Profecia de Sangue

2 Capítulo Dois — A caverna


Notas iniciais
Esse capítulo é muito longo, mas espero que gostem. Boa leitura a todos.

Capítulo Dois — A caverna



O principal assunto das conversas na sede da Resistência da Fênix havia sido a caça as Horcruxes nos dias que passaram.


— Pesquisei sobre as Horcruxes nos livros da biblioteca — comentou Hermione certo dia quando ela e os demais estavam deitados tomando um sol nos jardins da casa de Dumbledore. — Mas as informações que estão nos livros são basicamente as que Slughorn nos encontrou.


— Do que adianta pesquisar, se não podemos agir logo? —indagou Harry se levantando. — Quero sair à procura dessas malditas Horcruxes e acabar logo com isso. Quero evitar mais mortes como a dos meus pais, Cedric e Sirius.


— Concordamos com você, Harry — interrompeu Neville. — Mas nós sequer sabemos quais são as Horcruxes restantes, e onde elas estão e nós só temos probabilidades e suspeitas.


— Contudo — continuou Hermione, lançando para Harry um olhar mortal. — Com essas minhas pesquisas eu acabei descobrindo algumas maneiras de se destruir Horcruxes.


— Então as conte! — exclamou Rony, que, assim como os demais, também se levantou com rapidez.


— Pois bem, — Hermione começou a explicar, — segundo os livros que eu li, existem poucos objetos, feitiços e substâncias capazes de destruir uma delas, tais como o Fogomaldito, ou o veneno de basilisco, que se localiza nas presas do animal, por isso você conseguiu destruir a alma que estava no diário, Harry. Outra forma de destruir uma Horcrux é fazendo com que seu dono sinta remorso, mas o processo seria tão doloroso quanto matá-lo.


— A possibilidade do remorso é impossível — disse Harry. — Ele não ama pessoa alguma, a não ser a si mesmo, ou melhor, acredito que ele nem ama a si mesmo.


— De qualquer forma — continuou Hermione —, temos que utilizar as opções possíveis no momento. Caso o objeto seja destruído, o fragmento da alma será destruído também — concluiu.


— De fato, em todos os casos, senhorita Granger — Dumbledore concordou no momento que se se aproximou deles, acompanhado de Slughorn, Moody, Kingsley e Lupin —, entretanto, já temos conosco as diversas formas possíveis para destruir as Horcruxes.


— Ótimo! — exclamou Harry. — E quando vamos começar a busca?


— Em breve, Harry... — respondeu Lupin. —... Em breve...


Os dias foram se passando. Os treinamentos eram intensificados para todos, e logo, numa tarde, Dumbledore anunciou a lista de quem iria para a busca as Horcruxes:


— Convocados da Resistência da Fênix para a busca as Horcruxes! – a voz dele ecoou por toda a mansão, e logo, começou a anunciar. — Alvo Dumbledore, Harry Potter, Remo Lupin, Alastor Moody, Ninfadora Tonks, Ronald Weasley e Hermione Granger. Aos demais, darei tarefas e missões que também serão de extrema importância nessa guerra. Se preparem, com todas as armas, varinhas, itens e suprimentos necessários. Amanhã de manha partiremos através da aparatação. Todos amanhã de manhã no saguão de entrada. Boa tarde a todos.


“Se prepare Voldemort” — pensou Harry, depois de Dumbledore terminar de falar. “O seu fim certamente vai estar mais próximo!”


No dia seguinte, todos estavam no saguão de entrada da mansão. E muitos estavam ali para se despedirem, desejarem boa sorte, e recomendar instruções. A que mais fazia isso era a Senhora Weasley.


— Se cuidem! — concluiu ela.


Logo, todos estavam no centro do saguão, unidos, com as varinhas em mão, e todos levando consigo mochilas com feitiços de expulsão interna, e diversas coisas dentro delas.


— Prontos? — indagou Dumbledore.


O grupo inteiro acenou positivamente com a cabeça. Dumbledore contou até cinco, gritou “Já!” e então, aparataram rumo ao local onde iriam encontrar a Horcrux.


Assim que chegaram, puderam sentir o cheiro de sal e o barulho das ondas, uma brisa leve e gelada despenteava os cabelos da maioria presente ali, e então, se viraram para contemplar o mar “azul” e limpo, assim como o céu, onde havia poucas nuvens. Estavam parados no alto de uma rocha escura, sob a qual a água espumava e se revolvia.


