Notas iniciais
Curiosos?Vamos lá! Canção tema de toda a fic: https://www.youtube.com/watch?v=O3kAEF79sEE

Mas não te procuro mais, nem corro atrás. Deixo-te livre para sentir minha falta, se é

que faço falta… Tens meu número, na verdade, meu coração, então se sentir vontade de falar comigo ou me ver, me procura você.

Caio Fernando Abreu.

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“Qualquer distância entre nós vira um abismo sem fim, quando estranhei sua voz eu te procurei em mim. Ninguém vai resolver problemas de nós dois.”

Poncho. México, DF

Eu estava acordado há muito tempo desde quando tudo o que restou foi o silêncio naquele quarto. Não conseguia dormir e até tinha receio de fazer isso, não queria sonhar o que minha imaginação reproduzia na minha mente.

Passei a mão no rosto e afundei mais meu rosto no travesseiro, frustrado abri calmo os olhos, apesar da escuridão que dominava meu quarto. Estava cansado fisicamente o dia foi cheio final de temporada da minha peça. Que graças aos céus estava indo muito bem obrigado. Sai para jantar com Perla para comemorar mais um dia meu feliz no teatro, com alguns amigos bebemos e nos divertimos. Perla veio dormir comigo aqui no meu apartamento.

Agora olhando para as costas dela desnuda, me senti culpado. Por que o meu cansaço também era emocional. Maldição! Eu passei o dia inteiro tentando me concentrar em todas minhas atividades e ainda bem que sou um ótimo ator por que ninguém percebeu o quanto inquieto eu estive durante todo o dia.

Subi o lençol para cobrir o corpo de Perla e no ato me dei conta de como eu dormi. Do jeito que eu gosto, de bruços e com um braço embaixo do travesseiro onde eu estava apoiando minha cabeça. Eu dormi como dormia quando estava solteiro. E ainda por cima estava o mais afastado de Perla, mas como me aproximar dela se minha cabeça, mente e até alma só me levava até Los Angeles?

O som da respiração calma e despreocupada dela me afetava, me fazia sentir pior. Por isso me levantei, sentindo a garganta seca e a cabeça pesada de pensamentos e suposições, sentei na cama suspirei procurando minha cueca pelo chão, no escuro.

Ao avistá-la no final da minha cama, me levantei com cuidado para não acordar Perla, peguei e já coloquei para sair do quarto. Cheguei à sala piscando por conta da claridade que havia ali, esqueci a janela aberta às luzes de fora entravam iluminando um trecho minha sala. Cheguei na cozinha e abri a geladeira decidido a matar minha sede, enquanto terminava de tomar meu último gole vi Miau passeando pela casa. Na bancada de mármore estavam meu celular e meu cigarro.

Peguei os dois antes de voltar para meu quarto e num cego caminho. Cheguei fechando a porta com cuidado e sem olhar para Perla fui em direção a varanda, ela detestava me ver fumando. Mas, eu tinha que fazer aquilo. Era necessário.

Apoiei meus cotovelos na grossa grade da sacada e acendi meu cigarro, deixando meu isqueiro junto com meu celular, senti frio por estar ali fora apenas de boxer, mas o vício era maior. Cocei minha barba, soltando a fumaça pela boca e mais uma vez pensando em Los Angeles. Olhei para a noite como se pudesse me teletransportar para um certo lugar, perto de uma certa pessoa.

Peguei o meu celular e buscando seu número na agenda, abusando da coragem repentina que tive talvez pela nicotina inalada, ela veio certeira ainda fraca, mesmo assim me fez apertar o botão verde para fazer a ligação.

Sem me importar com o horário, sem me importar com mais nada, com mais ninguém. Eu precisava ceder para a saudade a abstinência que eu sentia, senão ficaria maluco, tinha que ceder só por aquele momento, não importava como eu seria recebido com acolhimento ou ofensas. Eu só precisava ter certeza de que tudo que fiz, foi o certo.

Mesmo que quebre com tudo que custei para construir depois de me afastar dela. Era nisso que eu pensava enquanto o meu celular chamava o dela.

