Notas iniciais
Demorei mas voltei. Espero que gostem.

— O que essa doida tá fazendo aqui? — Ele disse, olhando para uma figura feminina na porta da casa.

Na verdade, reparando bem, eram três figuras femininas. Elas tentavam olhar pelas janelas que davam de frente pra rua. Pareciam ser da nossa idade, uma de cabelos castanhos presos num rabo de cavalo com um vestido preto e um suéter branco caindo de um dos ombros por cima, outra com os cabelos pretos e soltos e um cropped vermelho e uma mini saia preta e por fim a última, loira e com uma calça branca e um top rosa com uma manga manga comprida e sem manga do outro lado.

— São as capangas da Ambre? — Rosalya comentou, falando mais baixo.

— O que essas desocupadas querem aqui agora? — Castiel disse, irritado.

Ambre falava com um “sussurro alto”, mandando as duas outras olharem em outro lugar enquanto ela mesma tentava ainda olhar pelas janelas da sala, fazendo conchas com as mãos perto do rosto para ver melhor. Castiel parecia indignado e andou decidido em direção a elas.

— EI, VOCÊS! — Ele gritou.

As meninas deram um pulo assustadas, mas Ambre parecia calma e esperou ele chegar mais perto de braços cruzados. Nós fomos atrás de Castiel, nos entreolhando confusos e com medo do que poderia acontecer. Ambre viu que mais gente se aproximava e nos olhou. Seus olhos pararam em mim.

— O que VOCÊ quer na minha casa, Barbie de Chernobyl? — Castiel falava.

— Eu vim ver com os meus próprios olhos. — Ela respondeu. As suas minions saíram de fininho para o outro lado da rua. — Quer dizer que agora você abriga os desajustados?

— O quê?

— A artistinha de circo ali. — Ela apontou para mim sem tirar os olhos dele. — Qual é a explicação disso, Castiel?

— Eu não vejo como isso é da sua conta.

Ela pareceu se contorcer por dentro. Estava com o rosto vermelho e batia os dedos rapidamente nos braços cruzados. Olhava para mim e para ele rapidamente. Trocava o peso do corpo de uma perna para a outra. Encarou Castiel mais uma vez e seu olhar parecia tanto de raiva como de desespero.

— Agora sai que eu quero entrar na minha casa. — Castiel disse, passando reto por ela e indo para a porta.

No momento em que ele abriu a porta, Dragon saiu como um tiro de dentro da casa e pulou em Ambre, que soltou um grito agudo e correu para as outras meninas. As patas de Dragon ficaram marcadas nas suas calças brancas.

— Você é um ingrato e insensível! — A de cabelos pretos disse.

— Vamos, Ambre não se misture com a gentalha! — Rosalya disse, numa voz caricata e depois riu.

Entraram todos em casa, enquanto eu dei a volta pelo portãozinho lateral para deixar o triciclo no jardim. Encostei o bendito na parede e olhei em volta. O “jardim” era de dar pena. Várias plantas mortas há muito tempo ainda estavam plantadas em vasos e no chão. A grama estava alta nas partes em que o chão não havia sido coberto com cimento e as plantas que pareciam ter resistido ao que quer que fosse que tinha acontecido estavam crescendo desgovernadamente pelo espaço, com galhos pelados e poucas folhas nas pontas. “Essas plantas precisam de uma boa poda”. Tia Verônica ficaria horrorizada de ver um jardim nesse estado. Entrei pela cozinha e dei de cara com Lysandre.

— Vim te buscar, caso se perdesse na grama alta. Você também está horrorizada com o jardim? — Ele brincou.

— Se é que pode chamar esse matagal de jardim… — Respondi.

Ele concordou com a cabeça e fomos em direção a sala. Rosalya estava no celular mandando um áudio e rindo. Castiel estava sentado no chão de costas para nós e fazia carinho em Dragon.

— O que exatamente ela queria aqui? — Rosalya perguntou para Castiel.

— Ela me perguntou se a Katrina estava morando aqui.

— Oh, será que ela está com ciúmes do amorzinho dela? — Rosalya riu com gosto.

Castiel pareceu ainda mais irritado com o comentário dela e jogou uma almofada na sua direção. Lysandre e eu nos sentamos no sofá também.

— Será que…? — Rosalya ficou séria e um brilho estranho e animado surgiu de repente no seu olhar quando ela se virou para mim. — Será que foi ela que furou os seus pneus? Sabe, como vingança pelo que ela acha que é uma tentativa sua de roubar o Castiel dela?

