Prisão de Gato
4 East Blue, Shells Town (Marine 153rd)
Notas iniciais

Ao oeste de onde partiram, uma ilha se alvoroçava: se tratava da 153º junta da marinha, localizada numa cidadezinha ao nordeste do East Blue. Recentemente, ocorrera um rebuliço na hierarquia, após o título do antigo comandante ser cassado por abuso de poder. Shells Town estava em festa. Com a troca do cargo, tudo parecia ser colocado nos trilhos, uma vez que toda essa energia e felicidade adquirida pela mudança de ares era usada para resolver o que quer que aparecesse de problema em um piscar de olhos. A prosperidade rondava as ruas. Por mais que o antigo líder do QG, Morgan Mão-de-Machado, estivesse preso e sendo vigiado com atenção dobrada, nada disso era capaz de vencer essa euforia coletiva. Afinal, quem, no cenário mais otimista, poderia imaginar um futuro tão brilhante para aquele fim de mundo? E tudo isso em apenas uma única semana! Era surpreendente, de fato. Mas não mais curioso que o responsável por essa mudança toda: não passava de um pirata qualquer. De repente, o governo tirânico comandado por um oficial de farda e brasão de gaivota caiu pelas mãos do suposto opressor, um rapaz que nem idade para beber parecia ter, mas esboçava um sorriso confiante que conquistou todos que conheceu. O mundo tem dessas às vezes; um humor irônico. É mesmo uma caixinha de surpresas.
Contudo, os piratas que faziam bem eram a minoria. Nas últimas horas chegou a essa base a informação de que um galeão militar fora roubado na península sudeste, à um pouco mais de vinte milhas náuticas dali. E se o roubo de um navio da marinha não fosse alarde o suficiente, o acusado para tal façanha era um homem de execução marcada para aquele dia mesmo, ao meio-dia: um pirata com o pescoço valendo quatro milhões de belly, mas que ninguém parecia se importar muito até então. “Se foi capturado uma vez, será capturado outra”, pensavam: o viam como alguém irrelevante. Além dele, o possível mandante do roubo era um usuário do fruto não identificado, que o libertou da berlinda e derrotou uma porção de soldados sozinho — o número de feridos não foi confirmado, já que alguns deles estavam desacordados bem distante do cais, onde ocorrera a batalha de verdade. Esse sim parecia mais complicado, digno do mínimo de atenção. Porém, nada mudava o fato de que eram somente duas pessoas. Se seguissem em direção à base sem parar durante a noite, chegariam até o amanhecer na cidade, e isso poderia dar algum trabalho... Mas eram só duas pessoas! Quem se importa?
No geral, aquela situação toda não era muito chocante para os superiores porque, de fato, estavam sendo lesados por malditos pirata — e isso não chega a ser uma surpresa para ninguém. Certamente foi um erro ter enviado um bom barco para uma vila portuária de baixa segurança, mas nada podia ser feito quanto à isso. O que se perdeu, se foi para sempre. Como sabiam que os dois não seriam tolos de vir sozinhos até uma ilha militarizada, decidiram deixar o assunto de lado por hora, pois, no momento, haviam causas mais nobres a serem debatidas e principalmente, trabalhadas.
Infelizmente, mesmo que quisessem apenas esquecer esta ocasião e torcer para que os piratas fossem aniquilados por uma onda mais forte antes de retornar com o bando inteiro (quando começassem a ameaçar de verdade), havia algo acima da vontade: o dever. A marinha é sem dúvidas uma instituição burocrática, então de nada adiantava o impacto ser mínimo, tudo devia estar devidamente documentado, assinado e carimbado. Assim mantinham a ordem.
