Proibida Pra Mim
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Notas iniciais
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Scorpius Malfoy
— Não importa pra mim se você está ferrado, Malfoy, me ouviu? Você vai correr pelo meu time e ponto final, dane-se você! — Ernest, o treinador, cuspiu em minha cara.
Tentei disfarçadamente limpar meu rosto e continuar impassível. Eu queria dizer que adoraria participar do jogo, era meu objetivo, porém meu corpo doía, estava debilitado e, além disso, eu estava suspenso.
— Treinador... Estou suspenso, se lembra? — preferi ocultar a parte em que correr me doía os ossos, porque certamente ele me entupiria de analgésico e, ainda assim, eu correria.
— Dane-se você, Malfoy! Entrei em uma briga com Minerva para autorizar você em campo e, olhe só, eu ganhei!
— Não sei por que fez tanto esforço. — comentei, com um pequeno sorriso diante do velho treinador à minha frente. Ele sempre fora assim, irritado, barulhento, mascarava seu afeto com palavras grosseiras.
— Porque você é a porra do meu corredor, Malfoy, agora saía da minha frente e não me apronte mais nenhuma, ouviu?
— Ouvi, treinador. Será que tem algum remédio por aí? — arrisquei a pergunta porque, diante da possível dor do jogo, eu preferia perguntar ao treinador pelos remédios.
— Não, não tem, seu paspalho! Está sabendo que nosso campo ficou comprometido pelo tempo, não sabe? Estaremos indo para uma arena em Hogsmeade, um ônibus irá levar os alunos e ficaremos lá. Tivemos que adiantar todos os jogos para não comprometer o cronograma da escola e das férias, pois então já arrumaram tudo! Faça suas malas, Malfoy, ficaremos dois dias!
Assenti e saí. O treinador virou sua atenção para os outros do time e pude procurar os remédios em sua bolsa. Sempre era assim, ele ainda me achava mexendo em suas coisas e fingia não ver, de toda forma, eu precisava, mais do que nunca, daquilo.
O primeiro jogo seria da Sonserina com Corvinal, provavelmente jogaríamos quatro vezes nesses dias só pelo fato do campo estar comprometido. Vi, num mural em um dos corredores, a programação. Seriam dois jogos masculinos e dois femininos por dia para que tudo se encaixasse e fiquei me perguntando onde se alojariam tantos alunos na cidade vizinha.
— Ah, finalmente te encontrei, Scorpius. — Kellen Brice, com seus cabelos azuis, surgiu ao meu lado. Segurava o caderno de desenho contra o peito e estreitava os olhos para me olhar.
— A que devo a honra de ser procurado pela senhorita?
— Ah, por nada — ela deu de ombros, e notei que não queria falar. — Vai ficar suspenso do jogo? Soube que vamos para Hogsmeade?
— Ernest conseguiu me colocar dentro. Como vai funcionar esse lance? — perguntei quando me dispus a andar para nosso dormitório a fim de fazer as malas, com Kellen em meu encalço.
— Só os alunos que passaram nas provas vão. Dentro desse grupo, só vai quem quer, então não é tanta gente assim. Ouvi dizer que ficaremos em um acampamento que armaram na arena.
— E você? Vai ficar sozinha aqui, gostaria de ao menos ficar com você. Ainda preciso fazer as malas, acredita?
— Ah, mas eu vou pra arena, Scorpius. — eu a olhei, espantando.
— Mas você nunca gosta de sair! O que houve?
— Estou preocupada com você — Kellen confessou. — Ainda está todo machucado, olha esse rosto! Prefiro ficar por perto, você sabe, eu luto melhor do que você.
Tive que gargalhar de minha amiga.
— É claro, será minha segurança, então, lutadora de boxe?
— Pode apostar. — Kellen sorriu, um pouco mais do que os sorrisos que eu estava habituado a ver nela e me surpreendi em ver como ficava bem mais bonita assim. Parecia mais leve e relaxada.
— Vou trazer minhas roupas aqui para baixo e minha mala, então você me ajuda a arrumá-la, tudo bem? Já que não pode subir.
— Estarei esperando então!
— Pegue o ferro porque vai passar algumas roupas! — eu brinquei enquanto subia as escadas, mas escutei seu xingamento e fiquei alegre em poder dividir mais tempo com ela.
(...)
