Priorities
7 Bela Adormecida - capítulo 6
Notas iniciais
O cheiro de cachorro quente estava a enjoando, e por mais que quisesse deitar e dormir, não conseguiria, tamanhos eram os gritos dos pais, torcendo por seus filhos. Alex era animado, e já fizera vários gols. Castle voltou com uma garrafa d’água para ela e um refrigerante para ele.
– Qual você acha que é? – ele perguntou, engolindo o refrigerante.
– O quê? – ela perguntou, olhando para ele, enquanto entregava sua garrafa para ele, esperando que ele abrisse.
– O sexo. – ele disse – O sexo do bebê.
Ela deu de ombros. Sinceramente, não se importava muito. Contanto que o bebê nascesse bem, e não precisasse de tantas vacinas quanto os bebês que ficaram com Alex pelas semanas que ela descansou no hospital, ela estaria bem.
– Não sei, Castle. – ela respondeu, pegando a garrafa, já aberta, das mãos do esposo.
– Você não quer uma menina? – ele perguntou, com a expressão meio confusa.
– O que quer dizer com isso? – foi a vez dela de perguntar.
– Nada! – ele se aprontou em dizer – É só que, quando você engravidou pela primeira vez, eu torci para ser um menino, porque eu já tinha Alexis, então, sim, eu queria um menino. Agora, que nós já temos Alex, imaginei que quisesse uma menina.
Ela fingiu pensar. Mas, acabou pensando mesmo. Na verdade, o ponto de vista dele estava corretíssimo. Afinal, já que os dois já tinham um menino, sim, ela queria uma menina. Kate assentiu, voltando a bebericar sua água. O menino correu até os pais, ofegante e suado.
– O jogo acabou! – ele riu – Eu fiz cinco gols!
Rick riu, assentindo e pegando o menino no colo. Uma vez ao chão, ele acariciou a barriga dela, falando com o irmãozinho que ele iria ensiná-lo a jogar futebol para que fizessem parte do mesmo time.
Depois, Kate se pôs de pé, acariciando os cabelos do menino. Pondo-se a caminhar, Alex se meteu no meio dos pais, segurando as mãos.
°°
Quando ela desceu do carro, viu a figura paterna sentada nos degraus da escadinha. O menino passou correndo por ela, pulando nele e rindo.
– Vovô! – o menino exclamou.
– Hey, little boy! – Jim riu, levantando-se com o menino no colo.
O coração dela apertou, culpando a si mesma por não conseguir fazer aquilo. Rick andou até o sogro, dando-lhe um abraço. Alex desceu do colo do avô e correu até a mãe, puxando-a pelas mãos.
– Come on, mommy. Grandpa’s here! – o menino exclamou, soltando as mãos dela quando se aproximaram da casa.
Richard percebeu o desconforto da esposa, e puxou o menino para dentro, alegando que precisava de um banho para tirar o suor do corpo. Sem mais forças, o menino concordou, dando tchauzinho para o avô e para a mãe.
– Agora, Katie, eu... – ele começou.
– Sei que pode parecer ruim, e, de primeira vista, indesejado. Também nos sentimos assim, mas... O que podemos fazer agora, certo? – ela murmurou – Essa criança já está crescendo aqui – passou a mão pelo ventre –, e mesmo que nós não quiséssemos, já aceitamos.
Ele sorriu para a filha, passando as mãos nas costas dela, puxando-a para um abraço. Por alguns segundos, eles cambalearam juntos, arrancando risadas, mas logo conseguiram manter-se parados. As lágrimas já caíam dos olhos do homem, molhando o rosto, bem como a regata que a filha usava.
Afastando-se dele, ela o olhou com compaixão. O rosto completamente imerso às lágrimas e os olhos caídos, vermelhos e inchados.
– Papai, eu... – ela começou, sendo interrompida pelos burburinhos dentro de casa.
– Sabe o quê, Katie? – ele perguntou, limpando as lágrimas – Eu e sua mãe sempre imaginamos uma vida cheia de prazeres para você, nós três juntos.
