Notas iniciais
Último capitulo escrito pela K... Sem previsão de quando terá novos post, mas qdo tiver eu trago pra vcs...

[...]

Já havia algumas semanas que eu tinha conseguido finalmente acertar meus horários com os das aulas de Sofia. Sempre chegava um pouco antes de o sinal tocar, para que ela pudesse se despedir de mim – sempre com um abraço gostoso e um beijo no rosto – e entrar tranquilamente no colégio. Eu começava a me sentir que nem no filmes, onde a mãe deixa a criança na escola e chega a chorar de saudades enquanto o pimpolho se distancia de seus braços. Ok, talvez não tão exagerado assim, mas ultimamente, drama andava sendo o meu sobrenome.

— Estarei aqui na saída te esperando! —gritei antes que ela sumisse de minha vista, mas não acho que tenha escutado.

— Você novamente. — uma voz masculina me fez virar surpresa. — Tudo bem?

— Sim, tudo. — eu o reconheci. Era o professor que tinha falado comigo no meu primeiro dia aqui. Tinha me visto pagar aquele estrondoso mico com Sofia e eu o tinha tratado um pouco mal. Sorri, sem precisar descontar angústia alguma nele dessa vez. — Lembro de você...

— Jacob Black. — estendeu a mão.

Notei algumas mães me olharem torto enquanto ele me cumprimentava. Deixe eu explicar. O cara, apesar de baixinho, era interessante. Da primeira vez eu não tinha ligado muito para isso, pois encontrava-me numa situação constrangedora e tudo que queria era sumir da frente de todo mundo. Agora, no entanto, eu podia observá-lo mais atentamente.

Jacob Black era bem moreno, tinha olhos escuros, cabelos curtos e negros, dentes branquíssimos e músculos que ficavam evidentes debaixo da camisa social. Era de se imaginar os olhares ciumentos daquelas mulheres para cima de mim. Ele fazia o tipo do professor que as mães de alunos adoravam encontrar nas reuniões escolares.

— Isabella Swan. — respondi.

— Sm, eu sei. A garota apressada. — ele riu, zombando de mim, mas logo voltou a ficar sério. — Fico feliz em ver que não anda mais correndo por aí que nem uma louca.

— É.

Se ele estava tentando jogar charme para cima de mim, aquela não seria a melhor forma de me cortejar, pois me deixava muito irritada saber que alguém estava tirando uma com minha cara.

— Desculpe, não quis ser chato. — sorriu. — Que tal recomeçarmos? — ajeitou o colarinho e pigarreou. — Sou professor de matemática e nadador nas horas vagas. E você?

— Babá.

Aquela conversa realmente não estava fluindo muito bem. Eu não queria parecer grossa, mas sabia que com certeza era isso que estava parecendo. Olhei aflita para o relógio e depois para ele.

— Aposto que é muitas outras coisas além de babá, só não está querendo contar vantagem, certo?

— Hum, você não tem, digamos, aula para dar? — apontei para o relógio em meu pulso e ele balançou a cabeça.

— Na verdade, hoje eu não dou aula. Só vim para uma reunião de professores, que só começa em meia hora.

— Que ótimo. — pânico se instalou em mim ao imaginar ele querendo ficar meia hora em pé, puxando assunto. Suspirei exageradamente. — Bem, mas infelizmente eu preciso ir.

— Vou vê-la novamente, Isabella? — seus olhos brilharam ao falar meu nome.

— Se Sofia não mudar de escola, creio eu que sim.

Jacob Black não parecia se importar com meus discretos foras. Ele gargalhou, maravilhado com minha graça e abriu um enorme sorriso, subindo a escadaria do colégio.

— Imagino que tenhamos bastante tempo então, já que o ano letivo mal começou.

Senti raiva pela forma segura com a qual ele tratava esse meu descaso. Seu corpo sarado movia-se tranquilamente pelos degraus, se achando a última azeitona da empada.

— Idiota. — sussurrei.

— Mas um idiota gostoso, admita. — dei um salto com a garota ao meu lado, a qual eu nem sequer tinha visto se aproximar.

Eu a olhava, boquiaberta e sem palavras, envergonhada por ter falado mal de um professor e ela ter escutado aquilo. Provavelmente contaria meu desaforo para as outras mães que me olhavam torto. Ela, porém, era nova demais para ser mãe de uma criança que já estivesse na escola. Tinha no máximo a minha idade.

— Oh meu Deus, te assustei, não? Foi sem querer.

— Tudo bem.

— Sou Jéssica. — sorriu, passando os dedos pela franja dos cabelos e jogando-a para trás. — Mas pode me chamar de Jess. Sou au pair, sabe?

