Profº Oddelier e os Recontos do Senhor das Trevas
6 Capítulo 5 – Medibruxaria
Notas iniciais
O quarto estava quente quando acordou, mais do que o usual, e suor escorria por todo o corpo. Na cama, havia uma grande “sombra” de suor marcado pelo corpo do idoso. Aquele quarto não era tão bom quanto pensou, não sentia conforto e a cabana na Cornualha fazia falta.
Levantou com um pouco de dificuldade, caminhou lentamente até a mesinha da janela e se sentou. Tinha um certo prazer em tomar café, ali, em seu quarto, pelo custo de dois sicles posicionados propositalmente dentro das vestes de um dos elfos dométicos da cozinha. O silêncio confortava, ao contrário dos alunos fofoqueiros que marcavam os olhos e riam, ou alunos medrosos que não faziam perguntas, ou alunos que perguntavam demais e me deixavam ainda mais desconfortável. Ser professor não era fácil.
Olhando em retrospectiva, a semana foi um inferno. Os primeiranistas não tiveram dominação completa de Flipendo, os segundanistas não sabem a diferença entre estuporar e petrificar, os terceiranistas faltam as aulas, os quartanistas só querem saber da minha vida, os quintanistas, no geral, são péssimos com a realização de feitiços. Os sextanistas desenvolveram bem, mas são trasgos na prática. Hoje, sábado, seria minha primeira aula com o sétimo ano. Normalmente, seria sexta-feira às 14h, logo após o almoço, mas uma febre repentina impediu o procedimento, adiando a ocasião.
Enquanto comia um pão com mortadela, comida pouco usual no castelo de Hogwarts, e bebericava chá de hortelã, verificava o diário de aulas. Ali, havia resumido tudo o que daria para os alunos nas próximas oito semanas e a data das avaliações surpresa. A primeira aula para os veteranos seria “Maldições Imperdoáveis”, um tópico que iria queimar na ferida. Teria de se preparar psicologicamente para essa aula.
Uma vez terminada a refeição matinal, levantou o dedo, fazendo levitar os copos e pratos. Jogou tudo pela janela, “pedindo gentilmente” para que a prataria tomasse direção para cozinha. Levantou da cadeira e coxeou até o armário, trocando os pijamas listrados rosa e verde por uma camisa social verde escuro, um saiote escocês tradicional e crocs trouxa. Já tinha sido elogiado por uma estudante “diferentona” do quarto ano enquanto transitava pelos corredores, e aquele gesto, com ironia ou não, teria feito o dia na quarta passada.
Saiu do quarto e adentrou a sala de aula.
Havia organizado do seu modo: o quadro na frente, claro, sem mesa do professor. As carteiras dos estudantes eram sempre separadas, mas decidiu unificá-las em 6 juntas por fileira, fazendo assim os alunos de diversas casas diferentes a sentarem juntos. Não havia tempo para rivalidades.
Pegou o giz, aproveitando que a sala estava vazia, e começou a escrever no quadro – sem o auxílio da magia, desta vez – “Professor Odellier, DCAT, Maldições Imperdoáveis!”, era um garrancho.
Viu o relógio acima de uma janela lateral, alertando ser oito da manhã. A aula só começaria às nove, logo, sentou numa das carteiras da frente. Vasculhou o bolso da camisa e encontrou um pequeno pedaço de pergaminho vazio, estalou os dedos e fez aparecer uma caneta – essa quase sem cor, opaco, sem solidez, revelando ser um feitiço criado pelo idoso – e começou a escrever. Conforme ia escrevendo, o pergaminho aumentava de tamanho, assim ele nunca teria muito espaço em branco. Era uma língua estranha, não era inglês nem espanhol. Francês nem alemão. Ininteligível. No final do pergaminho, desenhou sua tatuagem, uma torre. A torre de Azkaban. Ela percorria o corpo buscando um espaço não coberto pelas roupas, nesse caso, a mão direita. Era um fardo, estava marcado. Endereçou para Srta. Olivaras. Sem endereço, número, residência, onde encontrar, apenas um nome – não sabia se estava viva. Pessoas mentem, se omitem, só teria uma consciência limpa caso tivesse uma conexão de vida com garota, aliás, era um raio de luz no final do túnel.
O tempo estava acabando.
