Priston Tale

10 Capítulo 9


Notas iniciais
Cap longuinho. ;*

Seth POV On.

O crepúsculo se fora dos céus de Navisko, dando espaço para que a noite escura e assombrosa caísse. Quando a penumbra chegasse por completo, assoprando seu hálito mórbido sobre as muralhas daquela cidade, os mortos vivos surgiriam das sombras para perambular sem rumo através da madrugada. Um cenário caótico, e se eu não soubesse que os zumbis não passavam além das bandeiras do SOD, certamente eu roubaria Ariel daquele lugar. Poderia sim, ser uma atitude possessiva, mas e quem ligava? Meu coração agia por mim, e era assim que os Deuses haviam me criado. Por que então eu mudaria?

Permanecia sentado no alto das escadarias que levavam para SOD, aguardando a escuridão profunda cair sobre Navisko. Não tardaria para chegar o momento em que eu, finalmente, levaria Ariel dali. Passei uma das mãos por meus cabelos de um azul muito claro, agora sem o capacete de metal. Pensei no que realmente eu estava fazendo ali, pronto para raptar uma guardiã de seu posto até que o amanhecer chegasse outra vez. Tentei não imaginar a reação negativa que eu viria a receber, mas mesmo se tal acontecesse, não seria em vão. Ela saberia que eu estava ali, esperando-a pacientemente.

Uma mão tocou rapidamente meu ombro, enquanto aquele vulto ligeiro passava ao meu lado em direção à entrada do SOD. Um vulto dourado, muito sagaz. Quando, curiosamente virei o rosto para trás, notei a figura competitiva de uma Atalanta sorridente com sua lança em mão.

- Apreciando a entrada da noite, Seth? — ela brincou sorridente, erguendo as sobrancelhas para me encarar

- Digamos que o anoitecer de Navisko não seja muito belo, Lady. — retornei o tom irônico, dando de ombros

- Hum, tem razão. Então, recebeu o pergaminho do velho? — ela lançou seu olhar profundo para o céu escuro, depois para mim

- Sim. Verkan quer nos contar algumas histórias de terror, afinal. — sorri com o canto de meus lábios, mostrando escárnio

- Vamos ver no que dá. — ela assentiu com aquele seu sorriso cruel — Nos vemos pela manhã. — despediu-se

- Pela manhã. — concordei, assentindo igualmente enquanto ela saltava para dentro do SOD com toda a sua sagacidade

Lady Die era uma boa amiga, um tanto perigosa se confrontada, mas eu era alguém que compreendia aqueles limites. E ao fim daquele breve e sutil pensamento, encarei os céus, notando que repentinamente a escuridão descia sobre meu corpo. Urros e murmúrios daqueles que já não podiam viver, mas também não podiam morrer, chegavam aos meus ouvidos, provocando-me um calafrio. Um doce calafrio que não fora de medo por aqueles que chegavam, mas que fora de ansiedade por aquela que me aguardava, de certa forma. Levantei-me do degrau frio e dirigi-me para o interior de SOD, passando por entre as bandeiras vermelhas e esvoaçantes. Lá dentro, as luzes iluminavam as paredes. O tapete vermelho estava impecável, como sempre. E quando debrucei-me sobre a mureta das compridas escadarias que levavam aos portões, pude ver Ariel. Distraída com os olhos perdidos nas páginas de um livro, ela aguardava o amanhecer monotonamente escorada no portão o qual guardava. Ele só seria aberto novamente quando o sol raiasse, e então eu teria tempo para tirá-la dali. Desci as escadas, lentamente. Não era preciso ter pressa, afinal, Ariel jamais deixava aquele posto. Passei pelo tapete vermelho, como se eu fosse um rei ao encontro de sua rainha. Minha longa capa dançava pelas minhas costas, suavemente no ritmo de meus passos. Finalmente, parei diante de Ariel, encarando-a com uma afável elegância. Haviam poucas pessoas no SOD naquele momento, apenas um grupo de guerreiros que parecia jogar o tempo fora até que o amanhecer chegasse, onde estava Lady Die.