Agora sim eu estava assustada. Não com ela, mas com a coincidência enorme. Sorri em resposta, feliz por não ser a única ali.

— Sou Isabella, ou Bella. Também sou au pair!

— Mentira!? Que máximo! Está aqui há quanto tempo?

— Quase dois meses.

Jéssica segurou meu braço, como se fôssemos grande amigas fofocando e começou a caminhar comigo, felizmente para o lado certo que eu deveria ir.

— Ainda é novata então. — ela deu uma risadinha baixa. — Melhor te avisar que Jacob Black é um garanhão.

— Ele é? — balancei a cabeça negativamente, espantando aquela pergunta do ar. Para que eu queria saber se ele era mesmo garanhão? Não me importava com sua fama, já que não queria nada com ele.

— Sim, ele parece ter um radar de au pair, ou coisa parecida. Quando cheguei, ele também ciscou para cima de mim. — ela bufou. — Eu tenho namorado, sabe?

Jéssica era inglesa e explicou que deixou um namoro “interrompido” em Londres, mas que pretendia recuperar quando voltasse. Por isso ela tinha negado fervorosamente todos os assédios de Jacob e ele hoje nem olhava direito para ela. O cara além de ser um galanteador de marca maior, ainda por cima tinha o rei na barriga.

A garota tinha a minha idade e tomava conta de um casal de gêmeos de 5 anos. Ela já estava trabalhando com a família há 6 meses e eles tinham gostado tanto dela, que já cogitavam renovar o período da sua estadia.

— Eu não sei se vou aceitar. Sinto saudades de casa... — falou quase chorando. Perguntei-me se eu depois de um tempo também sentiria isso. — Só que sei que também irei sentir tanta falta de Leah e Leon, que chego a ficar angustiada.

— Acho que sei o que quer dizer.

— A sua também te conquistou?

— Bastante.

Nem notei que sem querer, tínhamos passado da residência dos Cullens. Continuei andando com ela e só paramos quando chegamos na calçada da sua casa. Jéssica tinha adorado o a história de Sofia muda, que voltou a falar – apenas comigo – e que detestava a futura madrasta.

— Preciso conhecer essa criança. Ela deve ser o máximo!

— Ela arranca as cabeças das bonecas. — Jéssica arregalou os olhos. — Mas só daquelas que se parecem com Rosalie.

Nós gargalhamos e então percebi que pela primeira vez desde que cheguei aos Estados Unidos, estava podendo ser eu mesma sem que a outra pessoa fosse uma criança. Era bom também dividir as histórias, medos e fracassos como au pair e saber que tinha alguém que me entendia – e que já até havia passado pelas mesmas coisas que eu.

— Por que não marcamos de levar as nossas crianças ao parquinho mais tarde? Naquela pracinha que tem pero do colégio, já foi lá alguma vez?

— Já, mas Sofia não se diverte muito em lugares abertos... — contei-lhe sobre a última vez em que estivera com ela no parquinho e um menino inconveniente a chamou de múmia, porque não abria a boca para falar.

— Criança sabe como ser maldosa, mas acho que ela não corre esse risco com nem com Leon, nem com Leah. Eles são uns amores.

— Podemos tentar.

Voltei animada para casa. Estava confiante de que Sofia pudesse fazer amigos que não fossem objetos inanimados. Quando a busquei na escola mais tarde, encontrei-me com Jéssica e com os gêmeos e os apresentei à Sofia.

— Jéssica também é babá que nem eu, Sof. Não é o máximo? — perguntei, alisando seus cabelos sedoso, brilhosos, do tipo que toda mulher deseja.

Ela fez que sim com a cabeça e sorriu. O casal de gêmeos era realmente uma fofura. Seus pais eram quenianos, mas eles nasceram nos Estados Unidos. Sua pele era negra cor de ônix, linda e uniforme, sem uma manchinha sequer. Não era como a minha, que tinha pequenas sardas nos ombros e perto do nariz. Suas bochechas eram grandes, protuberantes, de dar vontade de apertar. A menina tinha seus cachinhos negros separados por pequenas presilhas coloridas – obra de Jéssica. O menino Leon usava um corte estilo moicano e parecia um homenzinho de miniatura.

Eles dois brincavam no parquinho, tagarelas e elétricos, pulando de brinquedo em brinquedo e vindo toda hora mostrar alguma coisa para Jéssica, que entrava no pique deles e se divertia igualmente. Sofia era completamente ao contrário daquelas duas crianças. Estava sentada num balanço, mexendo tão pouco o corpo que o brinquedo quase não se mexia.

