Profº Oddelier e os Recontos do Senhor das Trevas
3 Capítulo 2 - Isenção de poderes
Notas iniciais
Foram três semanas infernais para o inválido. Embora sua estadia no Caldeirão Furado ganhasse o ponto alto de seus dias, passar o resto deles na Travessa do Tranco procurando criaturas mágicas das quais deveria mostrar aos alunos não era algo muito legal. Vez ou outra era abordado por algum curioso perguntando “Delicia-se com as trevas, não?” e vários outros comentários desprezíveis quais Oddelier teve vontade de mostrar o amor que tinha ao falecido Lorde das Trevas azarando seus possíveis seguidores com uma transfiguração rosto-de-bunda.
Ana Abbott, a proprietária, sempre estranhava quando dois homens subiam até o quarto 42 e empilhavam várias caixas de animais vindos ou do Empório das Corujas ou da Travessa do Tranco, encomendas do prof. Oddelier. O cheiro era horrível, mas o inválido sempre punha as coisas no lugar com um feitiço. Além disso, todos os dias passava na Gemialidades Weasley para comprar as fabulosas bombinhas de bosta e se atualizar sobre as possíveis ameaças que poderia enfrentar, entretanto, não era isso que trazia preocupações nesses últimos dias. Estava angustiado com sua varinha, que antes apenas não executava feitiços de sua maneira válida e agora começara a invalidar os feitiços e acabava saindo um completamente diferente. Por exemplo, semana passada usara um feitiço de limpeza para tirar uma pequena mancha do sobretudo e ao invés disso, apenas conseguiu borrar ainda mais, fazendo jorrar suco de abóbora de sua varinha.
Nada fazia Oddelier se sentir tão deprimido do que a ausência de seu poder.
Logo de manhã, pulou a deliciosa refeição matinal preparada pela srta. Abbot e dirigiu-se ao Olivaras. Devido o início das aulas no próximo domingo, o Beco Diagonal estava lotado e o tráfego até o destino não fora fácil. Esbarrou num primeiranista, fazendo-o deixar tudo cair no chão e sem querer teria estuporado a mãe do mesmo ao usar um feitiço de levitação que não dera certo, desculpou-se ao recompor a mulher do chão com ajuda de um ex-estudante e continuou seu trajeto.
A aparência da loja nunca mudou; caixinhas espalhadas por todo o lugar, poeira e uma pessoa maior apenas que um duende movendo uma escada pelas prateleiras. Ao adentrar, um tilintar pode ser ouvido, desviando a atenção de uma garota loira que vinha correndo para o caixa – não parecia surpresa.
– No que devo ajudá-lo hoje? – ele deu uma gargalhada nobre, de bom grado, e caminhou pelo cômodo empoeirado antes de responder. O jovem idoso transbordava impaciência, sassaricando pelo cômodo com uma peculiar hiperatividade. Ainda assim, não deixava a preocupação sobrepujá-lo. Começara a chover; ouvia, ainda impacientemente, os pequenos baques causados pela chuva batendo no vidro da loja.
A herdeira de Olivaras parecia bem trouxa naquele dia. Vestia jeans, sujava a loja com uma bota tão imunda como a Travessa do Tranco e orgulhava-se com uma camisa brilhando os dizeres “I HEART COFFEE” — não poderia negar que já leu algo como isso antes, e o quê era aquele tal de café que todos os trouxas pareciam gostar?
– Temo afirmar que minha varinha enlouqueceu. Ela estupora bem, não posso negar, mas seria funcional se ela o fizesse quando eu ordenasse! — ele brandiu, sacando a varinha e tentando fazer levitar alguma coisa, porém a única coisa que aconteceu foi ter explodido algumas xícaras e feito alguns abajures se transformarem em furões, que saíram apressados da loja, fazendo tilintar o sino mais de cinco vezes.
– Você já considerou a hipótese de se aposentar? Bem, você sabe, largar a civilização bruxa e se isolar numa cabana nos confins da Cornualha e deixar de lado essa loucura de maldições e lecionar? — ela ousou, levantando o rosto e mesmo assim mantendo uma rebelde expressão de inocência, com os braços juntos atrás do corpo (armando-se com a varinha, que se encontrava no bolso dos jeans).
– Eu sou velho, inválido e recebo uma pensão de doze galeões do Ministério da Magia, mas você não consegue criar feitiços úteis para o mundo bruxo com apenas doze galeões! Tenho mais de oitenta anos de idade, mas sou tão genioso que qualquer moleque que ponha na minha frente – ele respirou, já não possuía tanto fôlego quanto no vigor da idade. — Com a varinha certa, posso até ser considerado o bruxo mais poderoso do ano, mas a varinha não faz o bruxo. — ela ruborizou com razão, não era todo dia que um bruxo rico, famoso e importante entrava em sua loja e vulgarizava seu trabalho. Havia um estudo feito pela Universidade de Magia e Feitiçaria de Berlim que a varinha sempre seria subordinada pelo seu bruxo, mesmo que ela escolha quem deseja servir, porém havia um estudo subordinado a este tentando criar um feitiço que deixe as varinhas sem personalidade. Alguns anos atrás, o próprio Oddelier assinara na petição CONTRA a criação desse feitiço.
– Olivaras teve seu papel na guerra, faça o seu na atualidade e abra as portas para um idoso. — ele quebrou a própria varinha, fazendo faíscas deslizarem para todo lugar no cômodo. O feixe de metal havia derretido e feito um pequeníssimo monte no centro do piso, e a madeira havia evaporado. Existia história ali, talvez fosse a melhor varinha já existente depois da desaparecida Varinha das Varinhas. Poder demais, história demais. Quando a cerne tocou no chão, uma explosão lançou o inválido para fora da loja – que quase imediatamente começou a pegar fogo por todos os cantos. Olivaras continuava lá dentro, gritava.
Urros depois, o professor conseguira se levantar e ajeitar sua visão para a loja. As pessoas corriam e o fogo se alastrava pela rua, ainda conseguia captar o grito de Olivaras dentro da loja. Apontou a mão esquerda, fechada, para dentro da loja incandescente. Num piscar de olhos, estava no meio do fogo, perdendo a respiração e mesmo assim arrumando fôlego para procurar a garota no meio daquele inferno. O fogo era vivo, verde e parecia andar de um lago para o outro, crescer e engolir as varinhas – suas cernes, madeiras e habilidades – sugando o poder e multiplicando o próprio fogo. Aquilo não era sua criação.
Com as duas mãos, conjurou um várias esferas d'água para amenizar o fogo, mas em quase todas as vezes que tentou, a água evaporou antes mesmo de alcançar aquele fogo, então correu. Usou sua energia restante para subir ao segundo piso e invadir o quarto trancado usando “Bombarda”, explodindo a parede com a delicadeza de um hipopótamo. Se surprendia. Superava cada obstáculo que encontrou nos últimos meses: indisposição, isenção de poder, o exercer dos menores feitiços com as mãos, a falta que a varinha fazia. Superou tudo isso para consertar um erro.
Ali estava ela, sem ar, desmaiada no chão, cercada pelo fogaréu. Correu até ela, torto e indisposto pela idade, tropeçou e aparatou. A última coisa que viu foi o chão do Beco Diagonal com a garota ao seu lado, recuperando os sentidos. Desmaiou, isento de poder e exaurido.
Quando acordou, estava acolhido por uma cela escura e fria.
Já estava ali antes, do outro lado da grade, estava preso. Fora acusado e ganhara uma passagem só de ida para Azkaban.
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