A cada minuto que passa, é menos um momento que eu não vivi, menos uma palavra sincera que não disse, e talvez, algo que nunca mais poderei viver ou dizer.

— Sam, o professor... — ouvi um sussurro acordando-me dos meus pensamentos.

Levantei os olhos repentinamente, e levantei o braço sem hesitar.

— Presente! — tentei falar o mais alto possível, visto que a minha voz é rouca e suave, ... ou seja, diria que é difícil de ser ouvida em circunstâncias normais.

— Sinceramente, que distraído. — voltou-se para o papel e continuou os seus rabiscos.

Aquela pessoa, bem, eu devo dizer que é alguém importante para mim.
Dei um leve sorriso e comecei a escrever largas linhas de resumos do livro de Português.

Longos cabelos castanhos claro, olhos cor-de-mel, e um posição sempre firme com tudo, devo dizer que seria perfeita... mas claro que só o digo para mim... apesar de infelizmente notar-se a minha opinião, eu tento sempre esconder com um argumento sobre amizade, e dizer a minha frase comum: "Eu gosto daquela mocinha de tal, quem me dera poder ir visitá-la".

Soltei um pequeno riso, mas abafei-o.

— Visto que já está na hora podem sair, não se esqueçam do material proposto para a próxima aula. — o professor fechou o livro de ponto depois de finalizar a frase.

Levantei-me coordenado com os meus colegas, e arrumei as minhas coisas lentamente, para ocupar tempo.

— Eu acho que não devia dizer o quanto te acho lenta, certo, Emyzinha? — gozei e afastei-me da mesa, para não correr o risco de levar um murro bem no meio da testa.

— Se tens tantos problemas porque não vais logo embora? Eu faria o mesmo -Franziu o sobreolho

— Que rude! — lancei um riso irónico

— Que chato! — saiu á minha frente em direção á porta.

— Estás com vontade de ir embora! — Ri

Ela colocou a mão direita no bolso e com a esquerda fez-me um sinal com o dedo do meio. Sorri, afinal ela é sempre assim mesmo.

Continuei atrás dela.

— A estação devia ser logo aqui, chato termos de andar 20 minutos até lá

Dei de ombros, e deixei sair um 'Aham'.
Olhei para trás, sem sair da minha rota

— Não vamos esperar pelos outros? — olhei para ela dando dois passos largos em frente.

— Não. — falou olhando para o alto.

Estranhei a atitude, mas continuei sem fazer perguntas.

Entramos num Shopping, bastante vazio, que fazia parte do nosso caminho, andava relaxado apesar do tempo meio frio lá fora.

Até que a senti parar, olhei para trás para a encarar.

— Sam...

— Sim? — continuei parado

— Porque nunca és sincero com os teus sentimentos?

Senti o meu coração apertar de uma forma inexplicável.

— O que estás para aí a dizer? -ri

— Isso mesmo que estás a ouvir – abaixou a cabeça — Porque nunca dizes como te sentes? Escondes sempre tudo... Só te estás a magoar a ti e aos outros...

Virei-me para o lado oposto e baixei um pouco a cabeça.

— Para de dizer besteiras, anda. — dei um passo em frente

— Não! Já chega – estalou

Senti-a agarrar pelo meu braço com toda a sua força.

— O que estás a fazer? — virei-me com a força do puxão para ela – Emil-

Ela chegou-se para mim e os seus lábios tocavam nos meus lentamente.
O meu coração batia cada vez mais forte, ela era tão doce... fechei os olhos lentamente, e levei as minhas mãos até a sua cintura, procurando-a cada vez mais.

Sim, ela era mesmo perfeita...

Não sei quanto tempo ficamos assim, preferia que nunca acaba-se, ela afastou-se de mim, e deixou a cabeça cair sobre o meu peito.

Abracei-a e dei-lhe um beijo na nuca.

— Se me amas, promete... que nunca me vais deixar.

Ela certamente conseguia ouvir os batimentos fortes do meu coração.

— Eu prometo. — segurei-lhe a mão.

— Agora anda, sua idiota.

Ela riu baixo e começou a andar lado a lado comigo.

Coloquei as mãos nos bolsos, e apalpando o interior do meu casaco á procura do meu passe para a viagem.

Com a preguiça ainda demorei a encontra-lo no meio dos meus 7 cartões perdidos no submundo dos bolsos.

— E o que vais fazer quando chegares a casa? — ela perguntou ainda andando na minha frente.
Olhei para a figura á minha frente

— Ah, provavelmente dormir, nada.

Olhei para o chão sério.

— Sempre a mesmo preguiçoso. — ouvi um riso leve

— Sim, sim.

O tempo passa sempre muito rápido quando estou com ela, não sei porquê, num abrir e fechar de olhos já estava á porta de casa.

