Proibida Pra Mim
2 01.
Notas iniciais
01|
Eu me lembro de como ela me olhava. Eu não era muito velho, porém nem bebê. Já tinha discernimento pra saber que aquele olhar vindo de duas esferas índigas era da mulher por quem eu chamava de mãe.
Eu corria para ela quando me acidentava ao brincar no quintal da mansão Malfoy, e ela sempre trazia curativos e um doce para eu não chorar. Falava toda hora que me amava, que eu era seu menininho.
"O papai também ama muito você, meu amor, ele só precisa passar esse tempo todo trabalhando para nos dar uma boa vida." ela dizia quando eu perguntava por Draco, que raramente estava presente. De vez em quando, eu sentia seu beijo de boa noite quando eu já tinha ido para a cama.
Enquanto eu crescia, ficando a cada dia mais parecido com ela, com os cabelos tão claros quanto, lisos e rebeldes, herdando seu porte altivo e independente, seu olhar marcante e sorriso cativante, meu pai foi aparecendo mais em minha vida.
Draco comumente tirava fotografias nossas, dizendo o quão versão masculina eu estava me tornando de Cassiopeia Malfoy.
Outra coisa que não esqueço dela: seu nome.
Embora a família de meu pai tenha a tradição de nomear seus herdeiros por constelações, e como ela era uma prima distante do ramo da família Malfoy recebera seu nome tal como, minha mãe adorava que a chamassem de Cassy, um nome tão comum, mas que soava como ela. Rápido e leve. Grudava na boca.
Ela me criava debaixo de suas asas e sempre demonstrava o quanto queria me presentear com um irmão.
"Para que nunca se sinta sozinho quando eu e seu pai nos formos."
Como ela estava certa!
E infelizmente, essa ideia a tirou de mim.
Criança ainda, eu não entendia por que ela queria tanto um outro filho se me tinha, a qualquer hora e momento, e por que chorava tanto quando descobria que perdia os que tinha conseguido.
Eu tentava consolá-la, claro, odiava vê-la chorar e aprendi a mimá-la do mesmo jeito que fui mimado. Dava flores do jardim, fazia desenhos com corações, dava abraços e beijos. Dizia o quanto eu a amava e que a faria feliz só por mim.
Cassy ria sempre depois de chorar.
"Você é adorável, meu amor. Sorte da mulher que dividirá a vida com você."
Um dia, ela chegou sorrindo ao lado de Draco, já com uma barriga imensa. Eu me assustei, disseram que era minha irmã.
Fiquei com ciúmes, mas ela foi me adaptando e fazendo desejar aquela bebê antes mesmo de nascer.
Então, quando saiu para fazer compras, foi atropelada por um homem bêbado irresponsável. A bebida daquele homem levou a pessoa que mais me fazia feliz todos os dias, que me educou a ser o mais doce garoto que conhecera.
Aquele homem levou minha mãe e minha irmã. E ainda, mesmo que não fisicamente, meu pai.
Aos oito anos, eu entendi que a morte das únicas mulheres da família tinha destruído meu pai. Draco se afastou dos negócios, da casa, de mim.
E eu estava sozinho.
Como eu queria aquela pessoa que minha mãe prometera que seria meu companheiro para quando ela se fosse. Mas eu estava só e teria que lidar com isso, porque até meu pai se rendeu ao álcool para não ficar lúcido o suficiente e se lembrar de tudo que perdeu.
Fui me criando sozinho, distante do pai e perto de governantas, com tanto dinheiro da família mas que de nada me serviam. Eu já não lembrava do rosto de Cassy e chorava toda noite com medo de esquecê-la.
Até entender que não adiantava chorar, nada mudaria. Eu tinha que lidar com a perda dela e seguir em frente, mesmo que isso significasse esquecer tudo que eu tinha aprendido sobre ser um exemplo de garoto, bondoso, prestativo, amoroso.
Eca.
Tudo isso me doía por lembrar o que eu tinha perdido.
Já não me importava em cumprir as regras, afinal, elas não me levavam a lugar nenhum e nem me tornariam melhor. Cresci impossível e meu pai, já sem responsabilidade, me entregou aos meus avós que me puseram o mais longe de casa pelo maior tempo que fosse: um internato renomado em algum condado da Inglaterra, mas longe de Londres, longe deles.
O Instituto Hogwarts ficava em uma área tão longínqua que íamos de trem, passávamos por uma paisagem verde, verde, sem resquícios de modernização. Era um castelo, uma grande área.
Uniformes postos, 11 anos de idade nas costas, um temperamento explosivo. Esse era eu. Afastava a todos porque não queria laços, não iria me apegar as pessoas que me deixariam vulneráveis a perda, que iriam embora ou me expulsariam de suas presenças.