Aos peixes grandes eram destinadas às missões de larga escala e aos pequenos — que ainda parasitam os maiores, em busca de reconhecimento — eram destinadas essas tarefas, sem opção de negativa, uma vez que consideravam como um pequeno degrau. Impressionar um chefe em casos tão pequenos poderia ser um alavanque significativo na carreira militar e Bertruska, uma aspirante a General, ainda que nada familiarizada ao trabalho intelectual, não poderia deixar passar uma oportunidade dessa; fora doutrinada pelos superiores que essa era a forma de crescer. “Como em um formigueiro, cada mísero trabalho é importante para o andamento do quartel”, eles diziam, e por isso, mesmo descontente era obrigada a acreditar que preencher toda aquela papelada estúpida servia de alguma coisa para parar os criminosos.
Se afundar nos livros e papéis não era nada divertido; tudo lhe parecia inútil não importava da maneira que olhasse. Quanto mais tempo ficava sentada, procurando entre os cartazes de recompensas e arquivos dos bandos que o condenado fez parte antes de ser entregue para a marinha, mais parecia que as palavras se embaralhavam e deixavam de fazer sentido. Não havia sequer uma informação recente dele, esteve em diversos barcos durante os últimos anos, mas a meses estava desaparecido e desconectado do último que participou. Mesmo sua captura era envolta de mistérios: apareceu no quartel de repente, desfalecido e arrastado pelas correntes por alguns marinheiros. Segundo as notícias, foi achado sem querer, estirado na encosta de um penhasco beira-mar — talvez a punição por quebrar alguma regra pirata qualquer, não tem como saber. Estava muito ferido, porém vivo. Foi acudido como gente e logo foi trazido acorrentado como animal selvagem. No caminho de ser entregue, desmaiou por inanição e, quando acordou, não disse uma palavra sobre suas filiações. A partir de então, houve somente um ou outro relatório dentro da prisão, ditando uma conduta tranquila, sem desaforos ou relutâncias, com exceção das perguntas que ele nunca respondeu. Nunca entregou ninguém ou falou sobre o porquê de estar caído no dia que fora capturado. Como esperado, também não deu nenhuma pista sobre um usuário humanoide da Fruta do Diabo com habilidade de dar força àqueles que já não tem mais nada (porque, no relato do incidente, constava que ele parecia derrotado em um segundo, e noutro “se levantou com a berlinda na carcunda sem mais nem menos”, portanto era suposto que o cúmplice tivesse uma habilidade dessas). A marinha não tinha nem um nome e nem um rosto para procurar: estavam atrás de um completo fantasma, que possivelmente não estava envolvido com nenhum dos bandos já conhecidos do homem.
Mas, se fosse o caso, então por que confiar algo tão delicado a baixa patente? Não era simples de se resolver, tampouco algo trivial. Estavam lidando com piratas desconhecidos, isto é, que poderiam ter qualquer habilidade imaginável e inimaginável, ainda por cima dentro de um navio poderosíssimo, carregado de armamentos, roupas e documentação especial. Se souberem usar que seja um canhão de guerra, o estrago poderia ser irreversível. E cairia nas costas de quem? “Homens fardados atacando inocentes”; “A Marinha está contra o povo”. Qualquer estrago “mínimo” não era mínimo o bastante para tanto descaso. Já que ninguém o faria, tomou o caso para si: descobriria sobre os suspeitos e acabaria com eles antes mesmo que desse tempo para receber um “não” dos seus superiores. Era seu dever não deixar que isso saísse do perímetro vigiado para chegar no quintal do governo mundial.
≈≈≈
Não parou de ler sobre os criminosos conhecidos de East Blue até ver a lua pela janela. Como esperado, não recebeu nenhuma pergunta sobre a situação da pesquisa durante esse tempo, mesmo que a notícia do galeão tenha chegado no início da tarde (apenas um pouco depois do roubo) e isso fosse tempo suficiente para outros terem reunido mais informações relevantes. Isso, é claro, se estivessem interessado naquilo tudo (e não estavam). Até veio um coitado — outro dos subordinados, que servia como o degrau mais baixo ou capacho dos superiores — ao entardecer, lhe perguntar sobre como resolver o problema dos restos da estátua gigante espalhados pelo mar e praia, mas como isso não servia de nada para o que estava procurando, decidiu que era melhor apenas ignorá-lo (não era alguém que valia seus preciosos neurônios e só provava que era a única a se importar). Com o fim dos expediente, havia reunido o total de zero novas informações. A investigação fora um completo fracasso. Frustrada consigo mesma e com a ineficiência da organização governamental em si, decidiu vestir-se com uma “capa de coragem” e exigir aos superiores que pudesse ir atrás dos piratas, pensando que era o correto a ser feito; não era de seu feitio deixar um serviço que se sujeitou a fazer pela metade.
