Procura-se uma Uchiha
24 Medo, alívio e desejo
Notas iniciais
Sarada...
A chuva caia como navalha, forte e impiedosa.
As gotas em encontro com a minha pele machucavam. A minha visão estava comprometida. A terra lamacenta e escorregadia. E estava frio. Muito frio.
Um relâmpago clareou o céu de fim de tarde chuvosa e o som de algo se partindo a distância era a minha certeza que alguma árvore havia sido atingida.
Medo. Era isso que eu sentia. Medo.
Abracei meu taco de beisebol com força, tentando forçar a minha visão através do óculos molhado.
Quando iniciei a descida, a chuva não passava de gotas inocentes, fui inconsequente, deveria ter esperado a minha mãe voltar, agora estava com medo, sem enxergar direito o caminho estreito, escorregando no chão lamacento.
— Mãe – chamei alto, sentindo meus olhos lacrimejarem. – SASUKE! – gritei.
O nada foi a minha resposta.
Eu sabia que eles viriam atrás de mim e eu só rezava para que eles chegassem logo.
Dei mais um passo, porém, a terra cedeu e meu mundo ruiu. Senti meu corpo deslizar pelo declive à minha direita, o grito saiu agudo, o desespero de tatear qualquer coisa para não cair na forte correnteza no fim daquela queda, fez com que eu soltasse o taco. A queda parou quando minha perna prendeu em algo e meu corpo bateu com força em uma árvore.
Uma dor lancinante percorreu a minha perna, não pude evitar o grito de dor, pela minha parca visão eu vi a minha perna presa entre dois troncos de árvore, em um ângulo que não era normal enquanto sangue escorria de um corte profundo.
Gritei. Gritei de dor, enquanto via meu taco ser levado pela correnteza.
Abracei a árvore para me manter segura e não cair mais.
O desespero tomou conta de mim quando olhei para cima e vi que apesar de não estar longe da trilha, eu sabia que não conseguiria subir o declive com a perna quebrada.
— MÃE! SASUKE! – gritei mais uma vez, antes de murmurar: – Por favor, alguém, vem me ajudar.
***
Sasuke…
Não. Não. Não. Eu implorava em pensamentos enquanto corria tropegamente atrás de Sakura gritando por Sarada.
Por Kami, que ela esteja bem!
Nunca fui um crente, mas naquele momento eu rezava para todos os seres divinos para que protegessem a Sarada e que nada de ruim tivesse acontecido com a minha filha.
Esse pensamento comandava meus pensamentos quando…
— MÃE! SASUKE! – alcançou nossos ouvidos nos deixando estáticos tentando descobrir de onde vinha.
— SARADA! – Sakura gritou com toda a sua força enquanto as lágrimas se misturavam à chuva.
— AQUI! – foi a nossa resposta baixa e foi a minha vez de correr na frente tendo uma ideia de onde ela estava.
A trilha estava escorregadia e quando olhei para o declive vi uma Sarada suja de lama abraçada em uma árvore bifurcada enquanto tremia de frio.
— Ali – gritei para Sakura por cima da chuva antes de segurar ela quando já fazia menção de se jogar em direção à filha.
— Me solta Sasuke, é a minha filha! – gritou enquanto se debatia em desespero.
— Eu sei! É perigoso. Eu vou descer, preciso que você fique aqui em cima para pegar ela quando eu a erguer.
Um vislumbre de lógica perpassou pelo seu rosto entendendo o meu pedido.
Um assentir com o rosto foi a minha permissão.
Deslizei pelo declive, antes de apoiar meus dois pés no tronco bifurcado, chegando numa Sarada que chorava de dor, só então entendendo que a perna direita da Sarada estava presa na bifurcação, claramente quebrada enquanto um corte não tão extenso sangrava.
Ela não conseguiria andar e antes que o desespero tomasse conta de mim, me agachei e peguei seu rosto com as minhas mãos para dizer firme:
— Eu estou aqui Sarada e eu vou te tirar daqui, mas eu preciso que você me ajude.
