Princesa

1 Capítulo 1 - A Montanha Que Anda


Feche uma de suas mãos.

Qualquer uma.

Apenas feche-a.

Isso.

Espete nessa mão fechada (não literalmente, apenas imagine) alguns grandes botões de terno, daqueles antigos de osso, todos na cor magenta. Espalhe-os meio aleatoriamente.

Imaginou?

Você acabou de visualizar o formato e a aparência do maior castelo de todos os 15 reinos das fadas: o estranho, fascinante e sombrio castelo de Vifonte.

As placas do castelo de Vifonte, molhadas pela pesada tempestade a desabar de um céu escuro, frio e denso, vibravam ligeiramente de aflição e angústia. Mesmo assim, jaziam fincadas sobre as costas da principal montanha da antiga cadeia de serras de Verdelinda. Eram placas de sílica metafórmica e com características neutralizadoras da ação da gravidade, um tipo raro e precioso de mineral que a gente só encontra muito, mas muito além do Poço da Memória, a região fronteiriça entre o Mundo dos Humanos e a região abissal do Real.

Jamais visto, quanto mais visitado, por um ser humano, o castelo de Vifonte deixaria qualquer pessoa não versada em suas peculiaridades ligeira, senão totalmente, enlouquecido.

Vifonte se movia.

Era uma montanha andante, um milagre onírico que se tornou verdade.

Sustentada por lagartas de raios de luz sólida em forma de tubos com pouco mais de meio quilômetro de raio cada, fluindo de seus veios praticamente infindáveis de cristais semi-rochosos, quase líqüidos, mantidos atomicamente unidos por forças estranhas e, na sua combinação atômica, anulavam os efeitos da atração das massas, empurrando gentil e certeiramente toda a montanha em uma rota bizarra pelos planaltos e campos, a montanha avançava esmigalhando, destruindo e juntando a si tudo o que estiver pela frente. Rios eram drenados, florestas de petreninfas reduzidas a farelos, arquipélagos redesenhados e, pobre daquele quando Vifonte disparava em alta velocidade, a seguir das complexas ondas gravitacionais do centro do planeta.

Vifonte era um espetáculo magnífico de se ver, quando passeava lentamente. Um verdadeiro deus desajeitado, começando aqui em baixo nas suas luzes de sustentação e se erguendo até o céu, passando seus milhares de picos irregulares entre as núvens da tempestade, que vez ou outra lhe fincava raios ciumentos e invejosos.

Vifonte arrastava-se qual um sonho paciente e teimoso sobre a mente inconstante e plana de um mundo que estava mais para conceito do que para um lugar de se viver.

Cataratas, rios e riachos abundantes escorriam das paredes de Vifonte, arrastando dedos de platacídeas, pedaços de corianas e cristais de farfalhonos. No mais, a montanha permanecia firme, com a furiosa tempestade mais parecendo um chuvisco.

Vifonte não caminhava sozinha: ela era, além de uma montanha-fortaleza, o lar de milhares de fadas e gênios, um complexo industrial de tamanho ligeiramente maior que nosso Pão-de-Açúcar. Na parte de sua pele coberta com crosta de terra fértil, brotavam plantações de labarídias e suas saborosas folhas resistentes, criações e coxias dos mansos mas eventualmente furiosos ton-tons, vilarejos dos poucos elfos das montanhas (uma mafiosa raça de comerciantes sagazes e astutos, com um potente tino para o comércio, que explorava o grande fluxo de turistas que adotravam visitar os pontos diversos turísticos de Vifonte), vastas florestas de “plantas” semiróides puras e quase intocadas, áreas de camping, meditação ou destinada aos inúmeros cultos (menos os que se faziam usar de matança, destruição ou orgias sexuais regadas à bebidas e psicotrópicos. Para tanto havia a necessidade de autorização especial do conselho administrativo-corporativo das fadas, intermediados pelos elfos das montanhas que, por conseguinte, cobravam as taxas que bem entendiam, de acordo com as posses e a face do cliente).

Em Vifonte, haviam quilômetros de trilha mapeadas e outras tantas desconhecidas, locais de fácil e de difícil acesso, milhares de belo-pássaros, incontáveis racorrantes, algumas bestas selvagens e alucinadas como os petracílios, os dinorantes canoros ou os temidos boca-de-lapo (mas que eram caçados por serem uma deliciosa iguaria).A fauna e a flora de Vifonte também era estudada pelos (poucos) gênios pesquisadores, alguns goblins simpáticos e narigudos e os inevitáveis geolo-religiosos, estes morando em suas residências em forma de locomotivas a base de cipós, na face menos sombria da montanha ambulante.

