Problemáticos
6 Triciclo
Notas iniciais
Segunda-feira, de volta à escola fui encontrada por uma menina com cabelos brancos e uma cara animada. “Não. Encurralada é uma palavra melhor”. Ela se apresentou como Rosalya, uma amiga de Castiel e Hugo. Aparentemente seu namorado tinha sido calouro de Hugo há alguns anos e eram bastante amigos.
— Sabe, nós íamos passar pra te visitar no final de semana, mas os pais dos meninos passaram pra falar um oi e acabaram ficando até ontem de noite e eles quiseram ficar com a família. — Ela falava animada, gesticulando bastante.
— Os meninos? — Perguntei, confusa.
— Ah sim! Leigh tem um irmão mais novo, o Lysandre! Ele é da sua sala. Eu sou da turma do terceiro, então se precisar de ajuda com alguma matéria eu posso te emprestar minhas anotações das aulas do ano passado.
— Ahn, ok… — Respondi. A animação dela logo de manhã era impressionante.
— Eu vou indo agora, prometi pro Leigh que ia fazer uma entrega pra ele. Até depois!
“Meu irmão conhece mais adolescentes que eu”. Me arrastei em direção a sala onde eu lembrava que era a sala da primeira aula do dia. Ao contrário de Rosalya, eu não tinha o menor ânimo para começar o dia logo cedo. O caminho vindo com o tal triciclo amarelo ajudava a acordar um pouco, já que o vento gelado da manhã batia nos meus olhos cansados, mas o mesmo vento certamente não ajudava com o meu cabelo já naturalmente bagunçado. Como ainda havia tempo antes da aula começar, decidi me dar um pouco de dignidade e arrumar um pouco o estrago feito no cabelo, então fui ao banheiro.
O banheiro tinha algumas meninas animadamente falando sobre o final de semana e sobre meninos, algumas penteando os cabelos, algumas aplicando maquiagem, outras apoiadas nos cubículos ou segurando as portas que mal fechavam para que as amigas pudessem usar o vaso com alguma privacidade. Me enfiei em um canto, onde não havia muitas meninas para disputar pelo espaço. Tirei da mochila o meu creme de emergência e comecei a molhar as mãos e levá-las ao cabelo cacheado, penteando os fios embaraçados com os dedos e depois aplicando o creme. Quando o cabelo já estava devidamente penteado, amassei os cachos para dar formato e lavei as mãos para tirar o resto de creme delas. As meninas ainda estavam conversando, quando a porta se abriu e a voz autoritária da inspetora de alunos nos mandou todas para fora.
Fui para a sala novamente e, para minha surpresa, Castiel estava na sala também. Pensando bem, eu não o via desde sábado, depois do incidente da toalha. Corei um pouco e desviei o olhar. Eu ri na hora, mas agora estava um pouco constrangida de me lembrar de ter visto Castiel de toalha. Claro, era uma cena engraçada vê-lo lutando com Dragon mas me senti mal de ter invadido sua privacidade, mesmo que não tenha visto nada muito revelador. O pensamento de que ele podia ser bonito se não fosse tão mau humorado passou pela minha cabeça e foi rapidamente enxotado de lá antes que tivesse a possibilidade de se instalar. A última coisa de que eu precisava era o clichê de ter uma quedinha pelo “bad boy” da escola, até porque ele nunca tinha sido nem mesmo uma vez legal comigo.
O professor de história entrou e o burburinho da sala diminuiu um pouco, sem desaparecer por completo. A aula seguiu com o professor ficando cada vez mais nervoso. A cada cinco minutos pedia silêncio e como o silêncio não durava muito, logo pedia outra vez ainda mais alto. O sinal do intervalo tocou minutos depois de seu último grito pedindo silêncio. Muitos dos alunos recolheram suas coisas e saíram pelos corredores e o professor saiu da sala com o passo agitado e decidido.
— Ah, eu tenho certeza que ele vai pedir demissão dessa vez! — Uma voz ao meu lado disse.
— É a segunda semana de aula ainda. — Iris respondeu.
— Eu aposto que ele vai! Ouvi os professores comentando que ele tem tido crises de raiva e estresse. É certeza absoluta!
— Você fala como se fosse a coisa mais normal do mundo, Peggy… — Iris disse, reprovando a menina com o olhar.
Peggy tinha cabelos curtos e castanhos e grandes olhos curiosos. Levantou-se da cadeira e seguiu o professor, depois de ele já estar a uma certa distância. Alexy entrou na sala ao mesmo tempo em que Peggy saia e a olhou como se ela fosse uma meleca de nariz.
— Pra onde vai a fofoqueira? — Alexy perguntou para mim e Iris.
