Princesas e Vilãs
1 Capítulo 1 - Uma Princesa no Navio
Os mares de Auradon eram calmos e serenos. A brisa suave balançava os cabelos rosa pastel. A princesa fechou os olhos, aproveitando o cheiro da maresia enquanto debruçava-se no cesto de gávea. Sorriu com a luz do sol aquecendo seu rosto e riu para si mesma, dando-se permissão a aproveitar os instantes de paz.
A princesa nunca pensou que seus breves respiros de paz seriam num navio pirata. Com certeza sempre se imaginou em seu castelo, o palácio da Lua de Mel, com os pais. Ouvindo-os cantar sobre sonhos de amor enquanto colhia rosas, passarinhos cantando, margaridas e gérbereas cor-de-rosa coroando sua cabeça.
Mas, não. Como sempre a vida tinha outros planos.
Suspirou, batendo o indicador repetidamente contra o lábio inferior. Mesmo sem querer, deixou seus pensamentos voltarem ao passado, para quando sua vida era perfeita. Tinha duas melhores amigas que a seguiriam para onde fosse, um namorado maravilhoso que sempre deixava bilhetinhos fofos em seu armário, tinha boas notas e era a capitã das líderes de torcida.
Ah, e seus pais se orgulhavam dela.
Quando sua vida mudou tanto?
Mordeu os lábios, receosa. Não devia mais alimentar tal rancor, mas era impossível não se voltar para isso repetidamente. Sabia em que momento tudo tinha mudado. Quando seu belo príncipe e melhor amigo de infância, subiu na mesa do refeitório no meio do café-da-manhã de uma segunda-feira para anunciar sua primeira proclamação como futuro rei. Para anunciar que traria crianças da Ilha dos Perdidos para Auradon.
Era irônico, pensou, era irônico que tivesse sido tão veementemente contra a co-existência com os filhos de vilões e agora, seus únicos momentos de tranqüilidade fosse entre estes.
Não que todos fossem agradáveis, é claro, pensou revirando os olhos ao avistar o azul turquesa do cabelo da capitã. A senhora do navio acabara de entrar no deque e Audrey sabia que ela não gostaria nada de vê-la ali.
A princesa suspirou e afastou os cabelos dos ombros antes de descer pela escada de corda.
— Ainda aqui? – Uma arqueou a sobrancelha vendo a filha da Bela Adormecida pular no convés. Audrey não se deu o trabalho de responder, sabia que a capitã não estava realmente falando com ela. — Harry, eu não disse que não queria essa garota no meu navio?
O imediato encolheu os ombros, girando seu gancho na mão.
— Bom, precisamos de alguém para ficar de olho em tudo, Uma, agora que o Gil está sempre andando por aí com o Jay... E a princesa tem muito tempo livre.
Audrey comprimiu os lábios para não rir da acidez com que Harry tecera seu comentário. Conhecia o pirata a tempo suficiente para saber reconhecer uma brincadeira amigável. Nem acreditava que realmente haviam ficado amigos.
Era meio deprimente, entretanto, pensou, que ela que uma vez havia sido a mais popular da escola, a mais popular das princesas, agora só tivesse por amigos Chad Encantado e Harry Gancho. Mas, o que podia fazer se eles eram bons amigos afinal de contas?
— Pois encontre alguém apropriado pra preencher a vaga. – Uma rolou os olhos. — Alguém que não seja apenas uma menininha brincando de vilã. – ela olhou para Audrey de cima a baixo antes de dar as costas.
— Não estou brincando de ser vilã. E também não sou uma menininha. – alfinetou antes que pudesse se impedir.
A filha da Úrsula se virou novamente, olhando-a com as sobrancelhas arqueadas, os olhos escuros carregados de tudo que seu silêncio não disse, esperando silenciosa para o que a jovem auradoniana faria ou diria.
Audrey engoliu em seco e, como a boa princesa que foi criada para ser, preferiu recuar e apelar para diplomacia. — Quero dizer, não sou criança e posso preencher a vaga na tripulação sem problema nenhum e cumprir qualquer tarefa que a capitã deseje sem dificuldade alguma.
Os olhos de Uma passaram pelo rosto da princesa antes de desviarem-se maliciosamente para o convés imundo, um sorriso cruel brincando no canto de seus lábios cheios.
— Certo, vamos testar suas habilidades então... – Audrey engoliu em seco conforme o sorriso de Uma crescia ao falar. — Limpe o navio. Inteiro. Da proa até a ré, da gávea ao porão.
— Como é? – a voz da princesa estremeceu, sem ter certeza havia ouvido direito.
Uma cruzou os braços e apoiou o queixo numa das mãos, piscando inocentemente, ainda com o sorriso que trazia a crueldade de uma jovem vilã que passou a maior parte da vida trancada numa Ilha de lixo.