Ela assentiu em meio a um soluço antes de me abraçar com medo que eu desaparecesse dali.
— Me tira daqui, por favor.
— Eu vou tirar – prometi beijando o topo da sua cabeça antes de afastar seu corpo do meu para tirar minha camisa e usar como um garrote improvisado para cobrir o sangramento.
— Sasuke – Sakura chamou do alto – consegue levantar a Sarada.
— Sim! Se prepara.
Apoiei com firmeza meus pés nos troncos, se eu ficasse em pé e suspendesse a Sarada, alcançaria a Sakura, era nisso que eu pensava, nossa única saída antes que a chuva se tornasse mais perigosa e a noite traiçoeira.
— Vai doer, mas eu preciso que você aguente Sarada, eu sei que você é uma garota forte.
Ela assentiu em acordo antes que eu a levantasse pelos braços. O grito de dor devido a perna quebrada sendo movida fez o meu coração se despedaçar, mas continuei erguendo acima da minha cabeça para que Sakura conseguisse puxar nossa filha para a segurança da trilha.
Sakura com o coração mais aliviado, chorou, abraçou e encheu de beijos a nossa filha antes de esticar o braço para me ajudar a subir.
Eu sou pesado, eu sei, mesmo assim Sakura não desistiu de puxar até que eu estivesse em segurança junto com elas.
Não houve tempo para recuperar o fôlego, tínhamos que correr antes de escurecesse por completo.
Coloquei Sarada no meu colo e pedi para Sakura mostrar o caminho, ela concordou abrindo o caminho, mostrando o caminho mais curto para voltarmos ao hotel fazenda.
Sarada em meu colo ainda chorava, porém tentava aguentar a dor para não assustar nós dois.
Levou 20 minutos, mas chegamos, e sem cerimônias adentramos sujos de lama no hall, antes de correr para a lareira onde deitei Sarada no carpete.
Sakura gritava algumas ordens antes de voltar com uma caixa de primeiros socorros e uma anfitriã trêmula carregando algumas toalhas para nos enxugar.
— Filhinha querida, olha para a mamãe, você tem que aguentar – Sakura chamou uma Sarada chorosa vendo a parafernália médica nas mãos da sua mãe.
Por instinto abracei Sarada e trouxe seu rosto para o meu peito, para que ela não visse a hora que a sua mãe abriu meu garrote improvisado para limpar o ferimento.
Sarada tremia nos meus braços, as mãos de Sakura tremiam enquanto ela limpava o ferimento, ela era médica, mas também era mãe. Eu não estava muito melhor que elas, ao mesmo tempo que o alívio se ponderava de mim, o tremor ainda tomava conta do meu corpo.
Sarada gritou na hora que sua mãe imobilizou a sua perna em um ângulo mais aceitável, aquilo partiu o coração da médica na minha frente que não parava o ofício. Não nego, aquilo partiu meu coração antes de abraçá-la mais.
Depois do curativo, da imobilização improvisada e da analgesia endovenosa administrada, Sakura informou que aquilo não era o suficiente e Sarada precisava ir ao hospital.
— Leva a Sarada para o carro Sasuke, eu vou pegar nossas coisas no quarto.
Não discuti, peguei a minha filha no colo e aceitei as toalhas que a senhora nos ofertava, antes de correr para o carro novo de Sakura, a qual ela fez questão de ser idêntico ao anterior depredado.
Me joguei no banco traseiro antes de acomodar Sarada de uma forma confortável para sua perna imobilizada. Peguei as toalhas e comecei a enxugar o cabelo e retirar a lama do rosto da minha filha.
— ‘Tá tudo bem, eu estou aqui, nada de mal vai te acontecer – tentei soar confiante enquanto a garotinha que parecia ter diminuído de tamanho assentiu entre lágrimas.
— Eu fiquei com tanto medo, eu.. eu.. eu pensei que eu ia morrer…
— Shiuuu… – chiei para que ela não pensasse em tais coisas. – Você está em segurança e vai ficar tudo bem.
— Me desculpa, Sasuke – ela começou a chorar mais ruidosamente. – Eu não deveria ter ido sozinha.