— Quer que eu empurre? — perguntei ao me aproximar, inclinando-me sobre seu ombro e beijando seu rosto.

Comecei a atividade com os braços depois que ela disse sim. Seus dedos agarram forte no ferro do balanço e eu me lembrei de quando era criança e adorava quando alguém me empurrava, com a devida paciência caso eu quisesse ficar horas ali.

— Não gostou do pessoal?

— Acho que sim.

— Sim de gostou?

— Aham.

— E por que não brinca com eles?

Ela deu de ombros, apertando ainda mais os dedos quando eu comecei a empurrar mais forte. O balanço já se distanciava bastante do chão agora.

— Tenho vergonha. — ela falou tão baixinho, que eu quase não entendi.

Parei o balanço bruscamente e dei a volta em torno dela, para olhá-la de frente.

— Vergonha? Você é uma menina linda, inteligente e meiga. Não tem que sentir vergonha de nada.

— Mas eles são irmãos. Eu não tenho irmãos...

— Ora, mas e daí? Eu também nunca tive irmãos. Não os de sangue. E meus pais nunca foram muito presentes na minha vida, sabe? — ela prestava atenção no que eu dizia, concordando com minhas palavras. — Mas então, eu fiz amigos tão, mas tão amigos, que os considerava como meus irmãos.

— Verdade?

— Super verdade.

Sofia olhou para os gêmeos, já com o interesse começando a aflorar. Tudo bem que eles eram mais novos do que ela e não tinham ainda o seu jeito prodígio de ser, mas amigos a gente não escolhe... Apenas acontece.

— Eles parecem divertidos.

— E são! — incentivei. — E aposto que estão doidos para brincar com você.

— Mas não vou falar.

— Não fale, ué. Apenas brinque.

E ela foi brincar. Aproximou-se sorrateiramente e sentou-se ao lado deles no gramado, tirando alguns brinquedos de dentro da sacola que eu levara junto e compartilhando. Sofia não abriu a boca sequer uma vez, mas isso tampouco pareceu incomodar aos gêmeos. Estavam tão entretidos ali que me deu pena em ter que separá-los quando já tinha anoitecido.

— Podemos brincar com a Sofia outro dia, tia? — por causa da idade, o inglês deles era bem confuso para mim, então eu me esforçava para entender.

— Claro! — olhei para Sofia. — Se ela e vocês quiserem...

Minha criança muda apertou minha mão e puxou, fazendo eu me inclinar para que ela cochichasse em meu ouvido.

— Sofia quer. Nos vemos amanhã então, ok?

Eu e Jéssica nos despedimos e preparamos nossa partida, saindo do parquinho e começando a caminhada, já que morávamos na mesma direção. Quando estávamos nos aproximando de casa, um carro buzinou para nós e parou. Reconheci o veículo do meu patrão e larguei a mão de Sofia, que correu ao ver a porta se abrindo.

— Ei, querida! — Edward saiu do carro e a pegou no colo, beijando seus cabelos e sorrindo na minha direção. — Querem uma carona?

— Não precisa, estamos perto já. Pode levar Sofia se quiser, eu vou andando. — reparei que tinha esquecido minha educação em casa e apontei para a au pair ao meu lado. — Essa é Jéssica.

— Prazer, Jéssica. — meu patrão cumprimentou-a de longe, educadamente. — Nos vemos em casa então.

Ele voltou ao carro, com Sofia pendurada em seus braços e nós retomamos a caminhada. Ouvi Jéssica rir ao meu lado e seu riso aumentando de volume.

— O que foi?

— Cara, se meu patrão fosse a metade do seu, eu trabalharia de graça, com visto expirado e se fosse preciso, ainda pagava o aluguel do quarto.

Eu precisando de alguém para colocar juízo na minha cabeça, acabava arranjando uma pior que eu.

Cheguei em casa sozinha, depois de ouvir umas dezenas de vezes Jéssica falar para eu investir no meu patrão, já que ele era viúvo e a menina gostava de mim. Ela só esquecia do detalhe de que Edward precisava gostar de mim também para que isso acontecesse. De toda forma, apesar de eu achá-lo realmente um bom pedaço de mau caminho, não era como se fosse fazer da minha estadia ali, uma perseguição. Se rolasse, eu seria a au pair mais sortuda do mundo, fato. Se não rolasse, bem... Eu seria sinal de que eu tinha um puta azar.