— Vou levar sua mala, ok? Sou um bom amigo, pode me agradecer. — Thomas exclamou enquanto equilibrava duas malas nas mãos a caminho de um dos ônibus que nos levaria para a cidade.
— Aí serão três! Cuidado, Thomas! — gritei quando o vi quase tropeçar pelo caminho.
— Já estão brigando? — Kellen apareceu ao meu lado, me ajudando a andar mesmo que eu tentasse dispensar ajuda. — Deixa de ser teimoso. Estou aqui pra ajudar, Scorpius.
— Não precisa, estou melhor. Olha, consigo andar — me separei dela para que me notasse. — E outra, preciso passar uma imagem de viril, quer que meu time perca? Ernest arrancaria meus olhos!
— Tão idiotas... — Kellen revirou os olhos. — Mas você vai com quem no ônibus? Já está falando normal com a Weasley?
— Somos namorados, vou até procurá-la — falei, soando até mais emburrado do que eu me sentia. — Será que assim, à luz do dia, pareço feio e ela vai me rechaçar?
— Mas você não diz que é bonito até se fosse do avesso? Você já está quase assim — Kellen riu.
— É por isso que você é minha amiga, sempre têm as melhores respostas! Agora, faça um favor pra mim e olhe minha mala que Thomas acabou de levar, estou com medo de chegarmos lá e ficar sem roupas.
— Pode deixar. Vou até lá, vai atrás da Rose.
Estranhei Kellen aceitar naturalmente o fato de dividir um espaço com Thomas, mas aproveitei a trégua. A verdade era que eu ficava satisfeito em tê-los sem brigas, afinal eram muito importantes pra mim, de forma qualquer tentativa de paz já me deixava aliviado.
— Rose! — gritei no meio do jardim, cheio de alunos, quando vi a cabeleira ruiva que estava procurando.
— Seu maluco! — Rose se virou e sorriu. Caminhou até mim e deixou uma Lily Potter de braços cruzados que me deu língua, a qual retribuí com os dedos acenando.
— Estava à sua procura, não me importo em chamar atenção, olhe só pra esse rosto e perceba — brinquei com Rose quando ela me abraçou.
— Não faça piada disso, Malfoy. Ainda dói muito? — ela fez uma careta preocupada.
— Que nada, o importante é se você ainda me acha bonito. E então?
— Ainda dá para o gasto! — Rose fez pose e tratei de dar um beijo em seus lábios, outro em sua bochecha e outro em sua orelha. — Pare, Malfoy, estão olhando!
— Que vejam, não? Está com vergonha? Com quem vai no ônibus?
— Pensando assim, é até bom que essas lambisgoias vejam que você está comigo e parem de nos olhar! Ficam te secando o tempo todo!
— Nuca achei que a Rose Weasley falaria lambisgoias no lugar de vadia, mas está ótimo. Não me respondeu, furacão.
— Ah, estava justamente explicando a Lily que ela teria que criar coragem e ir com Hugo no ônibus, porque sempre foi assim entre eles e que eu iria com você, não é?
— Que bom que não fui dispensado, vamos então — puxei Rose pela mão para que entrássemos e escolhêssemos um lugar. — Por que a Pimentinha não vai com Alvo? Aquele puto não vai com Thomas, porque já coloquei Kellen com ele.
— Kellen e Thomas?! Nunca imaginei — Rose arregalou aqueles olhos azuis e dei um beijo na ponta de seu nariz só para que ela se desconcentrasse.
— Não é desse jeito que você está imaginando — eu tive até que rir da ideia. — Ela vai inspecionando minha bagagem que o idiota levou.
— Não sei como Alvo vai, talvez Lily o chantageie para ir com ela e, mais uma vez, ela fugir do meu irmão. Coitadinho, acha que Lily não me contou que se beijaram.
— Pimentinha beijou seu irmão? — perguntei chocada com os babados. — Esta sua família é bem aberta.
— Longa história, Scorpius, longa. — Rose suspirou e se encostou em seu assento perto da janela. Ela se virou e pediu para que eu pegasse seu fone de ouvido.
— Já quer esquecer que tem companhia?
— Não quer ir escutando música com a melhor companhia? — ela rebateu, me sorrindo de um jeito que não pude evitar sorrir também.
— Tá bom, me venceu. Bom argumento.
— Prepare-se para minha playlist em espanhol! Adoro!
