Project Zero
2 De Volta ao Mundo Real
–Ruka! – ouço murmúrios enquanto tento não sentir a dor no local onde estaria a tatuagem. Minha visão está clareando aos poucos.– Ai, será que ela está morta?
–Ruka? Está tudo bem? – escuto outra voz, um tanto parecida com a primeira.
–Argh! Eu sabia que não deveria confiar nessa sua ideia de jerico de deixar ela jogando videogame até tarde com você! Seu idiota!
–Pare com isso, Alexy! Ela está bem! Olhe, os olhos estão se abrindo!
Quando minha visão volta ao normal, consigo ver o rosto de dois rapazes, quase iguais. As cores de seus cabelos e olhos eram diferentes, mas os traços do rosto eram praticamente os mesmos. Seria mais um dos delírios? Por que eu não aceitei que mamãe me colocasse naquela clínica aos dezesseis?
–Ruka!!! – disse o rapaz de cabelos azuis, me abraçando com força.
–Afe... Precisa desse drama mesmo?
–Larga de ser chato, mano! Até parece que você não liga para ela!
–Exato. – o moreno deu a conversa por encerrada e sentou-se num pufe, na frente de um console.
Eu conhecia esses dois de algum lugar. Me lembro de tê-los visto anteriormente. Não é possível. Perdi a memória mais uma vez?
–A...le...xy? – tentei emitir algum som, por mais que não conseguisse me mexer.
–É. Alexy. Seu amigo. Lembra? – cochichou ele, daquele jeito como alguém fala com uma criancinha de dois anos.
Repentinamente, era como se minha vida passasse diante de meus olhos. Sinto a cabeça latejando. Agora eu me lembro.
–Alexy... – consegui falar um pouco mais alto, ainda com a boca um pouco imóvel, o que fez o som sair como “alessi”. – Nã...o con...sigo me...
Ele provavelmente adivinhou o que eu iria dizer.
–Ah, a paralisia novamente? Tsc tsc! Você tem que parar com esses desmaios, Ru. Me deixa muito preocupado! – sorriu ele, enquanto aplicava um líquido transparente no meu braço.
Alguns segundos depois, já conseguia me mexer normalmente. Me sentei no chão, arrumei uma mecha de cabelo que estava caindo em meu rosto e fiquei de pé.
–O que foi isso que você...? – tentei perguntar, até que ele colocou um dos dedos nos meus lábios, claramente pedindo para eu ficar quieta.
–Antídoto. É um tipo de remédio que cura a paralisia. Você mesma inventou, após três desses desmaios. – contou, me fazendo perceber que eu já estava tendo essas coisas há um tempo. – Acontece toda vez que você joga esses joguinhos com o Armin. Até parece um tipo de maldição! – riu, mas me dando medo de verdade.
–Que joguinhos? – tentei arrancar mais informações.
–Ah, esses jogos de terror! Sei-lá-o-que Frame, Ao Oni... Essas coisas.
–Hum... – comentei, na falta de algo melhor para dizer.
Olhei o grande relógio em LED que ficava pendurado no alto do salão de jogos. Já passava das dez horas. Minha mãe vai me matar.
–Então, Ruka! Que jogo vai ser agora? – perguntou Armin, animado. Me sinto mal, não quero decepcionar ele. Amanhã, antes da aula, ele e Alexy vão viajar para Vierce, onde moram seus avós. Eu me lembro que Armin implorou para que eu viesse com ele aqui no shopping, jogar pela última vez. No começo do ano que vem, segundo Alexy, os dois vão para uma daquelas escolas de freiras na Espanha e ficar lá até os dezoito anos.
–Bem... O que acha desse aqui? – peguei um dos duzentos jogos que estavam empilhados numa caixa e coloquei no console. Minha família não vai se importar se eu me atrasar uma hora ou duas.
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