Profundos Sentimentos
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Notas iniciais
Era a manhã do meu décimo sexto aniversário. Minha mãe e meu pai me acordavam com um bolo surpresa e cantando a velha e clássica canção de aniversário.
– Parabéns querida! — Disse minha mãe.
– Obrigada mãe, mas não precisava.
– Claro que precisava meu amor. Agora vamos lá na sala que temos uma surpresa para a nossa filha. — Falou o meu pai.
Assim que atravessei a porta do meu quarto, de pijama e ainda cambaleando de sono, vejo minha família inteira (literalmente) na sala de estar, cantando a mesma música que minha mãe e meu pai cantaram.
– ...rá, tim, bum Vicky, Vicky, Vicky!
Na minha frente vejo meu namorado Matt que me dá um abraço que falta o ar. Dou uns tapas nas costas dele para avisar que é o suficiente.
– Parabéns meu amor.
– Obrigada Anjinho.
Ele possuía esse apelido desde que tinha três anos de idade pois apresentava uma estatura alta, cabelos loiros e olhos azuis igual a um anjinho. Namoramos há dois anos, e nos conhecemos no Jardim Botânico daqui da cidade.
Diferente do meu namorado sou baixinha tenho cabelos longos e castanhos. Estou no meu último ano do colégio e ele no meio do seu curso de Direito.
Não é que eu queira me achar, nem nada, mas ele vem de uma família rica. O pai dele é dono da maior rede mundial de televisão e pra mim é um privilégio tê-lo como meu namorado. Não pelo seu dinheiro e sim pelo que ele é.
Já eu venho de uma família humilde (pobre). Meus pais têm uma pizzaria (a propósito, meu pai é italiano) num bairro nobre aqui na cidade do Rio de Janeiro. Minha mãe se chama Márcia, meu pai, Maurizio e eu também não sei de onde eles tiraram o meu nome... Vitória, mais conhecida como Vicky.
– Querida tome banho e ponha uma roupa bem elegante. O Matt vai sair e comemorar o seu aniversário com você.
– Tá bom mãe, mas não sei se vou. – Disse olhando para Matt – Vocês vão querer minha ajuda na pizzaria?
– Está tudo sob controle Vicky. Pode deixar que nós tomamos conta dela hoje!
– Obrigada mamãe! — Disse isso enquanto agarrava-a e dava um beijo em sua bochecha.
Antes de ir tomar banho tive que dar um abraço em cada familiar que ali estava, agradecer pelo presente que trouxeram, dizer que não precisava e dar mais outro abraço (já estava ficando cansada...)
[…]
Assim que havia me vestido chamei Matt para conversar no meu quarto. Ele abriu a cortina e depois abriu a janela e lá ficou debruçado.
– Para onde vamos? — Disse ansiosa enquanto enxugava meus cabelos.
– Lá pra casa. Quero conversar com você.
– Nossa! É muito sério? — Falei surpresa, destruindo todas as minhas expectativas de ir à um lugar chique.
– Posso levar a toalha, querida? — Interrompeu minha mãe.
– Claro. Obrigada! — Disse sorrindo. — Então... é muito sério?
– Sim. Quer dizer...
– Matt, você quer ver a minha coleção de animais em miniatura? — Interrompeu meu irmão caçula.
– Claro que sim Luquinhas. — Disse Matt sendo puxado.
Fiquei desesperada para saber o que ele tinha a me dizer. Será que é grave? E se ele quiser terminar o nosso namoro? E se ele disser que tem outra? E se ele não gostar mais de mim?
– Pensamento positivo Vicky. — Pensei em silêncio.
Saí do quarto e não encontrei mais ninguém além da diarista que tínhamos e o Luquinhas dizendo as características de cada animal de sua nova coleção que acabara de completar. Seus olhos estavam brilhando.
– Vamos? Estou pronta.
– Claro! Olha pra você… está linda! — Disse Matt me girando enquanto segurava minha mão.
