Procura-se uma Uchiha
23 Medo
Notas iniciais
Itachi inspirou profundamente enquanto andava sobre o cascalho da entrada da mansão Uchiha. Alguns funcionários de longa data acenaram com afetuosidade em direção ao mais velho dos irmãos.
Por mais que se sentisse fatigado devido ao trabalho e tantos problemas que o atormentavam, Itachi foi gentil em responder a todos antes de finalmente adentrar a residência que ele tão bem conhecia.
— Seja bem-vindo, Itachi-sama – uma empregada já idosa em seu uniforme sóbrio o recepcionou com uma reverência antes de se oferecer para carregar o casaco pesado do programador de jogos.
— Obrigado, Miroi-sama – ofertou um sorriso gentil à senhora que ele tanto conhecia. A mesma senhora que em seus tempos infantis tentava controlar suas travessuras sob as ordens da sua mãe. – Por acaso a senhora sabe onde está a minha mãe? – Perguntou de forma retórica, percebendo como o grande salão da entrada parecia vazio e há muito inutilizado.
A vida que a mansão dos Uchiha evidenciava em tempos antigos, agora não existia mais.
— Mikoto-sama se encontra na sala de vídeo, meu senhor.
— Obrigado – agradeceu mais uma vez, vendo a míngua senhora se afastar em passos curtos, deixando-o só com seus pensamentos.
Ao invés de direcionar seus passos sobre o impecável piso para a sala de vídeo não tão distante, Itachi permaneceu petrificado em seu lugar, sentindo aquela apreensão aumentar.
Era o final de semana do Chichi no Hi e, pela primeira vez, seu pai não estaria presente nas reuniões familiares que sua mãe fazia questão durante aquela data.
Não haveria mais almoços de domingo com a família inteira reunida, onde Madara-sama ficaria na ponta com um breve sorriso nos lábios em direção à sua família, enquanto Sasuke ocuparia uma das cadeiras e se manteria em seu pequeno protesto depois de mais uma discussão com o irmão mais velho antes de irem para o evento familiar.
Itachi sempre tentou ser o apaziguador, sempre foi o bom filho que tentava botar juízo na cabeça do irmão mesmo com seus problemas com a esposa e perda do seu filho.
Uma vez ele pensou que um dia conseguiria fazer Sasuke romper aquela barreira invisível e tão sólida que o separava do pai, outro homem de gênio tão semelhante ao de Sasuke.
Itachi pensou que conseguiria, mas o tempo mostrou mais uma vez que ele foi incapaz e levou seu pai, assim como havia levado sua esposa e filho. O tempo mostrou que não podemos voltar ao passado e aquele seu desejo de ver seu querido irmão se entendendo com o seu pai nunca seria concretizado.
Por vezes se questionou se estava sendo egoísta em não assumir a empresa como o Conselho tanto queria. Se perguntava se estava jogando uma responsabilidade muito pesada sobre os ombros do mais novo.
Ele não era surdo, escutava os burburinhos que os conselheiros faziam e que Minato, o chefe do Conselho, tanto tentava apaziguar em prol da família. Escutava eles dizendo que Sasuke não era ideal, que isso diminuiria a reputação da empresa e que a falência era um futuro certo.
Itachi não suportava ouvir tais conversas, pois conhecia a capacidade do irmão e o quanto o mais novo estava se esforçando para cuidar de tudo aquilo que o pai de ambos tanto prezava. Mesmo assim, aqueles senhores que pensavam mais nos lucros dos acionistas do que a forma que se conseguia, continuavam a crer em uma máscara que a imprensa tão bem construiu e que Sasuke tão bem vestiu por tantos anos.
"Será que o certo não seria assumir o comando da empresa e proteger o meu irmão dos constantes burburinhos que tanto incomodavam?"
Ele sempre se questionava e se questionou mais uma vez durante o dia anterior, quando cedeu aos apelos do irmão e ficou no comando para que ele pudesse passar o final de semana com a sua filha; porém, sempre que se questionava, a voz da sua falecida esposa dizendo-o para ser feliz o fazia reafirmar suas escolhas.
A Presidência não o faria feliz e, por mais que durante toda a sua vida as pessoas acreditassem e o treinassem com o intuito de um dia ser o Presidente, Itachi sabia a verdade. Sabia que não queria estar naquele último andar em meio aos sanguessugas intitulados conselheiros.
Ele não queria sentar na cadeira mais importante e lá permanecer. Aquele lugar era para Sasuke, não para ele.
O que todos não sabiam é que Sasuke entendia e compreendia muito mais sobre a administração empresarial do que ele próprio.
Sim, ele tinha certeza. Sasuke era o melhor para a empresa, mas ainda teria muitos desafios pela frente antes de conseguir o reconhecimento e confiança completa do Conselho.
Agora ele estava ali, paralisado na entrada da residência que ele tão bem conhecia para visitar sua mãe próximo de uma data que a lembraria tanto da perda do marido.
Seria difícil e até desconfortável ser o ombro amigo quando ele mesmo ainda sentia as marcas da perda. Enquanto todas as noites antes de dormir ele ainda se lembrava das cenas de suas três perdas.
Itachi era assim, amigo, companheiro, sempre pronto para ajudar, mas a soturnidade não quer dizer que está tudo bem, apenas que ele guarda para si próprio suas dores...
Foi como uma fuga de seus pensamentos que ele direcionou os passos para um canto daquele salão em busca da sala de vídeo.
Foi no automático que adentrou na sala extremamente escura com apenas uma grande televisão ligada em um filme caseiro.
— Okaa-san? – Perguntou incerto, vendo uma pequena mulher encolhida com um balde de pipocas, chorando silenciosamente. – Okaa-san, está tudo bem com você? – Perguntou com mais preocupação, pondo a mão sobre o ombro da mulher, mas o grito assustado e os trejeitos da criatura, deram a certeza de que ela não era a sua mãe.
— Kami! – Exasperou Izumi, ainda exaltada com o susto e o toque repentino.
Ela suspirou pesadamente de olhos fechados, antes de reabri-los e tentar enxergar algo além de uma silhueta alta que era separada de si pelo grande sofá.
Por um momento, devido ao silêncio prolongado da pessoa, pensou ser um dos inúmeros empregados que ela viu percorrendo silenciosamente os corredores daquela mansão, parando seus afazeres apenas para se dirigir à matriarca Uchiha com grande respeito. Porém, assim que Itachi, ainda um pouco confuso com a situação, usou o controle remoto para que as persianas se elevassem e a sala clareasse, Izumi quis correr dali.
Com uma simples olhada, ela soube que aquele homem alto, vestia um terno caro, tão caro que nem juntando seu salário da vida toda daria para pagá-lo; muito menos os lustrosos sapatos italianos ou o relógio de ouro suíço.
Itachi viu a mulher empalidecer encarando as suas vestes, mas o que mais chamou a atenção de Itachi, foram as roupas simples que ela vestia. Se estivesse em uma outra residência, diria que ela era a jardineira, pronta para o trabalho por causa da camisa vermelha de mangas compridas listradas, além de um folgado macacão jeans, terminando em um all star velho e gasto.
Ela com certeza não fazia parte do seu mundo...
— Perdão, eu me chamo Itachi – estendeu a mão em cumprimento, a qual ia ser prontamente atendido, mas foi recusado por uma mulher corada de mão engordurada pela pipoca.
— Eu acho melhor não fazermos isso – falou tentando soar sarcástica e aliviar o clima de ser analisada da cabeça aos pés.
— Tudo bem – respondeu gentil, porém, um pouco desconfortável, afundando as mãos nos bolsos. – Disseram-me que minha mãe estava aqui, pensei que era ela. Perdão por assustá-la, senhorita.
Izumi arregalou os olhos, não sabendo se estava fazendo aquilo pelo choque de finalmente se tocar que aquele homem lindo era filho da sua ídola ou pelo fato de ser chamada de senhorita.
Uau! Isso que eu chamo de educação. Pensou constrangida, dando um sorriso torto à Itachi enquanto apertava o balde de pipocas contra si.
— Não precisa se desculpar não. Eu que me exaltei demais. Estava tão concentrada no filme que não notei a sua entrada – sorriu sem graça. – Aliás, meu nome é Izumi.
Como se um homem desses se interessasse de saber seu nome, boba!