Avançou destemida pelos corredores, no rosto carregava a confiança infundida pelas horas de leitura (de certa forma uma conquista para alguém de seu porte: era uma guerreira, não uma estudiosa). Sabia que teria os argumentos necessários para convencer quem quer que estivesse em sua frente, pois estava certa de que havia um engano com a forma leviana de lidar com aquilo tudo. Além disso, sempre teve a firmeza na voz de quem tem total conhecimento do que fala, e isso já era meio caminho andado para a vitória — não aceitaria um “não” nem que viesse de um Almirante e estava pronta para provar seus pontos na força, caso fosse necessário. Os arredores da base estavam silenciosos, talvez fosse o horário, mas não deixava de estranhar tamanho silêncio. Geralmente os corredores eram quietos, entretanto ao fundo os burburinhos atrás de portas sempre se destacavam, dando vida àquelas paredes de concreto frias. Todavia, nada disso poderia ser ouvido agora. As janelas de vidro estavam fechadas, as portas abertas e de luzes apagadas, como se nenhuma alma viva tivesse passado por ali nas últimas horas — era estranho vê-las abertas, de qualquer forma. Bertruska decidiu entrar na sala de seu comandante, esperando encontrá-lo dormindo de exaustão em sua mesa (a semana estava sendo longa para ele, que acabara de assumir o posto temporário de chefe), no entanto, mesmo lá não havia ninguém. Isso sim era estranho. Teriam, por acaso, deixado tudo para trás para festejar, numa hora dessas? Supôs, por mais que não quisesse estar certa dada a irresponsabilidade de tal ato. Abriu as cortinas da janela principal e, bingo! A cidade estava lotada.
De cima do prédio, podia ver as ruas estavam movimentadas tanto por pessoas normais quanto por homens uniformizados. “Devem estar festejando pela conclusão da limpeza, ou qualquer merda do tipo”, pensou alto, suspirando pesadamente ao fim. Enquanto a cidade e seus superiores estavam em festa, ela trabalhava sem parar. Um completo absurdo. Mas ao menos isso tinha uma única vantagem: com todos fora do seu caminho, poderia investigar os lugares que não normalmente teria acesso, como os arquivos confidenciais da sala de seu superior. Foi-se então, devagarzinho e o mais cautelosa que conseguia ser (não era muito boa nisso), olhando primeiro por cima da escrivaninha e prateleiras: estava tudo organizado, papéis empilhados, tinteiro fechado e carimbos no lugar. Por cima, não havia nada que não tivesse acesso antes — mesmo porque boa parte daqueles documentos tiveram que passar por sua mesa uma hora, bem como na mão de todos os outros escravos-recrutas. Tentou as gavetas, e o máximo que encontrou foi uma lista da frota de navios, indicando aqueles que estavam aportados e os que saíram em missão recentemente. Parecia útil, mas não o suficiente. Nesse documento, porém, uma única informação lhe chamou atenção: o navio de número nove estava riscado com um “X”. Só poderia ser o barco roubado. Tentando confirmar a tese, sentou-se na cadeira e passou a procurar por mais informações sobre aquela navegação em especial. Seu histórico de viagens apontava uma há cerca de duas semanas, em direção à Loguetown, com o retorno para as docas exatamente uma semana depois. Ancorou por cinco dias e voltou ao mar ontem, às seis da tarde, levando para execução Flint Ludwig, ou mais conhecido como “O ABUTRE”. Era exatamente o que estava procurando.
