Notas iniciais
Farei notas no final de cada capítulo sobre o mundo fictício para que vocês, leitores, possam se localizar melhor.
Boa leitura!

Há algum tempo, a humanidade havia sido surpreendida por humanos com dons incríveis. Não é qualquer talento, era magia. Não se sabe ao certo de como essas pessoas conseguiram tais poderes, mas o que se sabe era que cada dom era forte a sua maneira.

Alguns eram da Casta Básica como, por exemplo: Super Força, Super Velocidade, Super Inteligência (sim, existe este poder) entre tantos outros dons.

Outros eram da Casta Elemental, por exemplo: Poder de Fogo, Poder de Água, Poder de Vento e Poder de Terra. SEMPRE que alguém tiver este poder só conseguirá controlar apenas um destes elementos.

E temos os APS (All Powers ou Todos Os Poderes) esse talento é o mais raro de todos. A pessoa que possuir este dom poderá controlar talentos de várias outras castas, por exemplo: Poder de Fogo + Super Velocidade, Poder de Vento + Super Força e etc. É surpreendente quando alguém nasce com este dom, porém este tipo talento vem sendo dizimado por Caçadores de Dons.

Os Caçadores de Dons nada mais é que uma união de pessoas que caçam pessoas com talentos raros e únicos, e os roubam-lhe o poder tomando para si. Milhares de jovens, adultos e crianças foram mortos por este tipo de gente. E para o meu azar, eu nasci com dom APS.

***

Fazia muito tempo. Eu aguardei em silêncio. Eu tinha um segredo. Um segredo que eu não poderia contar a ninguém. Eu tenho um talento tão raro e único que se caísse em mãos erradas transformaria o mundo inteiro em uma verdadeira catástrofe. Eles não sabem o que eu sei. Eles não sabem o que é ser diferente.

Ser diferente não é usar roupas extravagantes para chamar atenção. Não é usar óculos e tirar notas boas no final do ano. Isso não é ser diferente. Alguns até acham que ser diferente é legal, mas eu discordo. Porque eu sou diferente.

Há muito tempo, quando eu ainda era um bebê. Uma chuva castigava o norte de Beika. E então... Eu surgi. Eu era uma garotinha de longos cabelos ruivos e com um belo par de olhos totalmente verdes. Eu fui deixada na porta de um orfanato de freiras dentro de uma caixa de sapato (pra variar). Dentro da caixa havia um bilhete escrito:

“Espero que cuidem dela, pois eu não posso. É para o próprio bem dela. O nome dela é Tessa.”

Eu sempre quis saber o nome dos meus verdadeiros pais e como eles eram, mas eu nunca descobri. E nem tive vontade. Afinal, de que adianta conhecer alguém que te abandonou há muito tempo atrás?

Eu vivi até meus dezoitos anos no orfanato e nunca fui adotada. Eu sempre vi colegas de quartos vindo e indo, e eu sempre fiquei. Sempre fui excluída. Sempre, e sempre. Sempre é uma palavra muito forte, eu sei, mas é que ninguém nunca olhou pra mim. Eu não quero me fazer de vítima, longe disso! Até mesmo quando eu era criança as pessoas me ignoravam.

Mas tudo bem.

Toda essa solidão valeu a pena.

Quando eu tinha em torno dos seis a sete anos, eu estava brincando de boneca sozinha em meu quarto. Simplesmente aconteceu. As paredes e a mobília ficaram cobertas de gelo, assim como o restante do quarto. E então eu descobri o meu primeiro dom. O dom do gelo (ou água, entenda como quiser).

Nos dias seguintes coisas sobrenaturais aconteceram comigo, como por exemplo: Eu ter posto fogo no vestido de festa da Senhora Lá Laurie (a supervisora das freiras), ter feito uma flor brotar de um chão (clichê não?) e o mais legal, eu fiz um pequeno tornado no meu quarto (sim, isto é possível).

Depois de uns dias de estudo eu descobri que tinha o talento APS e que era capaz de controlar os quatros elementos. Não me recordo de ter caído em lixo tóxico ou coisa parecida, mas lá estava eu. Toda estranha e com capacidade de controlar os quatros elementos. O que era estranho, pois normalmente quem era APS era Casta Elemental + Casta Básica.