- Oi Bella. — ele me cumprimentou assim que entrei em casa. Estava sentado no sofá da sala, com Sofia ao seu lado, vendo um programa de televisão.
- Sofia nem deixou você chegar direito em casa, né?
- Não. Ela gosta de me aproveitar o máximo que pode, não é meu amor? — falou com ela, todo carinhoso e quem derreteu fui eu. Eu também adoraria aproveitar insanamente cada pedaço daquele corpo.

Sorri para os dois e me retirei para o quarto. Não me sentia ainda completamente confortável em ficar com Sofia quando ela estava em companhia do pai. Me sentia como quem tirava algum brinquedo dela.

Fui direto para o banheiro e deixei a roupa cair aos meus pés. Precisava de um banho morno e relaxante para acalmar um pouco meus músculos super tensos — falta de sexo geralmente causa isso, já ouvi falar. Liguei o chuveiro e me coloquei embaixo da água que descia depressa pela gorda ducha. Fechei os olhos, sentindo minha pele do rosto ser bombardeada por aquela sensação deliciosa. Ensaboei-me demoradamente, exalando o aroma agradável do sabonete e abri os olhos.

- AHHHHHHHHHHHHHHHH!

Após o escândalo que provavelmente todo o bairro escutou, corri depressa para fora daquele lugar úmido. Havia uma gigantesca barata grudada na parede do box, bem na minha frente. A maldita devia estar ali já há alguns minutos, observando o meu ensaboar distraído e se preparando para me dar o bote.

- O que...? — o trinco da minha porta foi arrebentado pelo peso do meu patrão sobre ele.
- AHHHHHHHH! — dessa vez eu gritava não pela barata, mas por estar nua e ser flagrada por Edward, que agora me olhava roxo de vergonha, virando-se rapidamente de costas.
- Me desculpe... Eu... — ele estava ofegante. O coitado deve ter subido as escadas correndo ao ouvir meu grito. — O que foi?

Tentava me tampar com as mãos ridiculamente pequenas que eu tinha, quando mais um espectador chegou. Sofia entrou no quarto com os olhos arregalados para mim. Imaginei que ali, era finalmente iria falar, mas não aconteceu.

- Vá embora, Sofia! — Edward mandou.
- OMG. Quem mais falta chegar? — perguntei, quase chorando e minhas preces parecem ter sido atendidas. A porra da empregada apareceu.
- Credo! Que pouca vergonha! — ela tampou os olhos de Sofia. — Deixe eu tirar essa criança daqui. Quando as duas mulheres foram embora — Sofia muito relutante — eu consegui raciocinar melhor e puxei o lençol que estava sobre a cama para me cobrir. Enrolei-me no pano e me aproximei de Edward, que como um bom cavalheiro, ainda estava de costas.

- Desculpe pelo grito. Tem uma barata no banheiro. — cutuquei seu ombro. — Pode virar.

Não sabia exatamente o que ele estava pensando, mas devia achar que eu ainda estivesse pelada, esperando por seus olhares, pois ao virar-se correu os olhos rapidamente pelo meu corpo.

- Isso tudo... foi por causa de uma barata? — ele suspirou com uma cara de puro descontentamento. Talvez se eu me despisse novamente ele poderia sorrir.
- Foi. Tenho medo de barata.
- Percebe-se. — ele passou por mim, roçando o braço no meu e foi até o banheiro.
- Ela está na parede do box.

Continuei parada no mesmo lugar. Não iria de forma alguma aproximar-me daquele inseto pavoroso e assassino. Ouvi um tipo de resmungo vindo de lá — coisa típica de homem que não entende o medo que a mulher sente ao ver um inseto — e em seguida um PLAFT, logo acompanhado por um barulho de descarga.

- A vilã da cena está morta, Bella. — ele voltou ao quarto, com um sorriso torto no rosto.
- Muito obrigada. — sorri de volta. — E mais uma vez desculpe pelo grito.
- Sem problemas. Estamos quites, já que você agora não tem trinco na porta. — ele apontou para a porta escancarada e a maçaneta fora do lugar. — Vou pedir que consertem isso amanha. Balancei a cabeça concordando e esperei que ele dissesse mais alguma coisa. Não conseguia esquecer o fato dele ter me visto completamente nua e de eu ainda estar numa situação constrangedora, com aquele lençol branco e de tecido fino, quase que grudado no meu corpo molhado.

- Sinto muito pelo circo todo... Você sabe... — pigarreou. — Por termos visto o que não era necessário.
- Tudo bem. — sorri extremamente sem graça. Onde havia um buraco que coubesse minha cabeça? — Sinto muito também por Sofia ter visto a cena...