Harry olhou por cima do ombro. Às suas costas, erguia-se um penhasco, íngreme, negro e nebuloso. Algumas rochas, como aquela em que o grupo se achava, parecia ter se destacado da face do penhasco em algum momento do passado. Era uma paisagem desolada e agreste, a monotonia do mar e da rocha sem árvore, capim ou areia a interrompê-la.


— Onde nós estamos? — perguntou Tonks.


— Num lugar do passado de Tom Riddle — respondeu Dumbledore. — Ele trazia alguns garotos do orfanato onde morava para cá... Bem, não era para cá exatamente.


— Como assim? — perguntou Rony, que, assim como os outros, fitava as ondas do mar que se quebravam naquela rocha, e algumas fagulhas do liquido acabam espirrando neles.


— Há ou havia uma pequena aldeia a meio caminho às nossas costas. Acredito que o orfanato trazia os órfãos para tomar um pouco de ar e ver as ondas. Não, acho que apenas Tom Riddle e suas jovens vítimas algum dia visitaram este lugar onde nós estamos nesse exato momento. Trouxas não poderiam chegar aqui, a não ser que fossem alpinistas excepcionais, e barcos não podem se aproximar das pedras, as águas ao redor são muito perigosas. Imagino que Riddle tenha descido, a magia teria sido mais útil do que as cordas. E trouxe com ele duas crianças pequenas, provavelmente pelo prazer de aterrorizá-las. Acho que só a viagem em si teria bastado, não?


Harry tornou a erguer os olhos para o penhasco e sentiu arrepios.


—Mas o destino final de Tom, e também o nosso, fica um pouco mais adiante. Vamos!


Dumbledore fez um sinal para que todos se aproximassem da borda da rocha em que vários nichos pontudos serviam para apoiar os pés e dava acesso às pedras arredondadas e quase submersas na água junto ao paredão rochoso. As pedras mais abaixo escorregavam por causa da água do mar. Harry sentia os salpicos de água salgada bater em seu rosto.


— Lumos! ­— disseram todos, ao chegarem à pedra mais próxima do paredão.


Centenas de pontinhos de luz dourada faiscaram na superfície escura do mar a menos de um metro abaixo do lugar em que eles estavam agachados, a parede negra do rochedo também se iluminou.


— Estão vendo? — perguntou Dumbledore em voz baixa, erguendo um pouco mais a varinha.


E eles viram uma fissura no penhasco onde a água se remoinhava.


— Vocês não se importam de se molharem um pouco? — indagou Dumbledore novamente.


— Não — e eles responderam, acenando negativamente com a cabeça.


E, com a súbita agilidade de um homem mais jovem, Dumbledore escorregou pela pedra, caiu no mar e começou a nadar de peito, com movimentos perfeitos, em direção à fenda na face do penhasco, a varinha acesa presa entre os dentes.


E assim eles fizeram o mesmo que o velho. A água estava gelada, as roupas pesadas de água enfunavam-se em torno deles e os puxavam para baixo. Sorvendo profundamente o ar que enchia suas narinas com travo de sal e algas. Eles nadaram em direção à luz bruxuleante que diminuía à medida que adentrava a caverna.


A fenda logo se alargou, formando um túnel escuro que eles sabiam que se encheria de água na maré alta. As paredes limosas tinham menos de um metro entre si e refulgiam como piche molhado à passagem da luz empunhada por Dumbledore. Um pouco mais para dentro, a passagem fazia uma curva para a esquerda, e Harry viu que se embrenhava profundamente na rocha. Continuou a nadar na esteira do diretor, as pontas de seus dedos dormentes roçando a rocha úmida e áspera.


Então ele o viu sair da água mais adiante, sua cabeleira prateada e as vestes escuras refulgindo. Quando eles chegaram ao mesmo ponto, deparou com degraus que conduziam a uma ampla caverna. Subiu a escada, a água escorrendo de suas vestes encharcadas, e emergiu, tremendo descontroladamente.


Dumbledore estava de pé no meio da caverna, a varinha no alto, e girava lentamente no mesmo lugar, examinando as paredes e o teto.


— É, é este o lugar — confirmou Dumbledore.


— Como o senhor pode saber? — perguntou Hermione num sussurro.


— Tem magia conhecida — respondeu Dumbledore com simplicidade.


A maioria não conseguia definir se os arrepios que sentiam se deviam ao frio que penetrava seus ossos ou à mesma percepção de encantamentos. Apenas observavam enquanto Dumbledore continuava a girar, evidentemente concentrado em coisas que a maioria não era capaz de ver.


