Primeiro de Abril

1 Capítulo Único


Persefone:

Koré tremia. Seus pulmões lutando por ar enquanto o choro lhe provocava espasmos por todo o corpo. Não poderia ser real. Não mesmo. Aquilo deveria ser o pior pesadelo da história. Só isso e apenas isso.

Se suas narinas não estivessem meio travadas daquela forma que sempre ficavam quando ela caia em pranto, teria sugado o ar o bastante para respirar fundo. Mas estavam. Então, foi apenas figurativamente que ela respirou fundo antes de forçar-se a erguer os olhos marejados para a ara.

Precisou piscar algumas vezes para afastar as lágrimas e tornar os borrões distinguíveis. Os pais dele estavam ali, a mãe com o rosto enterrado na clavícula do pai. Pareciam meio fora do ar. Muito provavelmente — e em oposição a ela que jamais se impediria de sentir dor por quem mais merecia isso — tinham ingerido algum medicamento tranquilizante.

Aproximou-se do caixão aberto. Um terno, uma camisa de botões e cabelos, todos negros. Mãos pálidas pousadas cruzadas sobre o peito. Olhos fechados pela eternidade. Hades... Não, voltou a chorar, Não pode, entendeu? Não pode...

— Eu amo você — foi a única coisa que conseguiu murmurar enquanto descansava a mão trêmula sobre as gélidas dele. Havia mais a ser dito. Mais palavras lutando para serem despejadas sobre o cadáver, contudo, tudo o que lhe escapou foi: — E-eu... Eu amo você.

***

Alguém — e realmente não lhe importava quem — falava no púlpito. Outros mais o tinham feito muito embora aquilo não houvesse capitado sua atenção.

— Persefone? — chamou a mãe de Hades e seu peito contraiu-se mais uma vez. Ninguém nunca mais lhe chamaria de Koré. Era um apelido só dele entre tantas outras coisas que sempre seriam. Como ela, por exemplo — É a sua vez de falar, minha querida.

Ergueu-se em seus jeans e blusa cinza da Minnie Mouse; porque aquela era a roupa mais próxima do luto que possuía. Nós emaranhados haviam sido escondidos pelo coque malfeito e seu rosto deveria estar monstruosamente inchado, mas não se importou. Só existia um homem para quem desejava ficar bonita e ele partira.

— O mais irônico — tossiu para dispersar o nó na garganta — é que ele não gostava disso. Não gostava de ser aquele para quem as pessoas olhavam — e acrescentou mais para si mesma: —, como está acontecendo agora. Ele preferia o isolamento e o silêncio — pontuou sem pressa, seu peito doendo. — Por isso, ainda não entendo o porquê de ter me escolhido. M-mas s-sei p-porque o e-escolhi. E-le e-era... E-ele e-era... — gaguejou. — Ah! por favor, não me façam continuar — o pranto lhe tomara novamente.

Não saberia dizer o que acontecera entre o instante em que a mãe dele a abraçou e o em que fora colocada no banco traseiro do carro. A única coisa que lhe importava era terem fechado o caixão de Hades.

"— Tudo bem, Koré — ele acarinhava suas costas nuas e ela tentou responder-lhe, porém, apenas soluços saíram de seu lábios. — Tudo bem, minha pequena boneca das bochechas rosadas. Tudo bem.

— D-des... D-desculpa... — gaguejara.

— Shi... É só um detalhe. Eu espero.

— E-eu juro, Hades. Eu j-juro que quero.

— Ei! — erguera-lhe a cabeça e fitara-a daquele modo desconcertante — Eu sabia desde o início com o que estava lidando, boneca. Isso é normal. Sua mãe te criou para ser freira — o sorriso irônico mais lindo do mundo.

— Podia estar com alguém menos complicada agora... — resmungara.

Fora quando ouvira o riso dele.

— No exato instante em que vi aquela menininha colhendo rosas e a madre superiora nos disse que, após o ensino médio, você entraria no convento... — o verde dos olhos deles faiscara em sua combinação alarmante favorita; luxuria e devoção — Persefone, você nasceu para ser minha — dissera simplesmente – e, se não houvesse me parado agora, não seria a menina das rosas.

— Um dia, Hades — ela prometera após meio segundo ou duas horas.

— Um dia, Koré — ele lhe beijara a fronte e ela suspirara em resposta, antes de adormecer."