E parei. Sentia apenas por Sofia — e pela chata da empregada que não gostava de mim — mas depois que a vergonha passasse, eu não sentiria por ele. Seria até bom imaginá-lo à noite, deitado em sua cama de casal, pensando em mim antes de dormir. Sonha, Bella.

Ele já estava saindo do quarto, quando parou e virou apenas a cabeça para me olhar mais uma vez. Tremi que nem vara verde com o olhar que ele usou.

- Bem, se serve de alguma coisa, você está em ótima forma. — piscou. — Belo corpo. Não que eu tenha visto muita coisa.

Enquanto me consumia em pensamentos pornográficos por causa daquele comentário maldoso, pude ouvir sua risada no corredor. Não parecia ser uma risada alegre, de quem achava graça de algo. Era mais como uma risada puramente sacana mesmo.

[...]

Era um final de semana e isso significava que meu patrão estaria o dia todo em casa. O acontecimento da barata tinha acontecido na quinta e durante toda a sexta-feira eu fugi dele. Consegui acordar bem antes e sair de casa com Sofia um pouco mais cedo, com a desculpa de que faria bem para a menina se ela caminhasse bem devagar até o colégio. Pude me desvencilhar das perguntas estranhas que ela fizera algumas vezes, como por exemplo, quando quis saber o que eu fazia sem roupa enquanto o pai estava todo vestido. E por que eu não tinha pelos lá embaixo que nem as moças crescidas costumavam ter. Quando ela crescesse eu explicaria melhor a questão da depilação brasileira.

E agora aqui estou, com um sábado de sol brilhante lá fora, sem coragem de descer encontrar com Edward em algum lugar da casa. Sabia que morreria de vergonha quando o olhasse nos olhos, sem imaginar o que poderia passar por sua cabeça.

Sentei-me na cama, ainda de camisola e olhei para meus pés. Talvez se eu inventasse que estava passando mal, não me sentindo bem para sair do quarto, ele pudesse acreditar. Ou então saberia que eu o estava evitando.

Uma batida insistente na porta – que o patrão mandou consertar no dia seguinte ao acontecimento – me tirou do transe e me arrastou até lá para abri-la. No entanto, antes mesmo de ver quem era, já sabia de quem se tratava. Era Sofia que usava aquelas batidinhas combinadas.

— Bom dia. — falei ao encontrá-la com as mãos para trás, balançando o corpo dentro de um biquíni de bolinhas azuis e rosas.

— Vamos na piscina?

— Vamos “para” a piscina. É o correto. — cutuquei a ponta do seu nariz. — Mas não, minha linda, não quero ir.

Seu sorriso sumiu e no lugar dele apareceu um beicinho de choro. Ela era uma filha da mãe que mexia com meus sentimentos mais maternos. Suspirei e puxei-a para dentro do quarto, fechando a porta atrás dela.

— Sofia, não estou muito bem hoje, ok? Juro que vou da próxima vez que você me chamar.

— Mas papai queria hoje. — ela fez a voz mais manhosa de todas.

— Seu pai? — para tudo para eu poder voltar a conversa e prestar mais atenção.

Coloquei-a sentada na cama e comecei a fazer uma série de perguntas para ela. Precisava saber qual o teor e significado daquela frase que ela tinha dito. Como assim o pai dela queria? Tinha sido ele que mandara ela me chamar? O que ele tinha dito exatamente? Mas Sofia era apenas uma criança ingênua e não entendia que essas informações eram vitais para mim.

— Não sei. — era tudo que ela conseguia responder depois de ser bombardeada por meu questionário.

— Querida, é meio que importante. — supliquei, com olhos chorosos e mãos em posição de reza. — Consegue ao menos se lembrar das palavras dele?

Ela apertou os lábios e balançou a cabeça negativamente para minha decepção. Suspirei, sentando ao seu lado e imitando sua pose, com os braços apoiados nos joelhos e as mãos segurando o queixo.

— Vai ver ele quer apenas que eu tome conta de você enquanto relaxa. — pensei em voz alta. Olhei para ela, que prestava atenção em mim. — Pode ser isso, não pode?

— Pode.

Tadinha, se ela ao menos soubesse como essa sinceridade me deixava ainda mais triste... Afaguei-lhe os cabelos e beijei sua bochecha fofa, jogando-a de costas na cama e enchendo sua barriga de cócegas. Ela revirava-se em meio a risadas escandalosas e desesperadas por causa das cócegas. Por fim, levantei-me e abri o armário, me dando por vencida.

— Só vou aceitar o convite porque você me quer por lá. — olhei-a desconfiada. — Você quer, não quer?