“Chamando...Dulce María”

Quase me engasguei quando soltava fumaça do cigarro pela quinta vez, ao ver que ela atendeu e fiquei sem saber o que fazer por que a coragem anterior veio subta e desapareceu assim como a fumaça do meu cigarro. Nesse conflito me esqueci de falar algo e fiquei escutando sua respiração.

:- Alô? – Escutei sua voz irritada. E recuei por conta da sua grosseria, eu esqueci do horário, até mesmo do fuso-horário. Me esqueci que ela deveria estar irritada comigo e não era de agora. Que tudo aquilo era loucura. Aquela ligação era uma loucura. – São 4 da manhã e se não for falar nada eu gostaria de dormir! – ela continuou grossa.

Ela não sabia que era eu?

:- Desculpa. – Suspirei soltando as palavras. – Fui um tolo por ter te ligado essa hora, não é? – fiz uma careta, me culpando.

:- Poncho? – ela falou meio rouca como se tivesse despertado somente agora e me reconhecido também. Olhei para a cama rapidamente antes de falar.

: — Sim... Desculpe-me ter te ligado há essa hora, eu... Eu vou desligar.

: — Não. – Ela disse baixo num tom tão rápido que me fez sorrir por alguns segundos. – Espere.

Receoso ou talvez impaciente para que ela dissesse mais alguma coisa, eu suspirei coçando minha barba, me sentindo um pouco... Tonto.

: — Está tudo bem? – Não. Eu pensei. Mas tudo o que fiz foi sorrir triste e balançar a cabeça em positivo, como se ela pudesse ver.

: — Está sim. E você, como está? – Dulce suspirou, aquele suspiro familiar que eu conhecia muito bem. Aquele suspiro chateado e incomodado. E até dele eu sentia muita, muita falta.

: — Estou bem, Poncho.

Era estranho estar com ela daquele jeito, sabendo que tinha algo de errado, sabendo que ela estava brava comigo. Mas, de alguma forma eu já havia me acostumado com aquilo.

: — E as gravações aí em Los Angeles, como estão indo? – Perguntei a fim de dar algum rumo a aquela ligação, tentando apenas fazer com que tivéssemos um diálogo ao invés de um torturante silêncio.

: — Exaustivas, mas estão indo bem, graças a Deus. Tudo saindo do jeito que eu quero.

Sorri, tragando o cigarro mais uma vez.

: — Que bom que as coisas estão dando certo pra você.

: — E sua peça? – Ela disse tão baixo que eu mal pude escutar, por isso em um gesto automático estreitei meus olhos antes de responder.

: — Ah! Estamos no final da temporada semana que vem termina, a peça está superando as expectativas de muita gente.

: — Parabéns por isso você merece.

Dulce foi curta e seca, notei nitidamente no tom de sua voz, mas mesmo assim a minha vontade era de sorrir pelo “elogio” feito a mim, mas a minha curiosidade de perguntar o porquê dela estar falando tão baixo era mil vezes maior. E foi o que fiz enquanto apagava o cigarro na parede ai lado e o jogava fora.

: — Por que está sussurrando Dulce? Mal consigo te escutar.

: — Por que eu não quero que Lui... — Ela se calou. Juntei minhas sobrancelhas ligando os fatos.

: — Ele está ai com você? E você está falando baixo para não acordá-lo, é isso? — Ri irônico e incomodado – Está sendo seca comigo por causa dele também ou é algo particular?

Não pude evitar a pequena risada no final, e a ouvi inalar furiosamente. Eu estava incomodado sim, estava com ciúmes sim, mas não seria eu que admitiria isso, não mais.

: — Sim, estou falando baixo para não acordá-lo. Isso incomoda você? Não deveria, nem teria o porquê te incomodar.

: — Não estou incomodado com quem está ou não está dormindo na sua cama neste momento, Dulce. – Menti frio e um pouco irritado, olhando para trás para verificar se Perla havia acordado. – Só acho que você poderia sim falar normal, não creio que tenha algo demais nisso. Não mudei de tom com você e Perla continua dormindo da mesma forma na minha cama.