Obviamente, por entre caminhos secretos e outros nem tanto, por estradas largas e estreitas e mesmo por outras bem a vista, estavam as entradas e saídas das fadas.

Vifonte tornara-se o lar das fadas, de seus queridos gênios e por alguns poucos elfos negros do séquito pessoal de Príncipe, sucessor na escala de poder. Mas falarei dele em breve.

Qual um formigueiro, Vifonte possuia sabe-se lá quantos quartos, salas ou ambientes de treinamento, doutrinação, alimentação, execução, tortura e toda sorte de ambiente esquisito, estranho e proíbído, tudo sendo construído por gerações de fadas; o que era realmente muito tempo pois elas raramente morriam. Somente os membros da elite do castelo tinha conhecimento completo de suas dependências. E, ainda assim, restavam dúvidas sobre a real fidelidade dessas informações.

Diziam que Vifonte tinha a idade de tudo. Que no princípio dos tempos saiu-se lá da cordilheira. Mas, no imaginário popular e nas cantigas, sempre esteve ali, aqui e acolá, sem destino, destruindo ou agregando o que ousasse ficar na sua frente.

Nas lendas das fadas, captadas nas matizes coloridas das pedras senta-órias, consta que, certa vez, um poderoso gênio ousou escalar Vifonte (por motivos obscuros) e, por conseguinte, estabelecer a primeira colônia de sua espécie. Seu nome era Fundador, unido pelo amor com a majestosa Mãe de Todos, mais suas diversas esposas. Cavando com as próprias mãos as entradas principais e hoje pertencentes ao circuíto turístico, nas entranhas de Vifonte, os também chamados de Ele e Ela poeram os primeiros ovos de cristavidas da Legião dos Sete Sagrados, os primeiros gênios e fadas que viriam a colonizar Vifonte.

Com as conseqüentes guerras, disputas, assassinatos e envenenamentos, sem deixar de lado os ataques das horas sem fim dos pteranocídeos bebedores de sanguevitali das fadas, os membros remanescentes dos Sete Sagrados (que nessa hora deveriam ser uns quatro ou cinco), acharam por bem, primeiro, proibir a morte de seus próprios semelhantes. O que foi rapidamente atendido por uma questão de obviedade. Em seguida, se fecharam e ocultaram-se nos corredores subterrâneos da montanha-lar, enquanto que elfos legionários e mercenários tratavam de lutar contra os pteranocídeos.

Tempo veio, tempo passou, acabaram dando um jeito nos pteranocídeos (suspeita-se que se sucedeu algum acordo seguido de traição, mas os cristais são incertos). E os elfos, como pagamento, ganharam o direito de explorar comercialmente as riquezas da superfície de Vifonte, restando às fadas e gênios a morada em seu seguro interior. Tal atitude causou desagrado de alguns pois, bem se sabe, os Anões é que se metem debaixo da terra a procura do que lhes interessa. Porém, na necessidade e conveniência, tendo os metalizadores constatado que em Vifonte não havia qualquer tipo de ser antigo e poderoso que costuma dormitar no seio da terra, era hora das fadas seguirem os desígnos do Fundador e estruturarem seu império móvel.

Até que General Metemedo, um arqui-duque armeiro com visão reformista, após a definitiva derrocada da segunda leva dos pteranocídeos (o que daí se conclui que os elfos não são muito confiáveis), sugeriu uma reformulação na estrutura social das fadas. Obtendo o que queria debaixo de assassinatos e degolas, Metemedo organizou em definitivo a sociedade das fadas de maneira hierárquica e pacífica (mas só entre si). Surgiram as classes dos nobres, semi-nobres, intermediários, comerciários, serviçais, agregados e escravos.

Segundo o último senso, Vifonte tem 123.896 habitantes, sendo 98% fadas (a partenogênese anda em ápice). Sua altura é de 730 metros, sua largura varia de acordo com uma série de fatores. Ao passar, Vifonte produz o Vale Rastreado, um canyon que varia de profundidade mas que deixa as marcas das lagartas de luz cravadas fortemente na crosta planetária.

As fadas são beligerantes, assassinas, rapinantes, guerreiras, destruidoras e lindas. São comparadas a chacais famintos e amorosos, com asas de prata transparente e diáfana beleza, atacando, destruindo e roubando de tudo e de qualquer país, vila ou civilização que ousar ficar no caminho de Vifonte. Mas são incríveis de se ver e, entre si e de quem lhe cair nas graças, são gentis, amigas, carinhosas e dão um novo sentido à palavra amor: pela morte.

No centro direito-relativo de Vifonte, cercado por uma série de túneis secretos, estão os aposentos em forma de nós de uma fada especial.