— Quero! Quero! — ela ficou em pé no colchão e pulou diversas vezes, animada em me ver pegar o biquíni.

Era o tipo da situação em que eu me arrependia por nunca ter tido vontade de comprar um maiô. Não queria mostrar o corpo para Edward – mesmo ele já tendo visto tudo.

Olhei para meu maior biquíni, balançando-o na mão e percebendo como ele ainda assim era pequeno. Maldita hora em que as brasileiras eram as rainhas das roupas minúsculas. Suspirei e fui para o banheiro me trocar, dando uma última olhada no espelho para conferir se estava tudo no lugar certo.

Desci com Sofia pelas escadas, enrolada na toalha e com o coração acelerado pelo encontro que se aproximava. Como ele me olharia?

— Você tem certeza que me quer por lá, né? — perguntei mais uma vez só para o caso de ela decidir me dispensar, mas Sofia agarrou forte minha mão e me puxou.

Edward estava deitado numa espreguiçadeira, com o jornal cobrindo o rosto, o que o impossibilitou de me ver chegando. Usava apenas uma sunga. Era demais para minha concentração. Sua pele branca que nem papel parecia ainda mais sensível debaixo daquele sol escaldante e eu na hora pensei se ele tinha passado um protetor. Não que eu fosse me oferecer para isso.

— Hm. Bom dia. — falei ao mesmo tempo em que desejava sumir e ele abaixou o jornal.

— Bom dia. — abriu um sorriso. — Tudo bem, Bella?

Quase caí numa gargalhada histérica e nervosa, típica de adolescente que fala pela primeira vez com o garoto dos seus sonhos e é correspondida. Patética. Ao invés dessa reação ridícula, consegui me controlar e fiz que sim com a cabeça, exibindo um sorriso gentil.

Sofia parecia que tinha tirado o dia para dar uma de cupido ou sei lá o que. A menina me puxou pela mão, levando-me para a espreguiçadeira ao lado do seu pai e me fez sentar. Em seguida, pegou o tubo de protetor solar e entregou ao pai. O que ela queria? Que ele passasse aquilo em mim?

— Acho que Sofia quer te proteger do sol... — ele riu, abrindo o frasco. — Quer que eu passe?

Minha pele ficou arrepiada ao primeiro toque das mãos de meu patrão. Eu coloquei meus cabelos para frente, deixando o caminho livre nas costas. Cheguei até a fechar os olhos para poder aproveitar melhor aquela sensação gostosa de carinho. Podia ouvir as braçadas que Sofia dava na piscina e sabia que estávamos sozinhos ali.

— Por você ser brasileira, é de se estranhar que seja tão branca assim.

— Existem muitos brasileiros branquelos, não sabia? — eu ri. Era o sujo falando do encardido. Edward era muito, mas muito mais branco do que eu.

— Estou sabendo agora. Mas eu prefiro assim.

Abri os olhos, ou melhor, arregalei com a surpresa daquela frase. Não virei para olhá-lo, mas foi o que quis fazer. O que ele queria dizer com aquilo? Ele preferia em geral, ou em mim especificamente? Essas indiretas – ou não – eram uma desgraça na minha vida. Tudo seria tão mais fácil se as pessoas fossem mais diretamente ao ponto...

— Eu pude perceber... — fiz uma pausa propositalmente dramática. — Pela pele branca de Rosalie.

As suas mãos tinham passado da metade das costas e agora começavam a descer para o final, bem perto de onde ficavam minhas covinhas. Não posso afirmar se era neurose minha ou não, mas parecia que Edward estava passando aquele protetor muito lentamente, como se quisesse prolongar o momento. Como disse, talvez fosse apenas neurose minha.

— Para ser completamente sincero contigo, Rosalie não é o tipo que costuma me interessar. Sempre gostei das branquinhas, mas com cabelos escuros. — prendi a respiração. — A mãe de Sofia era assim.

Aquilo era demais para a minha pessoa. Se eu não saísse de perto dele naquele momento, corria o risco de tascar-lhe um beijo na boca e ser demitida. Levantei de supetão, mesmo sabendo que ele não tinha terminado ainda com o lance do protetor. Caminhei calma e controladamente até a piscina e pulei. A água gelada daria conta do recado.

Fiquei alguns segundos olhando Sofia por baixo d’água, prendendo a respiração e tentando esquecer-me do mundo. Meus cabelos agitavam-se a minha volta enquanto o ar se esvaía dos meus pulmões. Quando não agüentei mais, voltei à superfície, dando de cara com meu patrão na beirada da piscina, olhando para baixo. Ou melhor, para mim.