—Isto é apenas o saguão de entrada — disse Dumbledore, passados alguns instantes. — Precisamos penetrar a câmara interior... Agora, os obstáculos erguidos por Tom Riddle é que barrarão o nosso caminho, e não a natureza que os criou.


O velho se aproximou da parede da caverna e acariciou-a com os dedos enegrecidos, murmurando palavras em uma língua estranha que a maioria não entendeu. Duas vezes Dumbledore andou ao redor da caverna, tocando a maior área da rocha áspera que pôde, parando ocasionalmente, correndo os dedos para frente e para trás em um determinado ponto, até parar finalmente, a mão espalmada contra a parede.


— Aqui — disse ele — Passaremos por aqui. A entrada está oculta.


Dumbledore se afastou, e apontou a varinha para a parede rochosa da caverna. Por um instante, apareceu ali o contorno de um arco, brilhante e branco como se houvesse uma forte luz por trás da fresta.


— O senhor conseguiu! — exclamou Tonks.


Mas antes que mais alguém falasse, o contorno desapareceu, deixando a rocha mais nua e sólida que antes.


Dumbledore se virou.


— Me desculpe, eu me esqueci.


E apontou imediatamente a varinha para os demais, cujas roupas ficaram instantaneamente quentes e secas como se tivessem sido penduradas diante de um fogo escaldante.


Eles agradeceram, mas Dumbledore já voltara a sua atenção para a parede maciça da caverna.


— Precisa de alguma ajuda Alvo? — perguntou Moody, se aproximando dele, mancando e resmungando, como de costume.


— Agradeço a ajuda, Alastor, mas acredito que estou quase conseguindo — e ele voltou a sua atenção a parede, novamente.


Dumbledore não tentou outros feitiços, simplesmente ficou ali, parado, observando a parede com atenção, como se nela estivesse escrito alguma coisa de extraordinário interesse. Todos ficaram muito quietos, não queriam perturbar a concentração de Dumbledore.


Então passados dois minutos completos, o então ex-diretor de Hogwarts disse baixinho:


— Ah, certamente que não. Tão grosseiro!


— O que? — perguntou Lupin.


— Está me parecendo — disse Dumbledore, enfiando a mão esquerda nas vestes e tirando uma faquinha de prata do tipo que Harry, Rony e Hermione usavam para cortar ingredientes para poções. — Que precisamos pagar para passar.


— Pagar? — exclamou Hermione. — O senhor tem de dar alguma coisa à porta?


— Tenho. Sangue, se não estiver muito enganado.


— Sangue?


— Exato Ninfadora. Eu disse que era grosseiro — comentou Dumbledore, em tom de desdenho e até desapontado, como se Voldemort se mostrasse abaixo dos padrões esperados. — A ideia, como certamente você terá captado, é que o inimigo deve se enfraquecer para entrar. Mais uma vez, Tom Servolo Riddle não conseguiu compreender que há coisas bem mais terríveis do que a lesão física.


— Bem, mas se for possível evitar... — replicou Lupin.


— Às vezes, porém, é inevitável, Remo — disse Dumbledore, jogando a manga para cima das vestes e expondo o antebraço da mão direita.


— Professor! — protestou Harry, adiantando-se depressa ao ver Dumbledore erguer a faca. — Eu faço isso, sou...


Ele não sabia o que dizer. Mais jovem? Mais apto? Dumbledore, contudo, apenas sorriu. Houve um lampejo dourado e um esguicho escarlate, a face da rocha pontilhou-se de gotas escuras e brilhantes.


— Você é muito bom, Harry — disse o diretor, agora passando a ponta da varinha no corte profundo que fizera no próprio braço, fechando-o instantaneamente. — Mas o seu sangue vale mais do que o meu. Ah, parece que deu resultado, não?


O contorno brilhante de um arco reapareceu na parede e, desta vez, não se apagou. A rocha suja de sangue limitada pelo sangue simplesmente sumiu, deixando uma abertura para uma aparente e absoluta escuridão.


E assim, o grupo cruzou o arco, Dumbledore foi o primeiro a entrar, com todos os demais em seus calcanhares, acendendo a varinha de forma rápida ao entrar.


Eles depararam com uma cena extraordinária. Estavam à beira de um grande lago negro, tão vasto que Harry não conseguia divisar suas margens distantes, em uma caverna tão alta que seu teto não era visível.