Seu nome é Princesa. Segundo os nossos padrões, ela tem algo em torno dos 100 anos, por baixo. Mas idade é relativo pois Princesa é uma nobre e, portanto, contagem de tempo não lhe é aplicada. Ela vive o quanto quiser e ninguém abre o bico para reclamar.

Princesa é a segunda em sucessão no trono do reino das fadas de Vifonte. Acima dela está seu irmão gênio, Príncipe, seu pai Revifonte e sua mãe Mandarina.

Não haviam laços familiares entre estes seres. Não havia tempo e nem interesse. Cada um cuidava de todos. Suas vidas eram agitadas, com compromissos e obrigações para tudo quanto é lado. Manter um império requer dedicação integral, por isso a consideração era passada de um para outro, numa constante gentileza. Sem contar que manter mais de cem mil habitantes em constante estado de guerra e beligerência amigável exigia aplicação e dedicação. Assim, um nobre raramente via o outro, a não ser nas ocasiões de grande tragédia ou de burocrática alegria ensaiada.

Princesa tinha imensos olhos verdes. Quando digo imensos, são imensos mesmo! Lembravam duas xícaras de caldo de ervilha luminosa sobre um rosto simples, uma pedra branca polida. Debaixo deles, uma simulação de nariz (fadas não precisam ou podem optar por respirar, graças a sua morfologia multi-funcional) e uma boca que mais parecia um risco.

A fada tinha cabelos pretos curtos, inúteis e reduntantes, mas era moda entre sua raça e nobres precisavam estar em harmonia com a Sociedade, passando imagens boas e saudáveis, ainda que tolas. Vestia apenas um manto branco feito de folhas de trilecimas. Era uma fêmea humanóide mas sem seios, sem vagina, sem grandes semelhanças conosco.Seus braços, tronco e pernas eram iguais aos da gente mas, de resto, haviam mais semelhanças entre ela e um rascunho do que com uma pessoa.

Estava sentada. Poderia estar flutuando feito uma pluma pois já dominara a grade de gravidade que interpenetrava a montanha há tempos, formando em toda parte corrimãos ascendentes e descendentes, uma discoteca colorida e ritimada de bolinhas de luz amarela. Mas sentar lhe pareceu ser a melhor coisa a fazer...

Pois Princesa estava triste.

Princesa estava sentindo uma tristeza como jamais sentira antes.

Fadas não são dadas a disso. Fadas são a rocha, o céu, o mar, o fogo, o gelo. Sentimentos auto-punitivos são coisas de humanos, elfos e ogres... Ou quem sabe coisa dos goblins, se bem que ela desconhecia que um goblin pudesse se entristecer por qualquer coisa, a não ser perder ouro.

Mas fazer o que? Ela estava triste. E uma fada triste é sinal de tragédia.

Colocou a mão direita e um de seus 3 dedos sobre seu casulo de diamante-lava aonde estava sentada. Era um gesto bobo e meditativo. As energia do cristal em fogo congelado lhe acalantaram o quanto pode, recarregando as energias e revitalizando o corpo. Com tal atitude ela poderia viver indefinidamente. Seu cristal era seu coração, sua força, sua alma exteriorizada em vidro mágico. Ela deveria se sentir bem, tinha que se sentir bem, deveria estar mesclada ao cristal e “cristalizando” suas lembranças como num “backup”... Mas não podia.

Não tinha como. A tristeza lhe tomara de assalto e não havia como sair. Da mesma forma que ela e seu povo fizera com outros...

Vamos à explicação.

Há alguns grandes momentos atrás (tempo é um erro de cálculo), seu lar gigante avançou sobre as fronteiras de um continente novo, após passar uma temporada debaixo de um oceano (Princesa se lembra de comofoi divertido ser uma fadeixe e abrir as cabeças de umas tais “princesas do mar”, pequenos seres repelentes e asquerosos que mereciam ser destruídos simplesmente por serem irritantes aberrações moralistas). Os elfos reclamaram pois precisaram se mudar para as partes altas, mas ganharam fortunas com as praias nas bordas rígidas aonde sereias desejavam procriar.

As batedoras voltaram com boas notícias: estavam perto do reino dos aracnogentes, cujo esporte nacional é a matança desenfreada e descontrolada de qualquer um que lhe adentre seus domínios.

Deveria ser uma época de júbilo e comemoração. As guerreiras do Clã das Asas Vermelhas, após uma saudável campanha de extermínio de parasitas larvais ao pé de Vifonte, tendo em sua frente a irmã de Princesa, Condessa, estavam por demais excitadas com a guerra que se antevia.