~~°~~
Lily Luna Potter
— Alvo, por favorzinho, não seja mau comigo! — tentei mais uma vez persuadir meu irmão, mas ele deu de ombros. — Depois você estranha quando dou mais carinho pro James! Ele é mais solícito comigo!
— Ele mima você demais, às vezes. Essa é a diferença, Luna, agora, para de pedir pra sentar comigo que eu vou esticar minhas pernas pra deitar! — meu emburrado irmão mais velho ralhou comigo e ainda fechou os olhos.
— Pare de fingir dormir, Alvo!
— Você também é chata comigo, Luna. Olhe esses bancos aqui atrás, vazios! — Alvo apontou para os dois últimos bancos do ônibus, que ficavam atrás do dele. — Por que não fica aqui? Ainda vai poder fazer que nem eu e ficar sossegada porque estamos no fundo do ônibus.
A verdade era que eu não queria dar azar ao destino e o único lugar a sobrar fosse ao meu lado e pertencesse a Hugo. Mas estava difícil convencer meu irmão a qualquer coisa.
— Te odeio, Alvo, vou dizer a mamãe de toda essa sua ruindade. — bati o pé e bufei. Ele conseguia me tirar do sério só para me provocar como se comprovava ali, que satisfeito por minha desistência, sorriu.
— Papai andou escrevendo algo pra você? — a atenção dele se voltou pra mim depois que, resignada, fui me ajeitar no banco atrás do seu. Estirei meu dedo do meio para Algo, enviando respondê-lo. — Tudo bem, Lily Luna, eu desisto de procurar informação que claramente não querem me dar!
Dando uma de doido — já que eu não sei por que ele ligava tanto pra isso de correspondência de repente -, meu irmão se jogou em suas duas poltronas e deu uma de egoísta e fechou os olhos.
Tentei continuar a fazer pequenos barulhos de irritação para que irritassem a ele, uma hora ele se renderia, mas Alvo não teve nem chance de se estressar, porque, quando eu me abaixei para abrir minha mochila no chão, ouvi a voz de quem eu estava fugindo há dias.
— Alvo, posso dividir a cadeira com você? É que já está tudo cheio e... — Hugo parou de falar quando me notou logo atrás.
Pigarreou e voltou a olhar para meu irmão. Fechei meus olhos fortemente, talvez desejando que o chão me engolisse ou que alguma mágica acontecesse e Hugo desaparecesse da minha frente.
— Ah, Hugo, você também? Não tô dividindo banco porque vou descansar na viagem, a Lily tá aí atrás, divide com ela porque ela já estava enchendo meu saco pra ter alguém com quem dividir. — meu adorado irmão se pronunciou e voltou a se fingir de morto.
— Er... Posso passar, Lily? Se importa? — Hugo me direcionou a palavra e tive que abrir meus olhos, afinal, eu não podia dizer que era cega já que ele me conhecia desde pequena.
— Na verdade... — Eu estava pronta para arrumar uma desculpa, tal como uma doença contagiosa para afastá-lo, mas Alvo exclamou:
— Não se importa nada, Hugo, quê isso, vocês cresceram juntos e andam colados, por que não? Lily é bastante chata, não sei como aguenta também. Senta logo que já vamos partir.
Hugo deu um riso sem graça, o rosto ficando vermelho, mas Alvo nem viu. Tive que afastar minhas pernas para ele passar, não me lembrava de Hugo ser tão grande a ponto de roçar as coxas em minhas pernas e me deixar com o coração na boca.
Meu Deus, eu disse a Rose que sofria de ataque cardíaco, e ela não me levou a sério!
— Alvo, se eu por acaso morrer diga a Rose que ela é a culpada.
Meu irmão não deu a mínima para meu pedido de socorro travestido de sussurro e, do nada, o ônibus deu partida. Hugo, que estava em pé ainda, quase caiu com o movimento e a risada escapou de meus lábios sem querer.
Era uma mistura de nervosismo com diversão. Ele me olhou novamente, um pouco chocado, mas não disse nada. Sentou-se e arrumou a mochila no chão. Voltou com um livro nas mãos para se recostar na cadeira.
Desviei meu rosto também, quase não acreditando na minha sorte. Alguém lá em cima brincava muito com a minha cara.
— Tá tudo bem? — minha tentativa de respirar normalmente foi interrompida por Hugo. Abri um olho para fitá-lo de lado.