Por que, quando alguém morria, tinha que chover? Se era só uma referência patética a lágrimas misturando-se e confundindo-se com as gotas choradas por Deus, não tinha graça.

Só percebeu que havia corrido quando se deteve junto à cova com água ensopando-lhe as roupas e lama as sujando. O coque desfizera-se e seu cabelo descia em nós molhados e impenteáveis pelas costas.

Chorou muito e ainda mais sem se importar em respirar e quase se surpreendendo por continuar a fazê-lo. Quase. Para isso, primeiro teria que notar o ar entrando em seus pulmões, mas estava ocupada em pensar no homem que amava e que nunca mais veria. Ao menos o buquê que comprara ficara intacto.

Os demais pranteadores chegaram em seus ternos e vestidos de seda. Todos protegidos por enormes guarda-chuvas negros. Oito deles traziam consigo o caixão agora já cerrado. Ela nem dissera adeus...

— Por que está chorando, minha boneca? — uma voz disse enquanto braços envolviam sua cintura e esquentavam-lhe o corpo. Ela nem percebera que estava com frio, no entanto, todo o calor que restava esvaiu-se de sua alma ao reconhecer aquele tom. Não é que Persefone não acreditasse em fantasmas, é que nunca havia parado para pensar no assunto. A parte perigosa em sua vida resumia-se às noites em que Hades esgueirava-se pela universidade para exigir tê-la quietinha em seu colo enquanto conversavam. Mas, se aquilo fosse só o fantasma dele, ela não gritaria nem correria. Apenas queria tê-lo por perto. Fosse como fosse. — Eu não devia ter sido tão teatral, não é? Está suja e com frio. Provavelmente também sente fome e sede. Sem contar que te fiz chorar... Perdão, Koré. Era o jeito certo de fazer isso — o homem rodeou-a, de modo que pudesse vê-lo, e abaixou-se apoiando o peso do corpo em apenas um dos joelhos. A calça do terno afundou-se na grama úmida e na terra lamacenta. Hades, entretanto, não desviou os olhos dela. Puxou do bolso uma caixinha de veludo negro e perguntou, ao abri-la: — Quer casar comigo?

Hades:

Persefone bateu nele com um buquê de rosas e os espinhos arranharam sua bochecha, mas Hades quase gostou. Era bom quando aquela gatinha mostrava as garras. Na primeira vez em que a vira ela tinha treze anos e cuidava das flores nos jardins de um colégio católico. Ingênua não por inocência — embora isto também estivesse presente —, mas por ignorância. A mãe criara-lhe para a reclusão dos conventos e, após tornar-se órfã, Persefone passara para os cuidados de seu tio em segundo grau e sacerdote. Uma desgraça.

— Como pôde fazer isso comigo, seu... seu... ah!? — ela gritou. Algumas das pétalas vermelhas caíram na lama, outras planaram por meio segundo e pousaram na cova. Hades sentiu o gosto salgado de ferro e ferrugem quando uma gota de seu próprio sangue verteu e encostou-se aos lábios.

Ergueu-se e puxou a criaturinha enfurecida para seus braços, roçando a boca à dela ao declarar para os excelentes atores que eram os seus pais e os amigos da família:

— Agradeço por terem estado aqui num momento tão importante para minha futura esposa, mas acho que Persefone pretende dizer sim somente para os meus ouvidos. Tenham um belo dia.

Ergueu-a em seu colo e andou até o estacionamento com ela ainda exaltada e a chuva lhes dando uma surra. Persefone limitou-se a cruzar os braços e as pernas assim que a acomodou no banco do carona e passou dois terços do trajeto calada.

— Para onde está me levando? — ela finalmente perguntou. Fingia estar irritada, mas os olhos marejados denunciavam-na.

— Para o seu quarto. Quero te dar um banho e trocar essas roupas antes que pegue um resfriado.

— Estou bem.

Sua tosse disse o contrário.

— Não está, não — estendeu a mão direita para pegar a dela. Persefone recusou, recolhendo as suas em punho e apertando-as junto ao peito no primeiro momento, contudo, pareceu arrepender-se e segurou a dele com ambas as suas. Estavam geladas.

— Colocou a tranca na janela antes de sair? — perguntou-lhe mais tarde, ao abrir a porta e estender o braço para guiá-la. Ele havia instalado uma fechadura na janela e a chave era o pingente do colar em seu pescoço. Útil para quando queria entrar no quarto sem que nenhuma das outras garotas notasse, mas, para garantir que ninguém tentaria incomodá-la, também anexara uma tranca de madeira que Persefone só retirava minutos após mandar-lhe um SMS avisando que iria vê-la.