Uma luz verde brilhava ao longe, talvez no meio do lago, refletia-se na água imóvel abaixo. O brilho verde e a luz das duas varinhas eram as únicas coisas que rompiam o negrume. A escuridão era de certo modo mais densa do que a escuridão normal.


— Vamos caminhar — disse Dumbledore em voz baixa. — Cuidado para não pisar na água. Fiquem junto de mim.


Ele saiu margeando o lago e os demais seguiram logo atrás. Seus passos ecoavam como tapas na estreita orla de pedra que contornava o lago. Eles caminhavam uma boa distância, mas a paisagem não mudava. De um lado, a áspera parede da caverna, do outro, a vastidão sem fim do negrume espelhado, no meio de qual havia aquele misterioso brilho verde.


— O senhor acha que a Horcrux está aqui? — perguntou Harry.


— Ah sim. Tenho certeza de que está. A questão é como chegar a ela?


— Não podíamos... Não podíamos simplesmente tentar um Feitiço Convocatório? — perguntou Hermione, convencida de que era uma sugestão idiota, mas querendo, assim como os demais, sair o mais depressa possível daquele lugar.


— Certamente que poderíamos Hermione — respondeu Dumbledore, parando de imediato que Harry quase colidiu com ele. — Por que você não tenta?


Ninguém esperava por isso. Mas Hermione pigarreou e ordenou em voz alta, a varinha no ar:


— Accio Horcrux!


Com um ruído de explosão, algo muito grande e claro irrompeu da água escura a uns seis metros de distância, mas antes que o grupo pudesse ver o que acontecia, a coisa tornou a mergulhar na água com um estrondo que produziu ondas largas e profundas na superfície lisa do lago. Eles saltaram para trás, assustados, e bateram na parede ao mesmo tempo, seus corações ainda retumbavam quando se viravam para Dumbledore.


— O que foi aquilo? — perguntou Rony.


— Alguma coisa, eu acho, que está pronta a reagir se tentarmos nos apossar da Horcrux — respondeu Dumbledore.


— Inferis? — perguntou Lupin.


— Talvez — respondeu Moody, que, junto de Dumbledore, tomou a frente da fila.


Harry olhou novamente para o lago. Sua superfície retomara a aparência anterior. Escura e brilhante. As ondas tinham desaparecido anormalmente rápido, o coração de Harry, no entanto, continuou a bater com força.


— O senhor achava que ia acontecer isso? — perguntou o Menino Que Sobreviveu.


— Achei que alguma coisa aconteceria se fizéssemos uma tentativa obvia de nos apoderar da Horcrux. Foi uma boa ideia, de fato, Hermione. O modo mais simples de descobrirmos o que estamos enfrentando.


— Mas não sabemos que coisa era aquela — replicou Rony, olhando para a água sinistramente lisa.


— São coisas, Weasley — corrigiu-o Moody. — Suspeitamos que seja Inferis. Creio eu que todos os presentes aqui saibam o que sejam essas criaturas, certo?


Todos acenaram positivamente com a cabeça.


— Bem — continuou Dumbledore. — Vamos continuar a andar?


— Alvo?


— O que foi Ninfadora?


—O senhor acha que vamos precisar entrar no lago?


— Entrar? — resmungou Moody. — Só se tivermos muito azar.


— Acha que a Horcrux está no fundo? — perguntou Lupin.


— Ah não... Acho que está no meio — respondeu Dumbledore, que apontou para a luz verde no centro do lago.


— Então teremos de atravessar o lago para chegar a Horcrux?


— Acho que sim, Hermione — concluiu Dumbledore.


— Ah! — Dumbledore exclamou, tornando a parar, desta vez Harry colidindo com Moody, que acabou resmungando e xingando num tom baixo.


— Desculpe-me, eu devia ter avisado. Fiquem junto à parede, por favor, acho que encontrei o lugar. Ajude-me, Alastor.


Harry, Rony e Hermione não faziam ideia do que Dumbledore queria dizer. Tonks e Lupin estavam de mãos dadas — tinham se casado alguns dias antes —. Até onde podiam perceber, este trecho de margem escura era exatamente igual a qualquer outro, mas Dumbledore, pelo visto, detectara alguma coisa diferente. Desta vez, ele estava passando mão, mas não na parede rochosa, mas no ar, como se esperasse encontrar e agarrar alguma coisa invisível.


— Oho! — exclamou o ex-diretor de Hogwarts, segundos depois.