Gritou internamente antes de pigarrear e tentar consertar a fala:
— Mikoto-sama informou que iria buscar alguns papéis para nós duas.
Itachi apenas assentiu com educação, antes de notar o que a mulher assistia.
— Soya-Hime – balbuciou antes de ter uma ideia de onde ela poderia ser. – Izumi-san, você faz parte da Companhia de Teatro da minha okaa-san?
A mulher ficou constrangida com o sorriso ameno com que Itachi falava, por isso, se limitou a dizer:
— Sim. Eu estou treinando com a sua okaa-san.
— Você vai ser a Soya-Hime? – Disse com surpresa e Izumi não sabia se aquilo era bom ou ruim de se notar.
— Sim – respondeu nervosa, focando-se na ideia de que teria que fazer o papel de Soya-Hime.
Itachi, como um nato observador, não pôde evitar analisá-la mais uma vez.
Conhecia a peça de Soya-Hime nos mínimos detalhes, já que seu pai adorava fazer os filhos assistirem quando eram pequenos enquanto contava como era estar na primeira fileira e admirar aquela que futuramente seria sua esposa.
Soya-Hime era uma personagem sofisticada, escrito com a sua mãe em mente para o papel; ela era delicada, sofrida, dramática e corajosa, nada parecido com a mulher à sua frente que tremia a perna com nervosismo, ao mesmo tempo que mordia o lábio inferior de batom delicado.
Apenas olhando por fora, Izumi não tinha nada de Soya-Hime, o que fez o sorriso e as expectativas de Itachi aumentarem, crendo que iria se surpreender, pois, conhecendo sua okaa-san, nada menos que o fantástico poderia ser digno de fazer esse papel que marcou tanto a vida deles.
— Agora tenho mais um motivo para ir no evento que a minha okaa-san está preparando, pois agora conheço as duas Soya-Hime da história de Tóquio.
Izumi acabou rindo um pouco com Itachi, por mais que o nervosismo não passasse.
Fazia tempo que Itachi não ficava à sós conversando com uma mulher sem segundas intenções de nenhuma das partes.
Ele não negaria, depois do falecimento da esposa, havia se envolvido em casos esporádicos de uma noite, mas nada além disso. Não tinha amigas mulheres; para falar a verdade, era um homem bem reservado, limitando-se a infinitas horas de solidão com o seu notebook, expondo ali toda a sua criatividade, criando inúmeros jogos que logo se tornariam grandes façanhas para a Companhia da família.
— Posso me sentar? – Indagou como um perfeito cavalheiro. Tinha conhecimento de que não poderia se dar ao luxo de permanecer por muito tempo – a empresa o aguardava –, mesmo assim, apreciava ter alguma companhia diferente que não necessitasse do seu ombro ou de alguma ajuda.
Pois às vezes, apenas a presença de uma pessoa desconhecida pode ser o remédio para curar um coração cansado.
— Até onde eu sei, a intrusa aqui sou eu – foi sincera e Itachi apreciou a sinceridade com um sorriso, enquanto contornava o sofá e se sentava à uma distância respeitável, mas não tão distante para que Izumi permanecesse calma, encarando a televisão.
A luz incomodava a pouca qualidade da filmagem da época, por isso Itachi usou o controle para fechar as persianas, porém, embora Izumi soubesse o porquê daquilo, não deixava de entrar em desespero pelo fato de estar sozinha num cômodo escuro com Uchiha Itachi.
Nem ao menos coragem ela tinha para olhar para ele.
Não pira! Não pira! Ele é só o cara mais bonito e rico que sequer vai falar contigo na vida Izumi! Grunhiu em pensamentos. É só um filme caseiro! Só isso!
"Eu não acredito que a Sakura enlaçou o Sasuke de jeito, agora só falta o Itachi se arrumar com alguém!"Gritou Ino pelo telefone, certo dia, para Izumi. "Se bem que eu aposto que aquele viúvo tem muitas mulheres aos pés! Ah como eu queria ter conhecido esses irmãos Uchiha antes de conhecer o meu marido, assim eu poderia ter tirado uma casquinha e saber se aqueles corpos são tão viris como aparentam ser... aaahhh... estou começando a imaginar como é estar no escurinho com um deles..."
Merda Ino! Você tinha que meter essas coisas na minha cabeça? Droga, droga, droga! Ele é só um homem gentil e extremamente cheiroso... O quê?... Ai droga, que perfume bom é esse?
— Essa é a parte preferida do meu pai e do Sasuke – Itachi comentou percebendo que a mulher estava aérea, voltando ao presente assim que sua voz reverberou. Por um momento se perguntou se ele estava sendo um incômodo para Izumi, até mesmo pensou que era melhor partir, mas se pegou achando graça da forma que ela piscava repetidas vezes e fazia uma careta de desgosto tentando voltar ao presente que simplesmente o fez permanecer onde estava.
— A minha preferida é quando ela conhece o amado, é mais feliz do que essa do sofrimento – tentou focar na conversa, antes que mais impropriedades com a voz de Ino, invadissem sua mente.
Itachi virou subitamente o rosto, encarando o rosto delicado da mulher sendo iluminado apenas pela luminosidade fraca da televisão.
Izumi não compreendeu de imediato aquela reação, agradecendo pela primeira vez a escuridão, assim ele não veria a coloração tomando conta do seu rosto.
— Sério? – Ele sorriu com tanta delicadeza que Izumi ficou ainda mais rubra. – É a minha favorita também! – Voltou-se para a televisão. – Finalmente eu encontrei alguém que me entende – começou a contar rindo. – Todo mundo prefere a cena final sobre o sofrimento da Soya-Hime – suspirou dramaticamente, vendo as últimas cenas da filmagem, antes da tela ficar azul.
Izumi se deu a liberdade de rir um pouco da atitude do homem.
— Eu entendo você, todo mundo enfatiza dizendo que Soya-Hime mostra o auge das suas emoções no fim, por meio das suas lágrimas. No entanto, para mim, Soya-Hime mostra suas emoções toda hora; por exemplo, quando ela encontra o amado, ela mostra pelo olhar os seus sentimentos – tagarelou, se sentindo mais confiante por tratar de um assunto que ela conhecia tão bem.
Itachi permaneceu sorrindo, voltando-se mais uma vez para a companheira de filme.
— Então espero que você se empenhe para fazer o melhor na nossa cena favorita, Izumi-san, pois eu estarei lá olhando para você.
Izumi se sentiu constrangida pelo "nossa", mas aceitou o desafio piscando um olho antes de dizer:
— Pode deixar, vou dar tudo de mim, Itachi-kun.
***
Sasuke...
— Cuidado! – Alertei segurando o braço fino de Sarada quando o pé dela deslizou mais uma vez naquela subida onde altos bambus eram nosso apoio para a subida.
Os olhos negros da minha filha me observaram com confusão, mas ela nada disse, apenas suspirou e voltou a subir com mais cuidado enquanto eu permanecia atrás para prevenir qualquer acidente.
Sakura estava animada subindo rápido e com facilidade aquele desafio, sabendo que eu ficaria para trás indo no mesmo ritmo que Sarada, até mesmo por não ser acostumado a fazer trilhas como ela.
— Vocês são muito lentos! – A mulher gritou do alto exibindo um largo sorriso enquanto acenava para nós dois.
— Ela faz parecer ser tão fácil – Sarada resmungou com um bico inconformado medindo o próximo passo, testando várias vezes a resistência dos bambus para verificar se era seguro.
— Sua mãe faz escalada como se estivesse caminhando – suspirei antes de sorrir. – Nunca mais volto naquela academia.
— Mato não é para mim – concordou antes de se voltar para a mãe e gritar: – Ainda falta muito mãe?
— Na sua velocidade e animação vamos chegar de noite no acampamento – Sakura comentou voltando a descer com cuidado o declive para ajudar a filha a subir.
— Você disse que tinha um atalho... – se fez de manhosa para conseguir o que tanto queria.
— Nada disso! A diversão é fazer a trilha, acampar e só depois voltar pelo atalho – disse com convicção, fazendo nossa filha dramatizar uma ida à forca ao se apoiar em um bambu e se impulsionar para a frente.
— Cuidado! – Eu e Sakura alertamos em uníssono, fazendo com que nos olhássemos surpresos antes de Sarada bufar e dizer inconformada:
— Vocês estão terríveis hoje. Parece que estão esperando que eu quebre como porcelana. Dá licença, eu sei me cuidar muito bem e obrigada – ergueu o queixo em superioridade se impulsionando para frente nos deixando para trás.