— Não é porque você é doida e faria isso que todo mundo é igual, sabe? — Castiel se intrometeu. — Eu me lembro da vez que uma mina deu em cima do Leigh e você quase bateu nela.

— Eu me lembro desse dia, nós tivemos que te segurar. Fiquei com medo… — Lysandre entrou na conversa também.

— Ambre é pior que eu, não se lembra de tudo que ela fez com Debrah? Quase conseguiu fazer com que ela fosse expulsa. — Rosalya rebateu. Pareceu se arrepender imediatamente, com a cara que Castiel fez.

— Se já trouxeram a Katrina pra casa é melhor caírem fora logo. — Ele disse, se levantando e indo em direção às escadas com Dragon o acompanhando.

— Eu esqueci que não devia falar dela… — Rosalya disse, depois que ele saiu de vista.

— Você sabe que ele fica sentido ainda. — Lysandre disse.

— Desculpa, quem é Debrah? — Perguntei.

— É a ex dele, ela estudava na nossa escola até antes das férias. Eles não tiveram um término muito amigável, mas eu não sei muito sobre, ele não é muito aberto com a gente sobre isso. — Rosalya respondeu.

— Não é da nossa conta falar sobre isso, se quiser saber sobre pergunte para ele. — Lysandre respondeu rispidamente.

Os dois se levantaram para ir embora. Rosalya me pediu meu telefone antes de ir para que pudéssemos conversar.

— Até mais, Trina! — Ela disse, me abraçando e depois disse baixinho no meu ouvido para não levar para o pessoal a reação do Lysandre, pois ele e Castiel eram melhores amigos e Lysandre ficava super protetor quando falavam de Debrah perto dele.

Com o passar da semana, percebi que Hugo aparecia cada vez menos em casa, assim como Castiel, que eu só via de vez em quando nos corredores da escola. Fiz mais amizade com Violette e Kim, do clube de artes, com quem tinha algumas aulas. Passando cada vez mais tempo sozinha em casa achei que deveria arranjar um hobby, já que nenhum dos clubes da escola que eu visitei me chamaram atenção. Rosalya e Alexy tentavam me convencer a ir com eles para um curso de moda no centro da cidade, Iris fez a maior propaganda do clube de música, Violette prometeu me ajudar no clube de artes se eu quisesse ficar e Kim tentou me recrutar para o clube de basquete, mesmo eu já tendo dito que a minha coordenação motora não era das melhores. Acabei decidindo por ficar em casa mais um tempo, talvez voltar para as esculturas, talvez acumular um hobby novo.

— Você parece o Armin. Na verdade é até pior! Ele pelo menos fica em casa pra jogar, você nem está fazendo nada! — Alexy reclamou.

— Estou descansando por mim e pelo Hugo também, já que ele mal para em casa. — Brinquei.

— Aproveita a sua juventude menina, Hugo na nossa idade era terrível pelo que eu ouço do Leigh! — Rosa se juntou na conversa.

— Eu entendo, deve ser chato pensar em fazer tantas coisas sem conhecer as pessoas direito… — Respondeu Violette, com uma voz baixinha.

— Como não conhece? Todo mundo chamou ela pra fazer alguma coisa junto com a gente! — Rosa rebateu.

— Bom, pode ser que nada do que a gente sugeriu seja realmente uma coisa que ela goste. — Violette continuou.

Sorri agradecida. Ela estava certa. Apesar de gostar de todos eles, não éramos lá tão íntimos e as atividades que eles sugeriram não eram exatamente algo que eu gostaria de passar o meu tempo livre fazendo. Aula de moda, apesar de parecer legal, parecia dar muito mais trabalho do que só comprar uma roupa pronta, o clube de música me lembrava demais a banda da igreja que tia Verônica me tinha feito participar para “andar com bons jovens cristãos” e eu já tinha ouvido vozes e violões desafinados o suficiente e por fim o clube de arte parecia monótono para mim, fora que estaria fazendo na escola algo que eu poderia simplesmente fazer no conforto do meu quarto.

— Eu agradeço, gente. Mas vou continuar procurando alguma outra coisa pra fazer. — Respondi encerrando a conversa.