— Que foi?
— Sei lá, você está meio verde, Lily... Tudo bem?
Não, estou tremendo e com vontade de vomitar meu almoço em meus pés.
— Tá, tá sim. Deve ser impressão sua. — minha voz saiu falha e com uma risadinha escrota no final. Um pouco de vergonha me cobria por inteira, além de uma leve dor no peito.
Certamente era pelo meu ataque cardíaco iminente, mas também deveria ser algo relacionado ao fato de eu me sentir uma estranha ao lado da pessoa que foi meu melhor amigo durante toda minha curta vida.
Era triste.
Ele voltou a falar.
— Você não quer conversar?
Tornei a abrir os olhos.
— Ahn... Não sei. — minha sinceridade era mais forte do que minha sanidade. — Que livro é esse?
— Ah, esse? É uma compilação de músicas brasileiras, você sabe.... Eu treino meu português. — Hugo encolheu os ombros. Parecíamos dois estranhos conversando e certamente era compreensível.
Era tudo culpa minha e agora eu só queria desaparecer de algo que tinha causado. Como eu consertava?
Suspirei.
— E você está gostando?
— Sim, são muito boas. São famosas músicas populares brasileiras. Acho, pelo menos era o que dizia em algumas resenhas que procurei.
— Ah, sim. — engoli um bolo na garganta. Hugo deixou a conversa morrer e voltou sua atenção para o livro, estava marcado já no meio, e eu, ao ver a cena, fui transportada para outra realidade.
Parecia que foi em outra vida na qual eu e Hugo nos sentávamos na grama, em um sofá ou até mesmo ao redor de uma mesa, com algum livro que gostávamos, e ele lia enquanto eu prestava atenção.
Adorava a voz dele, a atenção com que lia e o gosto que fazia em interpretar cada parte do livro. Fazia vozes diferentes, exprimia emoções em suas falas e eu terminava rindo em alguma parte por conta de sua atuação. A gente se divertia, ria de algumas partes, reclamava de outras tantas por conta de idiotices dos livros, mas acabávamos por terminar e buscar outro.
Era assim: ele lia, eu escutava e o observava. Da mesma maneira, ele fazia agora, porém estava calado. E aquela constatação me mostrava que, se antes eu não queria que nada mudasse só pelo fato de me sentir possessiva com ele, isso não importava mais porque já tinha mudado. Em minha tentativa de manter tudo igual foi aí que levou à mudança.
— E ai, não quer ler essa música pra mim? — as palavras voaram de minha boca com tons de nostalgia.
Morro de saudade da gente, Hugo, me desculpa por estragar tudo...
— Ahn.. você quer mesmo escutar? — ele me fitou, a covinha mostrando que estava viva e me aquecendo a ferida que não sabia que tinha.
— Ah, pode ler, estou um pouco entediada mesmo — dei de ombros, tentando transparecer indiferença, mas minhas mãos tremiam.
Hugo pigarreou e traduziu em inglês:
"Meia noite no meu quarto
Ela vai subir
Ouço passos na escada
Vejo a porta abrir
O abajur cor de carne, o lençol azul
Cortinas de seda, o seu corpo nu
Menina veneno, o mundo é pequeno demais pra nós dois
Em toda cama que durmo só dá você
Só dá você.
Seus olhos verdes no espelho
Brilham para mim
Seu corpo inteiro é um prazer
Do princípio ao fim
Sozinho no meu quarto
Eu acordo sem você
Fico falando pra paredes
Até anoitecer
Menina veneno
Você tem um jeito sereno de ser
E toda noite no meu quarto vem me entorpecer
Me entorpecer."
Sua voz terminou e o silêncio se entrepôs em nós. Mordisquei minha bochecha por dentro, sentindo um rubor tomar conta de meu rosto e paramos de nos olhar.
Mais um momento estranho pra compartilharmos, pensei amargurada.
— Dizem que a diferença entre veneno e remédio é a dose.
Hugo me olhou de soslaio. Ficou uns segundos calado, talvez pensando qual doença eu teria contraído para agir como uma maluca, até que abriu um sorriso, a covinha ali também.
— É verdade.
Puxei a respiração com mais força, porque talvez meu ataque cardíaco fosse me matar mais cedo, não notei que ele tinha se aproximado. Até que virei meu rosto para olhá-lo, e Hugo já estava a centímetros de mim.