A casa dele fica a uns trinta minutos da minha a carro. E pode crer que aquilo não podia ser chamado de casa, nem de mansão. Era muito pequena para ser uma mansão. Assim que chegamos ele desceu da Ferrari e foi abrir minha porta para que eu pudesse descer.
– Obrigada Anjinho.
– Qual é Vicky, já estou bem grandinho pra você me chamar assim.
– Hum… Ok. — Aceitei, porém, desconfiei pois não sabia o porquê dele não querer que eu o chamasse mais assim.
– Vem aqui. — Disse ele me puxando pela mão.
Entramos no quarto dele. Algumas malas estavam em cima da sua cama. Fiquei sem entender mais ainda.
– Os seus pais estão em casa?
– Sim. Mas não sabem que você está aqui.
– O quê? Como assim? Se eles entrarem aqui e me encontrarem vão te castigar e vão me mandar andando para casa.
Sim, isso já aconteceu várias vezes comigo. Digamos que os pais dele não vão muito com a minha cara. Robbie, o pai, é muito carrasco e só quer que o filho namore com meninas ricas, ou seja, ele não suporta o fato de que o filho que ele mima tanto, namore com uma menina de família humilde. Já a sua madrasta Ceci é a mesma coisa do esposo. Parece até que os dois têm uma ligação. São como carne e unha. Tudo que um faz o outro apoia, não importa se seja ruim ou bom. Mas ela é muito mais cruel que o marido. Ela tem a ficha criminal cheia demais. Seu último crime foi tentar incendiar o carro do ex-marido só pra ficar com o que ele tinha, mas ele pegou-a no flagra.
– Alguém vai viajar?
– Vai... E não volta mais.
– Filho, você viu o meu iPad que eu tinha deixado em cima da... — Disse Robbie entrando no quarto e me olhando com cara de espanto.
– Pai! Já disse para não entrar sem bater!
– Mas eu estou na minha casa!
– E eu no meu quarto!
– Posso falar com você um instante? — Disse Robbie fitando Matt.
– Fale!
– A sós.
– Vicky, pode esperar lá na sala de estar por favor?
– Claro!
– Tome cuidado para não se perder. Aqui é quatro vezes maior do que aquilo que você chama de casa. — Robbie soltou essa piada.
Fui direto para a sala de estar onde encontrei umas revistas sobre bandas de rock. Peguei uma, sentei no sofá e comecei a ler. Mesmo que o quarto de Matt fosse longe de onde eu estava, o pai dele tem o costume de falar muito alto.
– O que esta indecente faz aqui?
– Não ouse chamá-la assim.
– Ah, porquê não? Existem leis que me proíbem?
– Não existem, mas o namorado dela sou eu.
– Eu não os considero namorados. O que me dá o direito de chamá-la de qualquer coisa. Meu filho me escuta! Você merece coisa muito melhor do que aquilo. Você irá namorar com a Marina, filha do banqueiro.
– Eu não vou namorar com ninguém. E a mudança que você tinha me dito?
– Eu não disse nada...
Corri para escutar a conversa pela porta mas algo havia me cutucado.
– Olá queridinha. — Disse Ceci num tom irônico.
– Oi.
– Gostaria de tomar algo?
– Não, obrigada.
– A propósito, o que faz aqui na porta?
– Estou esperando o Matt sair do quarto. O pai dele está conversando com ele.
– Acho que ele não vai sair daí nem tão cedo. Peço que por favor espere na sala de estar.
– Já estou indo para lá.
– Vou pegar algo para comermos juntas e conversármos mais.
Fiz o que Ceci pediu. Voltei para onde estava, com medo. E se ela dissesse ao Robbie que eu estava escutando a conversa deles? Era o fim da picada para mim e Matt.
Por um momento eu achei que fosse morrer sufocada. O cheiro de uma substância forte que eu não conseguia identificar se espalhava adentro das minhas narinas. Não vi nada além de duas mão envolvendo meu rosto. Depois disso... apaguei.
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