Uma coisa que aprendi rapidamente é mentir. Eu mentia que não me importava com as pessoas, com que elas pensavam de mim, mas no fundo eu sempre me importei. E apesar de ser solitária é a coisa mais horrível do mundo, isso me ajudou a esconder meus poderes. O que é ótimo. Eu não sou adotada nem quando eu era normal, imagina quando descobrirem que eu era anormal.

Quando completei dezoito anos, eu precisei sair do orfanato e arrumar a minha vida. Precisei trabalhar e aprendi que a vida não é nada fácil. Lembro-me que toda vez que eu ia para o meu trabalho eu passava em frente a uma padaria, e toda vez meu estômago roncava implorando por alimento. Eu ainda sinto o cheiro daqueles pãezinhos sendo assados no forno.

Tudo isso foi uma época ruim pra mim, porém agora está tudo bem melhor. Eu consegui comprar uma pequena cabana em um bosque. É bom nos dias de inverno, mas no verão aquele lugar lota de pernilongos.

Eu ainda estudo, mas a maior parte das aulas eu vou embora porque preciso fazer horas extras pra economizar. Fora tudo isso, a minha vida vai bem normal (mesmo eu tendo poderes).

***

Era um dia frio de setembro, quando eu me aventurava pelo bosque. Apesar de estar nevando levemente e ventando muito, eu não sentia muito frio. Aliás, eu conheço muito bem aquele bosque e sendo assim eu estava à procura de uma erva para curar meu cachorro, pois ele tinha se ferido em uma caçada.

O bosque era muito bem iluminado, com várias flores silvestres e árvores majestosamente grandes. As trepadeiras se penduravam desajeitadamente, pois a neve que se acumulava em cima delas fazia-as cair. Onde havia colorido, hoje, estava todo pintado de branco. Como se Deus cuidasse de cada detalhe daquele lugar, tratando as imperfeições com tamanho talento, deixando todo o bosque incrivelmente belo.

Andei até uma clareira onde ficava um lago, que hoje estava congelado. Grandes faixas de luzes do sol desciam do céu e iluminavam o lago, fazendo-o brilhar como milhões de pequenos diamantes.

Foi então que eu o vi.

Um rapaz não muito mais velho que eu, andava tranquilamente pela neve. Seu curto cabelo esbranquiçado caia levemente em seus olhos que eram de um azul vivido. Suas roupas não eram muitos comuns, porque ele usava um moletom azul e um short jeans (o que é incrivelmente estranho, afinal estava nevando hoje). E para piorar sua estranheza, ele levava em suas mãos um cajado de madeira e estava descalço!

Quem fica descalço nesse frio?!

E como eu sou a única pessoa que mora nesse bosque inteiro (o que é uma chatice), era óbvio que eu iria interrogá-lo. Mas antes que eu fizesse qualquer ação, o jovem rapaz fez um grande pilar de gelo com seu cajado, e sentou-se no topo. Observou atentamente em sua volta, e vendo que não corria perigo, relaxou.

Então ele tinha poderes! E eram poderes parecidos como os meus! (Frequentemente eu assistia os noticiários sobre os atos de heroísmo que os Caçadores de Dons faziam ao capturar jovens e adultos talentosos. Forçando-os a ir para uma ilha onde treinariam para se tornar um Caçador de Dom).

Uma onda de alegria percorreu por todo meu corpo. Novamente eu estava rindo. Rindo de alegria por não ser a única diferente por estas bandas.

Andei até ele, gritando:

- Você é igual a mim! Existe outra pessoa como eu!

Assustado, ele olhou pra mim como uma ameaça. Analisou-me por longos três segundos, vendo que eu não era uma ameaça eminente, levantou-se do pilar de gelo e me cumprimentou descendo de lá:

- Olá – respondeu ele, alegremente.

Sorrindo de bochecha a bochecha, disse:

- Você é como eu! Você tem poderes! – rio feito uma criança.

Franzindo sua testa ele respondeu depois de longos minutos:

- Então você viu... Você tem poderes também? – disse ele levantando uma de suas sobrancelhas.

Eu sabia que estava correndo perigo, afinal ele era um estranho. Mas ele era como eu, tinha poderes! Eu não deixaria uma chance de conhecer alguém como eu escapar por entre meus dedos.

- Tenho sim, quer ver? – digo.

Ele sorriu. Seus lábios rosados davam um ar de serenidade naquele rosto jovem.

- Quero – respondeu ele.