— Ela foi stalkear o professor Ruy. Disse que ele vai se demitir e tem certeza.
— Ah, sim. Mais uma notícia bombástica pro blog dela. — Ele revirou os olhos.
— Blog? — Perguntei.
— Essa menina é a maior fofoqueira da escola! — Alexy disse, sentando numa cadeira vaga. — Ela fez uma petição três vezes pra reviver o antigo jornal da escola, mas nunca consegue assinaturas o suficiente pra levar pra diretora. E ainda bem por isso! Não precisamos da enxerida publicando as fofocas da semana na escola…
— Você ainda está ressentido com ela? — Iris perguntou.
— E você não estaria? Se a minha família não fosse tão legal eu poderia ter me ferrado! E você acha que ela liga? Ela só quer a atenção de ser a primeira a saber e contar!
— Ela fez alguma coisa muito grave? — Perguntei, preocupada.
— Bom, não sei se você reparou Katrina, mas eu sou gay. Ela achou que essa era uma história incrível pra contar sobre os “gêmeos novatos” quando a gente entrou e até hoje eu tenho que ouvir merda do Carlos por isso.
— Nossa, ela te tirou do armário pra escola inteira? Que horrível!
— EXATAMENTE! ALGUÉM ME ENTENDE! — Alexy respondeu, jogando as mãos pra cima.
Queria perguntar quem era o tal Carlos que falava mal dele, mas achei que o momento não era o ideal e que acabaria descobrindo mais cedo ou mais tarde. Nós três saímos da sala e fomos comer na cantina. O ganhador do prêmio do show de talentos sorria de orelha a orelha com o item mais caro do cardápio nas mãos, enquanto espantava os amigos pidões de perto dele.
O resto do dia foi monótono, com a exceção do ocasional comentário espertinho dos colegas de classe. No final do período, me despedi de Alexy e Armin. Iris me guiou até a sala de alguns dos clubes e foi para o clube de música.
Fiquei na porta do clube de debate, considerando se eu realmente queria passar mais tempo na escola. Antes que pudesse ter a oportunidade de desistir, a porta se abriu. Do outro lado estava Nathaniel, com uma cara surpresa que se transformou num sorriso educado.
— Seja bem-vinda. Nós ainda estamos nos organizando pra começar.
— Ahn… Eu… Eu vim pra ver como é. — Respondi, pega de surpresa.
— Ah, sim! Vem, eu mostro a sala pra você. — Ele disse, abrindo mais a porta e dando espaço para eu passar.
A sala era uma sala de aula normal.”Bom, quase”. Tinha menos cadeiras e elas formavam um círculo. No fundo, as prateleiras na parede estavam cheias de livros, pastas e alguns prêmios.
— Parece um pouco o grêmio. — Comentei.
— Isso é verdade… Muitos dos membros do grêmio fazem parte do clube também. Seria bom ter a perspectiva de uma pessoa de fora, se você ficar. — Nathaniel respondeu de forma simpática.
— Então você está aqui paquerando em vez de ajudar com as caixas! — Uma voz masculina vinha da porta. Um menino alto e magro com as mãos na cintura, uma caixa com papéis perto dos seus pés e um olhar brincalhão olhava para nós. — Você é péssimo, senhor representante.
— Eu busquei as caixas na semana passada, Leo. A tarefa é rotativa, você sabe disso. — Nathaniel parecia cansado.
— É assim que você trata os amigos de infância! Oh, como é difícil não ser apreciado! — Leo respondeu, com uma das mãos agora na testa. Ri dele, a atuação dramática o fazia parecer Hugo.
Nathaniel se deu por vencido com um suspiro e pegou a caixa do chão, colocando-a sobre uma das mesas. Melody, a garota que eu tinha visto na semana anterior apareceu também com uma sacola na mão e sorriu para os dois garotos. O rosto de Leo pareceu se iluminar ao vê-la entrar.
— Melody! Ainda bem que você está aqui, Nathaniel estava me forçando a carregar as coisas pesadas.
— Mas essa semana não é sua vez? — Ela respondeu.
— Vocês do conselho estudantil são todos ogros! O que é que custa ajudar?!
— Katrina, não é? Você veio pra se inscrever no clube? — Melody disse, dessa vez olhando para mim.
— Isso. Bom, eu vim mais pra dar uma olhada. Eu ainda não me decidi.
— Infelizmente, hoje nós não vamos poder usar a sala do clube. A diretora pediu pra avisar que finalmente chamaram alguém pra lidar com a infiltração da sala do clube de debate, o banheiro feminino e a sala de música. — Melody disse, mais para os outros dois do que para mim.
— FINALMENTE! — Leo estava animado.
