Profº Oddelier e os Recontos do Senhor das Trevas

4 Capítulo 3 - Uma passagem de ida e volta.


Notas iniciais
Lumus! Atualização: estou de volta 100%, com postagem todos os domingos fixos! Porém, uma vez ou outra vou postar mais vezes numa mesma semana. Dúvidas, críticas ou quaisquer outra coisa só mandar uma mensagem ou comentar. Se você curtiu pra caramba, dá um favorito ai ou faz uma recomendação! Também gosto bastante de conhecer gente, então faço questão de mesmo se você não gostar, me dizer o que não curtiu na fanfic. Um beijo do gordo, até domingo! :)

Décadas atrás, no vigor da idade, já foi o homem que arrastava o delinquente para a cela com o suporte dos dementadores. Décadas atrás, teria xingado e estuporado criminosos dentro de suas celas. Era um homem velho, exaurido da idade, isento de seus poderes e preso numa cela escura como a noite. Não contou os dias nem as semanas que estava trancafiado, não iria se cansar com aquilo – não iria ser beijado – isso era o suficiente. De tempo em tempo, aquelas figuras encapuzadas vinham e se alimentavam; usufruíam de tudo que tinha de bom: a memória.

Levavam as lembranças de quando era um brilhante estudante, de sua primeira namorada, dos prêmios que tinha ganhado. Do torneio tribruxo que seu finado amigo, Emílio Bowflier, participou e das madrugadas que passaram na Seção Reservada, estudando e criando feitiços. Dos elogios que seus professores teriam dado e de todos seus divinos cargos no Ministério da Magia. No pequeno período que lutou como auror, na sua subida incandescente à chefia do departamento de Criação de Feitiços e de tudo que criou. Por fim, levaram sua criação mais honrada, sua arma, seu poder, seu feitiço mais forte e todas as lembranças boas que sobraram.

Entretanto, não se esqueceria.

Ali, sentado, jazia um homem deteriorado – tanto pelo tempo quanto pelo cárcere – e não se esqueceria. Não se esqueceu quando foi preso em Nurmengard após deserdar o exército de Grindenwald, não se esqueceu quando foi ofendido por todo mundo mágico e nem quando foi-lhe negado três vezes o cargo de Ministro da Magia. Foi desprovido até do pensar. Quando o céu enegrecia e toda a construção se transformava num breu, o homem da cela ao lado gritava descontroladamente, e naturalmente, conhecia aquele rugido. Seu nome era Xharid Nic Dabihd, traficante de animais mágicos e assassino, aprisionado com vinte e dois anos de idade e famoso pelo extermínio de trinta e sete aurores, inclusive o chefe do departamento da época, Gilbert Truman. Xharid provavelmente está por volta dos seus cinquenta. Uma vez fora um homem gordo, filho de um irlandês e uma libanesa, mas uma vida dentro de Azkaban não era fácil para ninguém. Muitos dos mais cruéis não sobrevivem um ano inteiro.

Durante uma das tardes – suposições, o céu sempre estava escuro – que Xharid não rugia, lembrou-se do cargo que abandonou e na falta que ele lhe faria. Arrependeu-se de ter feito o drama de quebrar sua varinha, sua tão fiel companheira e sua amada parceira. Foi um erro ter ateado fogo na loja, mesmo que sem querer, a culpa fora toda sua. Será que a figura viva da herdeira de Olivaras fora uma ilusão? Talvez tivesse tirado a vida da garota, tão jovem e tão bonita, e era o dono da culpa.

Vez ou outra conjurava uma flama na mão para se aquecer, mas as paredes logo absorviam a magia dali e ela se apagava, voltando ao frio e uma sensação parecida com a de hipotermia. Se isolou por sete anos numa galera, velejando nos mares para-lá-da-Escócia, para dominar aquela habilidade. Soltava feitiços cada vez mais fortes para o mar, onde não poderia causar nenhum mal para ninguém e para nada. Nunca se arrependeu daquilo, isso era certo. Se nunca tivesse aprendido aquilo, não salvaria a vida da garota no Olivaras, se é que tivesse mesmo acontecido.

No meio de tantos arrependimentos e memórias perdidas, não queria sair dali. Iria pagar seus crimes, pelo assassinato da garota, por queimar a loja, por trabalhar em um feitiço proibido.

Recentemente, antes de toda essa história de professor, havia acompanhado um pouco de literatura trouxa e tinha lido em algum lugar que “a esperança aparece em muitas coisas, menos naquilo que se espera”.