— Você está bem? — ele perguntou, com os olhos estreitos por causa do sol. Seus documentos pareciam ficar ainda mais irresistíveis comigo olhando de baixo para cima e por isso tentei desviar o olhar.

— Sim, estou!

— Por que levantou daquele jeito? — ou ele era muito ingênuo ou se fazia de. — Nem terminei de passar o protetor...

Joguei-me de costas, batendo as pernas para me afastar da beira e ir mais para o centro da piscina, mais para longe daquela sunga. Coloquei um sorriso descontraído no rosto, como se não fizesse idéia do que ele estava falando.

— Não vou ficar torrando no sol, pode deixar.

Eu nem sequer sabia se devia ficar naquela piscina. O sol acabaria torrando meus neurônios e eu podia cometer alguma loucura. Meus pensamentos saíram de órbita quando quase me afoguei, com os braços de Sofia envolvendo meu pescoço e o pouco peso de seu corpo me empurrando para baixo.

Engoli um pouco d’água – e cloro – e levantei-me para ficar de frente. A menina tinha seu maior sorriso no rosto, visivelmente satisfeita pela minha presença ali. Se havia alguém que com certeza me adorava, esse alguém era Sofia.

— Então, do que você gosta de brincar na piscina? — encarei a criança, esperando por uma resposta, mas ela me ignorou completamente e voltou a nadar. Tinha esquecido que Sofia não iria falar comigo na frente do pai e isso era irritante.

— Gosto de ver que você continua tentando incentivá-la a falar. — o coitado comentou, lá do lado de fora ainda. — Sofia realmente parece confiar em você. Acho que é questão de tempo.

— Tomara! — dei mais um mergulho, me xingando de todos os palavrões possíveis. Como eu podia ser capaz de omitir essa informação de um pai desesperado?

Ainda debaixo d’água, de olhos abertos, prestando atenção nas braçadas de Sofia e tentando imaginar as conseqüências que sofreria se Edward descobrisse que eu mentira todo esse tempo, pude ouvir um barulho de um corpo caindo, ou mergulhando. Olhei em volta para encontrar meu patrão gostoso lá na outra extremidade, deslizando no fundo da piscina, quase encostando o tórax nos ladrilhos e vindo na minha direção.

Juro que passou pela minha mente sair correndo da piscina, mas ficaria óbvio que era marcação com ele. Eu não teria desculpas para aquilo, então apenas fiquei na minha e esperei. Encostei as costas no canto perto da escada e fiquei fingindo-me de distraída. Para minha surpresa, ele não veio até a mim. Era pura paranóia minha. Edward se aproximou de Sofia e a levantou no ar, fazendo-a dar gargalhadas divertidas para em seguida jogá-la na água. A menina parecia adorar aquela brincadeira, voltando novamente para o pai, que repetia as etapas.

— Ela não cansa não? — ri, intrometendo-me na brincadeira deles, mas continuei em meu cantinho. — Pelo visto vocês ficarão aí até anoitecer.

— O que foi? — ele parou e me olhou sério. — Está com inveja?

Por um instante eu achei que minha intromissão não tinha agradado e que Edward tivesse se zangado com aquilo, pois a forma com a qual ele me respondeu parecia bem severa. Porém, percebi que estava enganada, quando pai e filha nadaram apressadamente na minha direção, com expressões malignas. Eu sabia o que aconteceria em seguida. Eu odiava essas brincadeiras de “vamos pegar a pessoa indefesa” que sempre aconteciam em piscinas. Senti o frio percorrendo o estômago e tentei fugir, mas Sofia foi mais rápida e pulou em cima de mim.

— Acha que vai sair ilesa? — ele riu. — Tenho certeza que Sofia quer vingança, por ter zoado com a cara dela. Não é, filha?

A criança atentada balançou a cabeça, dando risadas que me deram medo. Edward segurou-me pelos pulsos, liberando-me do abraço de Sofia e começou a me puxar. Ele não ia fazer comigo o que fizera com ela. Né???

— Sr. Cu-Cullen...

— Agora eu voltei a ser senhor? — ele achou graça, mas eu não.

— Por favor, não faça isso. — implorei, mas não tinha certeza do que queria realmente. Uma parte de mim estava apavorada porque eu detestava essas brincadeiras. Mas a outra parte meio que ansiava por aquilo, só para poder ter um contato maior com ele.