— Menina veneno. — as palavras bateram em meu rosto, bem próximas.
Sua boca contra a minha e tudo pareceu girar. Era a segunda vez que o beijava, mas era diferente. Da primeira vez, eu o beijei para calar minha vontade louca, e ele ficou surpreso, reagiu, sim, mas tinha confusão em nossos movimentos.
Dessa vez, porém, havia certeza. Não sei se minha ou dele, mas estava ali, entre nossas línguas e nossas mãos, entre um silêncio que queríamos guardar, um sabor de proibição que nos atiçava mais.
Separamo-nos depois de acabar o fôlego e nos olhamos, diretamente, sem fugir. Hugo sempre foi como um espelho pra mim e ali ele estava tão claro quanto eu. Me assustei em ver meu desejo espelhado nele, como também o medo que surgiu nele.
Afastamo-nos e cada um voltou para seu mundo, como se uma muralha tivesse sido erguida entre nossos bancos e seguimos assim até o final, quando pude correr para meus aposentos.
~~°~~
Rose Weasley
Eu fechava meus olhos e conseguia repassar as inúmeras cenas de Scorpius se agarrando com mais de uma garota pelos corredores de Hogwarts desde nosso primeiro ano. Tudo bem, eu nem o conhecia, não sentia nada, nem me importava, mas agora, com uma ligação entre nós, eu presenciando o assédio em cima dele, não conseguia me livrar dessas lembranças e me condoer.
A verdade era que, desde chegamos, Scorpius precisou seguir com o time de rugby e seu treinador, e o resto das pessoas como eu fomos arrumar os aposentos. A arena na cidade era um enorme campo em aberto e, por sorte, o tempo não tinha fechado. O problema era que as arquibancadas tinham lotado facilmente com alunos de escolas da região, de forma várias meninas estavam bancando de histéricas ao redor dos times que iam estrear a partida.
— Não precisa se corroer de ciúme, prima — Lily murmurou ao meu lado. — Depois você dá o troco. Nosso time joga hoje e, sinto te dizer, mas você saí da reserva porque a Kate está vomitando na barraca dela.
— O quê? Como é que é?
— Ué, você não sabia? — Lily me olhou inocentemente. — Achei que já tinham te avisado. Vamos lá botar nossos shortinhos e chamar atenção que logo esse seu ciúme vai passar.
Não tive outra alternativa a não ser seguir minha prima, que empurrava o mar de pessoas à nossa frente.
— Pronto! Eu estou gatíssima! Vai, Rose, não estou?! Aposto que saio com um namor...
Lily parou de falar de repente e engoliu ar.
— Que foi? Gato comeu sua língua?
— Não, nada, esquece. Vai, vem. — minha prima balançou a cabeça e me puxou pela mão. De fato, estávamos com a roupa do jogo que, no momento, trazia o frio por todos os poros. Quando começássemos a correr, porém, não incomodaria.
— ISSO AI, VAMOS! — Lily gritou quando alcançamos nossos lugares e o jogo masculino já estava em curso.
Meu coração parecia saltar toda vez que via cada embate com Scorpius. Ele ainda estava machucado e, assim, tudo piorava. Assistimos ao momento em que ele alcançou a bola, conseguiu fugir de dois jogadores, porém mais dois o encurralaram e foram ao chão.
— Puxa, essa deve ter doído! Sinto muito, Rose, não faz essa careta!
— Não posso, ele deve estar com dor.
— Faz parte. Você sabe que ele gosta do esporte. — Lily tentou me confortar. Apesar de todas as pancadas que Scorpius levou e o resto do time também, acabaram por vencer a Corvinal e pareceu ser o estopim para um grupinho de menininhas que cercava os jogadores recém saídos de campo.
— Parabéns, meninos! — entoavam e eu não conseguia me impedir de ficar nervosa. Scorpius sorria, o mesmo riso que sempre deu a todas elas e me enfurecia. Sei que era novo pra ele namorar e largar velhos hábitos, e mesmo assim, eu não conseguia pensar direito.
— Eu vou lá agora ver como ele está, Lily.
— Quê, ficou maluca?! Vamos jogar agora, Rose, Scorpius sabe onde tem remédio e gelo, o time precisa de você!
— Não está vendo aquele bando de garotas cercando eles?! Não posso nem me controlar, estou ficando paranóica!
