mulher tem a mão muito leve. Eu não sentiria nada mesmo que ela me apunhalasse com este bisturi. –Riu, aliviando o semblante do garotinho.

A empregada arrematou os pontos, terminado de remendar o rapaz: –O senhor precisará repousar por várias semanas. Seus pulmões podem ter sido avariados. Eu gostaria de chamar um médico, mas as instruções dadas a mim proibiam terminantemente isto, não impostando a circunstância. O senhor vai ficar bem de fato? –Perguntou preocupada, pendendo a cabeça para o lado.

—Você realmente não sabe nada a meu respeito... –O mal agradecido replica, dispensando Elizabeth. –Já fez o bastante, mulher. Agora, vá descansar.

A jovem governanta esboça um sorriso, sentia-se contente por ele demonstrar que se importava com ela, embora que seja apenas um pouco. –Ainda não meu mestre. Devo lavar o sangue antes de ele secar. Logo mais consertarei estas roupas. –A moça responde, ao tomar a veste e dobrá-la atenciosamente. Ela abandona os aposentos, levando consigo o traje rasgado de seu senhor.

Voltando-se para o pequeno Bennett, o mestre ordena: –Eu irei analisar uns documentos, atente que eu não seja interrompido até o amanhecer. Essa será a sua missão, meu amigo Cara-de-Lua.

O pequeno Nathan chega pertinho de Alexander, cerrando os olhos: –Por que o mestre Alex não namora a mana Elizabeth? Assim nós seriamos irmãos também!

Alexander arregalou os olhos. A pergunta indiscreta do garotinho o pegou desprevenido, deixando-o inteiramente desconfortável. Namorar Elizabeth, aquela desagradável moça peituda que acabara de conhecer e que fora responsável por todos os seus machucados? Absolutamente não!

—Tem certeza de que você não perdeu sangue demais com aquela facada e está delirando, garotinho idiota? –Alex empurrou a testa de Nathan com o dedo indicador, zombando dele. –O que um cabritinho como você sabe sobre namorar?

—Bem, na verdade eu sei algumas coisas. A vovó me fazia passear com um monte de senhoritas chiques: flores, abrir a porta do carro, servir chá, beijar o rosto... Ela dizia que nunca se sabe quando vamos precisar de conhecimentos nessas áreas e...

—Mentira! Só pode ser mentira! Como esse anãozinho sabe mais sobre esse tipo de coisa do que eu? –Perguntava-se abismado. –SAIA DAQUI! –Ordenou o jovem mestre.

O pequenino saiu do escritório, inflando as bochechas e fazendo chacota. Alexander fechou a porta, furioso. O jovem mestre dirigiu-se até a escrivaninha e acomodou-se na cadeira acolchoada junto a ela, abrindo uns envelopes que estavam na gaveta.

—Garotinho insano. Quem diria que este moleque tinha tanta experiência em relacionamentos amorosos a ponto de me fazer essa proposta desvairada! –Bufou, afrontado. –Você vai ver, moleque safado!

Parando para pensar, aquela era a primeira vez em sua vida que estivera tão perto de uma mulher que não fosse a senhora Hill. Nunca antes tocara numa garota, ou mesmo convivido com uma. Era quente. O corpo de Bennett era quente, macio, tanto que parecia convidar-lhe para afogar-se naquela carne e sentir o doce perfume exalado por ela... A primeira vista não queria colocar as mãos sobre aquela asquerosa medíocre, a intenção desde o começo, era apenas assustá-la e expulsá-la de sua propriedade da forma mais humilhante possível, para que ela nunca mais ousasse retornar. Mas o corpo dela emanava um calor tão irresistível que ele acabou por agir, desde que a vira pela primeira vez, dominantemente.

Ao mesmo tempo, Alexander não conseguia deixar de lado o que aquele meliante fedido, de dentes amarelos falara:

—Olhos de Ametista... –Alex, apoiando os cotovelos sobre a mesa e entrelaçando os dedos das mãos debaixo do queixo, desviava sua atenção para este outro pensamento inquietante, o qual insistia em perturbá-lo. –O que isso quer dizer?

Notas finais
:O Nathan é experiente assim? Não perca pra ele Alex! o/