- Ariel. — chamei pelo seu nome, enquanto meus olhos acariciavam aquele corpo

- Os portões só abrem ao amanh... — ela calou-se surpresa quando ergueu os olhos para mim

- Bom, não vim para lutar hoje. — comentei com um sutil sorriso no rosto

- Ahn, entendo. — ela fechou o livro, olhando-me curiosamente

- Seu livro... — murmurei, lançando um olhar indicativo para o livro nas pequenas mãos dela — Está interessante? — perguntei

- Hum, eu já o li, para falar a verdade. — ela admitiu, olhando-me ainda mais curiosa

- Então, permita-me levá-la para um passeio. — propus, estendendo minha mão para ela gentilmente

- Um passeio? — ela ergueu uma das sobrancelhas para mim, instigada com o meu convite

- Desejo levá-la para jantar, ou podemos fazer o que você quiser. É um desperdício que não possa aproveitar uma noite tão bela como esta. — avancei um passo, e minha mão permanecia estendida para Ariel enquanto meu olhar era o mais sincero possível

- Ora, mas nem nos conhecemos. — ela argumentou confusa

- É uma oportunidade para que nos conheçamos, não acha? — sorri muito sutilmente, usando toda minha persuasão

- Não posso deixar o SOD, eu... — gentilmente, a interrompi

- Acho que não precisará estar aqui antes do amanhecer. — lembrei-a, alargando lentamente o sorriso no rosto

- Eu não sei. — murmurou mais para si mesma do que para mim, passando os olhos pelo chão entre nós enquanto pensava

- Ora, Ariel. — insisti graciosamente, intensificando meu olhar invasivo — É apenas uma chance. — minha voz saiu sussurrada

- Hum... — ela suspirou, como se não pudesse negar — Está bem. Mas esteja certo de que voltaremos logo. — disse receosa

- Prometo que não se arrependerá. — afirmei contente e satisfeito, ainda mais quando ela tocou minha mão com a sua

Foi caloroso. Aquele toque fora além de minhas expectativas, além de minha imaginação. A pequena e quente mão de Ariel, sobre a minha tão máscula e protetora. Senti que nada mais poderia me deixar tão feliz quanto eu fiquei naquele momento, recebendo de Ariel a confirmação de que teríamos uma noite juntos, mesmo que a mais tímida das noites. Ao fechar delicadamente minha mão sobre a dela, meu sorriso não pôde ser contido, e meus lábios espicharam-se de uma forma descomunal. Notei vários olhares sobre nós dois, enquanto saíamos juntos pelas escadas do SOD. Lady Die apenas sorriu, cruelmente. Oh, maldosa era aquela Atalanta. Fingi não notar aquele sarcasmo, e apenas me preocupei em conduzir minha doce acompanhante para longe daquele lugar. Quando paramos do lado de fora, entre as bandeiras dançantes com o vento, tirei do bolso um pergaminho. Ariel olhou-me curiosa, e logo enganchou delicadamente o braço no meu, prevendo que iríamos nos teletransportar com aquele pergaminho. Meu sorriso foi majestoso de alegria. Deixei que o Core lentamente caísse no chão, e quando isso aconteceu, raios tênues de luz fizeram nossos corpos sumirem daquele lugar.

Seth POV Off. Ariel POV On.

Eu não entendia por que havia aceitado aquele estranho convite. Mas de uma coisa eu tinha certeza: aquele homem sabia exatamente como usar seu dom de persuasão, como ser graciosamente galanteador. Um pouco cretino, imaginei eu, aproveitando-se de sua beleza máscula. No final, eu fora completamente encantada por aquele sorriso e por aquele par de olhos azuis. Minha mente não sabia o que pensar, e de certa forma me agradava não ter de me preocupar com pensamentos naquele momento.

Entre o curto instante em que saímos de Navisko e que meus olhos piscaram brevemente, percebi que tínhamos sido transportados para Richarten, a cidade do comércio. Imaginei o que faríamos em um lugar como aquele, onde os poucos estabelecimentos que não se dispunham ao comércio eram bares tacanhos e restaurantes medíocres transbordando guerreiros entulhados em suas armaduras metálicas. Se o passeio fosse aquele, eu definitivamente desejaria voltar imediatamente para Navisko, onde a companhia de meu livro agradava-me muito mais. Por enquanto, não havia nada além de beleza e charme no olhar daquele homem que me acompanhava, e eu não seria influenciada por um mero belo rosto. Seth teria de ser muito mais habilidoso se seu real desejo fosse encantar-me e atrair-me. Parecia engraçado o fato de querer fascinar uma das guardiãs, legítimas feiticeiras. O que Seth estava pensando, afinal?