— Não. Eu não tive tempo para pensar em janelas abertas e colchas de cama desarrumadas. Estava meio ocupada chorando — ela respondeu, ácida.

Abriu o porta-malas, retirando os embrulhos, e deixou-a resmungar. Andou até a janela e dobrou-se pelo parapeito para colocar as sacolas no chão do quarto antes de voltar para o exterior, pegá-la novamente no colo e entrar pela porta da frente. Pousou-a no chão apenas quando chegaram ao quarto, trancou a porta e a janela, depois desabotoou a camisa molhada.

Foi quando ela reagiu.

— O que está fazendo?

— Eu já disse, vou dar um banho em você e trocar essas suas roupas molhadas.

— Acha que pode simular uma morte só para me pedir em casamento e me ver nua depois?

— Eu gostaria de saber em que momento disse que você ficaria nua. Estava pensando só em livrá-la do jeans apertado e da blusa suja de terra, mas, se insiste... Seu corpo é um deleite perfeitamente inegável, madame — a provocou.

Persefone passou por ele batendo o pé e arrancando a camiseta no caminho para o banheiro. Quando Hades alcançou-a, vestia nada mais que a lingerie de algodão cujas peças nem ao menos combinavam entre si. Uma delas era azul-claro, a outra, negra.

— Vai ficar aí de braços cruzados ou me ajudará com essa coisa? — ela perguntou, fazendo uma careta quando a escova repuxou um dos nós.

— Acho que pentear o seu cabelo é o mínimo que posso fazer depois de ter sido tão extremista, não é? — aproximou-se.

Ela desviou-se do assunto:

— O que há nas sacolas?

Desembaraçou-lhe todo o cabelo antes de responder, contudo, acostumada como ela estava com o seu silêncio, Persefone não o apressou.

A água já tinha lavado toda a terra do corpo dela — encharcados grãos de areia nas lajotas — e transformado o tecido azul do sutiã em mero trapo transparente quando, com qualquer coisa lhe ardendo o corpo, Hades ronronou em sua nuca:

— Presentes.

Persefone tremeu.

— Para quem?

— Você — mais soprou que proferiu, fazendo questão de que sua respiração lhe contorcesse o corpo em cócegas.

— O que s-são? — e ela cerrou as pálpebras com força.

— Isso... – beijou seu pescoço — é... – seguiu a curva que ia da cintura aos quadris com as mãos espalmadas — segredo — Koré arquejou e ele perdeu a paciência. Ergueu-a no colo e a beijou, só se dando conta do quanto a tocara durante o banho quando ela se encolheu envergonhada sobre a cama, envolta em nada mais que uma toalha.

Persefone:

— Feche os olhos — Hades pediu; as palavras esgueiravam-se por seu corpo em fagulhas e cravavam raízes profundas em seu débil coraçãozinho. Suaves, porém, não menos instigantes.

Sentiu-lhe o toque sobre os pulsos, que lhe apertavam a toalha ao peito, e estremeceu.

— Confie em mim, Koré — mais uma súplica sussurrada contra seus lábios; e a verdade? Não possuía ou almejava conter a capacidade de negar-lhe qualquer que fosse o pedido. — Não irei feri-la. Nunca.

— Mas... — suas palavras tragaram a elas mesmas, transformando a frase num sopro brumoso perdido em penumbra.

— Mas?

— Mas não estou p-pronta — gaguejou.

— Persefone — profunda e sensata, soou sua voz; como tudo nele —, eu não quero isso. Nunca tive a pretensão de... — Hades, então, implorou: — Por favor, não sinta medo de mim. Você não.

Medo. Hades inspirava aquilo em todos os demais que não nela. E Persefone jamais os compreenderia.

Médico-forense aos trinta anos; aceito na faculdade aos quinze. Cristão católico apostólico romano, raro era o dia em que não abdicava uma ou duas horas em prol da missa.

Nunca o vira com outras cores que não preto, branco e cinza. E era grata por tal fato. Com aquele verde nos olhos, qualquer azul ou vermelho seria pura mácula.

E havia ela.

Já ouvira pessoas maldosas levantarem a hipótese de Hades ser seu pedófilo e duvidava que ele não lhe ocultasse intrigas infinitamente piores.

— O que eu sinto por você não é medo — seu tom parecia de outra qualquer que não a quebradiça Persefone.