Depois dessa confirmação, bastou seguir em direção à estante dos comunicadores, trancada apenas por uma fechadura simples. Sabia que não deveria, mas decidiu arrombar assim mesmo. Os caracóis eram numerados por barco, e agora bastava ligar para comunicar sua ida. “Por que ninguém fez isso antes?”, indagou a si mesma com indignação; não era possível tanto relaxamento. Mas, infelizmente, estava errada em achar que seria tão fácil entrar em contato com seus inimigos. Não havia linha: os piratas arrebentaram o outro lado. Soltou um gemido de frustração, contar com a tolice de um inimigo a tornava a mais tola entre todos nessa relação unilateral. Estava em outro beco sem saída.
≈≈≈
Chegar ao fundo do poço da pesquisa e se desesperar por não ver saída dali abriu seus olhos para outra coisa: o motivo de estar na marinha em primeiro lugar. Por que estava se esforçando tanto para aquilo? Nunca foi sobre o galeão, era uma questão de objetivo maior. Precisava resolver aquele caso para crescer na carreira e ter acesso às informações que sempre quis: as informações que favoreciam o seu caso, que falavam sobre o bando que ela procurava. Cega por querer mostrar serviço, nem percebeu que tudo estava ali, a sua frente. Haviam milhares de relatórios sobre os piratas mais diversos que estiveram em East Blue em algum momento: uma mina de ouro que não estava sabendo aproveitar. De fato os anos de serviço exaustivo poderiam ter adiado seu verdadeiro objetivo, — várias vezes era obrigada a resolver picuinhas e limpar as sujeiras de superiores, servindo apenas para o trabalho que ninguém quer fazer — mas estava diante da oportunidade perfeita de largar os problemas alheios e pensar em si mesma uma única vez, cortando aquele tedioso caminho inteiro para ir direto ao ato final. Pouco importava os resultados a partir dali, ser sucedida na carreira não era tão importante quanto ser sucedida em sua vingança. Se ser demitida era o preço para encontrar os piratas que lhe fizeram mal na infância, que assim fosse. Tomada pelo ódio, tornou a bisbilhotar, mas agora com outro objetivo.
Eram arquivos diversificados, a maioria tratando-se de casos recentes sobre bandos recém formados, pequenos e com pouca influência, mas que deveriam ser cortados do mapa com urgência. Já a minoria, extremamente sigilosos e com o rascunho do que seria um conteúdo demasiadamente preocupante no futuro, era intitulado como as Supernovas — a nova geração de piratas problemáticos —, e isso pouco lhe dizia sobre seu alvo. Precisava ir mais a fundo, ali não havia nenhuma informação promissora; todas recentes demais para lhe dizer algo sobre seus demônios. Imersa em pensamentos, passou-lhe despercebido o pequenos ruído das portas e igualmente o ressoar das botas no chão, somente a tosse forçada — e regada de cinismo — fora capaz de a tirar a mulher de seus pensamentos.
— O que pensa estar fazendo aqui, garotinha? — esse tom sarcástico e cheio de prepotência fez o sangue de Bertruska ferver. — Deveria lhe denunciar para os superiores? Afinal, a senhorita não deveria estar aqui. Como você é má.
— Estou indo embora, peço que não conte ao superiores, Tenente-Coronel Verming, estava procurando apenas o necessário ao meu caso, já estou indo embora. — Fez uma pequena reverência, ignorando a irritação afinal ainda era uma subordinada. Não poderia atacá-lo, isso comprometeria sua posição atual. Resignada, abandonou o que tinha em mãos no local que se encontrava anteriormente e fez uma pequena continência, esperava que isso fosse o suficiente para poder ir embora sem maiores problemas. Contudo, antes que pudesse cruzar a porta um par de mãos envolveu sua cintura, mão feias e calejadas, pertencentes àquele homem podre.