— Filhos. Não sabem o quanto os pais se preocupam com eles – Sakura murmurou ao meu lado e internamente concordei me lembrando da noite anterior quando no meio de uma dança eu escutei o grito de Sarada que caía na água ao mesmo tempo que Sakura se desesperava dizendo que ela não sabia nadar. Antes mesmo que eu percebesse, já estava me jogando na piscina buscando Sarada com desespero.
Foi naquela hora que eu descobri o que era sentir medo de perder. Sim, eu já senti medo, mas o medo que eu senti ao ver a garota sempre tão segura de si, se encolhendo com o susto estampado nos seus olhos, foi maior do que qualquer outro medo tolo que eu já havia sentido. Senti tanto medo que após irmos para o nosso quarto e Sakura cuidar com tanta morosidade da nossa filha, garantindo-se que nada de grave havia ocorrido e Sarada repetir pela milionésima vez que estava bem, eu ainda continuava encarando-a se afundar no futon de casal que ela dividia com a mãe – como se tentasse prever qualquer outro mal que poderia lhe infligir.
Foi só na hora que eu grudei o meu próprio futon ao dela e permaneci acordado velando o sono das minhas duas vizinhas que eu compreendi o que tanto minha mãe exclamava para mim quando me achava escondido no colégio altas horas da noite.
Na época, intitulava como tolice; agora, ali, diante da minha própria filha, descobri que tolo era eu por não perceber o sentimento de minha mãe por mim, o mesmo sentimento que eu nutria pela garotinha de 12 anos que nem ao menos tive oportunidade de ver crescer ou esclarecer suas dúvidas enquanto descobria o mundo.
Sim, não haveria mais primeiros passos, primeiras palavras, a primeira ida ao parque, o primeiro game comprado, o primeiro skate, não haveria mais nada disso do que um dia achei ser trivial, mas agora, tudo o que eu queria era a oportunidade de ter e não perder mais nada dali para frente, tentando protegê-la do mundo, por mais que eu soubesse que eu não podia proteger.
Um grande paradoxo, tão intenso que aumentou e foi opressor quando os olhos se abriram em questionamento dito por palavras em um sussurro segredado:
— Por que ainda está acordado? – Se remexeu, envolvendo-se mais pelos braços da mãe desacordada.
— Estou sem sono.
— Não consigo dormir com você me encarando – balbuciou, fazendo-me sorrir fracamente.
— Desculpe por isso – mas ela não voltou a dormir, apenas assentiu e permaneceu com os olhos abertos e direcionados para mim.
Não sei por quanto tempo permanecemos naquele silêncio, apenas olhando um para o outro, mas foi Sarada quem o quebrou, compartilhando as palavras que talvez ela tenha ficado tanto tempo se perguntando de que forma dizer:
— Obrigada por hoje – seus olhos se fecharam por um momento de forma pensativa antes de continuar com dúvida: – Desculpa por você ter se molhado. Você não precisava fazer aquilo e...
— Eu precisava – a cortei para confusão da garota. – Na verdade, eu só fui me tocar que tinha me jogado na piscina quando eu já estava dentro da água – acabei rindo sendo acompanhado por Sarada.
Meu sorriso foi morrendo aos poucos lembrando-me da dúvida e a suspeita que eu carregava antes de finalmente proferi-la:
— Como você foi parar naquela piscina? – Estreitei o meu olhar quando rapidamente ela abriu a boca para responder antes que eu a alertasse: – Não diga que escorregou. Eu sei que você é tudo, menos desatenta.
Aquilo a calou, deixando-a pensativa. Sabia que ela gostaria de me esconder algo, mas minha feição deixava claro que não me contentaria com menos que a verdade, por isso, suspirando demoradamente, ela admitiu:
— Eu discuti com as gêmeas siliconadas e uma delas me empurrou – sua boca entortou diante do meu olhar raivoso.
— O que vocês estavam discutindo? – Perguntei desconfiado.
— Nada demais, não se preocupe, eu sei me cuidar – foi petulante fugindo da minha pergunta, mas o tradicional "Sarada" que os mais velhos pronunciam a fez suspirar admitindo com constrangimento e olhos voltados para um ponto qualquer que não fosse eu: – Elas estavam falando mal da minha mãe e de... – seus olhos avaliaram meu rosto antes de fugir mais uma vez – e de você.
Aquilo me surpreendeu. Esperava que elas houvessem falado mal de Sakura, mas saber que Sarada havia se metido em discussão por minha causa era o fato que me fazia ficar surpreso ao mesmo tempo que o sentimento de satisfação traiçoeiro crescia dentro de mim.
— Olha, não fique se achando não – se apressou a dizer com a voz esganiçada enquanto ria com nervosismo. – Eu só achei injusto falarem mal de alguém pelas costas ao invés de terem coragem de falar cara-a-cara e, para sua informação, fui eu quem ganhou a discussão, elas foram covardes em me empurrar – seu rosto estava completamente vermelho antes de se virar e se esconder de encontro ao peito da sua mãe que havia acordado e permanecido em silêncio durante toda a conversa.
— Sarada está com vergonha? – Sakura comentou com o tom zombeteiro e sonolento, fazendo Sarada grunhir e se encolher ainda mais de encontro ao conforto dos braços da mãe, resmungando um sonoro "nãããooo".
Acabei rindo do constrangimento dela. Era surpreendente como a cada novo dia eu descobria uma nova faceta de Sarada. Agora ela estava envergonhada de dizer que tinha me defendido. Defendido a pessoa que na primeira vez em que conversou jurou que seria o seu pior pesadelo; agora, tantas semanas depois, aquele episódio parecia tão distante com ela se escondendo nos braços da mãe para ocultar o rosto vermelho.
— Não fica assim. Eu compreendo que sou irresistível demais para não ser defendido – brinquei fazendo a garota bufar e voltar seu rosto indignado para mim.
— Finja que eu nunca disse que eu te defendi.
— Eu vou te lembrar disso pelo resto da sua vida – ergui meu tronco com um sorriso prepotente, fazendo a raiva tão característica dela inundar o rosto de pré-adolescente, antes da esperteza e segurança retornar da forma tão natural que eu conhecia:
— E eu vou te lembrar que você se jogou em uma piscina por minha causa – o sorriso de canto foi típico. – Pensa só na manchete: "Empresário de sucesso mostra tendências estranhas por piscinas".
— Pois eu prefiro: "Empresário de sucesso arrebata corações ao salvar jovens indefesas. O Príncipe Encantado é real?".
Sakura acabou rindo para o desgosto da nossa filha que grunhiu.
— Vocês são terríveis! Dois orgulhosos que não sabem simplesmente dizer que um se preocupou e o outro defendeu – a mulher rolou os olhos teatralmente. – Mesmo assim estou orgulhosa dos dois – piscou um dos olhos cúmplice antes de mostrar a tendência Uchiha para aprontar por mais que nosso sangue não corresse em suas veias: – Mas convenhamos, essas duas precisam de uma lição...
Ergui uma sobrancelha não crendo nas palavras que saiam da boca da tão "correta" Sakura, mas quem se prontificou foi Sarada:
— Relaxa mamãe, você acha mesmo que eu ia deixar essas duas saírem impunes? – O sorriso diabólico destoou no rosto infantil. – Deixa tudo comigo, você pode continuar com o teatro de mãe responsável puxando a orelha da filha encrenqueira.
— Sarada, Sarada... o que você vai aprontar? – Perguntei desconfiado.
— Uma mestra nos jogos nunca revela seus segredos – finalizou a conversa se aconchegando, com um sorriso satisfeito no rosto, nos braços da mãe antes de dizer: – Boa noite, mãe. Boa noite, Sasuke.
— Boa noite, Sarada – desejamos antes que o sono finalmente nos abraçasse com mais leveza que antes, sendo apenas despertados por dois gritos agudos ecoando pelo hotel fazenda.
Eu e Sakura acordamos subitamente, só então vendo Sarada já arrumada e um taco erguido em mãos.
A calma nos seus atos era a denúncia que aqueles gritos e passos apressados pelo corredor eram de sua culpa e ela não negaria.
— Vamos! Andem logo! Eu 'to com fome. Tem um café enorme lá embaixo me esperando.
