Prodigius mundi
1 Eu sou traida
“Às vezes, uma pessoa faz algo tão bom que você acha que nada poderia torna-la ruim; e é ai que ele faz um simples gesto maldoso, uma simples traição, e tudo cai...”.
Namqui, uma bela cidade turística de lindas paisagens e vilarejos. Não. Namqui é uma cidade em ruinas, literalmente em ruinas, ela e toda a América do sul estão assim pela chamada, guerra cadente, foi uma guerra ocorrida há uns anos atrás, muitos anos atrás, esta foi a grande guerra mundial, onde tudo e todos estavam submetidos à morte, deveríamos nos confortar com o fato de misses caírem nas nossas cabeças, e é dai o nome cadente, de tantos misseis nucleares no céu que poderiam ser confundidos com estrelas cadentes.
Após a guerra os vencedores foram a Ásia e os Estado Unidos, que eram aliados e mantinha o maior poder bélico e tecnológico existente, eles submeteram todos os quatro cantos do mundo a seu poder, como escravos, e renomearam o mundo agora considerado deles, como Pangeia, para mostrar que o inicio tomado, levou a um horrível fim. Mas é claro, não havia terminado; com seu espírito rebelde, a América do sul se rebelou. O resultado?
Ruinas no lugar de prédios e casas.
Sobraram algumas poucas colônias com cerca de dez sobreviventes em cada, não à paz, vivemos fugindo dos escravos da guerra, os outros locais do mundo vivem a traz de nós ,sempre estamos fugindo, diminuindo, morrendo.
Eu e meus pais estávamos voltando de uma busca de três dias, as buscas não passam de simples saídas à procura de outras pessoas necessitando de ajuda; elas raramente têm sucesso. Dessa vez não foi diferente. De certa forma estava animada para voltar para casa, se assim posso chamar Namqui. Namqui é uma cidade grande, localizada no estado onde antes era a antiga São Paulo, hoje não passa de ruinas de casas bem arrumadas com longos jardins, prédios que parecem abraçar o céu, e várias lojas vazias. Eu, Ánem, de dezessete anos, voltava a Namqui no meio de meus pais, e ao olhar para eles percebi, de novo, o quão sou diferente deles.
Minha mãe, Kalli Grace, é uma mulher alta e bonita, curtos cabelos loiros, e lindos e penetrantes olhos azuis. Meu pai era um homem tão alto quanto a minha mãe, Augustus Chase, cabelos castanhos bagunçados e misteriosos olhos cinza. Eu, Ánem Grace, estatura não tão alta quanto à dos meus pais, porem não tão baixa, cabelos longos que caem até pouco abaixo dos ombros, com uma cor branca, tão branca quanto uma nuvem pairando ao céu, geralmente preso em uma única trança; meus olhos brilham com um azul um pouco escuro com traços esverdeados tão claros quanto uma folha reluzindo à luz do sol.
Estávamos chegando a Namqui quando meu pai parou para me fazer uma pergunta.
-Você está bem Áni?-era assim que ele me chamava.
-Estou pai, tudo bem- está pergunta não é tão incomum hoje, já que onde você anda, está pisando em um solo infértil e cheio de material nuclear misturado com pedaços de misseis.
-E você Kalli, com você –.
BUM
Meu pai foi interrompido por uma explosão ocorrida a não mais que um quilometra da nossa posição, por impulso nos escondemos atrás de uma destruída loja de roupas, esperamos.
Decidimos sair de trás da loja e correr até nossa toca, ou casa, chame como preferir; ao chegarmos lá não havia nada nem ninguém, nem um único vestígio de algo que tenha passado por lá em três dias. E de repente me ocorreu algo, meus dois amigos; Dalian Redy, dezoito anos, alto, forte, cabelos curtos tão escuros quanto uma noite sem estrelas, e seus olhos, diferentes sim, feios?