— Depois a gente conversa sobre isso – a abracei com força antes de forçar um sorriso que parecia ter acalmado a garota assustada e desgrenhada.
— Vamos! – gritou Sakura colocando as malas no porta malas. Sai do carro ajudando na tarefa. – Pedi para que os donos guardassem as coisas que deixamos na clareira. – Explicou me lançando uma muda de roupas secas que eu não contestei e vesti rapidamente. Quando ela fez menção de dirigir a bloqueei.
— Você não vai dirigir assim.
— Eu conheço essa estrada, é mais rápido se eu for dirigindo – tentou se justificar.
— Não mesmo. Vai atrás com a Sarada, eu vou dirigindo.
Um olhar para nossa filha fez ela desistir da ideia da direção. Ela sabia que não tinha condição psicológica para dirigir enquanto Sarada chorava baixo no banco de trás.
Um último olhar foi só o que trocamos antes de Sakura se acomodar ao lado de Sarada e eu assumir a direção.
Segui suas orientações em meio à estrada perigosa devido a chuva torrencial, até chegarmos em um hospital da cidade próxima.
— Precisamos de um ortopedista – Sakura anunciou eufórica no balcão.
Um olhar das atendentes na minha direção com Sarada em meus braços foi o suficiente para elas atenderem ao pedido anunciando na caixa de som a chegada de uma paciente vítima de trauma.
A equipe da emergência chegou com uma maca pedindo para que eu pusesse a criança afirmando que iam levar ela para o Raio-X, porém, Sarada assustada com tudo, inconscientemente apertou mais os braços ao redor do meu pescoço.
— Filha, vai ficar tudo bem, não se preocupe, estaremos aqui esperando por você – Sakura soou morosa enquanto acariciava o rosto de Sarada. Os olhos negros cheios de lágrimas buscaram a mesma promessa em meus olhos e apenas com um sorriso sincero meu, ela soube que eu não iria a lugar nenhum sem ela.
Ela me soltou, foi posta em uma prancha dura antes de ser arrastada pelos corredores do hospital longe da minha vista.
Meu peito doeu quando ela se foi e só fui desperto quando a atendente falou:
— Apenas familiares podem permanecer na sala de espera…
Antes que Sakura falasse algo, eu interrompi:
— Ela é a minha filha – afirmei com tanta convicção que até Sakura se surpreendeu antes de me seguir em silêncio para a sala de espera. Ela não questionou a minha atitude, provavelmente achando que era uma mentira para não ser posto para fora dali. Mal sabia ela que aquela era a verdade e jogá-la para fora, gritar ao mundo, fazia um peso sair do meu peito, mas por hora deixaria que achasse que era só uma desculpa qualquer.
Assim que sentamos de frente para a televisão com o nome de Sarada escrito ao lado do nome “Setor de radiologia”, todo o cansaço e medo que ignoramos em frente a Sarada, pareceu tomar conta dos nossos corpos.
O corpo de Sakura começou a tremer antes dela inclinar para frente e deixar que as lágrimas que ela segurava até ali, deslizassem pela sua face sem impedimentos.
Era o choro de uma mãe que estava assombrada pela perda de um filho.
Não a julguei, apenas a trouxe para o meu peito e deixei que ela jorrasse todos os seus medos ali entre os meus braços. Acolhendo todos os seus demônios.
Acredite Sakura, eu te entendo…
Algum tempo depois um médico, em vestes brancas, se apresentou cordialmente, afirmando ser o médico responsável pela Sarada.
Explicou que observaram uma fratura na tíbia e uma na fíbula direita de Sarada e que iria necessitariam realizar uma cirurgia para correção, tendo a certeza de por ela ser jovem, se recuperaria rápido da fratura.
Nos confortou dizendo que ela estava estável e medicada, com a dor controlada aguardando o tempo de jejum para poder entrar no centro cirúrgico.
Permitiram a nossa entrada na pré-sala e a visão da garotinha deitada na maca com roupas hospitalares e touca na cabeça era a visão que eu não esperava e por algum motivo me deixou com um nó na garganta.
