Notas iniciais
História feita para o 3º desafio de One-Shots do grupo "Fanfics da OO" Temas: • Cavalo • Cereja • Torturante

Bom, faltam apenas seis minutos para o sino tocar – disse a professora limpando as mãos de giz – Estão todos dispensados.

Aquela era a nova professora. Havia entrado há uma semana, e queria agradar os alunos.

Gritos empolgados puderam ser ouvidos. Carteiras foram empurradas e crianças de nove anos corriam com suas mochilas nas costas em direção à disputada saída. Dentre os menos ansiosos, estava aquela garota de cabelos pretos quase tampando os olhos, expressão sem brilho e postura desalinhada. Aquela foi a única criança vista na sala pela professora trinta segundos depois que a classe foi dispensada. “Só está tentando chamar atenção” era o que vinha primeiro à mente daquela mulher de meia idade. “Ou talvez, esteja esperando para reclamar de algum zero que recebeu” pensou logo em seguida. Decidiu sentar na mesa de professora e esperar a aluna conversar falar nota. Três minutos, dez, até quinze se passaram, e ambas continuavam em seus respectivos assentos. A professora se arrepende por ter julgado tão mal a menina cujo nome nem se recordava. Eis que a professora decide abrir o notebook para conferir na ficha online o nome da menina introvertida. Passou por todas as fotos dos alunos daquela sala, mas nenhuma era a garota que estava à sua frente. Passou mais uma vez e viu uma garota com o rosto levemente parecido. Joane Cherrie Pacheco. Era semelhante, mas bem mais alegre, cabelo preso e rosto bem visível. Era ela. A professora foi conferir os dados da menina e se deparou com notas bem baixas em todas as matérias. “É, parece que eu julguei certo, ela é uma péssima aluna”. Já pronta para fechar o site e ir embora, a professora viu algo que lhe chamou atenção nos dados da garota, a frequência dela era quase total. Não viu sentido naquilo. Por que uma aluna tão desleixada teria uma frequência tão boa? Mais um clique para mais detalhes, e apenas uma falta registrada no dia 23 de Março. Vasculhando melhor, percebeu que as notas dessa época não eram tão baixas, e em quase todo o mês de Março e Fevereiro, ela tinha uma das melhores médias da turma. “Que estranho, preciso saber o que está havendo com Joane”. A professora puxou uma cadeira e se sentou próxima à garota, olhou fixamente naquele rosto jovem que não conseguia olhar ninguém nos olhos, e com uma voz compreensiva tentou conversar.

— Olá, Joane. Posso te chamar assim ou você tem algum apelido?

A aluna continuava de cabeça baixa, mexendo nos próprios dedos e sem dar muita atenção respondeu:

— Tanto faz.

— Está tudo bem com você? – Insistia a professora.

— Sim.

— Eu também estou bem, obrigada por perguntar. – Disse num tom brincalhão, e apesar da tentativa, não arrancou nem ao menos um leve sorriso da menina.

A professora sabia que Joane estava escondendo alguma coisa, e queria fazê-la se expressar, mas sabia também que a aluna iria dar apenas respostas curtas e secas.

— Suas notas de redação eram boas. Poderia me ajudar a escrever algo? – Perguntou a professora.

— Minhas histórias não são mais boas.

— Escrever não é o tipo de coisa que se desaprende. Eu sei que pode escrever algo bom.

Joane voltou ao estado de silêncio profundo.

— Olha, eu tenho experiência nisso – disse a professora – Eu farei o possível pra melhorar sua história.

Pela primeira vez, Joane a olhou nos olhos.

— Promete?

— Prometo.

A professora tirou um pedaço de papel e um lápis da bolsa e entregou para Joane, que estava sem jeito de tocar no lápis e começar.

— O que acha de fazermos uma história feliz, envolvendo princesas e magia? – disse a professora. Tentou pensar em uma premissa boa e infantil com personagens carismáticos para crianças, se lembrou do “Cherrie” no nome da aluna e sugeriu – Que tal uma Princesa Cereja? Há tantas princesas, por que não uma Princesa Cereja?

Joane pressionou os lábios, pegou a folha e o papel e começou a escrever. Ela era observada pela professora que admirava a dedicação naquele momento, algo que não viu dela no decorrer do tempo que esteve naquela escola. Alguns minutos depois, Joane entrega a folha. A professora coloca seus óculos de leitura e começa a se perder na história que alí foi escrita.

“A Princesa Cereja

Brilha, brilha lá no céu...

De todos os anjos, o mais amado

Oh! Lindo anjo que no céu brilha,

Ser sereno celeste encantado

Era uma vez um anjo, que protegia todo o reino encantado. Todos o admiravam pelo seu brilho incandescente e por sua beleza encantadora.

O anjo amava aquele lugar, mas sabia que não poderia ficar. Então tratou de encontrar um sucessor. Foi até a cerejeira mais alta e pegou a flor mais bonita. Concentrou nela amor e carinho, e dela nasceu uma doce criança. Uma menina que cabia na palma da mão. Era tão brilhante quanto o anjo que a trouxe ao mundo. Todos do reino concordaram que ela deveria ser chamada de Princesa Cereja.