Dulce não disse nada, tudo o que ouvi agoniado no segundo depois foi, à droga do silêncio que eu temia. Não sei se agi por impulso ao dizer aquilo, mas se a intenção era alfinetá-la de alguma forma para insanamente me sentir um pouco melhor do ciúme que eu sentia naquele momento, talvez eu tivesse conseguido.

Pela primeira vez eu fui grosseiro naquela conversa, não pude me conter, quando me dei conta às palavras saíram da minha boca. Ela demorou a me responder.

: — Assim como você não está incomodado com quem está dormindo comigo aqui, não deveria se incomodar pelo meu tom de voz... — Antes que eu pudesse respondê-la ela continuou. – Por favor, em vez de me ligar a essa hora por que não está deitado com sua namorada?

: — Dulce não começa... – ela me interrompeu de novo.

: — Não começar com o que Poncho? – Falou num tom de voz mais alto que antes exibindo sua irritação. Imaginei ela revirando os olhos.

: — Com ironias... Com ofensas. Liguei para conversamos numa boa, mas vejo que não será possível. – E depois de rir ela me respondeu justamente sendo irônica.

: — Não temos uma conversa numa boa, há muito tempo. Não faz sentido essa ligação e você sabe disso.

Bufei fazendo questão que ela ouvisse do outro lado.

Por que mesmo eu fiz essa ligação? Que maldita ilusão foi a minha de pensar que conversaríamos normalmente. Como amigos que éramos. Esqueci que até isso deixamos de ser. Não manteríamos um diálogo civilizado sem ironias ou sarcasmo, se ela seria grossa? Eu seria mais. Se ela fosse irônica? Eu seria mais. Se fosse teimosa? Seria mais.

Não importava como estivéssemos, essa era nossa principal linguagem, a intensidade.

: — Porque não faz sentido? – perguntei um pouco irritado. Talvez não fizesse sentido mesmo. – Se você não quisesse falar comigo você teria desligado, Dulce, não me mandando esperar como fez.

A ouvi ri e respirar profundamente como se estivesse pegando fôlego.

: — Você já foi mais modesto, Poncho.

: — E você também já foi mais simpática, Dulce. Depois desse cara com quem você está parece que você perdeu um pouco da educação que te deram.

: — Você não sabe de nada dele, então, por favor, olha lá como você fala. – ela bufou do outro lado da linha, o defendendo. Eu revirei os olhos.

: — Parece que você está mesmo apaixonada por esse cara. — Eu disse me sentindo magoado. Mas eu nem tinha mais o direito disso, não é?

: — Só se deu conta disso agora? E ainda quer falar de sentimentos?

: — Sim, quero. — Tomando minha postura grosseira ao ver que ela confirmou estar apaixonada, escutar aquilo de sua própria boca não causou bons efeitos em mim. — Se é que existe algum entre nós.

Dulce respirou fundo outra vez. De um modo ou de outro parecia que ela estava testando a minha paciência. Ou melhor, paciência era algo que de fato eu não tinha mais naquele momento.

:- Porque deveria existir algo entre nós, Poncho? Porque ainda deveria existir algum tipo de sentimento entre nós dois?

Ri sarcástico. Apertando o celular com os dedos e olhando para cima, totalmente sem paciência.

Mordi o lábio numa tentativa falha de me conter, antes de respondê-la.

: — Então, você está com o seu namoradinho dormindo na sua cama, mas está falando comigo aos sussurros em plena madrugada. E quer me convencer que não existe sentimento algum? Por favor, Dulce, não força a barra.

Eu ri por que aquilo era um absurdo. Imaginei ela abrindo e fechando a boca várias vezes formulando alguma resposta para mim. Talvez até uma olhada em sua cama para ver que ele continuava dormindo. Mas, nada me preparou para a resposta dela.

: — Imbecil! — Ela falou agressiva num tom mais alto. — Não importa sentimento nenhum que eu tenha contigo. Não é você que está dormindo na minha cama, não é você que me cuida, me mima, não é você que me faz sentir uma pessoa melhor a cada dia. — Ela despejava as palavras friamente e veloz, o tom falsamente calmo de antes desapareceu. — Não importa o sentimento que eu tenha com você, ele é o meu namorado. É ele quem está na minha cama agora e não você. Entendeu?