Sakura muito mais acostumada àquele ambiente cheirando a éter parecia melhor adaptada enquanto acariciava a cabeça da menina aparentemente preocupada com a cirurgia que se aproximava.
— Vai ficar tudo bem meu amor, só vão corrigir a sua fratura, logo você estará no quarto com a gente.
— Da última vez que eu fraturei, eles só engessaram.
Sakura riu da petulância de Sarada naquela situação, antes de beijar a tez da criança.
— Dessa vez é diferente.
— É grave? – ela quis saber.
— Não, só vai precisar de uma cirurgia, mas não é grave.
Sarada confiava em Sakura mais do que tudo, então aquela afirmação, mesmo que fosse uma meia-verdade, se tornou a verdade absoluta para Sarada.
Os olhos infantis caíram sobre mim que permaneceu quieto o tempo inteiro.
Eu não conseguia falar, o nó na minha garganta parecia aumentar vendo ela ali, pronta para uma cirurgia, apenas sorri e fui recompensado por outro sorriso de canto dela como se entendesse o que estava acontecendo comigo.
Meu celular tremeu e eu agradeci por aquela desculpa para fugir dali.
Não olhei o número antes de atender, enquanto meus passos não paravam, afastando-me cada vez mais das Harunos.
Só parei quando eu ouvi a voz da minha mãe no outro lado da linha:
— Sasuke, filho, finalmente você atendeu. Estou tentando falar com você o dia inteiro – riu baixo – eu e o Itachi estávamos conversando sobre você e a Sakura mais cedo e…
— Mãe? – foi tudo o que eu consegui dizer com a minha voz incerta.
Não sei o que ela percebeu, mas depois de um longo segundo, perguntou:
— Sasuke, você está bem? O que aconteceu? Onde você está? – sua voz aumentava com a preocupação maternal.
— Eu ‘tô no hospital – consegui dizer sentindo minha voz errar e meu olho começar a encher de lágrimas, me afastei mais um pouco até não saber mais onde eu estava naquele hospital.
— Você se machucou? – questionou preocupada.
— Não – senti o alívio no suspiro da minha mãe. – Mas a Sarada sim.
— Quem é Sarada? – ficou confusa.
— É a minha filha, mãe – suspirei admitindo a verdade.
A linha ficou em silêncio, provavelmente minha progenitora estava digerindo o que eu havia acabado de revelar.
— Ok querido, acho que você precisa me explicar o que está acontecendo – disse firme antes de escutar com atenção toda a minha história e o que havia acontecido hoje. Não houve julgamentos ou pedidos por mais do que eu ofertava, ela só finalizou dizendo. – Tudo bem meu amor, logo estarei aí com você.
Depois que a ligação ficou muda, deixei meu corpo escorrer pela parede até que eu estivesse sentado no chão. Senti vontade de vomitar. Meu coração disparou. O ar faltou.
Quando foi a última vez que eu estive em um hospital sem ser para invadir o consultório da Sakura?
Foi aí que eu me lembrei da cena. Lembrei do choro incontrolável da minha mãe, meu irmão tentando acalentá-la, meu avô em silêncio, enquanto eu via sobre a cama fria de um necrotério o corpo inerte do meu pai e eu só pensava “Eu não tive nem chance de me despedir”.
O nó se acentuou e pela primeira vez eu deixei as lágrimas escorrerem sem controle, as lágrimas que vinham se acumulando desde a morte do meu pai…
Levou algumas horas até a finalização da cirurgia e a alta da Sarada para o quarto privado.
Ela estava bem, ainda desacordada, mas estável como os profissionais informavam. Demoraria um pouco para acordar por completo devido a sedação. Agradecemos toda a atenção antes de ficarmos sozinhos com uma Sarada desacordada.
Sakura suspirou aliviada antes de me abraçar, beijei a sua testa em resposta e em sua face cansada apareceu um mínimo sorriso de canto.