— Bom, pode devolver a caixa pro depósito então, Leo. — Nathaniel disse e parecia estar se divertindo secretamente.
Leo soltou um grunhido alto e arrastou os pés até a caixa e então para fora da sala, enquanto todos saímos também. Nathaniel fechou a sala e se desculpou pelo inconveniente. Decidi ir testar o outro clube que me interessava, o clube de arte. Seguindo as instruções de Iris, caminhei até a sala que parecia ser a certa. Lá dentro, uma menina miudinha de cabelos roxos desenhava num canto, uma menina de cabelos curtos e pele como a minha, um tom que tia Verônica chamava de moreno jambo, pintava usando os dedos e um grupo de meninos parecia se divertir montando esculturas.
— Eu nunca te vi por aqui, guria. — A menina de cabelos curtos disse, ao me ver.
— É a primeira vez que eu venho.
— Como é o seu nome?
— Katrina e o seu?
— Sou Kim! Aquela de cabelo roxo é a Violette, os meninos ali eu nunca vi também, acho que também são novos.
Kim me mostrou a sala, com armários cheios de vários materiais como cola, cola colorida, glitter, tinta, argila, papelão, jornal, giz de cera, lápis de cor, lantejoulas, barbantes, pincéis e papel.
— Você está aqui faz muito tempo? — Perguntei, para quebrar o gelo.
— Comecei no meio do ano passado, quando torci feio o tornozelo e tive que parar com o basquete. Fiquei porque a gente tem uma certa liberdade pros nossos projetos, mesmo com a orientação dos professores.
— Você é do clube de basquete? Parece legal.
— E é!
A conversa acabou morrendo depois disso. O clube parecia interessante, mas a pouca interação e o “excesso” de liberdade me fez sentir constrangida. Decidi ir embora, talvez voltar outro dia. No caminho para a porta, um dos meninos do grupo se levantou rapidamente, esbarrando numa mesa, que esbarrou no cavalete que Kim estava usando para fazer sua pintura. O pote de tinta azul caiu inteiro no chão, espalhando tinta para cima quando caiu. “Claro que a maior parte tinha que cair em mim”.
— Guria!
— Nossa ela se sujou inteira!
Derrotada, eu só fiquei parada no lugar. A tinta escorria pela minha calça, entrando nos meus sapatos. Kim se dispôs a ajudar e Violette também. Fomos para o vestiário do ginásio, onde Kim me emprestou um short preto e eu tentei esfregar a tinta para fora do tecido da minha calça. Ainda havia resquícios de tinta azul na calça, mas nas meias e na barra da minha camiseta ela já tinha secado. Decidi que o dia encerrava ali e iria para casa. Violette tirou de um armário uma sacola de plástico e me deu, para que eu pudesse levar embora a minha calça ensopada. Agradeci e fui buscar minha mochila nos armários do corredor.
No bicicletário do lado de fora descobri que meus dois pneus estavam furados. Enquanto tentava entender como e porquê diabos alguém faria isso, me sentei num banco. O dia só ficava melhor. O lado bom é que com todo o fiasco dos clubes eu não tinha passado muito tempo na escola, apenas uma hora a mais que o normal. Olhei outra vez para o triciclo amarelo tristemente caído para o lado, com os pneus murchos e decidi que deveria contar na direção.
Passei novamente na sala com a placa “SEC AR A”, onde encontrei apenas uma atendente com cara de poucos amigos. Expliquei a situação com o triciclo e a atendente disse que não podia fazer nada sobre o problema, já que tecnicamente foi fora da escola.
— E o que é que eu vou fazer?
— A única coisa agora é você voltar para casa. — Disse a atendente, com a maior má vontade do mundo.
Sai da secretaria irritada. “O descaso com os alunos é impressionante”. Peggy estava na porta, escrevendo algo em seu celular e olhou para mim.
— Problema logo na segunda semana, novata? — Ela perguntou, com uma expressão curiosa e meio sombria. Eu ignorei e fui para o pátio.
Novamente no pátio, me sentei na escadaria que dava para o corredor principal. Tentei imaginar quem faria isso ou o motivo. Eu não conhecia ninguém ainda. “Talvez seja uma pegadinha com os novatos?”. Mas não tinha nenhuma outra bicicleta nos bicicletários ou algum novato confuso. “Talvez alguém de fora da escola tenha me confundido com outra pessoa?”. Mas o triciclo amarelo com pompons vermelhos era muito específico para ser confundido. Fiquei sentada por alguns minutos pensando sobre isso. A preguiça de andar para casa com o triciclo com os pneus murchos também não ajudava.
— Bom, eu estou desde o começo reclamando desse triciclo… Talvez seja a minha lição de que não se reclama de barriga cheia. — Suspirei.
