Notas iniciais
Minha primeira história, espero que gostem.

Está claro. Acordo com raios de sol que passam pela a fresta da cortina. Abro os olhos lentamente ainda sonolento. Tento espreguiçar meus braços mas o teto do beliche torna-o uma tentativa frustrada. Meu braço esquerdo dormente não ajuda a melhorar a manhã. Posso estar exausto mas sinto uma pontada de felicidade por não estar morto.

Apesar de ser bastante cedo o quarto está vazio, apenas duas camas estão ocupadas. O quarto não é grande, possui uma dúzia de camas, mas o cansaço faz com que a distância até o banheiro pareça enorme. Caminho pelo corredor de beliches e entro no banheiro. O espelho me avisa que meu visual não está dos melhores. O cabelo castanho escuro desgrenhado e as olheiras nada convidativas só pioram meu mau humor.

Tãn tãn tãn, o sinal me traz a realidade. Tenho quinze minutos para estar na sala de aula. Vou chegar atrasado. Não posso chegar atrasado. Se eu chegar atrasado serei reprovado e não quero viver nas ruas. Depois que minha mãe morreu, meu pai começou a beber e meu irmão e eu fugimos de casa. Morar na rua, sem lugar para dormir e não saber como será o amanhã, com certeza, não é algo pelo qual eu quero passar de novo.

Tateio com os pés em busca de meus chinelos. Não os acho. Ao invés disso encontro o azulejo gelado. Caminho pelo corredor de beliches esbarrando em algumas bolsas espalhadas pelo chão. Entro no banheiro e o espelho me informa que meu visual não é dos melhores. O cabelo castanho escuro desgrenhado não faz o contraste desejado com a pele morena. Os olhos negros parecem unir-se as minhas olheiras que indicam a minha clara noite mal dormida. Não me lembro, devo ter tido pesadelos. Jogo água no rosto para me acordar de meus devaneios, porém não parece ter muito efeito. Os fatos conspiram contra mim. Escovo os dentes rapidamente e corro para trocar de roupa. Abro o baú de madeira clara que guarda meus pertences, pego e coloco minha blusa do colégio. A blusa é azul-marinho com o nome da Universidade Crossville no peito. Coloco minha calça preta e corro pela para a aula. Tãn tãn tãn. Cinco minutos.

Saio em disparada pela porta e dobro no corredor. Um, dois, Três lances de escada e chego no pátio central. Não sei o porquê, mas acho que não chegarei a tempo. Estranho. Flexiono os joelhos e salto, cerro o punho e o vento me impulsiona à varanda do segundo andar. Caio um pouco sem jeito, arrumo meu uniforme, Tãn tãn tãn, abro a porta.

-Boa Tarde, Sr. Thuun. -diz o Sr. Thomas. Acho que ele é meu professor de física, mas ele não me parece um professor de física. Seu cabelo escuro e a barba malfeita não lhe dão a aparência esperada de um professor de física.

-Como vai? — continua o professor. — Como vai? O senhor não cansa de chegar atrasado?

- Hmm... Acho que não.

Eu subo os degraus e me sento em uma das carteiras no fundo da sala. Eu me sento na penúltima carteira da fileira ao lado da parede. Olhares curiosos se direcionam à mim. A matéria anotada no quadro confirma minhas suspeitas. Física. Por quê tenho que aprender termodinâmica? Somo isso à minha lista de matérias inúteis.

A sala possui quarenta e oito lugares — todos já ocupados – e se parece com um auditório. O centro é uma área semicircular, há uma mesa de madeira e alguns poucos objetos que até hoje não descobri suas utilidades. Atrás da mesa há uma tela branca e sensível ao toque que o professor usa para dar aula, ela é retangular e contornada por uma borda de metal. As mesas se projetam em torno da área central. Sentam-se dois estudantes em cada e elas possuem duas pequenas telas assim como nosso quadro. O chão é coberto por um carpete cinza e as paredes são de madeira.