Se eu tivesse um espelho me refletindo agora não me reconheceria, na medida que escutava as palavras de Dulce e mesclava com minha imaginação. Meus olhos estavam apertados, minha mão esquerda fechada um punho, veias estavam saltadas mais vivas que nunca.

Mas, quando senti que estava perdendo o controle e olhei para trás e vi Perla se mexer na cama, me controlei. Até ver que ela continuava a dormir tranquila.

: — Você está mesmo tão segura assim do que senti por ele, Dulce? — Perguntei sentindo meu corpo rígido, o coração batendo fortemente.

: — O tanto que você está pelo o que sente pela Perla.

O que eu sinto por Perla. Não pude aguentar e soltei uma baixa gargalhada, me encostando na parede e fechando meus olhos por alguns segundos. Aquilo era incrédulo demais.

: — Do que está rindo, imbecil? – Ela perguntou no contra ataque, a respiração banhada naquela fúria que eu conhecia muito bem e não era de hoje. Neguei com a cabeça.

: — Nada, é só que... Tanto Perla quanto seu namorado estão dormindo e nós dois aqui, nos falando por telefone e tomando cuidado para que eles não acordem. – Quando fiz uma pausa para raciocinar percebi que Dulce iria me interromper, então continuei, sem deixar que ela me atrapalhasse com suas mil e umas pedras. — Não pense que não está tomando o mesmo cuidado, por que eu sei que está. – Quando notei que consegui com que ela cala-se seus impulsos continuei. — Todavia seguimos com essa ligação, apesar de todas palavras ditas, não importa nossos sentimentos pelas pessoas com quem estamos mantendo um relacionamento no momento. Isso não nos impede de nos querermos. E se eu segui até agora com essa ligação, com Perla dormindo tão perto de mim. Você tem certeza se o que eu sinto por ela é tudo isso que você pensa que é?

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“Tá, tudo tão incerto”

Dulce. Los Angeles, EUA.

Ele conseguiu se é o que queria.

Me calar.

Provavelmente esse era o sentido daquela ligação. Me ligar depois de tanto tempo afastados e fazer o papel de bom moço dele. Eu estava furiosa com isso, com ele e principalmente comigo, por ter levantado como uma louca esperando ficar o mais afastada de Luis, para escutar a voz de Poncho.

Trouxa, isso o que eu era. Por fazer papel de idiota que eu estava escutando tudo aquilo de Poncho. Por perder totalmente minha irritação ao ser acordada tão tarde depois de um dia intenso de gravação, ao escutar a voz dele sentir meu coração bater violentamente contra meu peito.

: — Eu não penso, eu vejo. E por isso eu não sei mais de nada, Alfonso. Não quero tentar abrir novamente uma ferida que tanto custei para cicatrizar, não é justo passar por isso tudo de novo. – Respirando fundo e prendendo em minha garganta o choro que queria sair, eu levei a mão até a porta de vidro da varanda, arrastando-a de leve para que ela se fechasse apenas para evitar que Luís escutasse todo o meu lamento. — Por que por mais que você diga que vai mudar, você nunca, nunca para de me machucar. E você está fazendo exatamente isso agora, me machucando. E eu me cansei de me apegar as suas falsas ilusões.

: — Porque você insiste em ver só o lado ruim, Dulce? Porque você nunca pode frisar o bem que te causei? O quanto te amei, por quê? — Me encostei na parede e fechei meus olhos com força, deslizando meus dedos trêmulos por entre minhas mechas de cabelo, para retirar a franja que caia em meu rosto.

: — O que você quer Poncho? Com uma ligação à uma hora dessa, ainda mais me ofendendo do jeito que ofendeu. Até parece que está querendo algo a mais comigo como se estivéssemos naquele passado atormentado. Eu não consigo entender. Escuta uma coisa, não vamos mais ficar naquele velho ciclo... Naquele vai e vem, naquela bolha viciosa que causava um estrago em nós dois toda vez que estourava.

Engoli a seco, puxando o ar para poder dizer a seguinte frase... Que saiu queimando como lava.