— Sarada vai ficar de castigo até a próxima reencarnação dela e se ela reencarnar como minha filha de novo, vai continuar de castigo por mais uma existência.
Acabei rindo e senti meu peito aliviado de ver aquela Sakura mais leve e brincalhona apesar de toda a situação.
Dei um selinho rápido em seus lábios antes de afirmar:
— E eu vou garantir que esse castigo não seja leve.
Ela riu da minha sentença ficando na ponta dos pés para beijar meus lábios mais uma vez mas fomos interrompidos por uma recepcionista sem graça com a situação:
— É que tem uma senhora querendo entrar, ela está afirmando que é avó da Sarada.
— Avó? – questionou Sakura sem compreender.
Suspirei fundo.
— É a minha mãe – expliquei para uma Sakura confusa antes de dar um selinho de despedida. – Eu resolvo isso.
Sai do quarto antes que ela me questionasse mais, em busca da recepção daquele lugar. E lá estava a tão imponente Uchiha Mikoto em um vestido reto preto, saltos altos e óculos escuros em seu rosto alvo. Parecia indignada por não terem autorizado a sua entrada enquanto o motorista carregava atrás de si duas sacolas.
— Mamãe – chamei e a face de indignação deu lugar ao sorriso de felicidade ao ouvir a minha voz. Não perdeu tempo e me abraçou. Ela era pequena, mais baixa que a Sakura. – Podem deixar ela entrar, ela é da família – expliquei para as recepcionistas que autorizaram a entrada.
— Trouxe refeição, roupas e o notebook que você me pediu – explicou enquanto eu pegava as coisas com o motorista e o liberava para descansar enquanto sua patroa me seguia. – Como a minha neta está? – Foi direta.
— Ela está bem. A cirurgia foi um sucesso, mas ela ainda está sob efeito da anestesia. E mãe – parei subitamente –, você não pode ficar falando que você é a avó da Sarada!
— Eu sei bobinho, – deu um beijo estalado na minha bochecha antes de voltar a andar – não se preocupe que elas não saberão por mim, mesmo achando que você já deveria ter contado.
Suspirei.
— Eu sei, mas não é tão fácil quanto parece.
— Eu sei, meu filho – me consolou antes de chegarmos ao quarto.
Sakura arregalou os olhos ao ver a Senhora Uchiha correndo ao seu encontro antes de abraçá-la e enchê-la de perguntas sobre como ela estava e se a Sarada já havia acordada, mesmo atordoada Sakura sorriu e respondeu às perguntas com educação.
— Eu trouxe comida e roupas para você e o Sasuke. Sei que não devem ter comido nada desde ontem – informou já nos direcionando para a saída do quarto. Sakura tentou protestar, mas minha mãe foi mais rápida. – Não se preocupe com a Sarada, eu vou cuidar dela até vocês retornarem.
Com essa fala minha mãe se posicionou na cadeira ao lado da cama da Sarada com se reafirmasse sua fala, mesmo contrariada, Sakura aceitou a minha mão enquanto procurávamos o refeitório.
— Por que a sua mãe estava dizendo que era avó da Sarada? – foi o seu questionamento assim que sentamos em uma mesa e começamos a abrir nossa refeição.
— Ela ligou ontem, eu expliquei onde estávamos e expliquei que só familiares poderiam entrar por isso estava me passando por pai da Sarada, ela deve ter usado a mesma ideia – parei por um segundo repensando nas minhas atitudes e olhei diretamente para Sakura. – Me desculpe por usar o nome do pai da Sarada, eu nem perguntei se você ia se importar.
Ela riu e disse com sinceridade:
— Na verdade eu fiquei feliz por não ter ficado sozinha.
Sorri e entreguei a sua comida.
— Você é canhoto – observou que eu usava os hashis com a mão esquerda.
— É minha habilidade inata para poder fazer isso enquanto eu como – segurei a mão esquerda dela com a minha direita, depositando um beijo em sua mão antes de continuar segurando sua mão. Ela riu da minha idiotice.
— Claro, você tem que ser um Don Juan até quando come – brincou zombeteira.
