Enquanto subia para o seu quarto, Agatha refletia sobre o quão estranho seu dia havia sido até ali. Primeiro Jade veio querendo dar uma de boa moça e se aproximar dela. Depois haviam entrado no meio do mato para ir atrás de um cara que nem conheciam. Agatha socou a própria cabeça ao perceber a burrice do que havia feito. Se aparecer um louco e te pedir para segui-lo no meio do mato, corra sua inútil. E por ultimo... Aquela menção ao seu pai.

Desde pequena Agatha queria saber o que havia acontecido com seu pai e porque ele havia largado ela e sua mãe. Aprendeu a nunca perguntar sobre ele, mas agora sabia que tinha que pelo menos tentar saber alguma coisa sobre ele. Se o pai é o completo inútil que sua mãe pintava, então como ele poderia saber do que a filha sofria? Como ele podia mandar um homem tão estranho como aquele para conversar com ela em seu lugar? E, por Deus, o que a imbecil da Jade tem a ver com o meu pai? Eram perguntas demais para a sua cabeça aguentar.

Entrou em seu quarto e trancou a porta. Enquanto voltava da floresta, Agatha tinha refletido sobre tudo, usando sua maior habilidade: pensar. Havia concordado rápido demais com o estranho, mas o fato dele saber daquelas coisas mexeu com ela. No caminho de volta ela, tendo pensado muito sobre o assunto, decidiu que não voltaria a floresta. Não era um ato inteligente. Jade e ela haviam se safado daquela vez, mas ainda não conheciam o homem. Ele podia muito bem ser um assassino, estuprador ou maníaco.

Agatha colocou a mão no bolso de seu moletom e tirou dali uma faca grande e afiada. Colocou-a na mesinha de cabeceira. Na floresta ela esteve atenta a cada movimento do homem e estava disposta a espeta-lo se ele tentasse alguma coisa. Mas mesmo assim estava contando só com o elemento surpresa. Se o homem percebesse suas intenções, estaria ferrada. Uma garota de treze anos nada poderia fazer contra aquele cara mesmo se ele estivesse amarrado. Algo nele... Algo que exalava dele, fazia Agatha tremer e se sentir menor e mais fraca do que já era.

Sentou-se na cama e colocou a cabeça entre as mãos. Sabia que seria loucura voltar lá. Mas pode ser a única chance que eu vou ter de saber do meu pai. Sentiu sua visão ficar embaçada e percebeu que estava com os olhos cheios de lágrimas que relutavam em cair. Enxugou-as com raiva. Detestava não saber o que fazer. Agatha só tinha duas opções: ou ela voltava lá e perguntava sobre o paradeiro de seu pai ou simplesmente desistia dessa loucura e deixava sua única chance ir embora.

Levantou a cabeça e olhou para a faca na mesinha de cabeceira. Indefesa, é? Pois sim.

Quando Agatha desceu para o jantar já estavam todos a mesa. Entrou na copa sem falar com ninguém se sentou na cadeira vaga ao lado de Caio na ponta da mesa.

— Agatha, onde você esteve? Te procurei o dia inteiro.

Enquanto se servia das bandejas que eram colocadas em sua frente, Agatha respondeu.

— Eu só fui dar uma volta, mãe. Estou bem, para infelicidade de alguns. – Olhou para Eduardo do outro lado da mesa.

Eduardo ficou levemente avermelhado.

— Controle essa menina, Esther. Controle-a! A cada dia que passa ela fica pior. Parece que os castigos não fazem mais efeito.

— Eu sempre achei que nunca fizeram. – Falou Caio, de boca cheia.

— Ninguém liga para o que você acha, Caio.

Agatha não prestava atenção na conversa deles. Começou a comer ponderando sobre o dia seguinte. Algo a fez erguer os olhos. Seus olhos encontraram os de Jade e por um momento Agatha se pegou imaginando se a prima poderia ler seus pensamentos. Sabia que aquilo era idiotice, mas desviou o olhar mesmo assim.

Sara e Arnaldo falavam alegremente sobre o passeio de balsa que haviam planejado para Ilha Bela. Todos pareciam empolgados, menos Jade. Agatha olhou de relance para a prima e viu que ela só brincava com a comida, com o queixo apoiado em uma mão. Ela acha isso tão inútil quanto eu acho.

— O passeio vai ser ótimo! Vai ser uma ótima oportunidade para Jade e Agatha se aproximarem. – Arnaldo falava com muita convicção de si – Vai ser ótimo, com certeza.

— Eles dão algum tipo de desconto especial para famílias completas? Se derem, tenho certeza que vamos ter que pagar o valor inteiro, mãe.

Esther se virou para Agatha, surpresa.

— Do que esta falando, garota?

— O que vamos dizer para eles quando perguntarem onde esta o meu pai? Fingimos que Tio Eduardo é meu pai? Falamos que ele morreu ou contamos que ele é um imprestável que nos largou?