Ela sentiu os olhos marejando com tamanha afirmação. A saudade que sentia de sua mãe, a nula possibilidade de seus filhos terem a avó materna. Ela assentiu, mordendo o lábio inferior.
– Não esperava que ela fosse tirada de nós, mas... – ele sorriu – Dois netos... É impressionante. Você cresceu, construiu sua família...
Ela assentiu, abraçando-o novamente. Jim voltou a soluçar, molhando o rosto e a blusa dela novamente. Mas, desta vez, ela não se afastou.
– We won’t let you out of this family, dad. – ela murmurou, beijando a bochecha do pai. — Vamos lá, vamos colocar suas malas lá dentro.
– Não! Eu... – ele começou – Eu já arranjei um lugar para ficar, e... Não sei se seria uma boa, com o novo bebê, e...
– Oh, ok... Bem, posso pedir ao Castle para levar as malas com você, porque... – ela começou.
– Sim, será ótimo! – ele sorriu.
°°
As xícaras fumegantes estavam nas mãos do escritor. O mesmo com seu sogro, enquanto a de sua esposa descansava na mesinha ao lado do sofá. Alex estava adormecido no colo da mãe, que acariciava seus cabelos levemente.
– Bem, então... – começou Jim — ... Acho que já vou indo...
Kate levantou os olhos para ele, encontrando palavras para fazê-lo ficar. Mas, antes que pudesse, Rick pediu para conversarem à sós. Jim assentiu, saindo da casa com o genro. Ela balançou o filho levemente, e, quando ele acordou, ela fez menção às escadas, mais profundamente, para o quarto do filho. O menino assentiu, levantando-se do sofá e coçando os olhinhos enquanto pegava uma das mãos da mãe. Subiram juntos, e, na porta do quarto, Alex murmurou, tão baixo que quase não pôde ser escutado:
– Quando meu irmãozinho nascer, você e o papai vão se esquecer de mim? – perguntou ele, com a voz manhosa.
Kate sorriu, fazendo o esforço necessário para dizer que não. Pegou o menino no colo, beijando suas bochechas, mas a repreensão do menino foi o que a fez rir.
– Mamãe! – ele exclamou – Você não pode fazer isso! Vai machucar meu irmãozinho.
– Ok, little boy... – ela riu, pondo-o no chão.
Ele correu para o quarto, enfiando-se debaixo das cobertas e fechando os olhos de imediato. Kate mordeu os lábios enquanto se agachava e pegava um coelhinho azul, pondo-o nos braços do filho, já quase adormecido. Ela não se incomodou quando ele pôs o coelhinho ao lado dele, sem abraçá-lo e virou de bruços. Sorrindo, ela apagou as luzes do quarto, o que fez as luzes noturnas serem acionadas. Depois, fechou a porta, descendo as escadas e dirigindo-se à sala de estar, onde o pai e o esposo conversavam civilizadamente.
– Alex não quis uma historinha para dormir hoje. – ela afirmou, apoiando seu peso na bancada da cozinha, coçando os olhos.
Castle aproximou-se, beijando-a nos lábios levemente, enquanto Jim ajeitava sua camisa. O pigarreio dele tirou a filha dos devaneios em que se encontrava.
– Oh, papai, desculpe. – ela murmurou – É que... Com essa nova perspectiva de vida... Eu só estou andando meio... Estressada.
– E cansada, eu imagino. – Jim sorriu, aproximando-se do casal. – Bem, obrigado com as malas, Richard. E, até, querida. – ele beijou a bochecha da filha, apertando a mão do genro.
°°
Depois que Jim saiu, Castle resolveu cozinhar algo para comerem. Kate deitou no sofá para descansar depois do dia cheio que tivera. Não se espantava de o filho ter dormido tão cedo, e ela também estava cansada. Talvez por conta do dia corrido, talvez por conta da gravidez, ela não sabia dizer.
Porém, quando ele se aproximou dela, com o prato e a comida fumegante no acrílico branco, ela estava adormecida no sofá, completamente espremida e encolhida ali. Havia uma almofada entre o tronco e as pernas, que ela abraçava junto ao tronco.
