Princesa Sparta: A Herdeira de Cronos - 1 Temporad
4 A chegada - Agatha
É só isso... Não tem mais jeito... Acabou, boa sorte. Era assim que Agatha se sentia estando no carro com sua família indo para Santos. Eduardo dirigia e ao seu lado ia Caio cantando desafinadamente a musica sertaneja que tocava no rádio do carro. Esther estava em uma janela, Heloisa no meio e a pobre Agatha ia espremida contra a outra janela.
Pelo menos olhar a paisagem a distraia enquanto ela pensava no tormento eterno que seria seus dias passados em Santos. Pelo menos lá tem praia. Não era grande coisa, mas já servia de consolo. Quando o sapato apertasse era só pegar seu skate e tchau, vazar para a praia. O pequeno gol prata de sua mãe atravessava agora a Marginal e seguia as placas na direção do litoral.
— MEU CORAÇÃO APAIXONADO, ATORMENTADO EM DORES!
— Cale a boca, Caio! Não consigo prestar atenção na estrada com você cantando desse jeito.
— Relaxe um pouco, Eduardo. Você é muito sério e isso vai acabar prejudicando-o um dia. Deve ser por isso que você não arranja uma namorada.
Eduardo apertou o volante com força, ficando vermelho. Caio, percebendo a raiva do irmão, continuou.
— Além do mais, cantar é bom. Alimenta a alma. Eu gosto de cantar.
— Então primeiro aprenda, tio.
Agatha já estava com a cabeça doendo de ouvir os gritos desafinados do tio mais novo.
— Se o senhor quiser eu posso ensina-lo qualquer dia desses.
— Oh, me desculpe senhora Ganhei O Primeiro Lugar No Show De Talentos da Escola.
— Sim, desde a primeira série.
Dizendo isso, voltou a olhar pela janela e Caio não voltou a cantar. Agora cantarolava de boca fechada, mas já era um progresso.
Agatha não gostava de jogar na cara das pessoas suas qualidades, mas às vezes elas simplesmente pediam por isso. Para falar a verdade ela nem ao menos gostava de cantar, só participou do Show de Talentos de sua escola para ganhar pontos extras (dos quais ela não precisava já que fechou com dez em todas as matérias) e sair de férias mais cedo que o normal. Ela também havia feito isso pelos aplausos. Não gostava de admitir, mas adorava ser o centro das atenções.
Agora sua mãe e sua avó estavam discutindo sobre o tempo que passaria em Santos.
— Mas mamãe, um mês é muito tempo. Agatha tem que voltar a escola.
— Agatha já esta mais avançada que todos na sala dela, pode muito bem faltar alguns dias. Vamos ficar um mês.
O coração da garota deu um pulo.
— Opa, opa. Calma ai. A senhora disse um mês? Um mês inteiro?
— Sim querida, por que não? Tenho certeza que você e Jade se darão super bem. Estou até levando alguns jogos de tabuleiro para vocês jogarem.
— Posso jogar na cabeça dela?
— Agatha!
— Ai vó, na boa. O que leva a senhora a acreditar que eu vá me dar bem com uma menina que eu nunca vi na minha vida?
Sua mãe e sua avó tiveram uma troca de olhares silenciosa, mas não disseram nada.
— E quanto tempo vai levar para a gente chegar naquela droga de lugar?
— No máximo uma hora – era Eduardo quem falava – São Paulo e Santos são praticamente vizinhos.
— Espero que a gente pegue o maior transito da historia e que caia um meteoro em cima da casa deles.
Esther tentou agarrar os cabelos de Agatha, mas sua avó estava no meio e não deixou a mãe machuca-la.
— Olhe como fala, sua ingrata.
— Tem razão, nada de meteoros... Um tsunami já iria bastar.
— AGORA CHEGA! Você vai calar a boca e não vai dar mais nem um piu até nós chegarmos. E quando chegarmos você vai descer do carro, cumprimentar todo mundo com educação e pelo menos fingir que você é civilizada.
A garota jogou a cabeça pra trás e fechou os olhos.
Permaneceu de olhos fechados até quase meia hora. Quando tornou a abri-los, já haviam chegado ao pedágio e de um lado e do outro da pista havia um gramado extenso e verde com alguns outdoors ou guaritas de policia rodoviárias. Então Agatha percebeu que no meio dos outdoors havia um homem com corpo de cavalo conversando com um policial.
Agatha deu um pulo.
— Vocês viram aquilo?
— Aquilo o que? – Perguntou Caio.
— Aquele centauro!
— O que é um centauro?
— São metade homem e metade ca...
— Calada – Eduardo interrompeu-a – Essas coisas não existem. O máximo que você pode ter visto é um homem montando um cavalo ou um cachorro bem grande.
— Mas...
— CALADA. Pare com isso. Essas coisas não existem! Esther, quando voltarmos para São Paulo, trate de achar um psicólogo para sua filha.
Agatha ficou quieta e voltou a se recostar no banco. Depois de alguns minutos os gramados foram dando lugar a altas arvores. Estavam chegando a Serra e aos tuneis que a atravessam. A garota ainda olhava pela janela pensando no centauro e se realmente havia imaginado aquilo quando algo bateu na janela.
— O que diabos foi isso, Agatha?
— Eu não sei! Não fui eu.
Eduardo resmungou e continuou dirigindo, entrando no primeiro túnel. Era estranha a sensação de saber que estavam atravessando uma montanha por dentro. Pensar nas toneladas de terra e pedra acima de sua cabeça naquele momento fez Agatha sentir náuseas.