Então, com movimento rápidos de minhas mãos, brotaram-se do chão, várias flores de gelo que cresciam rapidamente, brilhando com os feixes do sol, as flores cintilavam majestosamente mostrando sua beleza natural. Em seguida, as fiz voarem com um furacão que logo estava incendiado pelas chamas que eu mesma fizera.

“Fiz uma bela apresentação” pensei, sorrindo comigo mesma.

Admirado, o estranho rapaz apreciou aquele espetáculo por vários segundos até perder o sorriso, e por fim, suspirou.

- Você tem um dom incrível garota – disse ele, com um sorriso.

- Obrigada – respondo corando-me – Agora me mostre o seu dom.

- O.K. – responde ele, sorrindo.

Chegando bem perto de mim, ele pegou minhas mãos e segurou-as firmemente. Sinto a respiração dele em meu rosto, era quente.

- Apenas relaxe – disse ele tão perto, que eu poderia tocá-lo com meus lábios.

Ele fechou minhas mãos e sussurrou em meus ouvidos:

- Assim como o verão, o frio também tem a sua beleza. Mostre-me a beleza de seu coração. Mostre-me a cor de seu coração. Feche os olhos – ordena ele.

Hesito em fechar os olhos, mas logo o faço. Nossos corpos estavam pertos demais. Eu podia sentir seu corpo quente perto do meu. Senti um calafrio repentino, logo seguido por sua voz:

- Abra os olhos – sussurrou ele.

Quando eu abri os olhos, pequenos flocos de neve caíam do céu preguiçosamente. Mas não eram flocos de neve comum. Tinham o formato das flores que eu fiz há pouco tempo atrás.

- Como são lindas – respondi.

- E não é só isso. Assim como você, eu também tenho outro poder. Super Força. – ele levanta o grande pilar de gelo com dois dedos de suas mãos. Encaro-o sorrindo, como ele era forte!

- Então você também é um APS! – rio.

- Sim – ele ri.

Percebendo que estaríamos juntos por algum tempo, eu resolvi me apresentar.

– Meu nome é Tessa – digo timidamente.

Apesar de estarmos correndo sérios riscos. Era bom saber que tinha alguém como eu neste vasto mundo. Ele para de sorrir e começa a me observar com aqueles olhos tão azuis, tão sinceros, como se quisesse passar alguma mensagem de alerta, de proteção...

- Meu nome é Josh. Tessa é um nome muito bonito, mas não é muito comum — disse Josh, sorrindo.

- Tessa significa "O fim do verão" – respondo meio sem jeito.

- Então Tessa, como descobriu que tem poderes? – pergunta ele sentando-se do meu lado.

- Bom, eu soube dos meus poderes já faz há um bom tempo. Quando eu tinha por volta dos seis ou sete anos. Eu morava em um orfanato, sabe. Foi uma época muito difícil, mas já superei – começo a rir sozinha, lembrando-me dos bons momentos que passei com as freiras. – E você? Como descobriu que tem...

Ouço um longo som percorrer em meus ouvidos, fazendo-os arder fortemente. Só então percebi que era uma explosão. Uma grande bomba caiu perto do Josh e de mim. O lago acabou explodindo fazendo toda a água que continha nele se espalhar por todo o bosque.

Josh pega em minha mão e começar a me guiar pelo bosque. Juntos, nós corríamos o mais longe possível do lago. Algo estava muito errado. Eu podia pressentir isso. O que será que estava acontecendo? Eu não podia acreditar que aquele lago de águas tão límpidas, pudesse ter se tornado uma zona de guerra.

- O que está acontecendo? – gritei.

- Temos que sair daqui o mais rápido possível! – gritou Josh.

- Hã? Por quê?! – gritei perto dos ouvidos dele, pois havia fortes sons de tiros atrás de nós.

- Eles estão chegando! – responde ele.

- Eles quem?! – indago surpresa.

- Os Caçadores de Dons!

Notas finais
O mundo é uma grande pangeia (todos os continentes estão interligados, como uma grande ilha), chamada Teos.
No continente de Astenes, há uma pequena vila, em Erina (um pequeno país) chamada Beika.
Beika se situa ao norte. Esta vila solitária - longe da maior cidade que fica ao sul de Erina - é completamente pacata. A economia da região é fortemente ligada a agricultura e na criação de animais. Logo, a sua paisagem é de pequenas fazendas e extensas florestas fechadas.