Prisão de almas
1 Capítulo 1 - A Corleto
Capitulo 1: A Corleto
Parando para pensar, o que estou fazendo? Aqui estou eu, novamente, espiando a madame abrir seu jornal, tomar seu café. Ela desdobra o papel exatamente do mesmo jeito que faz sempre, seus olhos buscando, intuitivamente, os artigos sobre moda. Devorou delicadamente a sua torrada com a mesma geleia de ontem. Olhava para seu marido, discretamente, enquanto enrolava uma mecha de cabelo no dedo indicador, como sempre faz ao ler... Cada movimento, seguindo como uma coreografia, que se repete dia após dia. Talvez para ela, Beatrice, fosse uma boa rotina de se seguir, mas para mim, assistir aquilo era como rever uma peça totalmente isenta de graça pela milésima vez... Reviro os olhos, e giro discretamente a cabeça... Desse novo ângulo, lembro-me que, enquanto eu acho esta uma cena entediante, há mais alguém, sempre presente, assistindo aquilo todos os dias, e o quanto a opinião dele difere da minha...
Dominique mantinha seus olhos fixos nela, cada simples movimento, cada gesto, seus olhos a acompanhavam como quem não queria perder nada… Era estranho, mas ele sempre estava ali, como uma estátua, dia após dia, seguindo-a onde quer que fosse. Ele estava totalmente apaixonado por ela, e já não tentava fazer mais nada, apenas existia em função desta mulher. Vê-la comer, vê-la dormir, andar, tossir respirar. Cada movimento que Beato fazia, Domini se mostrava presente para assistir.
As vezes isso me irritava um pouco... Mesmo que eu fosse o único a passar todos os dias junto dele, Dom simplesmente me odiava, e não faço idéia de como reverter essa situação. Sempre que me aproximo, ele faz uma careta, como quem esta profundamente incomodado com minha presença… Mas mesmo com essa careta, ele era um homem realmente belo, lisos cabelos pretos pendendo na testa, contrastando com a pele clara... Os músculos visíveis por debaixo da camisa social branca lhe davam uma aparência saudável, que combinava com os seus vinte e cinco anos, usando um colete azul acizentado, calça marrom e sapatos pretos.
– Você não se cansa mesmo disso, Dom? – Lhe perguntei, enquanto colocava o resto de meu corpo para dentro do comodo. – Por que não arruma outra coisa para fazer? Apenas passar o dia parado observando-a não lhe ajudará em nada, e você sabe.
– Você de novo? — Ele não estava feliz em me ver, e não era surpresa. — O que quer?
– Já disse. Você deveria procurar outra coisa para fazer.
– “Outra coisa para fazer”? Tem alguma sugestão, Valentim? – Falou enquanto me fitava com seus olhos heterocromáticos, o esquerdo com um tom de castanho tão claro que remetia ao dourado, e o direito em um azul tão forte quantos os meus. – Hm, quem sabe eu poderia fazer um lanche. Ou dormir um pouco, quem sabe devesse ir ao banheiro ou fumar alguns cigarros... Ah, espere, eu não posso fazer nada disso, não é mesmo?
– Dominique... – Aquele jeito, tão irônico, arrogante e hostil era outras das coisas que eu deveria ter que conviver pelos restos dos meus dias. Já havia me acostumado com aquilo, mesmo que ainda machucasse, mas não poderia ter raiva dele, não sabendo de seus motivos. – Dom, nós deveríamos tentar conv...
– Afinal de contas, o que você quer? – Ele me interrompeu com a voz seca, seus olhos me perfurando.. – Já te pedi que me deixasse em paz para fazer o que achasse melhor. Para de tentar se aproximar de mim, será que esta casa não é grande o bastante para que nunca mais tenhamos que nos ver? Apenas suma daqui.
E foi o que fiz. Sem dizer mais nada, sai daquele cômodo e em segundos estava no andar de cima, no quarto dos donos da casa. Não era um bom lugar para “fugir”, eu sei, que após o café, tanto Beatrice quanto seu marido estarão aqui, e Dominique com toda a certeza vira junto deles. Mas aquele quarto, com toda certeza, era o local mais interessantes de toda a mansão, sem contar, é claro, os aposentos dos empregados. Mas nesse quarto, sempre havia uma revista aberta, ou a televisão, que era sempre esquecida no mesmo canal de noticiais, mas que poderia me ajudar com o tédio.
Lembro de como era esse quarto no tempo em que ficou desabitado, sem ninguém para usá-lo, e também lembro como foi quando, de repente, Beatrice voltou para casa com seu novo marido, Camillo, que conheceu em um cruzeiro pelo norte da Europa. Sim, a madame Corleto tinha muito dinheiro, sendo a única a ficar com tudo o que pertencia a família de seu último marido, após sua morte, coisas como longas viagens não eram nada além do comum.
Me movi dali, e logo estava no banheiro da suite. A luz estava apagada, e depois de vagar um pouco e rever aquele ambiente que já conhecia, me virei para a longa pia de mármore, só para ver um grande espelho embaçado por vapor em cima dela. Não consegui ver meu reflexo, mas não importava muito, eu era um tipico rapaz Italiano, com cabelos loiros, olhos azuis, algo bem comum na Europa. Também usava uma blusa branca de manga comprida, uma calça e sapatos simples, minhas roupas habituais.