Não comia desde que foi jogado ali, e pensar não alimentava. Bruxos podiam viver algumas semanas sem alimentação se sustentados por alguma propriedade mágica, embora tivessem mais resistência que os trouxas – ou talvez a adivinhação fosse um tipo de magia qual as paredes de Azkaban não conseguiam absorver, pois naquele exato momento, um dos aurores que patrulhavam tão fielmente os corredores do monumento jogou um prato de vidro rachado contendo pão duro e algo verde que parecia muito com vômito de trasgo. Hesitação e ansiedade predominaram aquela cela escura. E se aquele delicioso lanche fosse uma armadilha? Talvez uma tortura. Sentia-se mal, sujo, e fedorento. Os trapos rasgados não reluziam a cor de seus olhos. Haviam marcado-o também, desenharam uma torre no seu peito que se movia sempre para outro lugar do corpo quando cobria seu ninho original, a prisão de Azkaban, o sinal perpétuo, medida instaurada após a primeira fuga de Sirius Black e mais severamente aplicada depois da fuga em massa alguns anos antes da guerra contra Lord Voldemort. Naquele exato momento, ela se encontrava em sua mão, a mesma esticada para agarrar com ferocidade aquele pão com não-sei-o-que-lá verde, e no momento do toque, tudo desapareceu. O mundo sumiu e tudo virou num redemoinho.

Caiu no chão, agarrando o pão com todas as forças, e abrindo lentamente os olhos devido a grande luminosidade do local. Era o paraíso comparado com as noites de Azkaban. Velas voavam e o teto enfeitiçado reluzia o céu à noite. Quatro mesas alinhadas com estandartes de suas respectivas casas, coroadas com dezenas de alunos, calados e abismados com aquela figura suja e fedorenta que tivera aparecido do céu.

Levantou-se com o apoio de um homem baixinho e barbudo, aparentemente com trinta anos de idade e muito vigor. De pé, levantou os olhos para a mesa dos professores e lá estava ela, a diretora, olhando pouco indignada para a figura de um inválido fugitivo, sujo e de dentes amarelos. Com o apoio do homenzinho barbudo, deu passos idosos até os degraus para a mesa dos professores. Ouvia os alunos murmurarem, gritarem, alguns risinhos sarcásticos, mas recebera apenas olhares frios dos docentes. Tentou falar algo, mas abriu e fechou a boca numa tentativa tonta.

– Continuando com os avisos, a Floresta Proibida tem seu acesso restrito para todos os alunos. — a diretora tossiu, como se devesse alguma explicação sobre o mais recente ocorrido para seus alunos. Nosso inválido já estava são e salvo em seu lugar, ainda abraçando seu pão, abismado, com os olhos fixados na mesa da Sonserina, sua antiga casa.

– Devemos dar as boas-vindas ao professor Frederikssen Oddelier, antigo chefe do departamento de Criação de Feitiços, que encontrou tempo em seus afazeres para lecionar. Em nome de todo o corpo docente, também acalentamos Corvo, novo zelador e inspetor do castelo, substituindo Argo Filch. Sem mais, desejo-lhes boa sorte neste período letivo e que comece o banquete! — num aceno de varinha, pilhas de variados tipos de comida apareceram na mesa de cada Casa e inclusive na do corpo docente. Os alunos, provavelmente famintos e cansados da longa viagem, atacaram frango, batatas cozidas e o suco de abóbora com uma peculiar agressividade. Os fantasmas também percorriam as mesas, conversando com os alunos e botando as novidades em dia.

Era uma visão reluzente e feliz para o velho que alguns minutos atrás estava preso. Tudo de mal e cruel que pensou dentro daquela cela escura desaparecera, e suas boas lembranças pareciam ter voltado para dentro de sua brilhante cabeça. Fisicamente, não estava bem. Ainda estava sujo e fedorento. Até mesmo o professor de Tratos das Criaturas Mágicas que sentava ao seu lado não estava muito à vontade. Horácio Slughorn, professor de Poções e conhecido de longa data, não se mostrava nem um pouco amistoso com o recém-liberto, tampouco ao sentar ao lado do antigo “colega”.

Ninguém parecia confortável com a aplicação de um fugitivo no corpo docente, porém os olhares afiados eram mais aconchegantes que a escuridão da cela.

Largou o pão – agora revelado uma chave de portal não-registrada pelo Ministério da Magia – que iria estudar no dia seguinte, e beliscou alguns pedaços de frango que demostravam-se apetitosos o suficiente, aliás, qualquer coisa que colocassem ali comeria. Não sabia quantos dias estivera preso; também a quantidade de dias que não comeu, não se lavou, não escovou os dentes e mais uma lista imensa de nãos. Também não iria perguntar. A vergonha de olhar as pessoas nos olhos era demais, limitando-se apenas a encarar inapropriadamente aquela enorme coxa de frango.