— Aonde pensa que vai? Não lhe dei permissão para abandonar a sala. Saiba que me sentirei culpado se eu apenas a deixar ir embora… Compreende o que eu digo, minha senhorita? — e afastou as madeixas, afim de sentir melhor o cheiro de seu pescoço. O corpo da mulher se contraiu. Com uma sorriso ladino, o tenente a puxou para mais perto, colando ambos os corpos e sussurrando em seu ouvido. — Deve me dar algo em troca para que a liberte, pode fazer isso por mim?
Aquilo não poderia estar acontecendo, a mulher mal poderia piscar, estava embasbacada com a situação. Entretanto, antes que pudesse responder a altura, uma das mãos do homem (até então a pressionando com força para que não fugisse) aliviou o aperto, subindo lentamente até um de seus seios, deixando uma carícia no local. Fora a gota d'água.
Sempre houveram negativas quanto ao seu temperamento e certamente alguns indivíduos iriam culpá-la por seu jeito de ser, ignorando todo o serviço prestado à marinha. Se guardasse para si, ou se gritasse agora, de pouco importava: seria independentemente tratada como uma mulher que não soube o momento de se subordinar e escondida embaixo do tapete junto de tantos outros problemas que viu sendo colocados de lado por mera preguiça de lidar. Todavia, em consideração ao seus maiores preceitos, Bertruska jamais aceitaria olhar para trás e pensar no que deveria ter feito, pois sua virtude é o dia de hoje e nada mais. Com isso em mente, em um único movimento virou seu corpo, para assim finalmente encarar face a face o homem que ousou lhe encostar. Não havia nada demais, era mais feio que a maioria dos outros e somente o hálito poderia lhe fazer golfar. Olhou-o nos olhos e sorriu, sentindo a tensão corporal do inimigo diminuir, finalmente sentiu o aperto relaxar e pode mexer seus braços com facilidade, empurrou-lhe a face num único movimento rápido. A adrenalina passou por todo o seu corpo. Os poucos segundos em que passou naquele abraço poderia ocasionar náuseas severas, mas em compensação sentir os ossos das falanges diretamente atingindo o osso do maxilar daquele homem sórdido eram como estar no paraíso; e vê-lo grudado na parede, atordoado e sem saber o que havia o atingido, a fez feliz como nada tinha feito antes. Pela primeira vez, verdadeiramente se sentiu poderosa.
Na mesma velocidade que o derrubou, foi correndo para trás da mesa do supervisor, pegando a cadeira nas mãos e voltando bem a tempo do seu inimigo se estabilizar e partir para cima dela. Certeira como os treinamentos a ensinaram, deu com o apoio das costas diretamente na têmpora esquerda do homem, o derrubando sobre a estante dos caracóis completamente desacordado. Foi um barulho ensurdecedor. Aproximou-se, observando o corte pulsante que se abrira na testa, já começando a escorrer um sangue podre sem pressa. Ele, o tenente, parecia um animal atropelado por um cavalo: a cara esmagada, mas dormindo com uma expressão inocente, sem perceber que havia feito algo errado (atravessar a rua sem olhar, ou passar a mão na mulher errada). Lhe dava nojo o bastante para querer acabar com a vida daquele homem ali, porém, queria que ele seguisse vivo sabendo que nunca, nunca, iria vencê-la. Iria embora dali, e ele jamais a “teria” novamente, nem que fosse por um breve momento. Acima disso, se por acaso tornasse a vê-la, seria sua maior inimiga, e não conteria esforços para matá-lo dessa vez.
Com a lua no céu e o homem inconsciente ao seu lado, Bertruska agarrou todos os papéis da mesa e gavetas: tinha que sumir da base antes que descobrissem seu estrago, mas não podia deixar seu tesouro para trás. O fato de estar sozinha lhe serviu como uma luva para essa operação. Andou pelos corredores sem medo de ser pega, levando os arquivos até sua mochila (na sala onde trabalhava normalmente). Depois de tudo enfiado, o próximo passo era se livrar do imundo caído na sala do chefe e as evidências que estiveram lá, supondo que isso lhe daria tempo para ao menos sair sem fazer alarde quando amanhecesse — comunicaria sua saída ao chefe assim que ele retornasse da festa, sem dar tempo dele pensar em checar os arquivos ou a falta de um de seus auxiliares (na verdade não daria nem tempo dele curar sua ressaca).