Não pude deixar de rir e cair de volta no meu futon, vendo Sakura tentar não rir para não estimular as travessuras da filha, mas foi inevitável...
Agora, horas depois, estávamos exaustos com o sol já baixo iluminando a clareira onde acamparíamos.
— Finalmente! – Sarada gritou com genuína felicidade correndo para a grama selvagem antes de se jogar exausta.
— Incrível como essa pessoinha esbanja energia só quando a gente chega – acabei rindo com a cena, enquanto massageava meu pescoço dolorido, mas Sakura não me respondeu, só então fazendo com que meus olhos se voltassem para a mulher perdida na visão à sua frente.
Sakura estava nostálgica, perdida no passado. Eu sabia que aquela era a clareira que ela acampava todos os anos com os pais e por isso, permaneci em silêncio até que ela voltasse para o presente, sorrisse para mim enquanto entrelaçava a minha mão com a sua com intuito de me levar até onde Sarada estava jogada.
— Nada de dormir ainda, Sarada. Temos trabalho para fazer, ou acha que as barracas se montam sozinhas e fogueiras são acesas por milagres?
— No meu jogo online compramos a fogueira com as nossas pontuações em luta – debochou.
— Bem-vindo ao mundo real, querida – estendeu a mão para a preguiçosa se levantar. – Pega gravetos, eu e o Sasuke ficamos com as barracas.
Ela até poderia fazer algum argumento para não me deixar a sós com a sua mãe, mas entre os prós e contras dos trabalhos, vi Sarada dizer um "boa sorte" debochado para mim antes de se apressar para a floresta, deixando a pesada mochila para trás.
— Nunca montei uma barraca – me justifiquei. – Tenho o mesmo argumento que a Sarada.
Sakura sorriu antes de puxar meu rosto para um beijo calmo e demorado. A clara intenção de me domar.
— Eu sei – disse sem se afastar muito. – Eu ensino esse garoto de apartamento a montar uma barraca.
— Ok, você me ganhou com esse argumento – a abracei para selar nossos lábios mais uma vez. – Principalmente se for para inaugurar depois de montada.
Ela não aguentou, acabou rindo e me afastando com um empurrão.
— Não dá para inaugurar algo que não existe – entrou na brincadeira tirando os equipamentos da sua mochila.
— Ah, mas com uma promessa dessas ela já aparece – a ajudei seguindo suas instruções.
— Você é um interesseiro mesmo – lançou um olhar zombador.
— Agora que você percebeu? – Fiz-me de ofendido. – Estou desapontado com você, Sakura.
Ela riu antes de fazer a primeira barraca se erguer com tanta naturalidade, mostrando que mesmo apesar do tempo, a habilidade dela em acampamentos não havia mudado; evidenciando a diferença entre os nossos mundos e jeitos que às vezes pareciam se misturar tão bem.
Consegui montar a segunda barraca sem muita ajuda, mas com muito esforço em conjunto ao cansaço. Sakura aplaudiu e me beijou como recompensa, mas deixei claro que aquela vida de acampamentos não era para mim.
Sarada retornou cambaleando com tanto graveto que carregava, o suficiente para fazer uma fogueira que nos aqueceria por longas horas.
— Olha só, estou impressionado – comentei em tom de zombaria ajudando-a a montar a fogueira, algo que foi prontamente rebatido por ela:
— Isso é a garantia que eu não voltarei a ficar longe da minha mãe – ergueu uma sobrancelha em desafio.
Compreendi a que ela se referia e por mais que nossa relação já não fosse tão regada a brigas infundadas, era bom ouvir algumas das suas alfinetadas sabendo que no fundo não era exatamente aquilo que ela pensava.
Não demorou muito para que ela caísse no sono e usasse as pernas da mãe como travesseiro depois de um tempo sentados ao redor da fogueira.
— Ela está exausta – comentei vendo Sakura afagar os cabelos lisos da garota desacordada.
— É, ela está sim. Ela deve estar cheia de dores nas pernas. É uma menina muito sedentária – suspirou teatralmente antes de mostrar um sorriso gentil para sua própria filha – mesmo assim ela aguentou e foi até o final só para chegar aqui.
— Melhor levar ela para a barraca, está esfriando – alertei já me erguendo para ajudar a carregar.
— Ora, ora, preocupado? – Perguntou se referindo ao orgulho que teimávamos em mostrar na conversa de ontem à noite.
— Muito – admiti rindo enquanto pegava uma Sarada desacordada para levar para cama. Sakura me seguiu observando com cuidado a filha que se remexia para ver se ela acordava ou não durante o trajeto, mas seu sono se provou mais profundo do que aparentava, pois nem percebeu quando a coloquei no colchão de casal ou quando sua mãe a cobriu com carinho.
A mulher sorriu para mim ao sair da barraca, mas logo se abraçou e desviou o olhar para a lagoa ali próxima.
Não pude evitar perguntar o que estava guardando desde que havíamos chegado ali:
— Você está bem? – Os olhos não desviaram da imagem, apenas seguiu com os passos para mais perto do pequeno declive que terminava nas águas calmas e escuras.
— Não negarei o fato de que tudo o que eu olho me lembra eles.
— Tudo bem – a envolvi por trás antes de puxá-la para sentar junto comigo, mantendo-a entre as minhas pernas. – Era esperado.
— Sim, eu esperava por isso – suspirou deixando-se encostar em meu peito para que eu pudesse depositar um beijo cálido e demorado em sua têmpora – mas não me arrependo – respirou fundo acariciando os meus braços que a apertavam contra mim. – É melhor assim...
— Se não estiver se sentindo bem é só me avisar. Pego você e a Sarada e saímos imediatamente daqui – brinquei com o meu rosto afundado em seu pescoço.
Em resposta, ela riu antes de rebater:
— Até parece que eu não sei que você está procurando desculpas para fugir do mato e voltar para o mundo da tecnologia.
— Como Sarada disse mais cedo, aqui não tem internet e isso é um absurdo! – Mostrei meus argumentos em defesa vendo o sorriso traiçoeiro dela despontar nos lábios enquanto avaliava o meu rosto com os olhos semicerrados.
— Seu celular é via satélite. Tem internet até de baixo da terra se duvidar.
— Tem mesmo – admiti. – Mas Sarada e nem a empresa precisam saber que podem me perturbar a qualquer hora e que na verdade eu desliguei o celular porque eu quis.
— Acho que isso é o mais próximo de admitir que a natureza é melhor que a tecnologia que você já fez.
— Vamos com calma – entortei a boca em desgosto. – Um dia ou dois fora daquele mundo é ótimo, mas viver sem internet é impossível. Se eu estivesse completamente sem contato com mundo de fora, você me veria tentando achar sinal em cima de uma árvore – minha declaração rendeu uma risada alta de Sakura que tampou a boca para que o barulho não acordasse Sarada. – Não estou brincando.
— Eu sei – ela assentiu. – Saber que você não está brincando é o mais engraçado, mesmo assim fico feliz de você ter vindo e abdicado um tempo de tudo, você realmente não precisava ter feito isso e bom – entortou a boca em indecisão – sinceramente achava que você não ia querer vim.
— Se enganou, eu quero.
— Fugir do mundo por uns dias – supôs e eu admiti com um movimento afirmativo.
— Pode parecer egoísmo, mas eu queria um tempo só para mim antes de ter que voltar e ficar naquele último andar de novo – admiti com a voz baixa encarando o lago. Sentia o olhar sério de Sakura sobre mim e antes mesmo que ela proferisse, eu sabia o que viria a seguir:
— Você quer falar sobre isso? – Sua cabeça se apoiou no meu ombro. – Às vezes parece que você gosta do seu trabalho, mas em outras, parece tão farto de tudo...
— E você sabe exatamente qual é o meu trabalho? – Acabei rindo com a expressão pensativa e incerta dela.
— Hm... você é administrador de empresas – arriscou com um sorriso amarelo.
Franzi o cenho em indignação antes de rir da situação.
— Na verdade, eu não sou formado em Administração Empresarial, o que eu deveria ser já que me tornei o Presidente da Uchiha's Company – suspirei. – Eu sou formado em Design de Games e Robótica por duas universidades.
— Você cursou duas faculdades ao mesmo tempo? – Seu espanto era verdadeiro o que me fez bufar no descrédito dela sobre a minha capacidade intelectual.