: — Eu não... Eu não quero mais. — Apertei mais meu celular entre os dedos. — Não quero.

:- Quem não quer sou eu! – ele falou perigosamente raivoso, fiquei tão assustada com sua repentina explosão que pisquei três vezes para refletir sobre sua frase.

“Did I say that I loathe you? Did I say that I want to leave it all behind? I can't take my mind off of you. I can’t”

Então houve um silêncio perturbador eu processando suas palavras e ele esperando que eu dissesse algo enquanto nossas respirações pesadas eram o único som que eu prestava atenção. Mentiroso! Meu coração gritava aos prantos que ele estava mentido descaradamente, sua atitude por si só o denunciava, aquilo não era uma verdade.

Eu lutava ferozmente para me conter, eu não podia ceder, não podia demonstrar minhas fraquezas a ele novamente.

: — O quê? — Sussurrei mais para mim mesma do que para ele, apenas para as palavras entupidas em minha garganta se dissiparem. Alfonso respirou profundamente, assim como eu, ele parecia tirar forças para continuar mantendo aquela ligação sabe-se lá Deus de onde.

: — Só quero que me responda uma coisa... — Eu não conseguia dizer nada, ou não tinha o que dizer. Ele estava abrindo mão de mim. Não que ele soubesse que eu me importava, mas ao contrário do que ele deveria estar pensando, eu estava sangrando por saber daquilo.

: — Você é feliz com ele?

:- Sim. – Disse engolindo saliva amargamente com o sabor da verdade, tendo a consciência de que minha resposta faria com que eu o perdesse.

Houve um breve silêncio, e depois mais uma remexida na ferida reaberta.

: — Mais do que foi comigo? Ele te faz mais feliz do que um dia eu já consegui fazer, Dulce? — Tremi. Tremi insanamente ao escutar sua voz rouca e magoada. Repleta daquela angustia que fazia ainda mais meu peito apertar de saudade, de vontade de voltar ao começo.

Não! Por favor, Poncho, não me pergunte isso! Eu suplicava mentalmente, eu não deveria respondê-lo. Respondê-lo me faria ir da glória ao fracasso. Havia muito que perder, pouco o que ganhar, muito passado, muito futuro... Para formular alguma resposta coerente e totalmente sincera. Mas, a verdade mesmo era que ninguém havia me feito feliz como ele fez... E a verdade doía e muito.

Senti os meus olhos queimarem pelas lágrimas teimosas que brotavam e insistiam em sair, as mãos formigavam acumulando sangue na região, os ombros tensos cansados pelo peso da responsabilidade que eu carregava naquele instante, por apenas falar alguma resposta a Poncho.

:- Não! – Sussurrei e eu mal me escutei, duvidei que Poncho estivesse escutado também. Abaixei a cabeça apertando meus olhos para que as lágrimas saíssem de uma vez escorrendo por minhas bochechas, aquelas que ele gostava tanto de esmagá-las e passei as costas dos meus dedos para limpá-las.

Antes que o desejo de que Poncho estivesse justamente apertando-as para me confortar, estivesse maior.

: — Nada vai se comparar ao que vivemos... — Neguei tonta. — Por favor, nada. — Quando minhas pernas tremeram outra vez eu flexionei os joelhos, me deixando escorregar pela parede gelada até sentar no chão da pequena varanda, encolhendo minhas pernas — Nunca nada será igual ao que você me fez sentir, Poncho, ao que me deu. — Abri meus olhos para encarar a escuridão, a mesma escuridão que perturbaria minhas horas, meus dias, minhas semanas depois dali. – Mas tudo isso faz parte de um passado que não volta mais... Dos dias em que vivemos num espaço perdido no tempo.

Quando o ouvi prender a respiração eu inalei o ar com toda a força, sentindo minha garganta fechar.

: — E por mais que me doa, eu não vou deixar que isso faça parte do meu presente.

: — Isso é tudo? — Quase não ouvi sua voz, mas eu tinha certeza que o corpo dele doía da mesma forma que o meu estava doendo.

: — Sim. — Eu podia ouvir com clareza os ponteiros do relógio baterem um segundo após o outro no tempo em que permanecemos em silêncio. Talvez eu não conseguisse dizer mais nada.