Seus olhos tem a cor mais interessante e penetrante que eu já vi, são intensos como um chama ardente em seu auge, sua cor é de um intenso vermelho amarelado, como o fogo. E minha amiga, Annabeth Slyt, uma garota da minha idade, mesmo tamanho, olhos verdes tão penetrantes que são capazes de ler até seu mais profundo segredo, seu cabelo, ruivo comprido e cacheado.
-VAMOS ÁNI!-Disse meu pai me despertando de minhas lembranças.
-Pai, mãe, eu preciso encontrar meus amigos, ver se eles estão bem, ou ao menos vivos.
-Nunc-
-Certa querida, mas nós vamos juntos. – Disse minha mãe carinhosamente interrompendo meu pai, ele olhou intrigado para ela, mas em seguida assentiu.
Corremos nós corremos por cerca de três minutos desviando de entulhos e grandes pedaços de metal no chão até alcançarmos a única casa inteira e bonita em Namqui. Era uma linda casa estilo colonial, na frente um portão de metal preto, ele estava em sua maioria, com barras tortas, em um lado havia um enorme buraco. Nossa passagem. Ao passarmos o quintal não tinha grandes flores rodeadas por anões de jardins, era apenas um caminho de pedras no meio, dividindo dois lados com uma grama tão verde e bem aparada reluzindo ao sol do meio-dia. Porém, algo tão simples tornava aquele quintal tão fabuloso. Duas pequenas arvorem cerejeiras, uma de cada lado do quintal, com flores tão delicadas que um simples olhar poderia desmonta-las, mas tão belas que olhar para elas um minuto é uma eternidade, olha-las por uma eternidade é um segundo. Atravessei o quintal, corri pela porta escancarada e gritei chamando Annabeth.
Sem respostas.
Eu havia perdido as esperanças, abaixei minha cabeça, minha garganta estava seca quando alguém, familiar, me chamou.
-Ánem?- Era Annabeth, sua voz sempre era calma, porem desta vez estava tensa, assustada.
Eu corri me sentia feliz por minha amiga estar viva, mas preocupada pelo seu tom de voz. Eu corri até o ponto de onde surgia a voz, ela levava aos fundos da casa, um lindo e comprido jardim coberto de diversas tulipas, transformando o local em um lindo mar de cores das mais escuras, as mais claras. Os muros deveriam ter por volta de dois metros, muros de tijolos quase totalmente cobertos por trepadeiras que surgiam de todo ponto. Ao centro se via uma pequena mesa de madeira de quatro pernas, uma toalha de renda a cobria delicadamente, três cadeiras estavam sendo ocupadas por Annabeth e seus pais. Annabeth estava de costas para mim, foi então que a chamei.
-Annabeth? Oque aconteceu? Você está bem?- Enquanto disparava as perguntas, avançava em sua direção.
-Áni? Onde estão os seus pais?- Ela estava diferente, sua pele estava mais pálida, seus olhos haviam perdido o brilho e ela estava com profundas olheiras. Ela não dormia há dias.
-Meus pais estão bem aqui- Foi então que me virei e me vi sozinha, me assustei, em que ponto ele haviam desaparecido? Como? Quando? Perguntas que foram respondidas de uma forma da qual eu não gostei.
Eu vi saindo de um armazém encostado ao muro do jardim cerca de dez homens com uniformes pretos, botas pretas e capacetes cinza escuro que escondiam seus rostos. Todos estavam armados, meu pensamento foi o mais apropriado àquela situação.
É assim que chamamos as pessoas dos povos que não lutaram contra o lado campeão na guerra. Todos estavam armados com espingardas de pressão 5.5. Eu estava aterrorizada, porque Annabeth faria isso? Eles permitiriam que ela vivesse guardando eles
-Oque é isso? Anne oque você fez?
-me desculpe Áni- Lagrimas brotaram de seus olhos enquanto falava — Eles me obrigaram, eles estão atrás de você Áni, é o D.