— Sim, Sakura. Cursei na Todai e na Tokodai* – aquilo pareceu surpreendê-la mais ainda.
— Mas Ino disse que via você direto em festas e morava até na universidade...
— Só porque eu vivia em festas não quer dizer que eu seja menos esforçado nos estudos – bufei levantando o meu olhar para o céu estrelado que eu nunca via em Tóquio. – É o que as pessoas sempre pensam sobre mim, mas a verdade é que eu cresci aprendendo a mexer com tecnologia e segui por esse caminho profissional – voltei a encarar o rosto ainda surpreso atento ao que eu dizia. – Admito que sempre tive mais facilidade em aprender. Admito que sempre quando eu podia eu ia para as festas e depois quando eu voltava, acabava me metendo em alguma competição de jogos online, mas isso não quer dizer que eu não estudava – suspirei. – Assim que pude, comecei a trabalhar na empresa e me sustentar sozinho; saí cedo de casa porque não queria mais ficar na mesma casa que minha família inteira morava sendo sujeito à julgamentos de conduta a cada segundo.
— Mesmo assim continuou na empresa da família...
— Eu gosto da empresa. Foi lá que eu cresci e aprendi a trabalhar em várias funções – admiti. – Sempre pensei em ser a ajuda que meu irmão precisaria no futuro, mas tudo mudou quando ele não quis e eu tive que assumir. A parte empresarial eu aprendi na prática do dia-a-dia enquanto meu pai ainda era o Presidente.
— Então o que te faz não gostar de lá?
— Às vezes eu fujo da minha sala e vou monitorar as áreas de criação e dos estagiários só para ficar longe do Conselho que não me quer na Presidência por me julgar inadequado – admiti minha real conduta como Presidente.
— Esse Conselho mal sabe o Presidente dedicado que estão perdendo – brincou enquanto voltava o corpo para mim e deixava o meu quadril entre suas pernas.
Senti suas mãos deslizarem para a minha nuca antes de colar nossas bocas em um beijo lento e profundo.
Minhas mãos foram para o seu quadril e antes mesmo que ela percebesse ou interrompêssemos nosso beijo, a deitei sobre a grama baixa do declive e me posicionei sobre o corpo feminino acariciando a sua língua com a minha.
As mãos desceram pelas minhas costas até chegarem na barra da camisa e lá adentrarem, buscando arranhar minha pele e me estimular a ir mais fundo em nosso beijo depois de encaixar suas pernas em meu quadril.
— Não deveríamos estar fazendo isso – sua voz saiu sem fôlego quando nossas bocas descolaram para que eu descesse para o seu pescoço.
— Foi você quem começou – sussurrei colando o quadril dela ao meu.
— Minha filha está dormindo bem ali.
— Eu sei, mas estou favorável a esquecer isso por uma hora se deixar eu te arrastar para a minha barraca – ela riu em resposta, rondando a minha costa para me abraçar e beijar o meu ombro, o que resultou em um suspiro inconformado da minha parte. – Ok, entendi, não vou conseguir te arrastar para a minha barraca hoje.
— Não é como se eu não quisesse...
— Eu sei – admiti mesmo que estivesse insatisfeito por não ir mais adiante por ter menores ali por perto.
Ela acabou rindo e eu estreitei o olhar para Sakura, pois não via graça nenhuma naquilo, principalmente pelo fato dela continuar em alisar minhas costas sabendo exatamente o que eu queria e não podia ter.
— Não estou rindo de você, mas de nós dois – ergui uma sobrancelha em dúvida, mas ela logo elucidou a situação: – Você se lembra da primeira vez em que nos vimos?
A cena da noite da minha adolescência voltou com força e por um momento fiquei tenso com a pergunta. Sakura mostrou uma feição inconformada e deu um tapa no meu ombro:
— Você não se lembra do dia em que você quase me atropelou e não pediu desculpas?
Soltei o ar que nem tinha percebido que tinha prendido antes de murmurar:
— Ah, isso.
Sakura bufou virando o rosto com rispidez:
— Não acredito que você não se lembra nem da primeira vez em que nos encontramos. Homens... sempre iguais.
— Eu me lembro. É claro que eu lembro da vizinha louca chutando o meu carro. Que tipo de pessoa sai chutando o carro dos outros?
Os olhos verdes se encheram de indignação.
— Você quase me atropelou e não pediu desculpas – disse como se isso justificasse tudo.
Acabei sorrindo de canto para a fúria da mulher que abriu a boca para me acusar, mas fui mais rápido em dizer:
— Desculpe-me, fui um grande idiota.
Aquilo a amoleceu, fazendo-a murmurar:
— Desculpa pelo chute no carro.
— Tudo bem – beijei sua testa de forma demorada.
— É justamente sobre isso que eu estava rindo. De toda essa mudança de canalha cantando a vizinha para isso.
— Você fugia de mim.
— Eu jurava aos sete ventos que nunca me envolveria com um cara como você.
— Está arrependida?
— Talvez eu devesse dizer que sim, mas sinceramente – fez uma pausa para apertar o abraço ao meu redor – nesse momento eu não sinto arrependimentos. Apenas quero estar aqui.
— Eu também – sussurrei aproximando o meu rosto do seu, vendo sinceridade no seu olhar. – Eu também, irritante.
— Mãe? – O chamado incerto e baixo vindo das barracas fez nosso beijo ser interrompido e Sakura me empurrar para longe antes de se erguer em um salto, se realinhando.
— Sarada? Ainda está acordada, meu amor? – Perguntou assim que viu a menina abrir a barraca coçando o olho sonolento.
— Acordei e ouvi barulhos estranhos.
Tive que morder meu lábio inferior para conter a risada que eu queria dar. Sakura me olhou desesperada antes de me chutar de leve para que eu ficasse calado.
— Foi o vento – sorriu amarelo partindo para barraca para fugir daquela conversa. – Boa noite, Sasuke, amanhã vamos acordar cedo – anunciou com um sorriso antes de fechar a saída.
— É – murmurei ainda no chão encarando a barraca fechada onde aquelas duas dormiriam. – Amanhã é o Chichi no Hi.
Deixei meu corpo jogado ao chão, enquanto as estrelas visíveis entre as copas das árvores eram a minha visão...
***
Sakura...
Senti alguém retirar uma mecha de cabelo do meu rosto, não pude deixar de sorrir sentindo aqueles olhos firmes em mim enquanto a mão pequena recolhia com cuidado.
— Acordada tão cedo, meu amor? – Perguntei ainda de olhos fechados, sentindo minha filha se remexer um pouco nos meus braços. – Isso é novidade.
— Até onde eu sei, eu dormi mais cedo – foi petulante deixando o subentendido no ar.
Acabei suspirando antes de abrir os olhos para o rosto pensativo da minha filha.
— Não fiz nada de errado. Já disse, foi o vento.
— Sei... o vento – os olhos negros cerraram-se.
Arfei com as insinuações de Sarada fazendo meu rosto arder, agradecendo por ninguém estar nos escutando.
— Sarada!
— Eu sei, eu sei – rolou os olhos dando duas batidas na sua boca suja, como um velho costume desde a infância. – Nada de boca suja...
— Você sabe que estamos juntos.
— Eu sei, mamãe, mas isso não quer dizer que eu vou te entregar de bandeja para o Sasuke – reiterou sua fala me abraçando de forma possessiva. – Ele pode ser seu namorado, mas eu cheguei primeiro. Tenho prioridade.
Acabei rindo daquele jeito dela correspondendo o abraço da mesma forma que sempre fazíamos quando ela era menor e acabava procurando pela minha cama no meio da noite, fazendo-me acordar com bracinhos me rodeando, não resistindo a vontade de acordá-la com cócegas antes de irmos fazer café.
— Se te conforta, acho que nem namorados somos – pisquei um olho. – Como vocês jovens dizem, estamos ficando – ri da minha própria fala vendo Sarada bufar indignada.
— Não dei a minha benção para serem ficantes. Vocês são velhos demais para isso!
— Há! Quem você está chamando de velha, mocinha?
— Pode não ser tão velha, mas jovenzinha não é... – Murmurou incerta.
— Sarada! – Ralhei.
— Ok, ok. A senhora é linda. Trinta no corpo de vinte e cinco.
— Obrigada pelo elogio espontâneo – ergui o queixo de maneira altiva.