Notei, ruborizada, que meu braço permanecia envolto no dele, e tratei imediatamente de afastar-me consideravelmente de Seth. Não era minha intenção que aquilo parecesse uma insinuação barata. Eu não era apenas mais uma garota iludida por aquela beleza elegante. Ele pareceu notar minha sutil repulsa, e abriu um satisfatório sorriso. Eu sabia exatamente o que ele havia pensando, mesmo não tendo o dom de desvendar pensamentos. \"Ela sentiu-se preocupada por estar próxima demais de mim. Isso quer dizer que ela se sente tímida ao meu lado.\" Retorci meus lábios muito discretamente ao refletir sobre o óbvio pensamento, e movi o rosto para qualquer direção que não fosse a do rosto de Seth. Aquilo não adiantou, pois ele copiosamente passou o braço pelo meu. Oh, como era insistente aquele Knight. Conformada, — e confortável ao sentir o braço dele no meu, mesmo que tudo em mim negasse aquela sensação — eu apenas deixei que ele me guiasse, e em breves passos, estávamos na saída da cidade. Os portões eram iluminados por tochas de fogo, e do outro lado a penumbra suave da floresta chegava aos meus olhos. Tentei não me sobressaltar, mas aquela pergunta não saía de minha mente: onde é que Seth está pensando em me levar?

Passamos pelo grandioso portão de pedra de Richarten, sentindo a gramínea macia tocar nossos tornozelos. O cheiro puro da floresta era encantador, e o sutil escuro afinal não passava de uma sombra suave iluminada pelo luar. Era realmente algo magnífico, e senti que minha alma desejava por mais um pouco daquele frescor. Incrivelmente, Seth havia ganhado inúmeros pontos de minha confiança, embora eu ainda estivesse um tanto relutante quanto aquilo.

Ele caminhou comigo pelo gramado ainda ralo, e na medida que íamos adentrando a floresta, árvores grandiosas sombreavam nossos rostos. Meus ombros nus começaram a perceber a friagem da noite, de modo que não controlei o movimento carente de meu corpo, que esgueirou-se delicadamente para o lado do corpo de Seth. Fingi não perceber o sorriso lascivo que os lábios dele esbanjaram naquele momento. Senti-me uma estúpida por ser o alvo daqueles sorrisos maravilhosos, e antes que meu juízo pudesse cometer alguma precipitação, nós já estávamos onde devíamos estar. Subitamente, Seth subiu mais alguns longos e incontáveis pontos em minha pessoal avaliação.

- Então, que tal lhe parece? — perguntou ele, com sua voz de veludo macio

Eu nada pude responder, estava chocada demais, emocionada demais. Jamais alguém havia me levado para um passeio tão belo, tão surpreendente. Estávamos diante de uma casa, um pouco rústica, mas completamente romântica e delicada. As janelas de madeira estavam abertas, e suas molduras envernizadas estavam cobertas de correntes de flores noturnas, que permaneciam abertas mesmo quando a lua subia no céu. No interior do lugar, podia-se ver a claridade dançante de velas, dourada e afável. Sobre a porta, presa à parede de pedras lapidadas — como era toda constituída a casa — estava uma elegante e discreta placa, cujas letras desenhadas formavam o nome: Corner Candles. Também podia-se interpretar como \"Recanto das Velas\". Um restaurante discreto, mas sutilmente romântico, tão delicado quanto a luz de uma vela que clareia a escuridão da noite naquele início de floresta.

- De onde isso surgiu? — perguntei atônita, enquanto meus olhos brilhavam para a claridade além das delicadas janelas

- Parece que você não sai de Navisko há um bom tempo, não é? — comentou ele, com a voz mais lasciva do mundo

- Hum. — assenti em um murmúrio, ainda pasma com aquela surpresa

- Venha, vamos entrar. — convidou ele, elegantemente, enquanto conduzia-me para a porta do restaurante

Não precisei assentir novamente, pois pareceria um tanto deslumbrada demais. Deixei que, novamente, Seth me conduzisse. O modo como ele envolvia seu braço no meu, ia além do cavalheirismo de um homem, proporcionando-me uma sensação de conforto incrivelmente nostálgica.