E foi ai que ela parou. Que foi forçada a parar, pois uma bala de espingarda havia atravessado o seu coração e o de seus pais. Eu pus-me a correr, atravessei o corredor da casa correndo e passei pelo buraco do portão, corri na direção da casa de Dalian e enquanto corria a tristeza me assolava. Eu me lembrei da primeira vez em que vi Annabeth, nós tínhamos seis anos, eu segurava uma boneca de cabelos ruivos, ela uma de cabelos brancos, nós trocamos as bonecas, e fizemos com que nos parecêssemos com elas, e então amigas, enfrentando as guerras, mudando de casa.
Quem era D? Por que ele mataria Annabeth? Porque iria matar meus pais? Porque me faria sofrer?
Enquanto corria esbarrei em algo. Algo não, alguém.
Dalian, ali estava ele com sua força e seus olhos brilhando como chamas a luz da tarde. Enquanto nos levantávamos percebi que começava a chorar, e fiz a coisa que eu achei mais sensata, a que eu mais queria, me joguei em seus braços. Era reconfortante a palma da minha mão direita formigou algo que sempre ocorria quando estava perto dele. Ele levantou minha cabeça e olhei diretamente para seus olhos.
-Áni oque foi? Oque aconteceu?- Sua voz era confortável aos meus ouvidos, porém seu tom era de preocupação e havia uma leve tremulação nela.
-Meus pais, Annabeth e sua família, todos mortos por libertos que agora estão atrás de mim. – Enquanto chorava ele abraçou minha cabeça contra seu peito. Eu poderia ficar daquele jeito para sempre, mas sabia que no momento não podia.
- Vamos, eu vou te levar para um lugar seguro. – Ele segurou minha mão e começamos a correr, enquanto ele segurava minha mão tinha a sensação de que nada me arrancaria dele, nem mesmo os libertos.
Ele nos levou até uma papelaria em ruinas, porém com vários materiais ainda bons. Nós descemos até onde seria o porão da loja. Um cômodo iluminado por uma única e fraca lâmpada, com uma camada de pó cobrindo o chão e as várias caixas ali. Imaginei oque haveria lá dentro, cadernos, livros, lápis. Mas estava enganada.
De dentro dos caixotes saltaram libertos, eu me desesperei e olhei para trás para avistar Dalian indo na direção deles, aquilo me assustou. Como a pessoa em que eu mais confiava me trairia. Havíamos nos conhecido quando eu tinha apenas cinco anos, e a partir dai algo cresceu. Não só uma amizade onde se pode confiar seus maiores segredos um ao outro. Algo maior que isso, um amor.
- Me desculpe Áni, me desculpe mesmo. Não era o combinado eles machucarem Annabeth ou seus pais. Eles deviam apenas leva-la em segurança para o Centro. Me... Desculpe-me. – Enquanto ele falava percebi duas coisas.
1) O “d” de quem Annabeth falava era de Dalian.
2) Às vezes, uma pessoa faz algo tão bom que você acha que nada poderia torna-la ruim; e é ai que ele faz um simples gesto maldoso, uma simples traição, e tudo cai. Assim como uma borboleta. Difícil de chegar a este estágio, mas ao chegar é tão belo e delicado quanto qualquer flor do mundo, onde ao voar um simples toque em suas asas poderia fazê-las ruir com a impregnação da maldade e torna-la novamente uma simples e feia lagarta, lutando para voltar a sua beleza.
Eu percebi que Dalian começara a chorar, algo raro de acontecer. Então percebi que talvez meu antigo Dalian existisse ali.
-Vamos, pegue ela e a levem para o centro. – Sua voz era severa e tremula.
-Dalian por quê? Porque se entregou a eles os libertos que odiamos?- Neste momento eu já estava gritando.
-Eles não são Libertos, eles são soldados do capitão Acóm, eu também. E estamos atrás de você. Ánem você é uma Mirum.
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