— Sempre ouvi dizer que princesas são ótimas na faxina. – explicou, fazendo beicinho. — Vamos ver se é verdade, alteza. A menos, é claro... Que não seja apta para estar em meu navio? – piscou ao terminar a frase, numa inocência falsa e provocação comedida.
Audrey respirou fundo. — Farei como desejar, capitã.
Uma afastou as tranças dos ombros. — É bom mesmo. – e novamente, deu as costas.
A princesa respirou aliviada quando a bruxa do mar entrou em seus aposentos, a libertando de seu olhar austero de crueldade. Harry se aproximou sorrindo.
— Bom, você não morreu afogada.
— E nem fui enforcada por um tentáculo.
Deram risada um momento.
— Nem sei por onde começar. – Audrey admitiu, sem graça. — Suponho que de cima, né?
— Pode ser bom. – ele concordou. — Mas, é uma tarefa meio impossível. Sem contarmos a capitã, somos em seis. Limpar um navio com vários piratas adolescentes não muito higiênicos... Não me parece a mais fácil das tarefas.
— Eu dou meu jeito. – forçou um sorriso olhando em volta enquanto tentava decidir como começaria.
— Por que quer tanto ser aceita aqui? – perguntou, curioso. — Não tem tipo, SPAs ou faculdades ou coisas mais interessantes para vocês princesas fazerem?
Audrey umedeceu os lábios, sem ter certeza de como responder. Por fim, encolheu os ombros, sem graça.
— Não sou exatamente a figura mais bem-vinda no SPA das Fadas no momento. – explicou. — Além do mais, eu me sinto em paz aqui. Ao menos quando a Uma não está. – murmurou a última parte, ciente que dada a lealdade exagerada que Harry nutria por sua capitã, ele se irritaria em demasia.
— Compreendo.
Silêncio.
Uma pena de gaivota caiu no convés diante os olhos de Audrey. A princesa suspirou se agachando para guardar a pena na bolsinha transversal que usava por cima do casaco rosa de couro.
— Bom... – levantou-se novamente, batendo as mãos. — Mãos a obra.
***
A princesa Audrey cantarolava enquanto terminava de limpar atrás dos barris posicionados na alheta do navio, quando reparou no objeto verde água caído ali.
Ciente de haver diversas pessoas no convés, achou a discrição apropriada ao agachar-se, esfregando o chão distraidamente com um pano enquanto sua atenção focava no estranho livro.
A capa enrugada indicava que havia sido vitima da água por diversas vezes ou ao menos em abundância. Apesar disso não parecia estragado, bem, não totalmente estragado. Olhou em volta, coração disparado embora não entendesse porque estava tratando daquilo como se estivesse fazendo algo errado. Confirmou que ninguém estava prestando atenção então pegou o encadernado.
Pedaços de fita adesiva grudavam capa e contracapa. Conchas coloridas coladas, assim como pedacinhos de rede, enfeitavam o livro. O fato de que não fechava direito a fez supor que deveriam haver mais conchas grudadas nas paginas. Uma caveira rabiscada com caneta branca pouco acima de letras tortas "Para jovens vilões."
Abriu o livro, curiosa. Tecnicamente, pensou desgostosa, era uma jovem vilã agora, então não havia mal algum em bisbilhotar o conteúdo do achado.
"Pra quem quer que encontre isso: Aqui está tudo que precisa saber sobre a Ilha dos Perdidos. Esse é seu guia para sobreviver, comandar e escapar desse lugar miserável. Tudo o que eu aprendi está nessas páginas: dicas e truques e coisas que mais ninguém irá te contar. Porque se você tem que estar na Ilha dos Perdidos, você tem que fazer a Ilha dos Perdidos trabalhar para você enquanto puder. Oh, e mais uma coisa: boa sorte. – Uma."*
Audrey piscou surpresa e mordeu o canto dos lábios por um momento, os dedos passeando pela página envelhecida cheia de desenhos de ondas e de chapéus piratas.
Conteve uma risada. Um guia de sobrevivência pra qualquer um que pudesse achar? Duvidava que Uma fosse assim tão caridosa. Provavelmente, pensou, deveria ser alguma pegadinha para os menos informados. Um livro cheio de falsos truques para iludir as pobres crianças da Ilha e pegarem-nas nas mais diversas armadilhas.
Ainda assim... Passou a mão pela assinatura de Uma. Ainda assim, era difícil de conter a curiosidade sobre o conteúdo de tantas páginas. Olhou em volta novamente, garantindo outra vez de que não estava sendo observada e, tal qual fez com a pena de gaivota, guardou o livro em sua bolsa.
Então, como se nada tivesse acontecido, voltou ao trabalho, cantarolando animadamente em harmonia com o canto do mar.
Fale com o autor