— Claro, espontâneo – ela riu e fugiu antes que eu ralhasse mais uma vez.
— Essa garota... – falei sozinha antes de rir e me erguer para sair da barraca. Sarada já encarava o céu que amanhecia aos poucos.
— Quando disseram que no interior acordamos cedo, não achei que fosse tão literal.
— Geralmente se dorme cedo; em consequência, acordamos cedo – dei de ombros. – Mas isso é ótimo para a trilha que temos para hoje.
— Outra trilha? – Seus olhos demonstraram horror.
— Você ficaria feliz se eu dissesse que essa é mais curta?
— Ficaria feliz se dissesse que eu não preciso andar pois me carregarão.
— Convence o Sasuke, porque eu não te aguento – disse em desafio fazendo Sarada bufar indo buscar o seu taco e a necessaire com seus itens de higiene.
— É mais fácil ele me derrubar de propósito ao invés de me carregar.
— Ele não é tão ruim assim – tentei defendê-lo, mas as risadas não me deixavam transparecer seriedade.
— Ah, acredite, mamãe. O mal habita naquela pessoa.
Balancei a cabeça, descrente, antes de abrir a barraca do motivo de nossas conversas matinais, encontrando o corpo masculino desacordado, deixando as costas nuas à mostra.
— Sasuke – adentrei com cuidado antes de sacudir seus ombros devagar. – Sasuke, acorda. Está na hora de acordar.
— Não – proferiu com manha, me lembrando do trabalho que era tirar Sarada todo dia de manhã da cama, principalmente quando ela passava a madrugada jogando escondida.
Suspirei e pedi por paciência, sacudindo-o mais uma vez.
— Você não vai querer que eu use outros métodos que não seja pedir gentilmente para se levantar.
O grunhido masculino foi baixo antes de murmurar:
— Que métodos? Se for o que eu estou pensando, eu quero.
O sorriso prepotente que vi de perfil me fez bufar antes de ameaçar com satisfação, espalmando as minhas mãos nas costas largas, aproximando-me gradativamente do rosto que fingia estar adormecido:
— Tudo bem, foi você quem pediu – inspirei fundo antes de gritar em seu ouvido: – SARADA! TRAZ O TACO AQUI AGORA!
— Já ‘tô indo! – Minha filha gritou do lado de fora correndo enquanto Sasuke se levantava em um sobressalto massageando sua orelha.
— Olha só, acordou tão rápido – zombei cutucando o seu ombro, mas o que recebi foi um Uchiha me derrubando com o seu corpo de encontro ao colchão.
Gritei com o susto ao mesmo tempo que Sarada entrou na barraca sem entender nada, mas com uma recuperação rápida, se jogou sobre as costas do moreno em meu socorro:
— Solta ela!
— Ai – o moreno grunhiu com o novo peso e por estar tão sonolento acabou se desequilibrando e caindo com a minha filha ao meu lado. – O que há com vocês? São sempre escandalosas quando acordam? – Questionou saindo de cima da Sarada, mas se rendendo mais uma vez ao sono para se aconchegar no espaço entre nós duas.
— Ainda dá tempo de fugir de nós duas. – Ofereceu Sarada.
— Não sou covarde com desafios. Se tenho que me acostumar a ser acordado com vocês gritando em cima de mim, eu me acostumo.
— Da mesma forma que tem que se acostumar a acordar no nosso horário. Acha mesmo que vamos deixar você dormir enquanto estamos acordadas?
— Exatamente – concordou Sarada.
O moreno suspirou voltando o peito para cima, mas sem abrir os olhos.
— Vocês não vão me deixar em paz mesmo, não é?
— Não – dissemos em uníssono. Sasuke abriu os olhos e nos encarou antes que seus braços nos envolvessem e caíssemos de um jeito torto sobre o seu peito.
— Pronto. Agora as duas vão dormir comigo e depois a gente levanta.
Bufei tirando meu cabelo da frente do rosto para ver o sorriso satisfeito do moreno em nos abraçar daquela forma.
— Mamãe, deixa eu bater nele com o taco que eu tenho certeza que ele para de preguiça – ofertou minha filha com um sorriso sádico e por um momento pensei seriamente em aceitar a oferta, mas não poderia dizer em voz alta algo tão inconsequente para a criação dessa pessoa, por isso, apenas suspirei deixando minha cabeça cair sobre o ombro de Sasuke.
— Vamos ficar aqui um pouquinho, se ele dormir de verdade, damos um jeito.
Sarada suspirou, mas acabou seguindo minhas atitudes; muito mais receosa, mas no fim ela pareceu se encaixar perfeitamente no braço de Sasuke.
— Espero que isso resulte na minha carona na trilha – resmungou, fazendo com que eu sorrisse e Sasuke franzisse o cenho.
— Que carona?
— Mamãe disse que você vai me carregar – foi pretensiosa.
Só então os olhos negros tão semelhantes às da minha filha se voltarão para mim.
— Quando foi que você disse isso?
Dei de ombros, nem defendendo ou apoiando Sarada, apenas me aconchegando nos braços de Sasuke e fechando os olhos.
Ele bufou, mas eu senti seu braço apertando ao meu redor para que eu me aproximasse mais dele, apenas aproveitando aquele momento de paz.
— Aliás, Sasuke – mas Sarada não ficaria em silêncio como nós dois e sua propensão à tagarelice aumentava quando estava em uma situação de constrangimento – você e a mamãe estão namorando sério ou só ficando?
— O quê!? – O homem exclamou com surpresa e eu arregalei os olhos para a atitude de Sarada.
— Eu fiquei curiosa – se defendeu antes de se erguer e sair da barraca.
Suspirei e olhei para um Sasuke ainda atordoado com a pergunta repentina da minha filha encrenqueira:
— Acho que agora é uma boa hora para se levantar.
— Com certeza – assentiu se erguendo para se arrumar.
***
Sarada...
Eles estavam calados. Calados até demais para o meu gosto durante todo aquele nosso trajeto para algum lugar onde minha mãe disse que tomaríamos banho.
Ao mesmo tempo que suspirava e tinha vontade de empurrar ela para cima dele para que se assumissem logo, eu me perguntava em que ponto da minha vida eu mudei de "rainha da desesperança" para "cupido".
Eu sabia que minha mãe tinha dificuldades para dizer "sim, estamos juntos e sério", mas era visível para qualquer um o quanto eles se davam bem. Minhas dúvidas sobre a seriedade dos sentimentos de Sasuke desapareceram com suas promessas e atitudes.
Era claro que o receio e o cuidado não se extinguiriam por completo, mas a cada dia que se passava aquele "por que não?" ganhava mais força entre as minha dúvidas.
Por que não deixar ela ser feliz com ele?
Por que não deixar ele entrar na nossa vida se já estava tão inserido?
Por que não sorrir mais para o homem que um dia eu prometi ser seu pior pesadelo e agora defendo tanto antes de pensar?
Por que não deixar minha mãe sorrir mais com ele?
Por que não?
Ao mesmo tempo que o "mas" continuava a existir:
Mas e se no fim ele for embora?
Talvez, e essa foi a minha conclusão, a grande dúvida para a felicidade não é o porquê de começar, mas sim como nos sentiremos se a felicidade partir junto com a pessoa que te trouxe tanta.
Olhando para a minha mãe, eu finalmente compreendi que seu receio sempre foi o fim. Não preciso saber exatamente o que tornou o fim tão amargo para ela, mas o fato dela tentar começar algo sem saber o fim, era a prova de sua coragem.
Ela escolheu a equação com o fim mais inesperado, então por que eu não a apoiaria mesmo se a matemática a traísse?
Foi neste ponto que mais uma vez respeitei as escolhas dela e permiti que ele entrasse. A pergunta agora era, o quanto ele entraria na minha vida, sendo que às vezes ele me faz pensar em uma figura paterna ali representada como um fantasma.
Ao mesmo tempo que era bom, era a prova de que aquilo não era real e a sua partida, seria a partida até daquele fantasma.
Agora estávamos ali, em meio ao Chichi no Hi, aparentemente como uma família que acorda feliz, brinca, mas que na verdade não passa de um momento feliz entre conhecidos, pois só o futuro dirá se este momento constituirá uma família de verdade ou só um fato para ser esquecido.
Possibilidades. Possibilidades. Possibilidades.