Ele não conseguiria acordá-la dum sono tão profundo para que comesse, porque, ele sabia, ela não dormia assim há tanto tempo, que seria considerado um dos piores erros do ano. O filho já havia dormido há tempos, ele imaginou, assim como ela.
Voltou a deixar o prato na bancada, cobrindo-o com plástico. Colocou-o numa das prateleiras da geladeira. Agora, aproximando-se da esposa, conseguiu fazer com que ela soltasse as pernas, pegando-a no colo em seguida. Ela murmurou palavras como “me deixe em paz” ou “só quero dormir”, e ele sorriu com tais palavras. Ele sabia que ela precisava dormir, agora por dois, mas simplesmente não conseguia. Ele pensou que, no dia seguinte, sem que ela soubesse, marcaria uma consulta num obstetra, deixando Alex aos cuidados do avô, afinal, não era crime algum deixar o neto sob os cuidados de alguém que seria considerado o pai da criança, só que duas vezes mais. Ou, pelo menos, não que ele soubesse.
Subindo as escadas lentamente, com medo de tropeçar em seus próprios pés e cair com ela, arriscando alguma fratura nele, nela, ou em seu futuro filho, ele demorou mais que o normal para subir, já que, usualmente, os braços dela caíam ao longo do corpo, ou seja, naquele estado, para baixo, e ele tinha que parar, apoiar-se nos corrimões e levantá-los.
Assim que chegaram à porta do quarto, o que não foi uma trajetória fácil ou rápida, ele teve cuidado ao abrir a porta, girando a maçaneta, com medo de que o barulho da porta a acordasse. Adentrando-o, ele fechou a porta com os pés e com as costas, andando lentamente até a cama, até que conseguisse deitá-la. Uma vez nos lençóis, ela se virou repetidas vezes na cama, respirando fundo múltiplas vezes.
Sorrindo quando descobriu a posição perfeita, ela respirou fundo mais uma vez, voltando à expressão normal de alguém adormecido. Ele retirou a camisa, fazendo o mesmo com as calças, depois, deitando-se ao lado dela, cobrindo seus corpos com a manta felpuda lilás que ela pusera naquela mesma noite.
Abraçando-a por trás, ele descansou sua cabeça no vão entre o ombro e o pescoço dela, suspirando. Ela se virou, encostando sua cabeça no peito dele. Enfim, dormiram juntos, sincronizando sua respiração, abraçados, como se a coisa mais maravilhosa de suas vidas houvesse acontecido.
E, quem sabe tenha. Porque, agora, teriam mais um bebê, sem mais problemas, sem mais confusão. Outro membro de sua nova família. Ou, pelo menos, era isso o que eles esperavam.
°°
Eles dormiram por mais de três horas, o que era um recorde para ela, e Castle só foi acordar quando o filho o balançou, pedindo comida. Ele sorriu para o menino, que era quase uma réplica sua, levantando-se e pondo o robe. Desceu as escadas de mãos dadas com o filho, deixando-o sentado na bancada – o que Kate não aprovava – enquanto mexia nos utensílios.
– O que quer comer, buddy? – ele perguntou, bagunçando ainda mais os cabelos do menino.
Quando o menino não respondeu, ele fez uma expressão confusa. Abriu a geladeira e pegou a garrafa de leite, derramando-a numa leiteira, misturando-o com achocolatado, e pondo em fogo baixo. O menino continuou olhando para o pai, com os olhinhos para baixo, sem o brilho que tinha há alguns dias.
– O que houve, Alex? – ele voltou a perguntar ao menino – E não adianta dizer que é fome ou sono, porque eu sei que não é isso. – ele voltou a falar – É por causa do seu irmãozinho? Você está com ciúmes?
O menino derramou lágrimas, fazendo beiço. Ele sentiu vontade de abraçar o filho, tamanho era seu coração quebrado. Nunca imaginou que precisasse fazer aquilo, porque quando disse a Alexis que Kate tinha engravidado, ela não reclamou ou ficou com ciúmes. Talvez pela idade avançada quando o irmão nasceu. Quando perguntou a causa do ciúme, o menino disse que eles iriam esquecer-se dele, que iriam dar mais atenção ao novo filho do que davam a ele.