: — Eu estou cansado de tentar te esquecer... E bater sempre na trave. Realmente não sei aonde estou errando em como amar você. Talvez isso seja tudo pra mim.

Eu senti falta de ar, por isso me forcei a respirar mais rápido e profundamente, o nó na minha garganta ficou mais apertado e o ar sumindo cada vez mais. Não foi isso que me fez chorar em definitivo, mas sim o primeiro som indicando que ele havia desligado. Tomei como um estímulo para liberar toda aquela pressão que dominava o meu peito.

: — Poncho? — Chorei baixinho levando uma mão até a testa enquanto encarava a tela do meu celular. — Droga!

Apertei o celular ainda escutando a cantiga de um terrível pesadelo enquanto descia lentamente o meu braço com a ilusão de que ele não tivesse desligado. Por mais uma vez aquela noite fazendo um papel de boba, ele havia desistido.

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Desalento era tudo o que ela sentia agora, por isso quando tomou consciência de tudo, ela abraçou os seus fracos joelhos e se pois a chorar baixo, escutando ainda o celular a alertando que havia acabado a ligação e não só isso, havia acabado o que existia entre ela e aquele seria o seu tormento.

Por que ele era o seu tormento, bom ou ruim, mas agora que sabia que essa relação complicada terminou, por que não conseguia enxergar o sol? Ou a paz, que sempre imaginou que viria. Dulce sabia que estava apaixonada por Luis, porém ela tinha o que queria, mas não o que precisava e o que precisava naquele momento ela havia acabado de desprezar. Tinha como ser pior?

Durante todos os minutos em que passou sentada naquela varanda fria e pequena, Dulce chegou à conclusão de que não tinha como aquela situação piorar. Por anos ela tentou esquecê-lo, mas a tarefa era tão difícil quanto respirar estava sendo naquele momento. Talvez fosse bem feito, talvez fosse apenas pena, o que ela sabia mesmo era que tudo havia se perdido. Foi a última gota d'água.

Cansada de pensar e se lamentar, Dulce se levantou devagar, abrindo a porta da varanda do mesmo modo para não acordar o homem que dormia sobre sua cama. Fechou os olhos com toda a força e suspirou, fungando baixo e desejando por um segundo que o homem ali presente fosse Alfonso. Com uma risada triste e sufocada Dulce deu a volta no quarto, sentando-se na cama e colocando o celular sobre o criado mudo.

Sono era a última coisa que tinha naquele momento por isso suspirou antes de deitar na cama e dividi-la com Luis, já deitada ficou encarando o teto com o rosto inchado pela tristeza e lágrimas derramadas era a primeira vez em anos que Dulce sentiu que agora estava separada de Poncho não por um momento e sim em definitivo.

Então finalmente haviam colocado um ponto final naquele ciclo vicioso que os dois nutriam, Dulce passou os dedos pela bochecha para limpar o rastro de lágrimas e depois a apertou se lembrando de como era quando outra mão mais calejada que a sua, a apertava sem se importar com nada e tornando o gesto mais íntimo e irritante ao mesmo tempo. Fechou os olhos se recriminando por esquecer quem estava dormindo ao seu lado, por isso se virou de lado, e se cobriu coberta de vergonha.

A vergonha foi pior a ponto de mudar a tonalidade de suas bochechas, por que não foi a mão de Luis que Dulce imaginou passando em sua barriga em ato extremo de cumplicidade, foi a mão de Poncho que ela sentiu, imaginou, pior ainda desejou apesar de tudo.

Atravessando quilômetros de distância, não tão longe da cidade americana, estava Poncho fumando o seu quinto cigarro após ter bruscamente desligado na cara de Dulce. A cada tragada de cada cigarro ele continha a necessidade de ligar para ela de novo despejar tudo que pesava no peito dele no momento.

Alfonso não podia acreditar que havia escutado tudo aquilo da boca de Dulce. Se ele não tivesse digitado os números dela tão certos, teria certeza de que ligou para a pessoa errada. Aquela não era a sua Dulce, não era a sua ardilla. Ele estava tão destroçado que sentia vontade chorar, se apoiou na grade e apertou forte com as mãos reprimindo o choro. Fazia isso pela raiva que também corria pelo seu corpo naquele momento.