— Rose, escuta — Lily me virou de costas para a cena e me segurou pelos ombros. — Sei que eu brinco demais com isso, mas vou falar sério. Você vai ter muito ciúme com ele, olha só como ele é, pelo amor de Deus, ninguém é cego, principalmente com a fama dele. É a primeira vez namorando e apaixonado dele, nós sabemos, então vai ser difícil lidar com isso, mas tenta ser racional pra equilibrar, tá legal? Você já namorou, tem experiência com esse lance de compromisso, pega leve. Tem coisa também que Scorpius vai ter que fazer sem você ordenar.
Tive que suspirar e compreendi as palavras de Lily.
— Você mais nova que eu e tão sábia. Obrigada, Pimentinha. Aposto que quando você namorar, vai ser o tipo de casal super estável.
Lily gargalhou quando me abraçou.
— Acho difícil arrumar o namorado, mas vamos lá. Eu tenho meus momentos dando uma de papai, mas sou mais a mamãe. Impulsiva, pelo menos é o que dizem dela e ela nega até a morte, né?
As meninas entraram em campo e fiz o que sempre treinei com elas durante o tempo. Foi diferente porque havia pessoas torcendo por nós, a vibração de fazer parte da partida pra valer. Fui ao chão muitas vezes, mas não me assustei. Lily deu um show e já tinha até fã clube entoando seu nome.
A Grifinória feminina venceu a Lufa-Lufa e foi um alívio o fim do jogo. Meus músculos doíam, estava suja e só queria deitar. Lily ria para todos, mesmo que sua mão estivesse sangrando.
— Eu amo tudo isso!
— Você é maluca. Vamos voltar? Infelizmente, a Grifinória joga com Lufa-Lufa, masculino agora.
— Vamos sim, apesar de estar destroçada. Alvo me mataria se não o assistisse e eu preciso rir das quedas dele.
— Não vai torcer pelo meu irmão? — indaguei. — Por acaso tem algo acontecendo que eu não sei?
— Quê, ahn? — Lily deu uma risadinha forçada. — O que teria? Nada, nada, vamos para o jogo.
— É que você ficou meio verde e..
— Não me fala isso! — Lily gritou. — Aí meu Deus, vamos assistir e nem pensar em falar de veneno, hein?
Fiquei atordoada com minha prima, mas relevei. Ela era meio maluquinha às vezes.
Depois de incontáveis minutos de torcida, os meninos também venceram a partida. Eu decidi que não aguentava mais e preferi ir tomar banho. Entre o acampamento de Hogwarts, havia tendas com bebidas e comidas além de pontos com música.
— Sabia que vai ter fogos?! O pessoal de um colégio daqui da cidade está torcendo em peso pelas casas vencedoras de hoje e arranjaram todo o show! — ouvi uma menina comentar com a outra toda animada enquanto seguia meu caminho.
Depois de arrumada, a fome bateu e não pude voltar para minha barraca e dormir. Entre o pessoal pelo qual eu tentava passar para chegar às comidas, procurei por Scorpius e sua cabeleira prateada. Era meu namorado e não era estranho eu querer vê-lo.
Mas quando achei, desejei não querer ter feito.
Lá estava ele em uma roda com pessoal do time e mais um monte que eu supunha ser da cidade. Para meu desgosto, mais meninas que o normal, algumas em cima dele. Bufei, irritada demais e preferi nem interromper, se ele não me procurava, não seria eu a fazer isso.
— Rose? Rose! — ouvi sua voz e tentei apressar meus passos, mas o aglomerado não me permitia. — Ei! Oi, furacão, parabéns pela vitória.
— Você está bêbado?! — soei surpresa por notar o sorriso lânguido em seu rosto.
— Só estava comemorando, Rose. Tudo bem?
— Está, está tudo ótimo, Scorpius. Pode me soltar agora? Acho que seu grupinho está te esperando.
— Mas do que você está falando...? Rose!
Daquela vez eu me soltei até chegar em um local mais calmo e Scorpius me alcançar.
— Rose, por que está agindo assim? Nem vai me dar os parabéns?
— Ah, parabéns pelo jogo. — cuspi as palavras, tentando não notar seu rosto machucado.
— Vai falar assim comigo? O que houve? — seus dedos dedilharam meu rosto.
— Nada, Scorpius.
— Fala, Rose, não adianta ficar com esse bico.