Dois jovens homens vestidos com trajes elegantes recepcionaram-nos, com suas posturas formais e educadas. Pareciam garçons, ao que pude notar. Seth lhes sorriu cordialmente, e sem hesitar, um dos rapazes nos guiou até uma bem posta mesa, ao lado de uma das janelas. O outro rapaz puxou a cadeira para que eu sentasse, enquanto Seth sentava-se do outro lado. Uma macia e fina toalha branca cobria a superfície da pequena mesa, e sobre esta estava um novo lance de tecido, desta vez vermelho, que compunha um lindo arranjo de toalhas. Um meigo vaso de flores rosadas decorava nossa mesa, juntamente com todos aqueles utensílios elegantes de uma mesa de jantar que apenas se vê nos filmes de romance. Era espetacularmente belo. Tudo o que eu jamais esperei de Seth, se revelava docemente diante de meus olhos. E para finalizar o clima que surgia entre nós, éramos graciosamente iluminados por castiçais fixos nas paredes, por todos os lados. Incrivelmente, não estava quente ali, e sim muito confortável. Seth observava cautelosamente cada expressão em meu rosto, obviamente constatando a minha fascinação.

- Você preparou tudo isso? — sondei mórbida, incrédula daquela realidade que mais parecia um sonho

- Especialmente para você. — completou ele, abrindo seu gracioso sorriso para mim

- Por quê? — não controlei minha curiosidade

- Porque merecemos esse momento. Não está do seu gosto? — ele fitou-me delicadamente, franzindo sutilmente o cenho

- Não... Não é isso. — confortei-o, veemente de minha resposta — É que, estou surpresa. — comentei em murmúrios

- Eu sei o que você pensava sobre mim. — disse ele convicto e graciosamente irônico — Imaginou que eu fosse apenas um corpo vazio, não é? — ele havia tirado as palavras de meus pensamentos

- Ahn... Não é bem assim. — neguei, nada segura — Apenas não pensei que você fosse tão dedicado. — amenizei

- Então, agora podemos nos conhecer melhor. — afirmou ele, sorrindo também com o olhar

- Acho que sim. — sibilei, internamente trêmula

- Primeiramente, vamos jantar. — propôs Seth, estalando suavemente os dedos ao lado do rosto

Imediatamente, como em uma planejada sincronia, os dois rapazes bem vestidos aproximaram-se de nossa mesa. Cada um deles trazia uma bandeja prateada coberta, evidentemente, nosso jantar. Repousaram as bandejas diante de mim e de Seth, gentilmente, e então retiraram as tampas que cobriam os pratos. Eu nunca havia estado diante de um jantar tão bonito e apetitoso, mesmo não sabendo exatamente do que se tratava, e o que importava é que parecia extremamente bom. Os rapazes se afastaram, e logo um deles voltou com uma garrafa de vinho bem lustrada e reluzente. Pousou-a sobre a mesa e calmamente tirou a rolha desta, servindo uma pequena quantidade do líquido escuro em nossas taças de cristal. Terminado todo aquele espetáculo simétrico para servir o jantar, finalmente eu e Seth ficamos em nosso silêncio agradável.

- Espero que goste. — disse ele, lançando um olhar discreto para o belo jantar em seu prato

- Parece bom. — assenti, pegando meu garfo incrivelmente reluzente e o dirigindo em direção à comida, que eu imaginei ser cara

- Se preferir não beber o vinho, posso providenciar outra bebida. — ele comentou atencioso

- Ah, não é preciso. — eu disse, abrindo meu primeiro sorriso até então

- Seu sorriso é realmente lindo. Estava esperando para poder apreciá-lo. — ele disse com admiração, sorrindo para mim

- Hum. — baixei o rosto brevemente, sentindo meu rosto corar ruborizado — Então, posso fazer uma pergunta? — sondei

- É claro. — ele permitiu, bebendo um pequeno gole do vinho em sua taça

- Por que me convidou para esse jantar? — atrevi-me timidamente, olhando-o apenas de soslaio

- É óbvio. — ele sorriu galanteador — Você é especial para mim. — respondeu ele, invadindo-me com seu olhar penetrante

Calei-me depois daquilo. Era como se ele tivesse dito que estava gostando de mim, ou que sentia atração. Tentei não sentir meu rosto fervendo com o calor que subiu pela minha face instantaneamente. Seth sorriu, e eu corei ainda mais. Suspirei internamente quando ele assentiu graciosamente e disse que era melhor começarmos a jantar, antes que a comida perdesse o sabor. Concordei, desesperadamente, desejando que com o passar daquela noite, ele esquecesse daquela minha pergunta inoportuna. Então, o jantar estava mesmo delicioso, embora eu acabasse terminando a comida sem saber exatamente o que meu paladar havia experimentado. Contudo, fora uma ótima refeição. Bebi alguns goles do vinho, muito cautelosamente, sempre visando meu bom estado de juízo. Seria um caos completo se eu viesse a me descontrolar. Quem abriria meu portão do SOD se eu não chegasse em perfeitas condições em Navisko até o amanhecer? Fingi não pensar que aquela era a última coisa do mundo com que eu me importava no momento.