Tantas possibilidades que nos rodeiam todos os dias que nos impedem de simplesmente viver e sentir cada momento como se fosse único.
Pode parecer pessimista, mas é assim que nos sentimos em nosso íntimo.
Foi com esse pensamento que vi a abertura no fim daquela caminhada íngreme próximo de um declive alto e acidentado que terminava num rio de correnteza.
Ali havia uma cachoeira escondida e alta, proliferando-se de rochas protuberantes e escuras, enquanto a vazão da água se sobressaia aos sons da natureza e terminava na grande bacia de águas escuras que era aquele lago.
— Nossa – ouvi Sasuke murmurar estreitando o olhar como um míope para ver o alto da cachoeira e eu não pude deixar de concordar movimentando minha cabeça de forma afirmativa.
— Sabia que vocês iam gostar – minha mãe ficou empolgada deixando nossas coisas no chão antes de começar a tirar as vestes, ficando apenas de biquíni.
Sasuke a observou descaradamente em silêncio e eu não pude evitar rolar os olhos e empurrá-lo com o ombro, trazendo-o de volta para Terra.
— A baba está escorrendo, sabia? – Ergui uma sobrancelha e mostrei um sorriso debochado que só o fez bufar e desviar o olhar para a minha mãe que já pulava na água.
— Venham logo – minha mãe chamou indo sentar em uma das rochas perto da queda d'água.
Assenti retirando a minha blusa para sentar sobre o gramado, pois nem arrastada eu entraria em uma água funda sem saber nadar. Sasuke, diferente de mim, se jogou na água apenas com a roupa de banho para logo me encarar sentada mexendo no meu taco de beisebol.
— Por que você não entra? Não vamos deixar você se afogar.
— Estou bem aqui – fui prática, mas o moreno se mostrou insistente, como eu bem conhecia, ao apoiar os braços fortes na borda, deixando claro que não ia deixar aquele assunto morrer tão facilmente.
— Por que você não sabe nadar? Tem medo de água?
Revirei meus olhos, mas foi minha mãe quem respondeu:
— Quando Sarada era pequena, ela foi comigo para o hospital porque não tinha ninguém para ficar com ela. Ino estava de olho nela quando tive que fazer um atendimento, mas Sarada conseguiu escapar e acabou entrando no necrotério. Lá tinha um senhor que tinha acabado de chegar na emergência após ter se afogado. Ela ficou três dias tendo pesadelo e piorou depois que ela escorregou e caiu na piscina em clube que fomos com a minha madrinha.
Aquela fala fez um arrepio percorrer pela minha espinha enquanto eu me lembrava de como eu havia chorado depois de pensar que eu ia me tornar o "homem roxo". Não sentia o mesmo medo de quando eu tinha cinco anos; já não ficava receosa em dormir sozinha por medo do homem inchado, roxo e molhado aparecer no escuro, mas entre a terra e a água, eu preferia a segurança da terra.
— Ela evitou água desde então. Quando eu falo que posso ensiná-la a nadar, ela nega.
— Conheço muitas pessoas que não sabem nadar, ok!? – Defendi-me.
— Você tem medo de aprender aquilo que pode evitar um afogamento? – Nem Sasuke compreendeu direito a minha situação.
— Não é paradoxo nos arriscarmos ao perigo sabendo que isso é o que vai nos fazer evitá-lo? – Questionei a minha filosofia sem sentido tentando desviar o assunto, mas Sasuke não caiu:
— Vem cá, Sarada. Vou te ensinar a nadar.
— Não vou, não – pus minhas mãos sobre a grama em claro sinal de que não seria tirada dali.
— Desiste, Sasuke – minha mãe que havia tentado por tantos anos e me conhecia tão bem, disse em minha defesa.
Porém, o olhar negro determinado para ela, dizia que ele não havia sido convencido.
— Tenho uma proposta para você – reiniciou fazendo meu olhar semicerrar em suspeita. – Façamos assim, você me deixa te ensinar e eu te dou outra coisa em troca.
— Está tentando me comprar, Sasuke? – Fui direta, assim como ele:
— Estou.
— Que péssimo exemplo de pessoa.
— Nunca disse que eu era um bom exemplo de pessoa – sorriu de canto, fazendo-me bufar.
— Pode me oferecer o mundo que eu não me venderei.
— Garanto que consigo comprar você e sua mãe em uma proposta só – convencido como sempre.
— Quando foi que eu virei objeto de troca nos acordos de vocês? – Minha mãe questionou surpresa pela mudança repentina. – Até parece que minha filha me trocaria por qualquer coisa que você pudesse dar, Sasuke!
Ele deu de ombros, seguro de si, sem desviar o seu olhar do meu ou a postura convencida:
— Você perguntou se eu estava tendo um relacionamento sério com a sua mãe – olhei confusa para a minha mãe que estava vermelha por ter virado assunto das nossas conversas – a verdade é que, devido a tudo e em respeito ao fato de você não concordar com o fato de só "ficar" – fez aspas com desgosto na última palavra – eu assumiria um relacionamento sério ou qualquer baboseira de taxação que precisasse, mas temos um entrave. Sua mãe não gosta disso e prefere ir com calma.
— Está pedindo a minha mãe em namoro? – Tive que perguntar para ter certeza que não estava compreendendo errado.
— Estou pedindo ela em qualquer taxação que você queira dar para a gente e que eu possa usar quando alguém me perguntar – sorriu prepotente. – Se eu perguntasse para a sua mãe, ela diria não sem pensar duas vezes, mas nós dois sabemos que somos mais racionais, nada melhor que eu pedir para você em nome da sua mãe.
— Sasuke! – Minha mãe já ofegava com a conversa e eu sabia que ela queria fugir.
— Qual grande proposta você tem para me fazer para que eu concorde em aprender a nadar e que eu dê a mão da minha mãe para você em uma "taxação séria"? – Fiz aspas, pronta para considerar as possibilidades.
Sasuke sorriu com a minha fala antes de observar:
— Ora, ora, você está parecendo até uma empresária fazendo um contrato com o inimigo...
— Não acredito que você está sequer considerando essa ideia, Sarada – minha mãe resmungou.
— Só assino esse acordo se for muito vantajoso para mim, mamãe. E sinceramente, acho difícil ele ter algo tão fantástico para oferecer – a confortei, mas vi o olhar de dúvida dela desviar para o homem seguro que estava pronto para oferecer suas cartas.
Se algum dia eu me imaginei fazendo pacto com o mal, Sasuke seria a personificação perfeita da cena...
— Que tal um passeio pela Uchiha's Company? – Começou a me sondar por baixo, me fazendo rir desacreditada.
— Faz melhor! Por alguns ienes eu pago e faço turismo lá dentro.
— Mas visitantes não têm acesso a todas as dependências da empresa – estreitou o olhar.
— Um dia eu vou andar e passear por todas as dependências. Melhore sua proposta – fui incisiva.
— Não está nem interessada pelos próximos lançamentos?
— Sei esperar – respondi prontamente, por mais que a pulga da curiosidade começasse a me assolar.
— Nem em conhecer o Itachi, ir em sua sala, conversar e conhecer o seu local de criação?
Merda. Xinguei mentalmente vendo o sorriso diabólico de Sasuke aumentar em seu rosto prepotente.
— Já o conheci, tenho um autógrafo e um dia, com o meu próprio esforço sendo reconhecido, eu serei a colega de trabalho do Itachi-senpai – disse de forma segura, por mais que por dentro eu me sentisse tentada a ceder.
— Há! Eu disse que a minha filha não me venderia – minha mãe disse com orgulho e eu me perguntava o quão mal seria se ela soubesse que estava realmente pensando em ceder...
— Tudo bem então – o homem deu de ombros, pouco abalado pelas minhas negativas. – Já ouviu falar no curso para jovens talentos que a empresa oferece todos os anos? – Falou como se falasse do tempo e aquilo me fez ficar sem ar. Era claro que eu conhecia tudo que a Uchiha's Company ofertava, desde visitação, cursos temporários para jovens talentos, até mesmo bolsas para estudantes de universidades de tecnologia que a empresa era associada ou que apoiava as pesquisas. Uma empresa que valorizava o novo e nada mais sincero em dizer o quanto eu sonhava em poder entrar naquele curso para jovens talentos, mas a fila de espera na minha frente era enorme. – Eu aposto que você está na fila de espera – ele acertou. – Eu posso te colocar na lista do curso assim... – e estalou os dedos enfatizando que ele tinha poder de mando e desmando lá dentro.