Na sexta-feira, voltando para casa com Armin e Alexy decidi que daria um jeito no jardim. “Por que não?”. Estava já em casa e poderia parar na hora que eu quisesse, sem falar que teria um lugarzinho pra passar o tempo depois que tudo estivesse limpo. Mandei uma mensagem no esquecido grupo da casa com Castiel e Hugo, o grupo “CASA DO CLEITINHO”, que aparentemente era o nome que Hugo tinha dado para o suposto fantasma que batia as portas da casa e assustava Dragon.

Katrina: Eu posso mexer no jardim? Tipo uma “reforma”?

Hugo: Olha, se vc não tiver medo de escorpião, pode sim

Castiel: Meus pais não usam o jardim, então acho q ta d boa

Com o “ok” dos dois, assim que cheguei em casa, me despedi dos gêmeos e fui trocar de roupa. Dragon me cumprimentou na entrada e me seguiu até a porta do meu quarto, pedindo atenção. Brinquei um pouco com ele e fui para o jardim. Lembrando do que Hugo tinha dito sobre os escorpiões, voltei para o meu quarto e coloquei um coturno e peguei luvas de jardinagem que havia ganhado da tia Verônica. Comecei levantando coisas onde possivelmente teriam bichos, como alguns paletes que estavam no chão, alguns vasos tombados e o que pareciam ser telhas extras, todas quebradas de algum jeito. Levei todas essas coisas para um canto perto da parede, bloqueando o portão, e comecei a olhar o chão.

Me toquei de que não tinha nada para cortar a grama alta e me senti bem burrinha de não ter pensado nisso. Olhei em volta para ver o que mais poderia fazer sem alguma ferramenta mais específica. Olhei as plantas mortas e secas nos vasos e no chão e comecei a arrancá-las. Algumas saíram com um simples puxão, outras teimaram, com as raízes secas fundas na terra. Uma delas, a pior de todas, não saia nem com os puxões mais fortes e acabei caindo no chão com um pedaço da planta enquanto o resto dela continuava ali, seco, morto e teimoso.

Ouvi a porta da entrada se abrir e os latidos de Dragon. Castiel, ou Hugo, ou os dois, deveriam ter chegado. “É bom que eles estejam aqui pra eu perguntar se tem alguma coisa que eu possa usar pra cavar e tirar a planta ou algo pra cortar a grama”. Uma voz feminina respondeu aos latidos. Fiquei meio incrédula e sem reação. “Será que Ambre e suas minions conseguiram entrar na casa?”. Se elas estavam dispostas assim a entrar na casa deviam estar dispostas para brigar comigo, pelo que Rosalya deu a entender. Levantei do chão, a bunda ainda dolorida da queda. Andei até a porta da cozinha com cuidado, tentando não fazer barulho pra que elas não me vissem. Uma voz masculina que não era nem de Hugo nem de Castiel parecia conversar com a outra pessoa. Agora tinha certeza de que não eram as meninas da escola, mas não conseguia pensar em ninguém que poderia estar ali. “BANDIDOS??”. As pernas ficaram trêmulas, estava sozinha, o celular estava no quarto e a passagem pelo portão que dava para a rua estava bloqueada com os paletes e as telhas. Mover qualquer coisa faria barulho. Voltei a me agachar no chão, implorando a qualquer divindade pra que eles não viessem para o lado de fora. Não tinham porque vir, na verdade. Tudo que valia a pena roubar estava dentro da casa: televisão, computadores, talvez algum dinheiro escondido debaixo do colchão. Estava tensa e pra piorar Dragon não latia mais. Teriam machucado ele? Será que os bandidos eram pessoas conhecidas? Os grupos de conversa da vizinhança de tia Verônica sempre avisavam sobre assaltantes que faziam amizade com a família e os animais por um tempo antes de invadir, às vezes vestidos como prestadores de serviço, às vezes como amigos da família. As vozes pareciam estar indo em direção às escadas, então aproveitei para entrar pela cozinha e peguei a primeira coisa que vi na frente para me defender: uma frigideira grande.

Passos pesados e rápidos vinham em direção ao andar de baixo outra vez, e eu me agachei atrás do balcão da cozinha. Os passos pararam na sala e a pessoa parecia recolher alguma coisa do chão. Me levantei um pouco para ver o que era. Um homem estava de costas para mim, pegando malas do chão. “Meu deus, eles vieram até com malas para roubar coisas”. Antes que eu pudesse reagir, ouvi um grito do corredor. Parada ali, uma mulher olhava para mim. Cai sentada no chão. “Esse é o meu fim”.

Notas finais
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