— É mais forte do que eu – e pela primeira vez em horas rimos de verdade das nossas tolas brincadeiras e foi bom ouvir o riso da Sakura mais uma vez.
E naquele momento eu soube como eu ia contar para a Sarada a verdade…
***
Sakura…
Sarada acordou e naquele momento o peso no meu peito se desfez. Como se fosse a primeira vez que via aqueles olhos cor de ônix, eu não me contive, abracei ela com força e alívio.
Sasuke e Mikoto também mostraram uma felicidade genuína com o despertar da Sarada.
Apesar de ainda sonolenta Sarada deu seu sorriso trôpego e fez uma piada, mostrando o quanto estava bem. O médico ficou satisfeito com a recuperação de Sarada e afirmou que se em 24 horas se mantivesse estável ela estaria de alta pela manhã. Mikoto comemorou como se Sarada fosse da sua família.
No final da tarde Mikoto teve que partir e com um pedido da mesma fui deixar ela na saída.
— Obrigada por ter nos ajudado, Mikoto-sama. – Agradeci alisando o vestido de grife que ela havia trazido para mim, que até com etiqueta ainda estava quando chegou em minhas mãos, denunciando que a matriarca Uchiha havia parado em uma loja antes de nos visitar.
— Primeiramente, Mikoto para você. Não precisamos de formalidades já que você é da família.
Senti minhas bochechas corarem antes de parar meus passos sem reação para aquelas palavras. Já estávamos próximas da saída e Mikoto riu da minha reação.
— Eu não sei bem que tipo de relação você tem com o meu filho ou o que você sente por ele – pegou as minhas mãos entre as suas –, mas eu sei que Sasuke tem muito carinho por você e pela sua filha e se Sasuke quer o bem de vocês então toda a família irá querer. Meu filho pode ser encrenqueiro às vezes – entortou a boca levemente e eu ri –, mas ele é muito amoroso e sempre cuida daqueles que ele mais preza – concluiu sorrindo.
— Ele é – concordei e ela sorriu feliz.
— Estou feliz que ele tenha encontrado vocês.
— Estou feliz por ter conhecido o Sasuke – admiti aquela verdade que não havia contado nem para o homem sobre quem conversávamos.
— Ele ficará feliz de saber se um dia você resolver contar para ele.
Assenti dando um abraço de despedida na minha… sogra?
Sorri internamente com o pensamento antes de me despedir e prometer que sairíamos juntas algum dia.
Vi a silhueta da mulher elegante se dirigir para a Mercedes onde um motorista lhe aguardava com a porta traseira aberta. Um último aceno foi minha última visão de Mikoto antes de voltar para o quarto e encontrar Sarada dormindo enquanto Sasuke trabalhava em um jogo segundo ele.
As horas seguintes foram tranquilas.
No dia seguinte, com Sarada bem desperta, deu os seus primeiros passos com as muletas.
O ortopedista deu alta com as instruções de fisioterapia, e para a felicidade dele eu garanti que ela faria fisioterapia motora no hospital onde eu trabalhava.
Sasuke carregou Sarada para o carro assim que recebemos os papéis de alta.
— Eu posso andar sozinha, sabia Sasuke!? – cantarolou sendo carregada.
— Na sua velocidade não chegaremos no carro hoje – rebateu fazendo a minha filha bufar e se calar enquanto era carregada.
Assim que ele a botou no banco traseiro ela provocou:
— Obrigada, meu servo.
— Por nada, minha senhora, você quer seu andador também – o sorriso petulante foi o vislumbre que estávamos voltando ao nosso “normal”.
Eu ri entrando no banco do motorista, já que eu não permitiria que Sasuke dirigisse meu carro querido mais uma vez… ele tava com cheirinho de recém saído da fábrica.
Depois de alguns minutos Sarada começou a tagarelar:
— Quer dizer que eu virei neta da Uchiha Mikoto por um dia?
— Sim, foi a única forma do Sasuke entrar fingindo ser o seu pai – expliquei – consequentemente Mikoto-sama foi a sua “avó” – fiz aspas com os dedos.