Sofia ia sofrer em minhas mãos depois. Ela era a que mais estava se divertindo com o meu sofrimento, rindo e pulando em volta de nós, doida para me ver sendo jogada longe. Edward não iria ceder, estava claro. Quando suas mãos tocaram minha cintura e apertaram forte, eu sabia que não tinha volta. Fechei meus olhos e esperei pelo momento em que sentiria a água entrando pelo nariz.

— Não seja boba. Sofia é bem mais nova que você e não tem medo disso.

Ele me ergueu no ar e suas mãos deslizaram um pouco para cima antes de ele me lançar para longe. Se eu estava sofrendo, resolvi tirar uma casquinha também, sabendo que aquilo iria deixá-lo ligado. Antes de me soltar e me lançar, mexi meus pés como se estivesse tentando me soltar, alisei seu abdômen e por pouco não consegui descer até seu “monumento”. Como era de se esperar, entrou um litro d’água em meu nariz e quando abri os olhos ainda estava um pouco tonta.

— Quer um bis? — ele teve a ousadia de perguntar, com um sorriso cínico e antes que pudesse vir novamente atrás de mim, saí da piscina.

— Deixo a diversão para Sofia, obrigada.

Desabei numa espreguiçadeira, tentando assimilar os últimos acontecimentos. O local onde suas mãos me seguraram ainda falava comigo, gritando e comemorando por ter sentido o toque de Edward.

Fiquei apenas observando a interação entre pai e filha, uma coisa linda de se ver. Sofia nem lembrava a menina tristonha que costumava ser durante a semana, quando não recebia atenção do pai. Se Edward soubesse – e ele provavelmente sabia – como sua presença fazia bem a ela...

— Traga um suco para o papai! — ele pediu quando ela saiu da piscina e correu toda molhada para dentro de casa. Aquele doce de pessoa que atendia como governanta iria amar ter que secar o piso depois. — Bella!

— Sim?

— Venha aqui...

Por pouco não perguntei para que ele me queria lá, mas então lembrei que na mente dele eu não passava de uma funcionária. Ele devia apenas querer falar sobre alguma coisa banal comigo. Levantei e me aproximei, agachando-me para sentar com as pernas para dentro da piscina.

— Você não ficou chateada com a brincadeira, ficou? — ele me olhou com uma expressão preocupada.

— Não. Claro que não.

— Que bom. Da forma como saiu, achei que não tivesse gostado.

— Gostar eu não gostei. — revirei os olhos e sorri para descontrair. — Mas o que eu podia fazer, né? Você e Sofia estavam combinados...

Normalmente eu era super recatada na presença dele. Ainda não me sentia tão íntima para esse tipo de brincadeira, mas não sei dizer se foi o momento de descontração, ou o que pode ter sido. Sem avisar, eu resolvi me vingar. Pulei em cima dele, empurrando seus ombros para baixo na tentativa de afundá-lo. Típica brincadeira de criança, mas quando eu fazia isso, geralmente os alvos também eram crianças. Agora não. Edward era logicamente, mais forte do que eu e nem saiu do lugar direito.

Apavorei-me ao notar que minha tentativa patética de afogá-lo não tinha dado certo. Edward gargalhava enquanto ocupava-se em me dominar novamente com a mais ridícula facilidade. Ele me imobilizou e começou a suspender meu corpo como da primeira vez. Não sei o que aconteceu, mas suas mãos dessa vez meio que perderam o apoio e deslizaram sem que ele conseguisse me manter no ar. Meu corpo desceu, tocando o dele por onde passava até que meus braços sem querer, num momento de desespero tivessem enlaçado seu pescoço.

Nós dois ficamos sem saber o que tinha acontecido e o que iria acontecer. Pelo menos é o que eu acho. Seguramos nossos olhares por alguns segundos e algo dentro de mim sabia qual seria o próximo passo do meu patrão. Era uma sensação intuitiva. Ele iria aproximar o rosto, eu fecharia os olhos e nossas bocas se encontrariam.

— Desculpe pelo atraso! — uma voz feminina, histérica e insuportável chegou ao meu ouvido e fez com que Edward me soltasse automaticamente.

— Rose. — ele apressou-se para sair da piscina. — Achei que não fosse vir.

Olhei para a loira em pé lá fora, debaixo do guarda-sol. Ela usava óculos escuros quase maiores que o rosto e vestia uma saída de praia rosa. Apesar dos óculos, eu sabia que ela estava olhando para mim. Também sabia que ela tinha presenciado aquele momento, por mais rápido que ele tenha sido. Afundei a cabeça e comecei a nadar por debaixo d’água para não ter que presenciar as cenas românticas entre os dois. Minha esperança era que Sofia tivesse algum plano mirabolante para afogar a loira.

Notas finais
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