— O que você ainda tá fazendo aqui? — Uma voz disse atrás de mim. Dei um pulo, pois não escutei ninguém se aproximando. Era Castiel.
— A senhorita é a tão falada Katrina? — Uma segunda voz disse. Um menino pálido e com cabelos brancos com uma mecha verde estava do lado de Castiel. Usava um terno preto antiquado com bordados prateados e uma gravata do mesmo tom de verde do seu cabelo.
— Ahn… — Pensei como é que eu poderia ser falada. Olhei para Castiel, confusa. — Acho que sim?
— Nem olhe pra mim, isso é coisa da Rosalya. — Respondeu Castiel.
— Rosalya? — E então me lembrei da mocinha animada de cabelos também brancos que veio falar comigo de manhã. — Ah sim, eu conheci ela hoje de manhã.
— É um prazer conhecê-la. — O outro estendeu a mão para mim. — Eu sou Lysandre.
Retribui o aperto de mão. Me levantei dos degraus e olhei para ele. Em comparação com Castiel, parecia um pouco maior. Ele tinha um sorriso simpático. Castiel, por sua vez, parecia impaciente e querendo correr dali. Logo descobri o motivo.
— CASTIEL! — Uma voz feminina e estridente gritava seu nome do fim do corredor.
Os dois meninos correram, quase me atropelando no caminho. Castiel ria e Lysandre parecia preocupado. Olhei para o fim do corredor e lá vinha a diretora, com seu terninho rosa, seu coque se desfazendo numa bagunça branca e o cheiro doce misturado com cigarro a acompanhava.
— E o que a senhorita ainda está fazendo aqui com os dois? O que você sabe? — Ela disse, dirigindo sua fúria para mim agora.
— Eu acabei de sair da secretaria, furaram os pneus da minha bicicleta… — respondi, tentando me defender do que quer que fosse que ela iria me acusar.
— Já pra casa você também! As propriedades dos alunos não são responsabilidade da escola, resolva isso com os seus responsáveis!
Resignada, fui recolher o triciclo do bicicletário. Passei pelo portão e tentei decidir que caminho seguir. O caminho que eu estava usando até o momento era mais fácil com o triciclo, já que era reto, mas era mais demorado a pé, já que eu me desviava um pouco por dentro de outros bairros. Já que estava a pé, decidi ir pelo parque. Na entrada do parque, Castiel, Lysandre e Rosalya estavam sentados num banco de concreto.
— Katrina! — Rosalya deu um pulo ao me ver. — Eu estava esperando te ver na saída, mas você sumiu!
Lysandre parecia achar graça na animação dela, Castiel estava com sua costumeira cara de que tudo no mundo é um incômodo. Tia Verônica chamava isso de cara de intestino preso, ou o famigerado enfezado.
— Lys, podemos chamar ela pra conhecer o Leigh agora! Chame o Hugo também! — Rosalya pediu. Parecia menos um pedido e mais uma ordem pra falar a verdade.
— Rosa, nem perguntou se ela já tinha planos… — Lysandre respondeu.
— Eu ainda tenho que chegar em casa, no clube de arte um pote de tinta caiu em mim e depois alguém furou os meus pneus. — Respondi, apontando para as manchas de tinta nas minhas meias e na barra da camiseta e depois para os pneus.
— Meu deus, o que aconteceu com os seus joelhos? — Perguntou Rosalya, apontando para os curativos e os hematomas que já sumiam.
— Isso foi o Dragon, ela se voluntariou pra segurar ele mas não segurou bem. — Castiel respondeu, com um sorriso sarcástico.
— Então nós deveríamos ir com ela! — Rosalya disse, determinada. — Já está escurecendo e ela está sozinha, vai saber se não foram bandidos que furaram os pneus para ela ficar mais devagar!
— Você tem realmente uma mania de se convidar pra casa alheia, né? — Castiel disse meio irritado e meio sarcástico.
— Nós podemos ir só até a porta com vocês, se não for incomodo. — Lysandre sugeriu.
E lá fomos nós. Pelo caminho, Rosalya falava animada de várias coisas: o namorado, a escola, o suposto bandido que furou os pneus, como os clubes da escola eram uma porcaria que a direção inventou pra usar os alunos como escravos e fazer a manutenção das salas e equipamentos da escola. Castiel e Lysandre conversavam mais baixo entre si, risadas ocasionais dos dois atrapalhavam a falação de Rosalya, que queria saber do que se tratava. “Incrivelmente animados esses jovens”. Na esquina de casa, Castiel parou de repente e nos pediu para parar também.
— O que essa doida tá fazendo aqui? — Ele disse, olhando para uma figura feminina na porta da casa.
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