— Então o Itachi-sama foi o meu tio! – Deu um gritinho agudo dando pulinhos no banco.
Comecei a gargalhar com a atitude da minha filha, enquanto Sasuke me olhava com um olhar zombeteiro.
— Mãe, precisamos voltar, eu preciso ficar internada por mais um dia. Aí a gente chama o Itachi-sempai e eu chamo ele de “OJISAN!” – deu mais um gritinho antes de cobrir o rosto vermelho com as mãos.
— Você é inacreditável Sarada!
— Para alguma coisa essa cirurgia deve servir – deu de ombros ainda balbuciando ojisan.
— E você não tem nada a declarar quanto ao fato de eu ter sido o seu pai? – questionou Sasuke se virando para Sarada. – Não é todo mundo que tem a sorte de ter Uchiha Sasuke como pai.
Um brilho perpassou os olhos da minha filha antes de provocar.
— Pequenos sacrifícios são necessários para um bem maior Sasuke, no caso, ter o Itachi-san como meu ojisan – deu língua para Sasuke que apenas riu da petulância de Sarada sabendo que ela não estava falando sério.
Meu coração estava leve com aqueles dois trocando provocações enquanto voltávamos para Tóquio… enquanto voltávamos para a nossa casa.
Chegamos bem, Sarada recebeu seu castigo e foi proibida de jogos e robótica a menos que fosse necessário para os estudos. Ela dramatizou, mas aceitou seu castigo pois sabia que tinha feito algo perigoso, antes de me abraçar e jurar que nunca faria nada parecido pelo resto da sua vida.
Com as trocas de plantão consegui ficar os primeiros dias com Sarada, ajudando-a com suas necessidade, ensinando a andar com as muletas ou levando-a para a fisioterapia, sabia que os próximos dias seriam puxados com plantões em sequência, mas não me arrependia daqueles dias com ela.
Sasuke também vinha a nossa casa todos os dias após o trabalho. Ensinava e ajudava Sarada em seu projeto de ciências, até deu seu taco de beisebol da juventude para Sarada já que ela havia perdido o seu. Após essas horas conosco ele me dava um beijo rápido e partia para a sua casa. Não foi apenas uma vez que passou pela minha cabeça pedir para ele ficar.
Nossos dias eram tranquilos e em certa noite quando eu já estava deitada em minha cama, o sono não veio, a cama parecia grande demais, vazia demais.
Sarada dormia profundamente e antes que eu percebesse já me encontrava na porta do meu vizinho. Pensei em apertar a campainha, mas a verdade é que eu sabia a senha, o próprio dono havia me contado.
Destravei a porta e adentrei o apartamento escuro procurando algum sinal de vida, foi quando eu ouvi o barulho do chuveiro.
Direcionei meus passos para o banheiro encontrando Sasuke no box de costas para mim sob o chuveiro, com todo o esplendor do seu corpo nu.
Ele era bonito, não, ele era lindo. Tão lindo que desde a primeira vez que o vi, naquela garagem, quase me atropelando, eu tive vontade de suspirar.
Pigarreei para que ele notasse a minha presença e com genuína surpresa ele se voltou para mim antes de perguntar preocupado:
— Sakura, o que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? Está precisando de algo?
Não pude evitar, olhei ele de cima abaixo, observando cada músculo, cada linha que as gotas de água desenhavam.
Eu estava precisando de algo?
A verdade era uma só, e antes que ele perguntasse mais alguma coisa eu me aproximei do box tirando minha camisola curta, branca e de renda, antes de tirar a minha lingerie.
Uma mistura de desejo e surpresa perpassou os negros enquanto eu entrava no box e pegava seu rosto entre as minhas mãos. A água escorria sobre nós quando eu disse com uma única certeza:
— Eu quero você.
Um segundo se passou antes que nossos lábios se colassem e suas mãos impulsionassem minhas pernas para que rodassem a sua cintura. Minha costa foi de encontro a parede enquanto Sasuke aprofundava nosso beijo com voracidade e suas mãos desenhavam minhas curvas.
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