Se recordou da última vez que visitou aquele monstruoso salão como aluno. Era o último dia letivo e fora o último a sair do Salão Principal, carregando sua pasta e seu malão, em prantos – não reservava seus sentimentos, mesmo sendo delicado como um trasgo – já que seus pais tinham se mudado para a Suécia, começando uma loja de artesanato de varinhas, enquanto o jovem Oddelier teria de se virar e trabalhar no Ministério, cometendo burocracia e praticando chatices. Não podia errar e não tinha amigos no Ministério da Magia, enquanto em Hogwarts era um aluno que excedia expectativas, adorado cujo a opinião valia ouro. Mas estava ali novamente, do outro lado, altivo, mesmo com aquela aparência assustadora.

Depois da janta, os primeiranistas eram encaminhados para as comunais com a ajuda dos monitores enquanto os alunos mais velhos esticavam seus horários para conversas e brincadeiras. Durante esse meio-tempo, conseguiu puxar alguma conversa com Hagrid, o tal professor de Trato das Criaturas Mágicas, que se mostrou mais amistoso que o resto dos docentes. Formularam uma conversa estranha, simulando um quadribol onde os dragões ocupassem os postos de goleiros, ideia que morreu rápido ao perceberem quantas mortes um dragão poderia, de fato, fazer acontecer.

Piscou os olhos, depois piscou mais uma vez lentamente, porém quando os abriu, o salão estava vazio e era acordado por Hagrid, que avisava sobre o término da reunião. Ali, em todo aquele imenso salão, estava reservado apenas por ele, pelo meio-gigante e pela diretora McGonagall.

– Frederikssen, você não está nada mal para um oitentão! — havia um pouco de sarcasmo na voz de Minerva, porém algo mais sadio que os olhares de canto d'olho de Horácio Slughorn ou alguns comentários secos de sextanistas.

– Tento me conservar. Não é qualquer um que consegue viver numa floresta na Cornualha e continuar velho! — e conseguiu rir, seco e em meio de tosses, porém foi uma risada feliz o bastante para que esquecesse, mesmo por um minuto, o tempo que ficou em Azkaban. Por sorte, Minerva acompanhou a risada também.

– Bom, houve um problema com a sua sala de aula e seu quarto, prof. Oddelier, porém conseguimos um aposento tão adorável quanto e uma sala de aula limpa o bastante para que comece seu ano letivo amanhã. Todos os animais mágicos que o senhor providenciou estarão sob o domínio de Hagrid, nosso guarda-caça e professor do Trato das Criaturas Mágicas, e os livros foram distribuídos para os alunos. Agradeço pela caridade, já que muitos alunos não possuem dinheiro para comprá-los, embora também duvido da sua escolha para o livro do ano. Gilderoy Lockhart é um mentiroso e sua fama é terrível! — havia repreensão em sua voz, ele podia perceber, e Hagrid saia de “mansinho”, se bem que nenhum gigante consegue sair de mansinho.

Minerva se pôs a andar, e Oddelier acompanhou. Logo chegaram a escadarias.

– Minerva, gostaria de dizer que estou grato por me oferecerem o cargo de professor. Também devo agradecer por ter me tirado daquela escória de lugar, mas me diga, a garota está bem? — abaixou a voz – Ela morreu? — e então um silêncio dominou, e a escada em que os dois estavam se moveu, abrindo o local para que pudessem subir até o segundo andar.

– A srta. Olivaras está bem, professor, e devo lhe avisar que Hogwarts o recebe de braços abertos. Mesmo se você fosse culpado de todas as acusações, se você estivesse mesmo criando uma nova maldição e se você tem cinco anões como escravos no porão, ainda te tiraria de lá. Não temos um professor de Defesa Contra As Artes das Trevas fixo e todos se mostraram inaptos a realizar seu trabalho decentemente, talvez um Chefe de Departamento seja bom o bastante para o cargo. — ela respirou e deu uma boa olhada para o inválido. — Está na minha hora. Recomendo que o senhor descanse bem, faça a barba pela manhã, tome um banho e ponha uma roupa decente, e mais uma vez, bem-vindo. — ela se virou e foi embora, descendo as escadas, deixado-o na porta de sua sala de aula no corredor do quarto andar.

A última imagem que o inválido viu antes de adormecer foi o lugar que mais amava pegando fogo, com mais de vinte mil Gilderoy's Lockhart's como seguidores. E sim, é claro que essa última imagem era um sonho.

Notas finais
Nox!