Notas iniciais
A pior coisa na vida de um gago é o olhar de urgência que as pessoas lhe reservam, querendo prever e terminar o que o pobre diabo é incapaz de dizer por meios próprios.

Acabaram de atirar num gago.

A notícia corre de boca em boca. Reflexo da violência urbana e do gosto por tragédias do povo. Na falta das gregas nos contentamos com as nacionais mesmo. Transeuntes se amontoam ao redor da cena do crime. Um jovem, muitos irão dizer, nem feio nem bonito num paletó cinzento. Alguns comparam o orifício da bala com uma rosa. Vermelha e crescente. Desabrochando em manchas rubras. Escorrendo pela calçada quebrada. Vozes começam a ecoar. Buscando causas e motivos. Culpados e condenados.

Atiraram no gago numa transversal qualquer da Paulista.

Testemunhas descrevem o que não viram. Especulam e destrincham sobre a curiosidade alheia. Fatos e boatos se intercalam formando uma suposta verdade. O dono do bar apresentou o desconhecido como o gago que trabalhava no complexo de escritórios do qual saia. Explicou como, após ouvir um som de estouro, o homem apareceu na porta do bar e por alguns segundos, que pareceram horas, pediu socorro mas só se ouviu silabas entrecortadas e gemidos estridentes. Traido por sua natureza, a lingua incapaz de entender que se tratava de algo que realmente devia ser dito, desmoronou com a rosa a florescer no ferimento do peito. Falas acaloradas sobre o novo fato irrelevante mas que trazia consigo certa intimidade entre os curiosos e o ser agonizante na calçada. Que agora todos sabiam ser gago. Carro do ano, mas popular. Carruagem de quatro rodas que chamou atenção das pessoas erradas. Pessoas erradas com as armas certas. O valor da vida é medida por chumbo. Chumbo e rosas de sangue.

Ouvidos atentos ao som de uma ambulância ou viatura chegando. Deuses urbanos que tentam devolver a vida que os humanos, por sua vez, tentaram tirar. Não podemos evitar o mal, apenas apagar suas marcas. Mas sempre restam as cicatrizes. O medo ao dobrar a esquina ou encarar alguém estranho na rua.

Um gago sangra em plena Paulista.

O socorro chega finalmente mas todos sabem que não há mais nada a fazer. Nos instantes finais algo inesperado acontece. Por alguma ação do destino sua língua se vê livre das amarras que o restringiram durante toda a vida. Tanto para dizer. Declarações nunca feitas. O fim do olhar de piedade e urgência que lhe reservavam. Mas já não há mais tempo. A rosa se abre completamente e leva a vida daquele que já foi um gago. O saco plástico acaba com o espetáculo e a multidão começa a se dispersar lembrando de seus compromissos e obrigações.

Estava apenas passando. Poderia ter seguido em frente. E depois leria em algum jornal "Homem é morto na Paulista" ou algo do tipo. Ninguém se importaria em saber a verdade e os detalhes. Ninguém ligaria para a rosa escorrendo em seu peito e suas súplicas falhas. Mas resolvi parar e presenciei tudo isso. Parte do que escrevo aqui é pura especulação e romantização sobre o ocorrido. Isso é natural, a verdade está sempre sujeita a avaliação e modificação das testemunhas. Alguns ainda comentarão sobre o ocorrido por dias e semanas a fio. Quando tiverem a certeza que todos os presentes estão prestando atenção, simplesmente irão dizer: um gago foi morto na avenida Paulista.

Tiraram a gagueira de um gago na avenida Paulista.

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