Primeiro dia
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Primeiro dia
Os barulhos das páginas pareciam mais altos agora que nada mais tinha para fazer. Perguntou-se se eles viravam as folhas em busca de algo que sabiam ou para definir o próprio destino – se é que tinha o direito de exagerar assim. Bem, talvez houvesse ali aqueles que apenas treinavam para algo maior, tendo grandes chances de perder.
Esta era a idolatrada meritocracia! Como se a moça que se sentou ao seu lado sem saber como se preenche um gabarito tivesse as mesmas chances que tinha de ir para as próximas etapas.
Bem, não deveria estar filosofando agora!
Há muito tempo que poderia ir para a casa, mas optara por esperar. Esperar aquela longa – e maldita! – uma hora e meia. Esperar apenas pela preguiça que sentia de ir embora. Era humano, afinal, regido por seus pecados capitais.
Céus! Havia lido noventa questões e ainda queria se dignar a pensar em pecados – como se fosse cristão! Estava ficando louco...
... ou a euforia da prova ainda não havia passado o que fervilhava sua mente de pensamentos – alguns filosóficos, outros nem tanto.
Porém, certamente, se lhe fosse pedido para dissertar sobre um assunto, não conseguiria. Era péssimo em redação! Mesmo tendo uma opinião formada sobre tudo...
Como ele chamaria isto, mesmo?
Era aquela palavra com “c”...
... controvérsia!
Oh sim! Seria esta palavra que ele lhe atribuiria neste momento – assim como em muitos outros.
Ele?
É... ele!
Aquele em quem não deveria estar pensando agora, mas para qual sua mente o fazia questão de levar. Como se responder malditas noventa questões já não fosse o suficiente para ser derrubado.
Não era... sabia que não era.
Para cair precisava de muito mais do mundo. E muito mais poderia ser resumido nele. Eis sua sina! Muito maior que qualquer pecado capital que o prendesse naquela maldita sala!
Deveria ser sincero...
Não era apenas a preguiça que o impedia de ir embora – apesar dela existir –, era ele! Era a certeza de não o encontrar.
Nunca foi do tipo de cara que definia amor, ou que se apaixonava. A verdade era que sempre se deixou ser guiado pela própria existência sem pensar muito nela – como quase todos fazem. Sua vida se resumia a agir, não pensar. Chegou ao ponto de quase ser preso por atentado ao pudor quando transou com uma menina no meio do parque às seis horas da tarde. Só não fora preso pelo policial porque ele era amigo de seu pai e muito corrupto – o que dinheiro não compra?
Em suma, era completamente feliz em sua ignorância, em sua existência inútil.
Isto até ele aparecer!
O maldito professor de biologia!
Oh! Aquele cara, com toda a certeza do mundo, ferrou sua mente!
E ainda coagiu seu coração...
Além do controverso, seria chamado por ele de ignorante.
Ou então ele apenas sorriria de canto e diria o quão encantador é sua infantilidade.
Como se não houvesse a possibilidade dele agir imprevisivelmente e fazer algo completamente impensável.
Maldito seja!
Ele apareceu em sua vida com a maior das arrogâncias, sendo transformado em pó.
Tudo com apenas um olhar!
Tudo em apenas um dia!
Como pode um ser humano ter mudado sua vida tão repentinamente? Em tão pouco tempo? Sem finalidade maior alguma?
Até então jamais diria que prestaria vestibular. Jamais diria que viraria ateu e sonharia em ser médico. Jamais diria que estaria filosofando e formando opiniões, buscando respostas e criando novas perguntas. Jamais diria que um dia chegaria a proferir com tamanha sinceridade um eu te amo.
Já ouviu dizer que o tempo passa e as pessoas mudam. Porém, sabia que sua situação era diferente. Não fora o tempo, mas ele quem o mudou a cada dia um pouco mais, mesmo sem estar presente.
Tudo para ir embora sem dar explicação alguma.
Apenas um adeus frio de quem sempre se negou a sentir o calor de seu corpo.
Nunca teve dele algo além de misérias. Estas que poderiam alimentar todo um continente faminto, mas que nunca satisfaria a Europa.
Era a Europa! Insatisfeito com tudo o que teve mesmo sabendo ser muito, perto dos pertences dos outros.
Não poderia negar, ele alimentou a cobiça que sempre existiu.
Para então ir embora!
Sem sequer um beijo para lhe satisfazer a curiosidade de saber qual o gosto daqueles lábios. Pior! Sem sequer dizer se por algum miserável segundo ele retribuiu os seus sentimentos... se ele o amou...
Nada!
E agora se via devolvendo o cartão-resposta para ser obrigado a ir para casa e não o encontrar mais. Obrigado a viver algo que ele chamaria de amor platônico, porém sem a perfeição do mundo das ideias.
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