Claro que eu perco muitas vezes a consciência lúcida do que eu estou a fazer no momento, isso também ajuda a passar o tempo rápido.

Abri a porta e fechei-a encostando-me a ela, deixando-me cair até chegar ao chão.

Realmente é doloroso, quase não consigo sentir os braços ou as pernas...

Levei a mão direita até á cara e remexi o a franja.

Porque eu não desisto logo?
Essa pergunta mata-me por dentro, claro que seria mais fácil desistir e deixar que a morte me leve, do que lutar contra ela até o fim.

Eu não tenho motivos para o fazer, eu não tenho nada... eu simplesmente acho que já não tenho mais forças.

Mas eu prometi a mim mesmo que não ia deixar acontecer aquilo novamente, não importa a dor que tenha de passar. Eu vou protegê-la, eu vou ficar com ela até o fim, mesmo que seja impossível, eu jamais vou deixar que acabe como ele acabou... engolido pelas chamas... desaparecendo no ódio de humanos peganhentos e nojentos... afastado de mim, odiando-me...

Mordi o lábio agoniado, não, não importa o sofrimento, eu vou lutar até o fim.

Levantei-me e segui até a cozinha, pegando num copo de água e tomando os meus medicamentos.

Passei pelo corredor e pelo quarto da minha mãe, onde ela estava deitada, provavelmente adormecida, decidi não incomodar, afinal, ela está muito desgastada desde que a avó tinha ido para o hospital, os médicos disseram para ela descansar, se não poderia ter um colapso e ser fatal..

Portanto preferi deixar a minha dor de lado, é verdade, eu também tenho de lutar pela sobrevivência por ela, eu, morta ou viva, a minha mãe, apesar de tudo merece viver.

Suspirei.

Entrei no quarto e atirei-me para o chão.

— Certo, 3, 2,1.

Segurei os braços contra o peito e contei os abdominais.

Eu preciso ficar forte para conseguir aguentar o máximo possível, é a minha determinação. Eu vou ser alguém digno para proteger a minha família, e para estar ao lado dela.

—--- x

Bip Bip Bip

Abri os olhos cansada, e olhei para o relógio.

06:30

Eu voltei a adormecer no chão, sinceramente...
Levantei-me e peguei na minha roupa, que tinha deixado em cima da cama no dia anterior, dirigi-me até á casa-de-banho e liguei o chuveiro na água fria.

— Mais um dia... ou devo dizer menos um dia? — soltei um sorriso de lado.

Deixei-me ficar por 7 minutos debaixo da água fria.
Acabando sai, colocando os pés sobre o tapete castanho ao lado da banheira e sequei-me lentamente, até me vestir.

Peguei nas minhas coisas, e passei muito rapidamente as mãos no meu cabelo remexido

Já podia ouvir o meu pai no chuveiro, o que significa que já estava na hora de sair de casa.

Disse Até logo para a minha mãe, mas não obtive resposta, tudo bem, eu acho, não a vou acordar para uma coisa tão besta quanto dizer isso.

Sai pela porta de entrada, e subi a rua até á estação de comboio.

Corri para apanhar o comboio das 08:11. Mas senti um enorme arrepio mal entrei no comboio e este começou a andar.

— Que mau pressentimento... — engoli em seco.

Encostei-me perto da porta e olhei pela janela, também cerca de 6 minutos de viagem não tem como acontecer nada de mau.. Eu penso.

Passado um pouco de tempo fechei os olhos e relaxei a ouvir a música, mas esse momento não durou muito.

O comboio deu um salavanco enorme, e quase que cai ao chão.

Tirei um fone, eu olhei para o lado, as pessoas cochichavam entre si. Não consegui entender o que aconteceu, talvez tenhamos parado para outro comboio passar?

Comecei a sentir-me deslizar para esquerda, e gritos e murmúrios começar a evadir o espaço, o comboio ia virar no meio de uma ponte.

A única coisa idiota que consegui pensar no momento em que aquilo tudo acontecia foi:

"Pelo menos, não tem água embaixo"

O Comboio caiu com toda a vontade, as pessoas caiam e rebolavam pelo comboio, até alguns vidros partir com o peso e pressão, e vários passageiros eram projetados pela força do ar.

Eu não pensava em nada, não conseguia pensar, simplesmente fechei os olhos embalada pelos gritos dos demais, até que tudo desapareceu.

Senti um impacto enorme, mas não sei por qual razão, não sentia nada doloroso, como se a minha dor e desgaste tivessem sido curados.

Algo quente circulava pelo meu corpo, e algo liquido e ardente entalava a minha garganta e escorria para fora da minha boca, de qualquer forma, não sentia nada, estava tudo negro e silencioso...

Isso poderia ser a morte? A sensação do nada e do vazio.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.