Arrastou seu agressor por aí como um saco de lixo pesado, não se importando nem em estancar o sangramento da testa (não era tão fundo assim, um soldado da marinha tinha a obrigação de sobreviver aquilo). Decidiu que o melhor lugar para se livrar “daquilo” era a sala da caldeira, já que era barulhenta e conseguiria facilmente os abafar gemidos de dor e tentativas de se soltar, caso ele acordasse. Desceu a base com o corpo na carcunda, sem muita dificuldade pelo peso, mas com nojo de encostar — teria que adiar sua ida para ao menos se limpar antes de ir. Na sala, amarrou-o com os cadarços de seus próprios coturnos e o amordaçou com o lenço do uniforme, quebrando a fechadura da sala antes de partir para dificultar ainda mais o acesso. Quando terminou, já passava da meia-noite: precisava correr com a sala pois já podia ouvir alguns bêbados retornando aos dormitórios.
A limpeza da cena do crime foi mais simples do que pensava, substituiu um ou outro papel com os que tinha na sua própria mesa (por mais que não fossem iguais) e limpou o sangue da cadeira com o seu lenço de pescoço, eliminando-o dentro da própria bolsa em seguida. Seu “toque final” foi ajeitar a fechadura que arrombara antes, de maneira porca, é claro, mas o suficiente para não ser notada como quebrada de cara. Isso tudo pronto, retornou a sala dos funcionários para roubar mais algumas informações enquanto os outros inocentemente ou dormiam, ou festejavam. Isso tudo pronto, restava reivindicar seu transporte, o que comprara com o dinheiro acumulado de anos de trabalho justamente para quando estivesse indo atrás de sua vingança (porque não pensava em ir como marinheira para começo de conversa: era sua vingança. Iria com o próprio barco), a fim de prepará-lo para a partida. Foi às docas com a lua já quase completando sua passagem no céu; devia passar das quatro da manhã. No último posto, lá estava seu belíssimo drácar, pintado de preto com suor e lágrimas e com uma única vela costurada a mão por ela mesma. Era seu amado filho. Tinha vinte e cinco metros de comprimento, baixo como nenhum outro navio e com uma cabine minúscula instalada sob medida na popa (seis por cinco, de casco a casco). A proa estava levemente danificada pelo tempo (não tinha dinheiro para comprar um barco novo), mas o dragão amedrontador ainda fazia seu papel e mantinha o barco na água, como o monstro dos mares. Embarcou sem pedir licença a criatura, abrindo o convés para guardar suas tralhas. A tal da cabine era pequena, mas seria o suficiente por enquanto. Havia dentro apenas uma mesa de jantar de duas cadeiras, uma cozinha pequena (fogão, pia, despensa e geladeira) e um sofá que lhe serviria de cama, tudo no mesmo cômodo. O banheiro era uma latrina e não havia onde banhar-se. “Definitivamente depois de matar quem precisava, teria de voltar para terra firme e comprar uma casa decente”, pensou, levantando a âncora e remando para fora do porto privado da marinha. Na praia, ancorou mais uma vez, assistindo o sol nascer com uma calma que não coexistia com alguém que havia acabado de espancar um homem. Estava aproveitando cada segundo do início de sua vida.
≈≈≈
Sol alto no céu e de banho tomado, partiu para seu último objetivo: comunicar sua saída ao comandante temporário da base militar. Os corredores pareciam tão mortos como na noite anterior, com a exceção de que agora tinham sim pessoas circulando, mas de cabeças baixas pelo cansaço da farra. Ninguém parecia notar algo de diferente por ali, o que era bom para ela, já que queria sentir o gosto de comunicar sua saída para o superior — não bastava ir embora, queria avisar que voltaria um dia para acabar com cada um deles. Homens a cumprimentavam com os olhos inchados e sorrisos amarelos, provavelmente lamentando por não terem a visto bêbada na noite anterior. Ela sorria de volta, mas internamente odiava todos. Uma vez na sala, deu uma batida singela, esperando a autorização para adentrar.