A fragilidade da criança preocupava o anjo, por isso decidiu que deveria procurar alguém para protegê-la até ela ser forte o suficiente. O viril cavalo branco real, Nataniel, foi o escolhido, e prometeu proteger para sempre a Princesa Cereja de todo e qualquer mal. O alazão só queria ser amado pelo anjo, queria que sua força fosse reconhecida por um ser divino, e achou que proteger sua sucessora seria o caminho mais rápido.

Brilha, brilha lá no céu...

A guardiã do legado acaba de nascer

Oh! Lindo anjo que no céu brilha.

A princesa cereja irá resplandecer.

Anos se passavam, Nataniel tinha confiança do anjo, isso o fazia se sentir especial e mais importante que as outras criaturas do reino. A princesa estava crescida e a cada dia, ficava mais bela. Um dia, Nataniel percebeu que não era tão especial quanto pensava, todos no reino amavam o anjo, para ele aquilo era um absurdo, ‘o anjo deve ser meu, e só meu’ pensava. Foi então que os sentimentos egoístas de Nataniel começaram a modifica-lo. Seus olhos que refletiam o azul do céu, adotaram a cor vermelha do sangue. A pelagem da crina se tornou espinhos. Seus dentes passaram a ser presas. E o cavalo forte que a princesa cereja adorava galopar, logo se tornou um monstro que a deixava com medo. A princesa percebia a mudança, mas era a única, o restante do reino ainda via um lindo cavalo branco. ‘Nataniel é o mesmo de sempre. Não vejo diferença’ era o que a princesa ouvia do anjo. Aos poucos, Nataniel foi roubando o brilho daquele ser iluminado, deixando-o mais fraco. O anjo estava mudado, sem magia, sem luz, mas no reino, ninguém parecia notar. ‘O anjo é o mesmo de sempre. Não vejo diferença’. Em pouco tempo, era tão fraco que pôde ser capturado por Nataniel. Depois passou a viver ali, preso em uma gaiola feita pelo cavalo que escolheu como guardião. O anjo não via mais a luz do dia, não saia, e os seres do reino não o viam mais. Aquele ser de asas brancas foi ficando mais e mais fraco até que seu brilho se apagou, sua cor foi ficando opaca, até que ele deixou de existir.

Brilha, brilha lá no céu...

Mas seu brilho não mais há

Oh! Lindo anjo que no céu brilha,

Volte e venha me levar

Todos no reino se entristeciam com o fato, mas seguiram suas vidas normalmente. Ninguém acusava Nataniel. Descrença? Omissão? Não se sabe. Nunca se soube. Mas, a princesa ainda enxergava a figura monstruosa. Pouco depois, Nataniel começou a olhar diferente para a Princesa Cereja, quase da mesma forma que ele olhava para o anjo quando se tornou monstro. Aquele monstro, passou a roubar um pouco do brilho da Princesa Cereja a cada dia. A Princesa Cereja começou a ser maltratada por ele. Era obrigada a fazer o que não queria. Ela tentava pedir ajuda, mas estava fraca demais e sem brilho para isso, então ninguém pôde ouvir. Ou talvez ouviam e ignoravam. Ignoravam suas mudanças repentinas de brilho assim como fizeram antes. ‘A Princesa Cereja é a mesma de sempre. Não vejo diferença’. Monstros sempre existiram. Monstros sempre existirão. O fato dos humanos não acreditarem que eles existem, só os deixa mais forte e em maior número. É claro que os monstros adoram ser ‘inexistentes’ para os humanos, afinal, como se combate algo que não existe? Existiam para a Princesa, mas ela não poderia fazer algo para vencê-lo. Ela tentava pedir socorro, mas ninguém era capaz de ouvir.”

A professora, impressionada, resolveu ler a história mais uma vez, mas já na metade da leitura ouviu barulhos na porta da sala de aula.

— Desculpa, Interrompo? – Dizia um homem adulto e bem vestido na porta – É que estava meio tarde e a Joane ainda não havia chegado em casa. Fiquei preocupado.

— Tudo bem, já acabamos nossa conversa – Dizia a professora – Eu entendo sua preocupação, por isso quis conversar com Joane. O comportamento dela esteve um pouco mudado ultimamente.

— É, eu entendo. Ela ainda não superou a morte da mãe no final de Março. Era uma mulher exemplar...

— Era um anjo – Disse Joane interrompendo o pai e deixando a professora um pouco surpresa.

— Sim, era. Eu queria poder ficar e conversar, mas tenho que levar Joane para casa. Com licença, senhorita.

O homem estendeu a mão para Joane com um sorriso enquanto a chamava. A menina olhou diretamente para a professora. Olhos inquietos que expressavam medo, quase como se pedissem por socorro. Depois que o homem insistiu mais uma vez, Joane deu a mão e foi embora com o homem. A professora sentiu um medo percorrer pelo corpo, preocupada, olhou pela janela e viu Joane entrando no carro do pai. Antes que ele entrasse, alguém na rua acenava enquanto gritava pelo nome “Nataniel”, o pai de Joane respondeu e acenou de volta. Depois que foram, a professora pegou o papel escrito pela aluna e olhou as últimas palavras que foram escritas: “. Ela tentava pedir socorro, mas ninguém era capaz de ouvir.”

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