Projeto 7
1 Prólogo - O Nascimento
LUCAS P.O.V. — JOINVILLE/SC/BRASIL
Eu nasci em um pequeno casebre germânico no final da Estrada dos Holandeses. Era um dia chuvoso, triste demais para receber o nascimento de uma criança. A cidade estava passando por época de cheias. Notícias de casas destruídas e pontes derrubadas pela maçante enxurrada estampavam os noticiários daquela época. 15 de abril de 1996, esse foi o dia no qual nasci. Dentro do pequeno e simples quarto de meus pais, a parteira Berenice me tirava de dentro da minha mãe com cautela. Quando tirou, meu primeiro choro já ecoava pela casa. Ela cortou o cordão umbilical e com atenção começou a me limpar. Momentos depois eu estava envolto em um pequeno cobertor listrado,
aos braços de minha mãe Helena que se esforçava para me segurar. A dor tomou-a e Helena teve de me devolver para o colo de Berenice. Relâmpagos e trovões estridentes era uma das únicas coisas que podiam ser ouvidas, além do meu choro, e o interminável som de gotas batendo na telha dominavam o espaço interno da residência, que era tomado por um agoniante silêncio. Fora do quarto, meu pai Antônio e meus avós maternos Diamantino e Maria esperavam notícias. O
médico dissera que poderia haver complicações na hora do parto, devido à gravidez de risco. Aflitos, receberam a notícia repentinamente. Berenice me segurava em seus braços, e devagar, abriu a porta do quarto.
– Ele está em perfeito estado. Lindo e saudável. – Berenice disse.
– Graças à Deus! Deixe-me segurar o. – Maria disse, se aproximando lentamente de mim. Me pegou delicadamente, e começara a observar meus traços e todo o resto do meu corpo. – Ele é lindo... Parecido com você Antônio! – completou.
Com um sorriso bobo, meu pai se aproximara. Se não fosse a descrição dos meus avós hoje, não relembraria de um certo brilhos nos olhos dele. Parecia estar encantando comigo. Me observou por alguns momentos, e depois me pegou no colo.
– Que garoto forte! Vai dar um ótimo jogador! – Diamantino exclamou. Antônio assentiu com a cabeça.
– E Helena... Está tudo bem com ela? – Meu pai perguntou.
– Sim... Ela está cheia de dores, mas isso é típico para um parto normal. Irá se recuperar rapidamente. Helena é uma mulher forte, sr. Antônio. – Berenice respondeu.
Meu pai me levou junto de minha mãe e juntos, me contemplaram por um grande bocado de tempo.
– O meu maior presente. – Helena disse sorrindo levemente.
Abraçados. Desse jeito ficamos até a tempestade acabar. E ela só acabou quando parei de chorar.
– Ele vai se chamar Lucas. – Antônio disse. – O que você acha amor?
– Perfeito.
Dias depois, quando a água das chuvas cessaram, meu pai, minha mãe e eu conseguimos chegar ao aeroporto da cidade. A estrada que levava até lá sofria com inundações e aquele caminho era o único jeito de chegar ao aeroporto. O voo partiu para Manaus, às 13:30h. Tinha paradas em São Paulo e Brasília. Lá em Manaus, mora a família inteira do meu pai, e eles estavam nos aguardando
ansiosamente para celebrar meu nascimento. Após cinco exaustivas horas dentro de um pequeno avião estávamos perto de Nova Aripuanã e o que se via embaixo era um gigante e infinito verde exuberante. A riqueza daquela floresta também chamava a atenção lá do alto.
– Daqui à 20 minutos, chegaremos ao Aeroporto Internacional de Manaus. – anunciou o comandante da aeronave.
NARRADOR P.O.V.
Os pequenos indiozinhos apontavam seus gordinhos dedos indicativos para o céu. Os seus olhos estavam impressionados com o que viam lá no alto.
– O que é aquilo? – uma criança perguntou para a outra.
– Não faço ideia!
Os adultos voltaram seus olhares para o que os pequeninos chamavam a atenção. Assustados, começaram a correr para todos os cantos, proclamando tipos de orações e rituais para algum deus pagão da região. As mulheres e as crianças entraram dentro de suas casas em busca de proteção, enquanto os líderes de cada família que viam aquilo como uma “ameaça” se encontraram desnorteados com o que caía do céu rapidamente. Em questão de segundos um grande estrondo ecoou pela floresta e chamas irrompiam do meio da floresta Amazônica. Os homens, caminhavam com prudência pelo meio de altas árvores e não demorou muito para chegar ao local das chamas. Era uma grande cratera, e ao centro um avião – inteiramente destruído, se encontrava em chamas. Ao redor dele destroços da aeronave e corpos, todos arrebentados pelo impacto, se encontravam aos montes. Alguns índios não aguentaram, e voltaram para a pequena vila de Nova Aripuanã
nauseados. Com cuidado, alguns índios inspecionavam e roubavam alguns objetos que se encontravam em bons estados. E foi assim que o índio Arixupã escutou algo. Próximo às chamas, se concentrava para confirmar o som.
– Paricuã, Militio, todos! Venham cá! Acho que estou escutando algo...
Seus amigos se aproximaram, e juntos escutaram um grito. Um grito desesperado, clamando por ajuda.
– O que faremos? – Arixupã perguntou, aflito. – Devemos ajudar?
– Não! Olha só esse fogo... Com certeza vamos morrer se nos aproximarmos mais! – Paricuã contestou.
– Nada disso! Vamos ajudar quem se quer está ali dentro... Temos de fazer isto, e depressa. Se não, será tarde demais. – Arixupã retrucou. Rapidamente, os índios chegaram a um acordo. Todos iriam ajudar a resgatar quem quiser estivesse dentro do avião.
...
Juntos presenciavam uma cena inesquecível. Perplexos, um índio olhava para o outro... Pareciam não acreditar no que estavam vendo...
– Um pequeno bebê, ressuscitou das chamas... O único sobrevivente! – Arixupã disse, emocionado. Os homens retornaram para Nova Aripuanã, e lá contaram o que havia acontecido para toda a população daquela pequena vila. Todos ficaram impressionados, e receberam com muita alegria o bebê sobrevivente. Rituais de ressureição e de vida foram invocados por todos que moravam ali... Agora aquela pequena criança, ungida com o sangue de um carneiro, fazia parte daquela tribo.
Daquela família. Para eles a representação de que o seu Deus existia se expressara naquele fatídico dia através daquela criança... Não sabiam como ele havia sobrevivido àquilo tudo, mas a vida que milagrosamente corria pelo sangue daquele bebê foi a explicação suficiente para os índios.
Horas depois, a Polícia Federal chegara com cinco carros e um helicóptero para investigar a queda do voo 3400.
...
A notícia que chegou à família das vítimas foi a que de dezessete passageiros e quatro tripulantes morreram. Incluindo Helena, Antônio e Lucas. Nenhum sobrevivente fora encontrado.
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