Voltei ao quarto, e comecei a ler uma revista que foi deixada aberta em um artigo que falava sobre a reprodução dos mosquitos africanos… Aquela com toda certeza não era o tipo de leitura que Beato gostaria de ter, mas era a cara de seu marido. Camillo teve uma curta, porém bem sucedida carreira de biólogo, onde em poucos anos conseguiu o bastante para passar o resto da vida apenas investindo seu capital no mercado de ações. Mas isso não importa muito, não para Bice. Ela simplesmente o sustenta, enquanto ele gasta seu dia na rua, se dedicando a academia, o que lhe rendeu um belo corpo definido… Bem, talvez esse corpo, aliado a olhos castanhos e um lindo cabelo ruivo sejam a chave necessária para se casar com uma jovem, bela, e rica viúva.
Continuo a ler o artigo até que ouço a porta do quarto ser destrancada. Queria entender o que passa pela cabeça desses dois, para que possam esquecer uma televisão ligada, mas serem incapazes de não tranca a porta, sempre usando as duas fechaduras, e usando um trinco que o fecha por dentro, sempre que vão dormir.
– Então ele chega hoje? — O homem ruivo, de cerca de vinte e cinco anos pergunta a sua esposa, que entra no quarto após abrir a porta.
– Sim Camillo… Já conversamos sobre isso amor. — Beatrice sentou-se na cadeira de sua penteadeira dourada, e pegou em uma das gavetas, uma escova, e começou a se pentear. — Entendo que não goste muito disso, mas não posso fazer isso com ele, não é certo.
“Ele”... Não era a primeira vez que ouvia sobre esta pessoa misteriosa. Eles falam dele desde que voltaram do cruzeiro. Não sei bem quem é, eles parecem não gostar de falar disso, tudo o que sei, é que por algum motivo, Beato quer com todas as forças ajudar esta pessoa, o que é engraçado, já que nunca a vi se importando tanto com outras pessoas, como por exemplo, os empregados.
Mas não importando como ela era por dentro, por fora era realmente muito bonita. Seus olhos eram azuis, de um tom tão vivido que lembrava o céu. Era engraçado, contando comigo e Dominique, já eramos três com olhos azuis naquela casa… Apesar de que, Dom tinha apenas um dos olhos com esta cor, então talvez não contasse para a comparação… Bice também tinha um lindo cabelo ruivo, mas estes, tendiam para um tom amarelado, quase loiro, dando lindas mechas douradas a ela.
– Por que não é certo, Bice? Ele já tinha uma casa, não? — Camillo revirava seu guarda roupa enquanto falava, retirou uma camiseta vermelha e continuou. — Por que não o deixou onde estava?
– Quando aquele seu primo gay precisou de uma casa, eu não ajudei? E eu já te falei inúmeras vezes! — A expressão de seu rosto era um misto de irritada, por ter que ter novamente esta discussão, e entediada, talvez pelo mesmo motivo. — Ele tem tanto direito de estar aqui quanto eu, e você sabe…
– O que meu primo tem a ver com isso? Eu só acho estranho você o querer aqui, você é uma Corleto agora, dinheiro é o que não lhe falta! — Nesse momento, Camillo se deu conta de como falava. Falava como um interesseiro, e quanto viu Beatrice o encarando ao falar do dinheiro, logo tentou disfarçar o que disse. — Quer dizer… Poderia coloca-lo em outra casa da família, um pouco menor, ou fazer algo do gênero...
– Ou então eu poderia te mandar para outra casa, e ir junto, que tal? — Ela falou com uma cara zangada, enquanto retirava uma gargantilha da mesma gaveta de onde retirara a escova — Afinal, se temos os mesmos direitos, e ele poderia ir para outra casa, nós também poderíamos, certo?
– Mas por que faríamos isso? — O biólogo soltou um suspiro, como quem já sabia que iria perder a discussão. Pegou seus sapatos e continuou falando. — Não tem sentido dar mais importância a um cara desses do que a si mesma.
– Por que faríamos? Por que seria o certo? Consegue ver como você pode ser hipócrita Camillo? — Ela começou a prender o cabelo em um coque, e continuou a falar — Olha, eu te amo, mas esse seu jeito consegue ser realmente nojento.
– Eu não acredito no que estou ouvindo. — Ele botou sua nova blusa, e agora estava totalmente pronto. — Agora eu sou um monstro por não querer acolher uma pessoa que não tem nada a ver comigo? Pior! Uma pessoa que não tem nada a ver com você?
– Eu não disse que era um monstro, e eu tenho “tudo a ver” com ele Camillo! Eu fui a única que restou para ele, pare de agir tão de forma tão egoísta!
– Quer saber, não me importo, faça o que quiser. — Disse enquanto saia do quarto, e logo já estava na escada que dava para o salão.
– Esteja de volta antes que ele chegue! — Beatrice gritou, já estressada, e foi para seu closet, provavelmente para por um vestido.
Acho que foi possível para mim, ver uma pequena lagrima no rosto de Beato antes de entrar no closet, mas não estou tão interessado nisso ao ponto de entrar e vê-la se trocando, ainda mais por que sei que Dominique estará lá, como sempre, junto dela. Até mesmo no momento da discussão, mesmo sem me deixar o ver, sei que estava lá, pude sentir sua presença.
Sai do quarto, e comecei simplesmente a vagar pela casa. Poderia ter seguido Camillo pelas escadas, ou tentar mesmo ir atrás de Bice, mas sabia que tudo ficaria bem mais tarde, como ficou antes. Não sei exatamente quando começou, mas desde que eles vieram morar nessa casa, brigas assim são recorrentes, mas no final do dia, tudo volta a normalidade. Naquele momento, só uma coisa era realmente importante: Quem é ele? E o que será que ele mudará nessa casa quando chegar?
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