Príncipe, seu irmão mais velho e notório comerciante de armas e general astuto, em obediência a um decreto do pai, armou todas as fadas e gênios guerreiros com o que havia de melhor em armamento: espadartes de vidro metálico, laminídeos em forma de estrela, coletes de paralílios indestrutíveis, reforçadores de absorção energética, elmos de plastinotex, botas e escudos de impenetribuim e os queridos ranc’alma.

Antes da batalha de invasão, Príncipe discursou para as cinco levas de vinte mil guerreiras e guerreiros, todos perfilados em suas companhias. Emitiu palavras e emoções elétricas de entusiasmo e coragem, que encheram o coração de todos de determinação e alegria.

Foram acionadas as carruagens puxadas por ton-tons, os aeromóveis de assalto e seus canhões de plasma violáceo vibravam suas asas poderosas, os tanques de assalto médio e os transportadores roncaram seus motores a explosão em antecipação.

Ao toque do cristal de órdens (presente na testa de todos os soldados), as legiões das fadas sairam por toda parte de Vifonte. Foi um espetáculo maravilhoso, lindas meninas gargalhantes e gritadoras a voar pelo céu noturno, com ou sem suas máquinas, e poderosos rapazes silenciosos de olhos triangulares a correr pelas matas ou a pular feito saltugas; todos famintos, sedentos de destruição, verdadeiros mensageiros de sofrimento, dor e morte. Era como assistir um desfile de escola-de-samba macabro, lindo de se ver mas cuja apoteose levaria muitos, muitos para a sepultura.

Os aracnogentes eram brigadores valorosos. Metade humanóide, metade aranha, perceberam que a Morte se aproximava. Instintivamente, trataram de reproduziram-se o mais depressa possível e enviaram suas legiões de soldados contra os gênios e seus tanques. Porém, os infelizes soldados meio-aranhas não eram mas nem de longe páreo para a pesada artilharia dos tanques que, flutuando sobre o solo, disparavam jatos de morte púrpura, uma arma que eliminava qualquer traço de união molecular sobre seres vivos. Tudo o que tinha vida se desmontava feito isopor sobre uma forte chama.

Gênios gostam de coisas metódicas, pacientes.

Eu suspeito que quem mais se divertia eram as fadas. Apaixonadas por tudo o que fazem, sua satisfação era, além de vencer e matar, esnobar seus inimigos. Sabedoras de todas as língüas, conheciam o dialeto dos semi-aranhas e desandavam e dizer impropérios, ofensas e descalábrios para seus inimigos. Nem sempre funcionava pois alguns seres são estúpidos por natureza, mas os meio-aranha achavam intolerável que seus inimigos soubesse falar sua língua natal, pois isso caracterizava furto cultural e uma ofensa além do impensável.

Isso tornava as batalhas mais interessantes pois não há nada melhor para uma fada que ter um sentimento correspondido aos seus interesses.

Quero crer que haviam alguns bilhões de araconogentes naquele continente. Leva e mais leva, onda e mais onda dessas criaturas desembestaram sobre as fadas e os gênios. As batalhas se estenderam por dias, semanas e meses. Nenhum dos dois lados deu sinal de desistir; os aracnogentes caiam aos milhares mas, em seguida, outras centenas de milhares eram repostos, nascidos do útero de suas fêmeas fecundadas as pressas. E as fadas eram... Impossíveis de serem detidas e possuiam os armamentos de utilização sem fim.

A guerra com os aracnóides chegou ao seu previsível fim. Sua espécie foi dizimada, suas almas aprisionadas e sorvidas pelos cristais revitalizadores por todos os aposentos e armamentos de Vifonte. Histórias de coragem e determinação dos aracnóides foram conhecidas e registradas. Foram-lhes rendidas honras e saudações, o seu líder foi executado numa linda cerimônia com a presença de toda corte, medalhas foram concedidas e louvações soaram pelos instrumentos musicais...

Houve uma baixa.

O nobre e considerado Hammlec, um gênio dos mais fortes e batalhadores, foi morto de uma maneira estranha e suspeita: seu tanque foi coberto com uma substância química desconhecida que certamente lhe envenenou. Digo certamente pois os investigadores foram impedidos de se aproximarem por ordens de Príncipe, por receio de contagio.

O relatório da inteligência apontou que os aracnóides estavam desenvolvendo armas químicas derivativas de seus venenos naturais e que Hammlec foi vítima de um teste.

Fadas e gênios choraram pesarosamente a morte de seu irmão querido. Mas Princesa tinha motivos maiores para chorar: Hammlec era seu prometido, seu amante e seu futuro partilhador da semente da existência.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.