Merda. Merda. Merda.
Eu não acredito que vou dizer isso...
Inspirei profundamente antes de dar minha resposta definitiva:
— Não acho justo tirar a chance de outra pessoa só para que eu passe na frente – fiz o que minha consciência dizia como certo, vendo minha mãe sorrir com satisfação, mas por dentro eu estava chorando por perder o curso.
Sasuke franziu o cenho, evidenciando o sulco entre suas sobrancelhas e marcas ainda visivelmente roxas em seu rosto devido à última semana.
— Eu nunca disse que te daria a vaga de alguém – comentou antes da segurança tomar conta de cada traço. – Eu posso criar uma vaga e dar ela para você.
— VENDIDA! – Gritei me levantando, não dando tempo para que eu repensasse no assunto. Eu só queria aquela vaga!
— O QUÊ!? – Minha mãe exclamou no mesmo tom.
— Eu sabia que ela venderia vocês duas – o homem sorriu com satisfação para a minha mãe chocada. – O mundo é movido de interesses e Sarada tem alma de empresária – piscou um olho para mim e eu não entendi as entrelinhas.
Eu não era uma empresária e nem teria como eu ser. Eu só queria criar jogos... Mas Sasuke continuou inabalável voltado para a minha mãe:
— Devo começar a te chamar de "meu amor"?
— Nem tente – ela estava visivelmente irritada por vê-lo ganhar.
— Sou o Presidente de uma empresa, acha mesmo que eu não sei negociar? – Ergueu uma sobrancelha para ela antes de voltar a se aproximar da borda que eu estava. – Assim que voltarmos para casa, vou dizer para colocarem você na lista do próximo curso.
— Tudo bem. Se você não cumprisse com a sua palavra, ia fazer se arrepender do dia que prometeu – disse de forma sincera, o fazendo rir.
— Eu sei muito bem do que você é capaz, mas agora, é a sua hora de cumprir o acordo – abriu os braços me chamando para pular e eu entortei a boca em desgosto. – Se não pular, não vai ter sua vaga no curso.
Olhei para a minha mãe que antes estava fervilhando de raiva, mas agora, me olhava em expectativa e um sorriso largo.
— Podemos fazer isso outro dia? – Arrisquei.
— Não. Tem que ser agora – reverteu a situação ao seu favor.
Eu não queria entrar, mas tinha que cumprir a minha palavra como eu sempre cumpria, por isso, suspirando profundamente me ergui antes que me acovardasse.
— Espera! – Minha mãe gritou chamando a nossa atenção. – Pula ainda não! Eu preciso gravar isso – alertou já se apressando a sair da água e pegar a filmadora profissional que ela tinha há tanto tempo.
Grunhi com aquilo e perguntei em um sussurro:
— Precisa gravar isso?
— Você sabe que eu gravo os seus momentos desde quando ainda estava no meu útero, não perderia o momento que você vai aprender a nadar com o Sasuke.
Senti meu rosto ferver pela situação, ficando mais nervosa.
— Você grava tudo em relação à Sarada? – O homem perguntou curioso.
— Isso porque você ainda não viu a montanha de gravações e fotos que ela tem guardado.
— São nossas lembranças – deu um beijo estalado na minha bochecha antes de voltar a apontar a câmera para mim.
Suspirei e dei um sorriso para a lente que gravava.
— E aqui vamos nós mais uma vez. Se essas forem minhas últimas palavras em vida, eu gostaria de dizer que a culpa é do Sasuke – minha mãe gargalhou antes que eu corresse e pulasse fechando os meus olhos dizendo adeus ao mundo, mas ainda em ar o homem conseguiu me segurar e me trazer para perto de si em segurança na água gelada.
— Deveria dizer que se hoje você aprender a nadar também é a minha culpa – comentou baixo.
— Ainda estou em dúvida em relação às suas habilidades como professor de natação – rebati abrindo devagar os meus olhos, vendo que ele sorria divertido para mim.
— Sou bom em tudo o que eu faço, Sarada – foi prepotente dando passos para trás, me arrastando para o fundo, forçando-me a abraçá-lo com mais força em prol à minha vida.
Ele sorria com diversão para as minhas atitudes, mas suas palavras foram de conforto:
— Tem que começar a confiar em mim, Sarada. Se tem uma coisa que eu não farei a partir de agora, é te soltar – correspondeu ao abraço antes de sorrir para a minha mãe. – Vou precisar de uma assistente aqui comigo e tenho requisitos, ela tem que ser bonita, trajar roupas de banho e ter um relacionamento sério comigo.
Acabei bufando antes de rir da minha mãe que nos filmava indignada com as palavras dele.
Olhei para a câmera e sorri antes de acenar, sabendo que aquela era a primeira gravação que eu tinha com Sasuke.
***
Sakura...
— Ela está exausta – murmurei encarando Sarada desacordada sendo carregada nas costas de Sasuke.
— Não imaginei que ela ia gostar tanto da água e não ia sair dela depois de aprender a nadar – comentou tentando me ver por cima do ombro e dos braços finos da minha filha que envolviam seu pescoço.
— Nem eu – admiti sorrindo antes de agradecer: – Obrigada por ter feito isso por ela. Todos os anos ela passa o Chichi no Hi dentro do quarto jogando algum jogo online. Foi a primeira vez que eu vi ela se divertir e parecer se esquecer que dia é hoje.
— Isso é porque ela não me conhecia – disse de maneira convencida e eu revirei os olhos para o caminho estreito que percorríamos antes do céu nublado e carregado me fazer entortar a boca em desgosto.
— Precisamos voltar para o acampamento antes que caía essa tempestade, essas trilhas ficam perigosas e difíceis de se orientar quando chove.
Sasuke assentiu apressando os passos mesmo com o peso da minha filha em suas costas ou o cansaço que eu sabia que ele sentia.
Levou algum tempo e muitas ameaças do céu, mas conseguimos chegar a tempo e depositar Sarada desacordada na barraca.
— Ainda temos algum tempo antes que a chuva caía. Não é melhor pegar gravetos antes que fiquem molhados? Pelo visto vamos passar a noite por aqui.
Concordei com a cabeça. Sasuke tinha razão, por isso o segui para dentro da floresta para buscar o que iríamos precisar, perdendo o acampamento de vista.
As gotas frias começaram a cair e em meio a passos trôpegos do caminho fora da trilha, voltamos com o intuito de nos proteger nas barracas.
Ouvi algumas risadas de Sasuke quando eu quase perdi o equilíbrio na terra escorregadia e até correspondi, mas assim que eu alcancei a barraca que dividia com a minha filha, todo o bom humor desapareceu e os gravetos que eu carregava foram ao chão.
— Sarada? – Perguntei buscando por ela com os meus olhos, já que ela não estava mais onde havíamos a deixado. – Sarada! – Gritei por ela, sentindo o pavor nascer dentro de mim.
— Algum problema? – Sasuke me questionou com os olhos preocupados.
— Ela desapareceu – expliquei aos gritos correndo para mais próximo da floresta. – SARADA! – Porém, mais uma vez sem resposta me fazendo levar as mãos para a cabeça por não saber onde a minha filha estava.
— Por que ela entraria na trilha? – Sasuke questionou atordoado, tentando encontrar lógica enquanto seus olhos mostravam um sentimento genuíno de pavor.
Olhei ao redor procurando uma resposta, até que uma tão simples foi a minha certeza, fazendo-me gritar com raiva e medo, ao mesmo tempo que a chuva engrossava e um trovão se perpetuava:
— O taco. Esquecemos o taco! Sarada foi atrás da merda do taco que esquecemos na cachoeira! – Minha resposta foi recebida pelos olhos negros evidentes que também sabiam que minha filha iria sozinha atrás do taco esquecido caso acordasse e não nos encontrasse.
A trilha era fácil, ela mesmo havia dito quando fomos de manhã, ainda mais com as marcações de segurança nas árvores indicando o caminho certo.
Ela iria, eu tinha certeza e naquele momento o desespero se acentuou enquanto eu corria para a trilha e chamava por ela, pedindo que nenhum mal acontecesse à minha filha durante aquela chuva que deixaria a trilha tão traiçoeira e sujeita a perdas.
Continua...
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