Ao chegar à cidade de Santos, Agatha não pôde entender o motivo de tanto alvoroço. A cidade era mais cinzenta e com mais favelas que São Paulo.
— Pensei que vocês tivessem dito que eles eram ricos.
— São. Essa é a parte pobre da cidade, menina, espera até chegar à parte nobre.
As favelas se elevavam a uma altura tão grande que a garota se surpreendeu com o fato de ainda não terem caído. Parece que a lei da Gravidade não vale nesse lugar. Passaram por uma praça grande com uma igreja em estilo Renascentista que um dia pareceu ser branca, mas hoje estava cinzenta como todo o resto.
Um pouco mais a frente passaram por algo que parecia um museu desbotado, mas a placa dizia Santa Casa de Santos. Agatha pensou que preferia morrer ao ser tratada num lugar como aquele.
— Cadê o mar?
Eduardo virou o volante em um cruzamento e entraram em um pequeno túnel.
— Na parte nobre. As pessoas que não tem carro podem pegar um ônibus para chegarem à praia.
O túnel em que estavam agora tinha as paredes de azulejos brancos e azuis que formavam o desenho de ondas. Ao longo das paredes dos dois lados passava uma passarela onde Agatha viu pessoas atravessando, algumas levavam bicicletas.
Quando saíram do túnel, Agatha sentiu o impacto da diferença. As cores que faltavam na primeira metade da cidade estavam todas naquela parte. Passaram por um grande supermercado e por um restaurante de fast-food. Passaram por outro cruzamento, virando para a esquerda e o mar surgiu à sua frente.
Agora estavam em uma avenida arborizada com hotéis de cada lado. Uma espécie de canal aberto e cheio de peixes vivos dividia a avenida em duas mãos. Eduardo virou o volante para a direita quando chegaram à imensa avenida de frente para o mar.
Os prédios eram enormes e impressionantes. Avançaram em meio à avenida: mar do lado esquerdo, prédios de luxo do lado direito até que a avenida terminou em uma curva para a direita. No lugar dos prédios surgiram casas igualmente lindas. Agatha sentiu o chão inclinando sob o carro aos poucos. Estavam subindo por um caminho ricamente arborizado.
— Espero que eu tenha entendido o que tio Arnaldo falou.
— Com tantas curvas assim, é fácil se perder. Pra que diabos eles tinham que morar em um lugar tão alto? Passamos por um monte de casas agora a pouco. Com todo o dinheiro que têm, precisavam mesmo morar no meio do mato? Cuidado para não acertar nenhuma arvore Edu.
E realmente eles estavam agora dirigindo no meio de uma mata com uma trilha larga e asfaltada de duas vias que contornava a serra. De repente pararam na frente de um imenso portão branco rodeado por muros ainda maiores. Havia uma pequena guarita de segurança à direita. Nada de meteoros, infelizmente.
Conduzindo o carro até ali, Eduardo abaixou o vidro.
— Bom Dia! Viemos ver Arnaldo e Sara. Somos seus parentes de São Paulo.
O segurança assentiu e apertou um botão em seu painel. Os portões abriram lentamente e o pequeno Gol entrou. Atravessaram a trilha de pedras que ia em direção à grande mansão branca. Eduardo contornou o chafariz que ficava bem no meio do pátio da mansão e parou o carro em frente ao que Agatha pensou se tratar de um estábulo.
Assim que desligou o carro, as portas da casa se abriram e de lá saíram um homem muito parecido com Eduardo e uma mulher loira e um pouco mais nova. Relutante, Agatha desceu do carro junto com outros.
— Heloisa, minha irmã! Há quanto tempo.
O homem, que deveria ser o tal de Arnaldo, abraçou a avó da garota.
— Realmente, treze anos é muito tempo. Oh, Sara como você esta linda.
A avó abraçou a cunhada, entregando-lhe um presente cuidadosamente embrulhado enquanto Eduardo apertava amigavelmente a mão do tio. Um a um todos foram se cumprimentando até que só faltou Agatha. Com um suspiro ela deu um passo à frente.
— Oi, tio e tia.
Foi por um breve instante, mas Agatha pôde jurar que o tio ficou mais pálido do que a própria garota e Sara deixou cair o embrulho.
— Agatha, co-como você é.... linda. Han... Tenho certeza de que minha doce irmã se esqueceu de mencionar essa sua aparência em suas ligações.
Arnaldo enfatizou tanto a palavra aparência que Agatha não pode evitar se virar e encarar a avó, que por sinal estava tão confusa quanto ela. Encarava o irmão como se este houvesse perdido o juízo.
— Tenho certeza de que vamos ter tempo para conversamos, Arnaldo.
O olhar de Heloisa dizia claramente Eu não sei do que você esta falando, mas é melhor calar a boca agora mesmo. Felizmente o irmão entendeu o recado e passou um braço pelos ombros da esposa (que ainda estava em estado de choque).
— Vamos, vamos. Entrem, há muito sobre o que conversar e quero que vejam minha princesinha Jade.
Enquanto a mãe e tio mais velho entravam na mansão atrás de Heloisa, o irmão e Sara, Agatha puxou Caio para o lado.
— Não me diga que eu estou louca e que só eu percebi o clima tenso que acabou de passar por aqui.
— Você não está louca. Até um cego teria percebido os olhares da minha mãe. Vem, vamos entrar. Deixe suas perguntas pra depois.
O tio caçula passou o braço pela sua cintura e a levou para dentro da mansão.
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