Mas como a respiração ávida que ele não podia controlar, mal percebeu quando as lágrimas começaram a cair furiosas por sua face avermelhada. Estava doendo, sim, e bastante. Estava doendo como nunca havia doído antes e pela primeira vez em sua vida ele não sabia como acalmar a dor. Estava desejando ser consolado pela pessoa que lhe causou todas aquelas feridas. Ele sentia-se fraco, de mãos atadas.

Então aquele era o final?

O final de toda aquela longa e intensa história dos dois? Era o que ele se questionava, respirando fundo para se acalmar. Relembrando de como havia cedido, fato estranho de se passar entre eles era sempre ela que fazia isso, ele demonstrou para ela sua verdade, sua fraqueza e ela sobretudo o recusou?

Ele levantou a cabeça conturbado e respirando fortemente, os olhos dele mudaram de cor por conta das lágrimas, porém isso ele não viu por que naquele instante brutalmente passava a mão no rosto tentando apagar a física prova de sua fragilidade. Já que a espiritual ele não apagaria tão fácil.

Ele pegou o seu celular, isqueiro e maço de cigarro agora vazio frustrado e antes que voltasse para o seu quarto resignado, ele parou na porta e ficou observando de longe Perla dormir e sentiu remorso depois de tudo, suspirou pesado e engoliu saliva para encontrar coragem e entrar no quarto e seguir com sua vida agora de um modo diferente, porém o gosto que ele sentiu foi o da covardia.

Dentro do quarto ele atravessou o caminho para o seu lado da cama devagar, sem pressa para nada, deixou tudo que tinha na mão na sua cômoda, deitou na cama com cuidado e ficou encarando o teto escuro, assim como ele estava por dentro, pegou seu celular e encontrou numa pasta qualquer uma foto de Dulce que ele guardava.

Ele deu um sorriso triste olhando os detalhes da foto antiga, tirada uma das vezes que foram a Monterrey, ela tinha acabado de acordar e ele tirou a foto desejando parar o tempo. Ela estava sem maquiagem, sorrindo sendo esmagado por uma mão dele e os olhos tinham um brilho inigualável de felicidade?

Ele balançou a cabeça derrotado e tirando a foto de vista ele deixou o celular de lado, voltando o braço e o apoiando atrás na cabeça.

Perla inconsciente se virou e buscou o calor do corpo de Alfonso, ela estremeceu por que o corpo dele estava totalmente frio não só por conta de ter ficado no sereno, mas por ser um reflexo do que ele sentia por dentro. Alfonso a abraçou com seu outro braço quando ela apoiou em seu peito, ele fechou os olhos covardemente imaginando o corpo, o calor de outra mulher, aquela que habitava a sua mente e seu coração no momento.

Finalmente o problema entre os dois estava resolvido. Ou essa era a falsa sensação que existia entre ambos, por que era muito difícil acreditar que um problema daquele tivesse chegado ao fim. Talvez seja esse o problema entre Dulce e Poncho, eles estavam tão presos e acomodados que não resolveram esse problema que agora que acabou eles já sentem saudade. O maior problema entre eles era o amor, se amavam feito loucos e depois não sabiam o que fazer com tanto amor. Se amavam tanto que mesmo quando estavam seguindo sua vida com outras pessoas, ainda eram o problema um do outro. Mas, depois dessa madrugada intensa de confissões e brigas o maior problema seria seguir com a vida sem o fantasma um do outro.

“I can't take my mind...My mind... my mind...'til I find somebody new.”

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"Podia ser só amizade, paixão, carinho, admiração, respeito, ternura, tesão. Com tantos sentimentos arrumados cuidadosamente na prateleira de cima, tinha de ser justo amor, meu Deus?"

Caio Fernando de Abreu

The end.

Notas finais
E outra música que foi citada é The Blower's Daughter, do Damien Rice: https://www.youtube.com/watch?v=CYRGvBQ5DkQ Espero que tenham gostado! :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!