Sua mão agarrara no ar alguma coisa que ninguém — exceto Moody, talvez —, conseguia ver. Dumbledore se aproximou da água, eles observaram as pontas dos sapatos de fivela do velho chegarem até o limite da borda rochosa do lago. Mantendo a mão fechada no ar, Dumbledore ergueu a varinha com a outra e deu uma pancada leve no próprio punho. Moody fizera o mesmo.


Imediatamente apareceu no ar uma corrente grossa de cobre esverdeado que se alongou do fundo do lago até as mãos fechadas de Dumbledore e Moody. O primeiro citado bateu na corrente, que começou a deslizar por dentro de sua mão fechada como uma cobra e a se enroscar no chão com um ruído metálico que ecoou vibrantemente nas paredes rochosas, e foi puxando alguma coisa das profundezas do lago escuro. Harry ofegou quando a proa fantasmagórica de um barquinho veio à tona, tão verde e brilhante quanto a corrente, e flutuou quase sem marolas até o ponto da margem em que eles estavam parados.


— Como é que o senhor soube que o barco estava ali? — perguntou Rony espantado.


— A magia sempre deixa vestígios — respondeu o diretor, quando o barco bateu suavemente na margem — Vestígios por vezes muito característicos. Fui professor de Tom Riddle. Conheço o estilo dele.


— O barco é... É seguro?


— Ah, acho que sim, Ninfadora. Tom precisava criar um meio de atravessar o lago sem atrair a cólera das criaturas que colocou nele, caso um dia quisesse visitar ou remover sua Horcrux.


— Então as coisas na água não nos farão mal se atravessarmos no barco de Você-Sabe-Quem?


— Acho que devemos nos conformar com a ideia de que, em algum momento, elas perceberão que não somos Tom Servolo Riddle, cara Hermione. Até aqui, porém, temos nos saído bem. Elas nos deixaram erguer o barco.


— Mas por que deixaram? — perguntou Harry, que não conseguia esquecer a visão de tentáculos emergindo da água escura quando se distanciaram da margem.


— Tom devia estar razoavelmente confiante de que ninguém, exceto um grande bruxo, seria capaz de encontrar o barco. Penso que estaria disposto a arriscar a improvável possibilidade de alguém conseguir isto, porque sabia que deixara mais à frente outros obstáculos que somente ele poderia superar. Veremos se tinha razão.


Harry examinou o barco. Era realmente muito pequeno.


— Não parece ter sido construído para duas ou mais pessoas, que é o nosso caso. Será que nos aguentará? Não será peso demais?


Dumbledore riu.


— Tom não deve ter se preocupado com o peso, mas com o poderio mágico que cruzasse o seu lago. Eu pensaria que ele deve ter lançado um encantamento sobre o barco de tal ordem que apenas um bruxo por vez poderá usá-lo.


— Mas então...?


— Acho que vocês três não contam, Harry, Rony e Hermione: são menores de idade e não qualificados. Riddle jamais esperaria que um adolescente de dezesseis anos chegasse aqui: acho improvável que os seus poderes sejam considerados, se comparados aos meus.


Tais palavras não ajudaram a levantar o moral dos três, e Dumbledore, talvez percebendo isso, acrescentou:


— Um erro de Voldemort, Harry, um erro de Voldemort... A velhice é tola e esquecida quando subestima a juventude... Desta vez, você embarca primeiro, e tenha cuidado para não tocar na água. Os demais esperem aqui, o barco voltará para buscá-los, dois em cada barco.


Dumbledore se afastou para um lado e Harry subiu cautelosamente no barco. O professor subiu também, enrolando a corrente no fundo. Os dois ficaram espremidos, Harry não pôde se sentar confortavelmente, agachou-se, deixando os joelhos para fora do barco, que se pôs imediatamente em movimento. Não se ouvia outro som exceto o sussurro da proa cortando a água, o barco se deslocava sem ajuda, como se uma corda invisível o puxasse em direção à luz no centro. Em pouco tempo, deixaram de avistar as paredes da caverna, eles poderiam estar no mar não fosse pela falta de ondas.


Harry baixou os olhos e viu o reflexo dourado da luz de sua varinha faiscar e cintilar na água escura enquanto avançavam. O barco esculpia fundas rugas na superfície vidrada, sulcos no espelho escuro...


Então Harry a viu, branca como mármore, boiando a centímetros da superfície.


— Professor! — exclamou, e sua voz assustada ecoou sonoramente pela água silenciosa,


— Harry?


— Acho que vi uma mão na água, uma mão humana!