— E o que é?

Quis abrir os olhos, trazê-lo para seu colo e enterrar os dedos em seus cabelos. Ali, com toda aquela agonia suplicante impregnando seu tom, de repente, era ela quem aparentava estar abusando de alguém.

— Fascínio.

O beijo dele era como ser sepultado vivo. Como despertar de um sonho e deparar-se no interior de um caixão. Como desesperar-se e bater na madeira até a pele ter abandonado seus dedos, expondo a carne e fazendo-lhe as mãos arderem num martírio apenas menor que o de seus pulmões clamando por oxigênio. Era como finalmente romper as tábuas e a terra tragar-lhe enquanto, involuntariamente, você a engole. Como respirar tendo apenas as estrelas no firmamento e as lápides do cemitério em testemunhas. Como estar viva*.

Viva. Persefone nunca estivera consciente do quão viva era até Hades puxar seus dedos, um por um, e desprendê-los da toalha levando seu tolo coraçãozinho a contrair-se numa dor arrebatadoramente gentil. Até Hades afastar o tecido felpudo tocando-lhe com o indicador do colo ao ventre e ela reprimir o grito desencadeado por sua pele em êxtase. Até Hades apartar-lhe os lábios e ela abrir os olhos no instante em que ele derramava sobre seu corpo pétalas de rosas.

As primeiras eram borgonha — significavam beleza inconsciente. — Uma a uma, Hades pousou-as sobre sua palma após beijar-lhe ali.

Os lábios dele defloraram seus pulso, antebraço e ombro. Suas clavícula, bochecha e têmpora. Ela arfou. Hades soprou pétalas roxas — encantamento — em seu cabelo.

E ela não pôde não sorrir.

Assistiu-o levar uma marroquina — eu te amo — à boca e beijá-la antes de oferecer-lhe e indicar que a conservasse junto aos seios.

Foi, porém, quando Hades verteu rosas brancas — inexperiência — sobre seu ventre, que o choro mostrou-se não sufocável.

Ele se ajoelhou e Persefone encolheu-se contra o dossel, inutilmente ocultando a nudez com os punhos sem se atrever a desprender-se da rosa marroquina ou das pétalas de rosa borgonha. O cheiro das roxas lhe indicava que algumas ainda estavam em seus cabelos e sentia as brancas geladas contra aquela parcela em brasas de pele.

— Aceita ser minha esposa, Koré? — era o grego para mocinha, ele dissera uma vez — Aceita se casar comigo?

E o que mais ela ousaria responder?

— Sim.

Hades sorriu e lhe beijou.

Persefone fechara os olhos uma vez mais, resoluta em adormecer sob aquele ósculo, mas sentiu-o prender outra flor, agora sobre a aurícula* esquerda.

De soslaio viu a cor e aquilo fê-la ferver em ira. Amarelas. Rosas amarelas tinham dois possíveis significados e o primeiro deles era adultério.

— Então, é verdade? Você e Mynta...? — escondeu o rosto entre os joelhos, incapaz de frear a repulsa que sentia de si mesma.

Ali estava ela, tolinha como sempre, se desfazendo a cada mínimo toque daquele homem e ele a traíra como diziam que tinha feito.

— Nunca — Hades ergueu seu rosto e o corpo dela voltou a ter vida. – Nunca, Persefone. Eu confesso que cheguei a rir desses boatos bobos, mas, como você não me perguntou nada, minha querida, achei que não existissem dúvidas sobre ser apenas uma mentira...

Ele tocou a rosa e sorriu. O rubor em sua face pálida tornando-o um menino.

— Você disse que elas também podem querer dizer ciúmes — Hades fitou o teto e tragou o ar antes de pedir: — Se pudesse, por favor, me permitir abusar da sua gentileza e concordar em usar o anel de noivado ao menos perto do Adônis, eu ficaria grato.

— Ciúmes? — sorriu, cobrindo precariamente a boca com a mão que ainda segurava as pétalas — Está com ciúmes do Adônis?

— Ele flerta descaradamente com a minha noiva!

— Sua? Noiva? Flertar? — instigou, porque amava quando ele falava de modo tão antiquado.

Hades a puxou pela cintura, brasas verdes em seus globos oculares.

— Minha. Minha noiva. E somente eu posso cortejá-la.

Notas finais
*Kill Bill, um clássico u.u *Porque orelha não é uma palavra bonita.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!