Profano
1 Cachoeira.
Notas iniciais
Rousseau uma vez disse que o homem nasce bom por natureza, mas a sociedade o corrompe. Seria essa filosofia válida também para mim?
O vento bagunça meu cabelo. Não posso senti-lo, mas sei que está frio. Tão gélido quanto meu coração, que agora bombeia sangue quente por veias que há pouco tempo eram casa de ninguém. Ou seria há muito? Abaixo de mim, a cidade que nunca dorme. Ruas frenéticas, fluxo de humanos vazios, sem propósito, sem certezas. Almas sem destino, alienadas. Prédios tão altos que parecem chegar ao céu, mal sabem que isso não é tão simples assim. Carros de milhões, vidas de centavos.
A cobertura do prédio me parecia adequada. Longe da impetuosa rua, longe também do paraíso de poucos. Meus pés descalços pendem para fora da sacada e minha barba por fazer atrai cinzas do cigarro que eu sorvo, a fumaça se perde em meio à poluição peculiar da cidade. As cicatrizes largas doíam a cada tragada, por baixo da camiseta escura de uma marca qualquer.
No térreo, multidões de pessoas perdem milhões em jogos de azar, em contrapartida, uns mínimos que fazem fortuna. Fichas, números, cartas, alavancas, combinações, bebidas caras, mulheres em vestidos deslumbrantes que você sequer se importa em descobrir seus nomes. Vidas inteiras depositadas em um punhado de fichas coloridas sobre uma mesa. Existem maneiras mais seguras de se fazer fortuna, mas quem resiste a provar da sorte de vez em quando? Eu não resisti.
Tomo a última dose do Martini e arremesso o copo ao piso da sacada. Ele se quebra, vira apenas mais um em meio a tantos cacos de outros copos. Ele era único e, por um descuido, tornou-se como os outros. Frágil como a mente humana, que se corrompe ao mínimo esforço externo. Apago meu cigarro e o deixo cair na imensidão que nos separa da terra firme. Ele some em segundos.
Volto ao apartamento caótico. A televisão ligada em um canal aleatório, onde um homem de idade deixava jorrar de sua boca mentiras que, creio, nem ele mesmo acreditava. Garrafas de bebida espalhadas por todo o aposento, maços de cigarros depositados silenciosamente sobre o criado-mudo. Na cama, duas mulheres tão impuras, que parecem objetos do cenário pecaminoso desse quarto. Dessa cidade. Suas roupas estão jogadas em algum lugar do cômodo. Uma, de cabelos louros e brilhantes como o sol do dilúculo, que tantas vezes vi de perto em lugares inimagináveis, dorme o sono inquieto de uma criança em véspera de natal. A outra, de cabelos negros como o mais profundo dos aposentos do renegado, traga um cigarro enquanto me vê caminhar.
Abro a gaveta do criado-mudo e retiro alguns bolos de cédulas, que não perco tempo contando, apenas jogo-os para a mortal. Saio do quarto e fecho a porta atrás de mim, antes que ela possa dizer alguma coisa. Entro no primeiro elevador. Olhando para o espelho, retiro um pouco das cinzas que ainda estão em minha barba, para logo em seguida acender mais um cigarro, ignorando o aviso de proibição afixado acima de mim. Dirijo-me ao térreo. No caminho, cruzo com todos os tipos de humano – é engraçado como seus olhos brilham ao menor sinal de sorte e se apagam quando perdem tudo. Permito-me sorrir de canto com esse pensamento.
Chego ao grande salão e lembro-me de como isso me excitava outrora. Agora, sei que o sedutor não eram os jogos, e sim o infringir das regras. A rebeldia da imaturidade. Repudio esse pensamento, afinal, já estou no inferno. Sento-me em uma mesa qualquer e as cartas são jogadas para mim. Levanto o olhar e encaro cada oponente com cautela, seus pensamentos me são passados facilmente, como se piscassem em neon sobre suas cabeças. Essa é minha. Induzo-os a aumentar apostas, blefo. Em poucas horas, já havia feito três se retirarem da mesa por falência, dois por medo, apenas um parecia destemido. Mulheres acumulam-se atrás de mim, me enchem de regalias, me trazem drinks, me passam seus números anotados em guardanapos marcados por seus batons. O aroma profano que emana delas já não me alicia mais.
O tempo me escapa como areia seca aos dedos, entretanto, não tenho necessidade de dormir. O fastio me consome, ponho-me de pé e guardo algumas cédulas nos bolsos. Deixo o restante sobre a mesa, uma vez que aquilo não tem tanta necessidade para mim quanto para esses humanos mesquinhos. As mulheres brigam por aqueles montes de papeis inúteis, mas não me impressiono. Para quem esteve em Sodoma e Gomorra, nada lhe é incomum.
Dirijo-me ao bar mais perto, sentando-me ao balcão. Peço ao barman um uísque, com limão, por favor. O peso da culpa volta às minhas costas quando a primeira gota de álcool chega a minha língua ressecada. As cicatrizes doíam. Mas não paro, continuo a beber sem pudor. Deus não poupou seu favorito, enviando-o ao inferno, por que faria por mim?
Escolho uma a esmo, todas são iguais. Avisto uma ruiva, de pernas vultosas, vestido azul-turquesa e pele extremamente pálida, que está sentada na outra extremidade do balcão. Peço ao barman para que lhe entregue uma bebida por minha conta, junto de um guardanapo, em que anoto o número do meu apartamento. Ela recebe a entrega, então seu olhar encontra o meu. Posso notar um sorriso tímido surgindo no canto dos seus lábios alaranjados e o tom rosado que suas maçãs admitem por baixo das sardas. Ela move a cabeça em negação, ainda sem perder o sorriso de canto, depois se levanta e se mistura a multidão, deixando para trás o copo de destilado intocado junto do guardanapo. Estou perdendo o jeito. O barman sorri em solidariedade para mim, tiro alguns trocados do bolso e deixo sobre o balcão, tomo o ultimo gole do uísque barato e levanto-me.
Talvez fosse um sinal de que eu deveria dormir sozinho esta noite.
Volto ao meu quarto quando o Sol já ameaça subir. As mulheres que antes estavam em minha cama já se foram, deixando uma completa bagunça. Gavetas reviradas, objetos de valor roubados. Como se isso me fosse importante. Tiro a camisa e jogo-me no sofá, cigarros pela metade na mesa de centro me induzem a traga-los, mas não essa madrugada. Pego uma garrafa de destilado, porém até minhas últimas gotas elas levaram. Levanto-me e vou para a sacada do quarto, levando comigo meu violão. O sol está tímido, escondido atrás de um arranha-céu; pássaros cantam e voam sem se preocupar com o caótico bairro abaixo deles.
Do violão tiro algumas notas, contudo, nada que faça sentido. Apenas notas aleatórias. O crucifixo em meu pescoço pende inutilmente e a vontade de jogá-lo pela sacada me vem novamente. A cicatriz lateja, avisando-me para me controlar. Entro no apartamento, deito-me na cama suja, fecho os olhos, desejo poder dormir. Sem mulheres, sem bebidas, sem cigarros. E, nessa noite, a cicatriz não doeu mais.
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