Com um novo estalar de dedos, os garçons aproximaram-se novamente e retiraram os pratos e talheres do jantar.

- Então, Ariel. Fale-me um pouco sobre você. — ele pediu

- Hum, o que quer saber? — no momento, não encontrei algo realmente útil que pudesse falar

- O que gosta de ler? Notei que estava com um livro quando lhe encontrei em Navisko. — lembrou ele, sorridente e curioso

- Ah, era um livro de poesias. — revelei, lembrando-me daquele passado momento

- Poesias são bonitas. — disse ele, afável — Quais são suas preferidas? — perguntou-me com um olhar delicado

- Ahn... — pensei na resposta, afinal, eram tantas as poesias que me agradavam — Gosto das de Shakespeare. Algumas do Fernando Pessoa também. — falando sobre o que eu conhecia, minha voz parecia mais natural

- Shakespeare... — murmurou pensativo, então mirou seus olhos azuis para os meus — Quando me tratas mau e, desprezado, sinto que o meu valor vês com desdém. Lutando contra mim, fico a teu lado, e, inda perjuro, provo que és um bem. — docemente, ele recitou um trecho de minha preferida poesia de Shakespeare; eu o admirei, pasma

- Conhecendo melhor meus próprios erros, a te apoiar te ponho a par da história, de ocultas faltas, onde estou enfermo. Então, ao me perder, tens toda a glória. Mas lucro também tiro desse ofício, curvando sobre ti amor tamanho, mal que me faço me traz benefício, pois o que ganhas duas vezes ganho. — continuei a recitar a poesia, surpresa e fascinada, não sabendo exatamente o que eu estava fazendo

- Assim é o meu amor e a ti o reporto. — sorriu ele para mim, lascivo e amável — Por ti todas as culpas eu suporto. — finalizou, como se sua boca fosse meus olhos, que liam desesperadamente as páginas daquele livro

- Você... — sibilei, encarando-o atônita — Essa é minha poesia favorita. — revelei um pouco zonza

- É uma linda poesia, sem dúvidas. — sorriu ele, deslizando sua grande mão sobre a mesa até tocar a minha, calorosamente — Fico feliz que tenhamos algo a compartilhar. — sua voz dançou em meus ouvidos

- Você realmente me surpreende. — admiti, sentindo a deliciosa sensação da mão protetora dele sobre a minha, trêmula

- Eu prometi que não se arrependeria, não foi? — lembrou-me com um sorriso letal

- Seth... — foi agradável quando seu nome saiu por entre meus lábios, quase em um sussurro — O que você quer? — sondei confusa

- Você. — revelou sem hesitar, com um timbre que me fez vacilar por completo; imaginei se meu corpo padeceria se eu não estivesse sentada naquela cadeira

E quando dei por mim, ele já havia levantado-se de sua cadeira e esgueirado-se graciosamente sobre a mesa, até que seus lábios estivessem no alcance dos meus, tocando-os em um beijo quente e macio. Precisei de alguns segundos para que minha mente entendesse o que estava acontecendo, e quando isso ocorreu, minhas finas pálpebras caíram sobre meus olhos, fechando-os instintivamente. Esqueci que meu corpo precisava respirar, de modo que quando os lábios de Seth afastaram-se lentamente dos meus, meu pulmão aliviou-se em suspiros profundos. Meu coração ainda palpitava, desejando saltar de meu peito. O que era aquilo? O que estava acontecendo comigo? Seth não precisava mais ser avaliado, afinal, ele acabara de alcançar todos os pontos disponíveis em meu coração. Ele havia ultrapassado a minha barreira.

Permaneci tão inebriada pelo resto daquela noite, que a cena mais lúcida em minha mente foi a de Seth devolvendo-me na entrada do SOD enquanto o sol nascia.