Escreveu coisas sem nexo pelos primeiros três parágrafos, aumentando o pergaminho, enchendo lingüiça com vários trechos de poetas trouxas e pensamentos oriundos dos bruxos da Idade das Trevas. O último parágrafo, esse sim tinha uma relevância adequada para a continuidade da nossa história: “Quando o inverno aparecer, tenho o prazer de convidar a senhorita para tomar uma bebida quente na mais horrível taverna de Hogsmeade. Estou em débito contigo.”
Dobrou e colocou dentro de um envelope roxo, cheio de adornos. Passou a mão sobre o papel, fazendo-o levitar. Uma esfera igualmente púrpura tomava conta do envelope como a mãe ninava um filho – era um feitiço de rastreamento. Uma coisa era mandar objetos para um dos andares inferiores, outra seria enviar uma carta para um lugar desconhecido. Não, precisaria de uma coruja, mas também era vital saber onde a carta estaria.
A paranóia estava voltando. Por anos não tinha um ataque daqueles.
Queria ter o controle de tudo, sem pontas soltas.
Respirou fundo. Estava perdendo o fôlego.
A carta ainda estava no ar, imóvel, apenas levitando. Meia dúzia de alunos adentravam a sala. Um deles, da Grifinória, jogou o professor no chão. Apontou a varinha contra o professor, gritando:
— VISIONARE!¹ — e uma ponta azul de luz permitia a visibilidade do corpo de Oddelier. Os ossos em perfeita condição, apesar da idade. O coração batendo forte, os rins sem nenhuma pedra. Quando o garoto percebeu que se tratava de uma parada respiratória, tornou a varinha para os pulmões do idoso e recitou: — Inflatis!² –
Voltou a respirar, emitindo um som de sufoco ao tomar oxigênio. Tossiu algumas vezes, aliviando tudo que tinha na garganta.
A carta já não estava ali, tinha desaparecido, mas devia a vida para aquele grifano. O que teria sido aquilo? Um ataque? Uma doença? Uma azaração? Não, devia parar de se preocupar. Estava envelhecendo e mais daqueles ataques viriam, era normal. Tomou apoio no septanista para se levantar: onde tinha apenas meia dúzia de alunos haviam cinqüenta, de todos os anos de idades, junto com Horácio Slughorn, Flitwick e duas moças que trabalhavam na Ala Hospitalar. Quanto tempo havia ficado ali? Tempo suficiente para algum aluno descer nas masmorras e chamar Slughorn e acabar tropeçando em Flitwick no primeiro andar. Uns vinte minutos?
— Muito obrigado, Roger. – disse, pouco baixo, olhava para o garoto com um certo orgulho. Deu uma risadinha, aliás, não era todo dia que via um aluno usar dois feitiços avançados. Inflatis só se aprende depois de alguns anos de intenso estudo de Medibruxaria, e Visionare, bem, era um feitiço novo. Pouca gente conhecia, ainda estava sendo avaliado no Ministério. Isso pouco importava. Foi salvo por eles!
— É com regozijo que presenteio o Sr. Roger McKeenes com cinqüenta pontos pela coragem e confiança ao salvar um professor abatido, e outros cinqüenta pela perícia arrebatadora de feitiços de execução dificílima do setor de Medibruxaria. – o garoto sorriu, não tão lisonjeado, mas alguns alunos da Grifinória que estavam na platéia haviam comemorado. De um jeito ou de outro, aquele garoto era especial. Devido às atuais circunstâncias, qualquer um teria deixado-o para morrer.
Depois de alguns minutos de conversa com Slughorn e de um check-out das enfermeiras, parece que não haveria continuidade na aula. Se um ou dois alunos prestassem atenção, poderiam aprender algo com os feitiços do septanista e se interessar mutuamente pela medibruxaria, aquilo já foi uma aula. Talvez os feitiços imperdoáveis pudessem ser mudados para medibruxaria – aprender um ou dois feitiços para diminuir a febre ou de revigor instantâneo seria, no mínimo, excelente, mas isso é assunto para as aulas da semana que vem.
O ataque cansou, debilitou, não havia mais o que fazer. O sábado nasceu em vão (talvez nem tanto), a aula foi cancelada e a cama parecia uma opção saborosa demais para um dia tão salgado.
¹Visionare - Apontando a varinha, permite ver o interior do corpo de alguém. Seus ossos, músculos, bebê no caso de uma grávida.
²Inflatis - Enche os pulmões do alvo de ar, muito utilizado em casos de emergência de parada respiratória.
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