Rick não conseguiu fazer mais nada, senão abraçá-lo, derramando lágrimas com ele. Como ele poderia pensar uma coisa assim? Negou com a cabeça, beijando o topo da cabeça do filho, beijando cada uma de suas bochechas e acariciando-as depois.
O cheiro de achocolatado preencheu a cozinha, o que fez Rick largar o filho, derramando o conteúdo da leiteira no copinho, colocando a tampinha de bico azul depois. Entregando-a ao filho, ele pediu que esperasse um pouco até colocá-lo na boca, pois estava quente e podia queimar a língua.
O menino apenas assentiu, pedindo colo novamente. Ele não teve como negar, subindo com o filho no colo, chegando ao quarto em – muito – menos tempo do que levara para levar a esposa, que ainda dormia num sono profundo. E ele agradeceu por isso. Adentrando o quarto do menino, Castle deixou o menino na cama, sugando o líquido marrom com afinco.
Acariciando os cabelos dele, Castle pensava em como sua vida mudara em pouco mais de sete anos. Ele a conhecera, ficaram anos trabalhando juntos, até que, um dia, ao sentirem-se pressionados, acabaram com a linha que os separava. Depois de quase morrerem várias e várias vezes, finalmente conseguiram render-se ao sentimento que sentiam um pelo outro.
– Daddy? – o menino chamou, estendendo-lhe o copo.
– Vou deixar você dormir sem escovar os dentes, mas só hoje. – ele sorriu, pegando o copo das mãos do menino e levantando-se para ir embora.
– Daddy? – o menino chamou novamente.
Virando-se para o filho, Castle sorriu, mexendo o copinho em movimentos circulares em suas mãos, livrando-se do estresse. O menino deu tchauzinho, respirando fundo.
– I love you, daddy. – ele disse, antes de se virar e adormecer rapidamente.
Segurando o copinho, Castle sorriu para o menino, que já não correspondia ao ambiente externo, dormindo como um bebê recém-nascido. Ele deixou o copo na mesinha do corredor, caminhando até seu quarto, olhando no relógio pendurado na parede. Amanhecia, e ele não conseguiria dormir, de qualquer jeito.
Pegou o livro do plano de saúde, procurando números de obstetras, mas não sabia se algum deles era confiável o suficiente para cuidar de sua esposa grávida. Deixou o quarto a passos leves, descendo as escadas novamente. Discou o número do sogro, ansioso a cada toque.
Quando atendeu, Castle foi bastante rápido, perguntando-o se ele ainda tinha o número da obstetra que cuidara de Johanna durante a gravidez de Kate, e ele mandou o número por mensagem de texto, dizendo que devia ter cuidado com as palavras que usava com a moça, pois ela cuidara de Kate durante toda a adolescência, e continuaria, se ela não tivesse sido tão teimosa e mudado de cidade. A curiosidade falou mais alto, e ele perguntou onde a mulher morava, e Jim deu uma longa gargalhada. A resposta foi curta, e, antes mesmo que Rick pudesse mostrar alguma surpresa, ele desligou. Ela costumava viver em Los Angeles, mas, depois que a família se mudara para os Hamptons, ela vivia lá.
Hamptons.
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Já de banho tomado e vestido, ele novamente ligou para o sogro, afirmando que a consulta com a médica estava de pé, e logo logo Kate seria acordada, por mais que doesse nele. Jim ofereceu-se para cuidar de Alex, o que foi recebido com afirmações contentíssimas.
Subindo novamente, ele beijou os lábios da esposa, que abriu os olhos lentamente, sorrindo para ele. Ele sorriu de volta, beijando-a novamente, acariciando seus cabelos. Separando seus rostos novamente, ele suspirou. Ela olhou-o confusa, e ele sussurrou:
– Wake up, sleeping beauty. – ela sorriu – Marquei uma consulta num obstetra para você. Temos uma hora e meia.
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