— Mas eu não quero falar, entendeu? Me deixa — tentei sair novamente, mas ele me apertou mais forte. Estava com os olhos semicerrados e me falou duramente:
— Para de fugir da gente que não é assim que vamos resolver as coisas.
— Ah, é? Eu estou fugindo agora? E você, Scorpius, que não sabe o limite de flertar com outras pessoas porque está em um relacionamento sério? E você que não liga ou se importa comigo pra vir atrás de mim sem que antes eu tenha ido atrás? Será que isso vale pra você?
Aquilo pareceu impactá-lo, pois suas mãos deixaram meus braços. Piscou várias vezes e levei um tempo para me recompor e controlar minha raiva.
— Não é a primeira vez que te vejo sorrindo e consentindo ser assediado, Scorpius, e não é nada legal. Não é legal sentir o ciúme e tampouco aguentar sua passividade diante de outras meninas. Eu não vou me meter em uma briga por sua causa, por causa de ninguém, porque você é racional o suficiente pra falar algo contra o que esteja afetando o seu relacionamento. Você por acaso está esperando uma namorada que agrida as garotas que estão te paquerando quando você também sorri pra elas? Está enganado sobre mim.
— Não, Rose, eu não... Rose, eu só não ligava, sabia que se respondesse seria errado, mas sei lá, não achei que fosse ruim achar engraçado e ficar calado.
— Acontece que a omissão também é crime.
— Não quero que se meta em briga por mim. E também sei que aquela briga no colégio era desnecessária, não controlei meus impulsos e não precisa esfregar na minha cara.
— Que? Não estou fazendo isso! Estou explicando a situação pra você, Scorpius, não vê? Vou ficar chateada um monte de vezes, vamos brigar um monte de vezes e nem por isso estarei esfregando esse negócio na sua cara! Já te disse que isso não me importava.
— Não parece. — Scorpius endureceu o maxilar e deu um passo pra trás. — Parece que está disposta a me mostrar o quão idiota eu fui e tenho propensão a ser. Desculpa também não reagir e puxar mais briga por conta do nosso namoro.
— Puxar mais briga? Quem falou isso?! — exclamei, totalmente frustrada por não estar sendo compreendida. Então pensei que relacionamento era isso mesmo: alguma raivas e conflito de personalidades e opiniões. Teríamos muitas daquelas e não seria na primeira que eu sairia correndo porque borbulhava de raiva do mesmo ser que me fazia me apaixonar.
Respirei fundo duas vezes, à frente de um calado e aparente furioso Scorpius, só para me recordar do que eu gostava nele e que nossa situação atual era uma besteira e passaria.
Os olhos dele, as mãos dele, a forma que me abraçava e me dizia que tudo ficaria bem....
— Acho que você não tem mais nada pra dizer.
Suspirei, derrotada. Pelo menos a raiva tinha ido embora de mim, mas não dele. Eu não podia fazer algo que só ele deveria fazer por si mesmo. Ainda viveríamos muitas brigas e ele deveria saber se acalmar sozinho.
— Não, acho melhor a gente conversar depois, Scorpius. Vou indo pra minha cama.
Scorpius, ainda com o rosto rígido, só balançou a cabeça uma vez. Eu estava dando a volta por ele quando ergui minha cabeça e me deparei com uma figura inusitada.
Era como um Scorpius em uma versão antiga.
— Rose Weasley? — a voz clara e alta me fez parar no caminho e fez Scorpius se virar para fitar o pai numa rapidez impressionante. — Você é idêntica a sua mãe. Exceto pela cor dos cabelos e dos olhos.
Pisquei aturdida demais. Ele me conhecia? Como? Não tive tempo sequer para responder porque Scorpius se moveu e ficou à minha frente, me colocando para trás de seu corpo com um único movimento do braço.
— Pai, o que está fazendo aqui?
— Preciso conversar com você, Scorpius. Percebo que está ocupado.
— Não, não estou. Ela é... Rose estava de saída. Vai, Rose. Depois a gente conversa.
Não entendi o que estava acontecendo, mas havia algo. Fiquei sem palavras diante do transtorno que Scorpius refletia nos olhos, porém não pude fazer nada. Nem me referir como namorada na frente do pai ele havia conseguido e ainda demonstrava que me queria bem longe.
Engoli o bolo na garganta e assenti. Era melhor que fosse, conversaríamos em outro momento.
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