Todos na mesa pararam de comer e olhavam de Agatha para sua mãe.

— Já falamos sobre isso Agatha...

— Não! Nós nunca falamos sobre isso! – Agatha decidiu aproveitar que estavam todos ali e assim sua mãe teria que pelo menos fingir ser gentil – Você sempre me manda calar a boca e não fazer perguntas, mas eu estou cansada. Estou cansada de não saber onde ele esta. Cansada de ter que correr para o banheiro da escola toda sexta antes do Dia dos Pais para não ter que fazer aqueles desenhos e cartões.

— Agatha... – Caio colocou a mão no ombro da sobrinha.

— Não, tio. Já chega! Chega de matar aula na segunda depois dos Dias dos Pais para não ter que ouvir o relato alegre dos outros alunos sobre como se divertiram no domingo. Chega de ter que responder às perguntas deles sobre o motivo de eu não ter pai. Chega de ser chamada de bastarda, filha de chocadeira e outras coisas do tipo. Eu não aguento mais isso, ta bom? Chega!

Agatha respirou fundo. Esperou a explosão de raiva, mas ninguém falou nada. Eduardo olhava para Esther que o encarava de volta. Caio olhava para seu prato. A única pessoa que a olhava era sua avó.

— Agatha, você ainda é muito jovem.

— Sou muito jovem para ter respostas, mas não sou jovem demais para ser saco de bancada? Vocês são uns inúteis.

Empurrou a cadeira para trás e deixou a copa, tremendo de raiva.

Saiu da mansão correndo e se sentou no pequeno muro do chafariz, de frente para as portas de entrada. As luzes lá de dentro estavam acesas, mas Agatha sentia uma estranha escuridão em volta de si. Sabia que não devia ter falado daquele jeito na frente de todas, mas foi a única chance de se fazer ouvir sem ser interrompida pela mãe ou pelo tio mais velho. Esperava que não tivesse feito outra burrice.

Depois de alguns minutos a porta da frente da mansão se abriu e uma figura pequena saiu de dentro da casa. Jade veio andando em sua direção. Agatha começou a pensar em coisas cruéis para dizer e fazê-la ir embora, mas desistiu. Estava cansada de brigar com tudo e com todos. Porém quando Jade se aproximou, não falou nada somente se sentou ao lado da prima.

Ficaram em silencio durante um tempo que pareceu uma eternidade, ate que, finalmente, Jade deslizou a mão pelas pedras do muro e pousou-a em cima da mão de Agatha.

A garota se assustou e olhou para a prima, sem entender. Mas Jade não estava olhando para ela. Estava olhando para o céu estrelado em cima de suas cabeças com uma expressão sonhadora. Agatha olhou para suas mãos. Uma parte dela queria puxar a mão e empurrar Jade, mas mesmo assim não conseguiu fazer isso. Virou a palma da mão para cima e entrelaçou seus dedos com o da prima, depois desviou o olhar e também olhou para o céu.

Depois de vários anos, ao pensar naquela cena, Agatha não sabia dizer quanto tempo as duas haviam ficado ali em silencio, olhando o céu. Mas a sensação que sentiu naquela noite ela nunca esqueceu.

Depois de um tempo Jade quebrou o silencio.

— Quer falar sobre isso? Eu sei que pode ser difícil, mas às vezes falar ajuda.

— Não tem nada para falar. Eu não sei quem ele é e ponto final.

— Você vai voltar lá? – Jade parecia escolher as palavras com cuidado – Não sei se é uma boa ideia, mas se você for eu vou com você. Entramos naquela floresta juntas.

— Eu não sei se vou. É muita burrice voltar lá com aquele desconhecido de novo... Mas é a única chance de eu saber pelo menos quem meu pai é.

Agatha não falou nada, mas também estava disposta a saber o que Jade tinha a ver com aquilo.

— Se você for eu vou, já disse. Acho que se ele quisesse fazer alguma coisa com a gente, teria feito. Além do mais, você estava preparada.

Agatha olhou para Jade surpresa. A prima sorria.

— Como você?...

— Ta brincando não é? Você não tirava a mão do bolso.

Dizendo isso, ela se levantou sorrindo e subiu as escadas de volta para a mansão. Agatha ainda ficou um tempo sentada no chafariz, sentindo o respingo da água gelada em suas costas e pensando no que fazer no dia seguinte. Não pode evitar sorrir ao lembrar-se das palavras de Jade Você não tirava a mão do bolso... Ela é mais esperta do que aparenta.

Olhou na direção do celeiro, agora devidamente protegido com fechaduras que Agatha não poderia abrir a menos que alguém, Deus nos livre, a deixasse ver onde as chaves estavam. Não pode evitar sorrir de novo. Talvez ela tivesse se precipitado ao julgar Jade antes de conhecê-la, talvez ela devesse dar uma chance. Quem sabe poderiam virar amigas?