— Pode entrar. — o comandante avisou detrás da porta, ela obedeceu. — Kalahan. — completou com uma assentida na cabeça, uma saudação à moça. — Precisa de alguma coisa?
Bertruska deu um sorrisinho torto, pensando que não podia justificar exatamente o motivo de estar ali. Adoraria justificar sua saída com o abuso de poder do tenente, contudo tinha total noção de que não seria levada à sério se o fizesse. Restou dizer apenas que estava saindo, sem mais nem menos. O comandante volta a falar:
— Sair da marinha? — riu irônico. Os olhos vermelhos pela noite mal dormida. — Parece cheia de atitude. Finalmente se frustrou por estar presa num posto que é menos do que merece? — a última palavra veio ácida, devia ter ouvido desistentes pelo mesmo motivo por vezes demais para conseguir aguentar mais um marinheiro prepotente.
No entanto, para ela isso não soou como um funcionário cansado do trabalho repetitivo, e sim como uma evidente afronta. Sua feição fechou imediatamente e mesmo o comandante pode notar. Mal teve tempo de se desculpar, pois pode sentir o nariz fraturando no momento que um soco o atingiu em cheio. Só deu tempo de pensar que... aquela mulher era um imenso problema. Com a barulheira da sala, uma porção de marinheiros veio ver do que se tratava, mas em vez de serem recebidos com os sorrisos falsos que Bertruska costumava dar, foram arremessados por golpes de puro ódio sem nem poderem reagir. Quebrou-se janelas, portas e alguns ossos de inocentes. De repente, às nove da manhã de um dia pacífico se tornaram num campo de guerra que acordou toda a cidadezinha. Na saída do QG, um punhado de curiosos já observavam o que acontecia: uma mulher de cenho franzido e olhos âmbar saindo de pulsos fechados, pronta para atacar quem estivesse à sua frente. Seu caminho se abriu sem muita dificuldade (tamanho era o medo dos telespectadores) e marchou ao porto aos olhos de alguns curiosos que se atreviam a ir mais perto. Dentre esses, destacava-se um repórter de caracol em mãos, que insistia em tentar tirar uma foto sua para o furo jornalístico: “Ex-marinheira destrói 153º junta sozinha e aterroriza moradores”, “Ingrata caçoa do governo foge com o rabo entre as pernas depois de quebrar QG”. A manchete não importava, obviamente não permitiria tamanho insulto e dava seu jeito de tampar seu rosto enquanto o homem se jogava em sua frente para tentar fotografá-la. Ao ver sua feição escurecendo cada vez mais, os outros tiveram o bom senso de desistir de acompanhá-la, principalmente por perceberem a mudança de rota do porto convencional para um píer abandonado, onde tinha completa vantagem contra um tal homem de costas, que nem podia imaginar o que o esperava.
Click! Veio a foto perfeita. Em seguida, um splash inevitável que o silenciou para sempre.
Foi chutado na água com o equipamento em mãos e afundou. Bertruska então retornou para o caminho que faria antes daquele desagrado, em direção ao seu querido barco. No entanto, quando se aproximou, uma visão grandiosa lhe chamou bem mais atenção que o pequeno (considerado pequeno ao lado daquilo) drácar aportado: um galeão da marinha, parado casualmente ao lado do Monstro dos Mares ao mesmo tempo que dois sujeitos se espinoteavam e se debatiam em desespero, segurando o cabelo de uma menininha loira vestida de marinheira que vomitava ao mar. Não levou um segundo para reconhecer o homem do cartaz e o imenso “09” pintado no casco do galeão.
No fim, o caso quis se resolver sozinho.
Fale com o autor