— Sei, tenho certeza de que viu — respondeu Dumbledore calmamente.


Harry olhou espantado para a água à procura da mão que desaparecera, uma sensação de náusea subindo-lhe à garganta.


— Então aquela coisa que saltou da água...


Harry obteve a resposta antes que Dumbledore pudesse falar, a luz da varinha deslizara por um novo trecho da água e, desta vez, lhe mostrou um defunto de cara para cima centímetros abaixo da superfície, seus olhos abertos toldados como se tivessem teias de aranha, seus cabelos e suas vestes girando em torno dele como fumaça.


— Tem cadáveres aí dentro! — disse Harry, e sua voz saiu muito mais aguda e diferente do que o normal.


— Tem — respondeu Dumbledore placidamente — Mas por ora não precisamos nos preocupar com eles.


— Por ora? — respondeu Harry, despregando o olhar da água para fixá-lo em Dumbledore.


— Não enquanto estiverem apenas boiando tranquilamente abaixo de nós. Nada temos a recear de um cadáver, Harry, como nada temos a recear da escuridão. Tom Riddle, que naturalmente tem um receio íntimo de ambos, discorda. Mas, de novo, ele revela sua própria falta de sabedoria. É o desconhecido que receamos quando olhamos para a morte e a escuridão, nada mais.


Harry não respondeu, não queria discutir, mas achava pavorosa a ideia de que havia cadáveres flutuando em volta e abaixo deles, e, além disso, não acreditava que não fossem perigosos.


— Mas um deles saltou — disse ele tentando manter a voz estável e calma como a de Dumbledore — Quando tentei convocar a Horcrux, um cadáver pulou do lago.


— Verdade... E estou seguro que, quando apanharmos a Horcrux, veremos que são menos pacíficos. Mas, como muitas criaturas que habitam o frio e a escuridão, eles temem a luz e o calor que evocaremos em nosso auxílio, se houver necessidade. Fogo, Harry — Dumbledore acrescentou com um sorriso, em resposta à expressão atordoada de Harry.


— Ah... Certo — concordou ele rápido.


— Quase lá — anunciou Dumbledore animado.

De fato, a luz verde parecia estar finalmente aumentando, e minutos depois o barco parou, batendo suavemente em alguma coisa que Harry a princípio não pôde ver, mas, quando ergueu a varinha iluminada, constatou que tinham chegado a uma ilhota de rocha lisa no centro do lago.


— Cuidado para não tocar na água — tornou a recomendar Dumbledore quando Harry desembarcou.


A ilha não era maior do que o antigo escritório de Dumbledore: uma extensão de rocha plana e escura em que não havia nada exceto a fonte daquela luz verde, que parecia muito mais forte vista de perto. Harry semicerrou os olhos, a princípio pensou que fosse algum tipo de lampião, mas logo percebeu que a luz vinha de uma bacia de pedra muito parecida com a Penseira, apoiada sobre um pedestal.


Dumbledore se aproximou da bacia, seguido por Harry. Lado a lado, eles a examinaram. A bacia estava vazia, dentro dela, havia apenas uma camada de esmeralda que refletia e iluminava.


Logo, todos já tinham chegado à pequena ilha.


Então, começaram a ouvir uma voz, sussurrando algo que não entendiam, e, de trás da bacia, se depararam com um Comensal da Morte, todo mascarado, tremia de frio e de medo. Tinha bebido todo o liquido, e, segurava na mão, um medalhão aberto, ao qual tinha um bilhete escrito num pergaminho. De repente, ele caiu e morreu, a máscara saiu automaticamente, e, para o espanto deles, o Comensal era Igor Karkaroff.


Dumbledore pegou o medalhão que seria a Horcrux com facilidade, e então, leu o bilhete em voz alta.


Ao Lorde das Trevas,


Acredito que quando esteja lendo esse bilhete, eu já esteja morto. Enfim, peguei a Horcrux e a levei até o Departamento de Mistérios do Ministério da Magia, na Sala do Véu, dentro deste. Acredito que eu morra lá dentro. Vou destruir o Medalhão de Salazar Slytherin a qualquer custo, para que assim o senhor se aproxime ainda da mortalidade.


R.A.B



E, para a tristeza de Harry, e da maioria, teria que voltar até a sala onde Sirius morrera, e, para piorar ainda, os cadáveres criaram vida, e começaram a invadir a pequena ilha.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Obrigado por ler, comentem, pois assim ganho motivação para postar mais rápido, e voltem sempre!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.