Após uma breve análise chego à conclusão de que temos um total de dois alunos interessados na aula de física. Nada para se estranhar, aliás, termodinâmica não é uma matéria que a maioria considere interessante. Quando eu estava no fundamental as aulas costumavam ser mais divertidas. Já faz tempo desde de que

Olho para o relógio, mas ele me provoca quanto vejo os números escorrendo lentamente. Oito e cinquenta e dois. Não se passou nem meia hora. Preciso me distrair.

O professor chama Susan até o quadro. Ela é uma menina de cabelo ruivo, tão claro que chega a ser quase loiro, pela clara e olhos verdes, definitivamente bonita mas também muito inteligente. Conheci Susan assim que entrei em minha antiga escola. Na época devíamos estar na oitava série. Ela era membro do SOD – serviço de orientação disciplinar – na época. Eu me envolvi em uma briga em menos de uma semana de aula e ela me salvou de ser expulso. Fui obrigado a assumir o cargo supervisor disciplinar – seria algo como vigiar e dar esporros em quem usa suas habilidades de sacanagem – durante o trimestre e ela ficou como minha supervisora. Irônico, não? Era legal brigar com garotos idiotas então eu continuei no cargo pelos outros dois trimestres seguintes. Acabamos nos tornando amigos.

Ela levanta da carteira e anda até o quadro saltitando. Enquanto caminha até o quadro, um sorriso se forma em meu rosto. Tive uma ideia. Ela começa a resolver a equação. Seus dedos deslizam suavemente pela tela enquanto os números com que lida ficam cada vez maiores. Ela termina e analisa a questão. Olho direito para o quadro e me concentro em parte dele com um X. Levanto a mão discretamente e arrasto o X até um ícone com formato de lixeira. Pronto. Toda a operação muda de forma. O professor chega para verificar e faz uma cara torta. Ela olha com descrença para o quadro e reclama, mas depois seus olhos param em mim. Ela marcha de volta parar seu assento, que fica ao lado do meu, me fitando com olhos raivosos.

- Você é um grande idiota — diz ela enquanto senta e se vira para o outro lado emburrada.

A aula não dá sinal de querer acabar. Me viro para a janela e olho para o pátio central. A escola onde estudo é realmente grande. Uma das muitas em nosso país. Aqui nós temos a grade normal pela manhã e a grade avançada pela tarde. Na grade normal temos as matérias típicas de qualquer escola, como português e matemática; já na avançada temos treino de habilidades, luta, avaliações físicas e também a parte teórica.

Olho através da pequena janela ao meu lado e vejo a fonte no meio do pátio. Ela é rodeada por um jardim repleto de flores brancas que dá um ar aconchegante à escola. Fico admirando a água jorrando. Arranco uma folha de meu caderno e com ela faço um avião de papel. Jogo-o e ele plana suavemente. Conduzo as correntes para acertá-lo na rota para a fonte. Ele a contorna e por fim mergulha. Observo ele se unindo à água.

Tenho quinze anos. Não, tenho dezesseis. Tenho certeza de que fiz dezesseis a duas semanas. Em dezesseis anos nunca tive uma aula de cinquenta minutos que demorasse tanto. A aula acaba depois de destruir completamente minha paciência. Não sei se posso aguentar mais. Tenho que aguentar... o professor de Sociologia entra.

Nossa escola tem essa aula como algo religioso. Não podemos em hipótese alguma faltá-la. Grande parte também deve considerar o mesmo, se vangloriando por serem Humanos mais capazes. Poder. Uma pequena palavra, que cega a mente os homens que se julgam fortes. Somos ensinados desde cedo que nós temos o dever de defender o Governo e que devemos cuidar dos incapazes, os sem poderes. Somos instruídos para sermos governantes, julgarmos o mal e combatê-lo. Nós, eles não.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.