Todavia, ao sair do trem após a chegada das férias de fim de ano, eu vi um garoto enroscado na mata do caminho.
Como eu costumava ir despreocupadamente, eu era o último e se não fosse eu, não teria ninguém para ajudar o magricelo que se esforçava para livrar os sapatos do mato.
— Mas o que é isso? — perguntei quando me aproximei somente para que ele pedisse minha ajuda e eu não precisasse oferecer.
Ele olhou pra mim. Olhos verdes imensos, quase cobertos pelo tanto de cabelo preto em sua cabeça.
— Prendi os sapatos. Droga! Os professores já se afastaram, precisamos ir antes que briguem conosco!
Continuei parado, vendo o menino se contorver.
— Vai ficar ai sem fazer nada?! — o garoto exclamou, me fazendo arquear as sobrancelhas pelo tom. — Precisamos ir antes que fechem os portões! Pode me ajudar?
Eu quase ri de sua cara de desespero, mas resolvi ajudar porque não estava afim de ficar naquele frio. Ao me abaixar, percebi qual o problema e logo ajeitei, supondo que o garoto não tinha conseguido se livrar sozinho porque estava muito ocupado segurando uma mochila imensa.
— Pronto. De nada.
— Nossa. Não espera nem eu agradecer. Obrigado de toda forma. — ele respondeu, ajeitando a mochila nos ombros. Estendeu a mão. — Alvo Potter.
Reconheci o garoto pelo famoso sobrenome que circulou todo o primeiro período de aulas quando iniciei.
— Scorpius. — disse, mas não estendi a mão. Estava mais quentinho dentro de meu casaco. — Malfoy.
O tal Alvo arqueou a sobrancelha, talvez associando também o nome à imagem. Digamos que eu também tinha sido falado, muito, no período anterior às férias.
Diferentemente do Potter, porém, era mal falado.
Só porque ninguém aguentava minhas respostas. Mas afinal, quem fala o que quer, ouve o que não quer.
— Er... É melhor irmos. — Alvo respondeu e se apressou à minha frente, quase correndo, o que fez com que uma bola caísse de sua bolsa meio aberta.
Busquei a bola, porém ele já estava muito longe. Eu teria que devolvê-la depois, infelizmente.
Observei-a com atenção, era muito bonita e estava assinada. Compreendi que Alvo queria seguir na carreira de rugby o qual o colégio proporcionava.
Que engraçado. Ele era tão franzino quanto eu e ainda assim queria fazer o esporte.
Aquilo me fez pensar e chegar a conclusão que eu não devolveria a bola, mas treinaria com ela porque me interessei. E se Alvo a quisesse, que viesse buscar.
Uma semana depois, ele me abordou num corredor após a aula conjunta com sua casa (o colégio tinha a estúpida ideia de dividir os alunos em quatro casas, dormitórios e uniformes separados, a fim de "incentivar a competição e buscar os melhores resultados de vocês mesmos").
— Malfoy! Ei, Malfoy!
Parei de andar para olhá-lo.
— Você viu uma bola de rugby? Porque eu estava com a minha, mas andei procurando a semana toda e não sei se você a viu e...
— Tá bom, tá bom, Potter, está comigo. Caiu da sua mochila no dia em que voltamos das férias.
— Ah, é? Bom, fico aliviado em finalmente achar! Por que não me procurou para entregá-la?
Pisquei lentamente.
— Oras, porque é sua.
— Mas se você sabia que era minha, não custava nada me procurar e-
— Potter, você já a encontrou. Na próxima aula de educação física, eu a levo.
Alvo pareceu atordoado.
— Ahn... Tudo bem. Obrigado.
Ri de leve quando o vi se afastar e me culpei um pouco por não ter entregue.
Da outra vez em que o encontrei, ao fim da aula conjunta entre a Sonserina e a Grifinoria, Alvo veio me perguntar como eu fazia um lançamento tão bom no jogo.
Por insistência dele, diga-se de passagem, eu concordei em ensiná-lo o que eu tinha treinado arduamente, e durante o resto do ano, entre treinos e conversas malcriadas da minha parte, Alvo Potter demonstrou uma paciência inabalável para lidar comigo e meu temperamento.
Foi assim que eu conquistei o tal irmão que Cassy sempre quis pra mim.
Eu só não sabia que depois de cinco anos de amizade, por causa desse tal irmão, eu teria a maior dor de cabeça da minha vida em formato de um furacão ruivo.
Prima do meu melhor amigo, prazer,
Furacão ruivo,
Rose Weasley.
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