Project Lorrain
16 Cap 16 - Desconhecido
Notas iniciais
–Desconhecido
Lampejos de luz escapam por entre as minhas pálpebras que abrem vagarosamente, os sons passam por meus ouvidos de uma maneira estranha, quase irreconhecível, abafada, sombria. Escuto o ranger de algo metálico e meu corpo é levantado, abro um pouco mais os olhos e minha visão fica clara, estou em uma sala, amarrado por uma corda nas mãos, não sinto as minhas pernas, mas as vejo ali, meu corpo está com manchas de sangue, mas nenhum ferimento, tento me lembrar de algo que aconteceu, mas minha cabeça quase explode, então tento entender o que está acontecendo ali.
Nesse instante um homem alto com olhos vermelhos como o sangue na minha barriga aparece. Ele era forte, alto tinha o cabelo curto e penteado para trás, no rosto cicatrizes horríveis, ele sorri para mim e começa a falar:
–Me desculpe pelas acomodações kamerad, mas eu estou me mudando e você sabe como são as mudanças – diz ele com um sotaque que presumo ser alemão – como se sente?
–Bem eu acho – repondo – quem é você e por que eu estou amarrado? E como eu cheguei aqui? E... e quem sou eu?
Ele ri alto, sua risada parece uma explosão:
–Acalme-se der kamerad, terá todas as suas respostas agora. Começaremos por ordem de pergunta, sim? Eu sou Rans Doctor para você, você está amarrado porque eu te ajudei a fugir da morte, mas não sabia se seria grato ou não, você chegou aqui por que eu te achei jogado na mata e você agora é um de nós, muito bem, agora vamos solta-lo, venha.
O homem me solta e eu caio sentado, minhas pernas estão dormentes, mas logo voltam ao normal, ele me chama e eu o sigo, não sei por que, mas algo me diz para não confiar nele, andamos por alguns corredores e ele me conta tudo o que aconteceu. Como me achou na mata desacordado, como me ajudou a fugir da morte e para bem nessa parte:
– Você estava caído na mata, ferido, então eu te ajudei a vir aqui e não me leve a mal, mas eu tive que injetar um experimento em você.
– Que tipo de experimento? – pergunto parando de andar.
– É como um remédio, não se preocupe, ele te ajudou a melhorar e agora vai ajudar ainda mais.
Eu o sigo por mais um tempo, ele me leva a um pequeno centro de treinamento e me pede pra treinar com os outros, como se fosse um pagamento por ter me salvado, eu não acho isso muito errado, pois devo muito a ele, então aceito a condição e começo a treinar.
O lugar era pequeno e parecia subterrâneo, graças às marcas de infiltração que apareciam até no teto, tinha alguns instrumentos pesados que eu imagino serem para os músculos de um lado e uma área pintada no chão de outro. Três homens fortes com mais ou menos a minha idade me encaram, acho que eles serão meus oponentes para o treino, fico em uma posição estranha no momento em que os vejo, não me lembro se sei lutar, mas meu corpo parecia saber de uma forma natural, agora que parei para pensar nisso, não me lembro de muita coisa, alguns lampejos e uma mulher bonita me passam na memória, mas não sei quem é nem se eu a conheço.
Os homens investem contra mim e eu os ataco também, torço o braço de um bem ao tempo necessário para desviar do golpe de outro, fazendo com que o seu colega que eu seguro leve todo o dano. O terceiro me segura por trás imobilizando meus braços nas laterais do corpo, eu acerto seu joelho com o calcanhar e ele afrouxa um dos braços, eu me aproveito disso e o liberto, acertando o cotovelo direito em seu rosto, seu nariz se quebra na hora, um dos dois de antes se levanta e tenta me acertar um chute na lateral do corpo, eu consigo prender a sua perna suspensa com um braço e com o outro acerto seu joelho de uma maneira que ele se desloca e o homem grita de dor com a perna quase em formato de “v”, o ultimo que estava caído fora do meu campo de visão agarra uma barra de ferro e me ataca por trás, por sorte ou instinto eu me desvio e atinjo seu punho, fazendo ele soltar a arma, então agarro seu pescoço e lhe dou uma rasteira com a perna direita, ação que o faz sair do chão por alguns instantes e desabar de costas com todo o seu peso.
Assim que faço isso, escuto palmas, olho para trás e o doutor está me olhando e sorrindo de uma maneira estranha:
– Perfekt! Perfekt! — exclama ele – como se sente kamerad?
–Muito bem senhor – respondo – é como se eu fosse invencível.
–E realmente é quase isso – explica ele – eu te injetei nano robôs que aumentam sua capacidade de cura e a capacidade de tração de seus músculos e ossos assim que chegam ao seu cérebro por meio do sangue.
– Isso é impressionante – falo – sou o primeiro assim?
– Não – diz ele – infelizmente temos uma pessoa, uma garota assim também no exercito inimigo, e eu quero te pedir algo kamerad.
–Diga o que quer senhor – respondo, não sei bem por que.
–Quero que seja o meu aliado contra eles, eu não lhe disse nada, mas agora vejo que posso confiar em você, foram eles que te deixaram assim, eles te largaram na mata.
Minha cabeça fica confusa mais uma vez, eu era parte do inimigo então? Talvez lá eu tenha aprendido a lutar assim, mas um ódio toma conta de mim quando penso que eu fui deixado para morrer como um animal ferido, não me lembro de nada, mas acredito nesse homem, afinal, ele me salvou:
–Tudo bem – respondo – aceito seu convite, será uma honra lutar a se lado.
–Danke der kamerad, agora, quero que prove sua força em mim.
– Em você?
– Sim, quero ver o quão forte você é.
– Tudo bem então, lá vai.
Eu não penso duas vezes e o ataco com a barra de ferro, ele me observa me aproximar sem mover um músculo, eu salto para ficar na altura de sua cabeça e giro o corpo para potencializar o dano da barra, mas então ele levanta um braço e bloqueia o ataque, com um movimento do outro braço ele me atinge no peito e eu sou arremessado para trás, caído sem ar de costas no chão, me levanto e fico apoiado sobre meus cotovelos e joelhos, tateio o chão e encosto na barra de ferro, eu a pego e quando a olho, ela está na mesma posição que a perna do meu oponente, inútil, mas era impossível alguém fazer isso, olho para ele e ele me exibe um prótese robótica no lugar de cada um dos braços, me lembro da cicatriz no rosto e deduzo que ele foi vítima de uma explosão. Ele me olha fixamente e sorri, depois diz:
– Tudo bem, isso foi culpa do nosso inimigo também kamerad, não vou usá-las para matá-lo, mas eu quero lhe mostrar que o inimigo terá a mesma força que a minha, então, não hesite em atacá-lo.
Eu assinto com a cabeça e me levanto com o peito ainda ardendo, volto a atacá-lo e ele me recebe com outro golpe que me derruba, mas dessa vez bem perto, o que me dá oportunidade para atingir a sua perna, fazendo ele perder o equilíbrio e baixar a guarda, é quando eu me levanto e o ataco com o joelho, mas ele o segura triunfante, porém esse não era meu único plano, como ele estava com um braço ocupado segurando a minha perna e o outro apoiado no chão, há espaço livre o suficiente para eu o acertar no rosto com o soco mais forte que eu poderia desferir, assim que o acerto ele se solta de mim e levanta os braços, depois diz:
–Tudo certo kamerad, você foi bem no seu treinamento, ele acaba por aqui hoje, mas já sei o seu novo codinome.
– Qual é ele então? – pergunto ainda arfando.
– Project Schlange.
– Schlange?
–Sim, por que você é esguio e mortal como uma serpente.
–Hum...gostei.
Ele sorri e sai da sala me ordenando a ir descansar, mas para e sem se virar para mim diz:
– A propósito Schlange, seu antigo nome no inimigo era Roney.
–Roney? – pergunto, mas ele não diz mais nada e continua a andar.
Esse nome é realmente familiar para mim, mas eu não me lembro de nada relacionado no meu passado, “não importa” penso comigo mesmo “vou me vingar destes bastardos, principalmente da minha inimiga, seja ela quem for”.
Um homem que parece ser um soldado me guia até um dormitório ali perto, assim que entro vejo que é muito simples, tem apenas uma cama, uma escrivaninha na cabeceira com um relógio e um abajur, mas eu na ligo para simplicidade do lugar, era tudo o que eu precisava no momento.
Assim que me deito, adormeço, tenho pesadelos, em um deles eu atirava em uma pessoa, mas eu sentia que eu a conhecia e isso me aterrorizava, até que ele muda novamente e dessa vez a mesma garota de cabelos negros aparece chorando, eu tento dizer algo, mas minha boca não se meche, meu corpo não se move e um caixão aparece ao meu redor no momento em que ela desaparece, pela abertura vejo um céu muito escuro e algumas pessoas, então terra começa ser jogada em mim enquanto meu caixão vai sendo baixado, até que eu não vejo o lado de fora e o calor sufocante me mata.
Acordo de um salto, olho no relógio na cabeceira da cama e vejo que tinham se passado duas horas desde que eu adormeci, não sinto o menor sono, então vou treinar novamente com os pesos na sala de treinamento.
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