Primeiro Amor
7 Capítulo 7
Notas iniciais
— Não consigo enxergar! — ela repetiu mais uma vez, claramente angustiada.
— Acalme-se, Srta., está tudo bem…diga, consegue enxergar alguma coisa agora? — indagou Whale, ascendendo uma luz no final do quarto.
De repente, o desespero deu espaço a um largo sorriso. Emma capturou a luz ao fundo, embora tudo estivesse turvo e embaçado. Aos poucos, Whale foi ascendendo o restante das luzes, e finalmente, a claridade total se fez presente. Dessa vez, as palavras de Emma eram outras, além de alegres, os sorrisos transformaram-se em gargalhadas.
— Perdoe-me pelo susto, Srta., mas é recomendável não expor os olhos a luz forte logo que os tapões são retirados. É preciso alguns minutos para que os olhos se acostumem com a claridade, compreende? — Whale explicou.
— Sim, Dr., eu compreendo — Emma disse, enquanto virava-se para observar sua mãe e receber um abraço dela, de sua irmã Elsa e de seu pai, James.
— A senhorita ficará em observação até amanhã de manhã.
Passava das dezesseis horas quando Ingrid adentrou o quarto em que Emma ficaria em observação. Elsa acabara de se despedir para dar lugar a sua mãe, uma vez que Whale havia informado que seria mais conveniente ter alguém ao lado de Emma enquanto esta não recebesse alta. Cada vez que a porta se abria, Emma sentia o coração disparar imaginando ser a Dra. Mills. Desde a primeira conversa que teve com ela, Emma não pôde evitar a vontade de tê-la por perto, de conversar, de sentir o seu toque que a estremecia. E depois de saber que seu nome era o mesmo nome do seu primeiro amor, a curiosidade passou a perturbá-la noite e dia. Se perguntava se a Dra. Mills possuía algum tipo de semelhança com aquela garota por quem se apaixonou. A julgar pelo tom de voz, imaginou uma fisionomia forte, firme, exótica. Foi tirada de seus pensamentos quando Ingrid se pronunciou.
— Filha, tudo bem?
— Sim, mamãe…está tudo bem.
— Você parece preocupada, perdida. No que está pensando?
— Estou pensando no quanto eu fui boba em me deixar abater, em me entregar a solidão e a amargura. Eu teria ficado cega a vida inteira por um medo bobo de alimentar falsas esperanças.
— Foram apenas alguns meses e graças a Deus, você reagiu.
— Graças a Deus e graças a Dra. Mills. Ela me mostrou a verdade com palavras tão amargas e doces ao mesmo tempo…
— Sim…ela é uma grande mulher. Se todos os profissionais da saúde fossem tão dedicados como ela, teríamos um mundo melhor.
— Como ela é, mamãe? Assim...fisicamente.... — Emma perguntou, enquanto desejava a todo momento que a Dra. Mills adentrasse aquele cômodo.
— Bom… — Ingrid começou, e antes que pudesse dizer algo mais, James apareceu, interrompendo a conversa.
O restante do dia transcorreu de forma tranquila, e ao anoitecer, após o jantar, a enfermeira chefe informou que os pais de Emma ou qualquer outra pessoa, não poderia permanecer no quarto. Dessa forma, a contragosto, Ingrid retornou para casa, avisando que de manhã bem cedo, viria para buscá-la.
Por mais entediada que estivesse, Emma não se esforçou para dormir, uma vez que ainda esperava receber uma visita da Dra. Mills. Para ela, infelizmente, aquele desejo não se realizou e acabou adormecendo sem poder olhar nos olhos daquela que vagava em seus pensamentos.
[…]
Na manhã seguinte, conforme o médico havia informado, Emma recebeu alta. Todavia, a recomendou repouso por alguns dias, deixando claro que ela deveria evitar o contato com luzes fortes, fossem dos raios solares ou artificiais, ressaltando a extrema importância do uso devido de óculos escuros sempre que estivesse sob a luz do sol, pelo menos por alguns dias.
— Dr. Whale, a Dra. Mills se encontra no hospital? — Emma perguntou.
— Não…a Dra. Mills viajou para uma cidade interiorana aqui perto — ele disse.
— Por quê? — questionou Ingrid, tão interessada quanto Emma.
— O neurocirurgião que viajaria para lá, acabou adoecendo. E como a lista de cirurgias está extensa, a solicitaram.
— Ah…tudo bem. Por favor, quando ela voltar, poderia pedir para que entrasse em contato conosco? — Emma falou, esboçando um meio sorriso quando o médico consentiu.
Antes de ultrapassarem a porta do hospital, Emma colocou os óculos escuros, observando tudo e todos a sua volta. Não deixou de sorrir ao se dar conta do quanto era agradável conseguir enxergar a luz do dia, as expressões das pessoas. Embora tivesse passado poucos meses privada desse dom, parecia que havia passado uma eternidade na escuridão. Enquanto seu pai dirigia ao mesmo tempo em que conversava com sua mãe, ela mais uma vez se perdia em pensamentos, formando em sua mente imagens sobre as feições da Dra. Mills.
— Já foram? — questionou Regina.
— Sim…ela perguntou por você — Whale disse.
— Falou o que eu pedi?
— Sim…porque está se escondendo dela?
— Não estou me escondendo.
— Ok, por que a está evitando?
— Longa história.
— É ela, não é?
— Sim… — Regina respondeu, sentando-se em seguida. Instintivamente, suas mãos deslizaram por entre seus próprios cabelos. Sua expressão denotava uma mistura de sentimentos. Tristeza, aflição, angústia. Whale se acomodou a seu lado e num gesto carinhoso, tocou-lhe o ombro.
— Acha que conseguirá se esconder por muito tempo?
— Já disse que não estou me escondendo! Além disso, ela nem deve se lembrar de mim!
— Se ela realmente te amou, lembrará sim.
— Ela não me amou. Ela mentiu pra mim! Estava comprometida, me iludiu, me partiu o coração.
— O que vai fazer?
— Nada. Seguirei com minha vida como venho fazendo e ela seguirá com a dela.
Alguns dias se passaram e finalmente Emma se encontrou totalmente recuperada. Estava feliz pelo sucesso de sua cirurgia e pela felicidade de seus pais e sua irmã. Todavia, algo lhe faltava.
— Elsa, teve notícias da Dra. Mills? — Emma perguntou, enquanto arrumava algumas flores em um vaso.
— Não, por quê?
— Ah, achei que vocês haviam se tornado amigas. Ela é médica, você cursa medicina…
— Quem me dera ser amiga dela. Mas não creio que ela tenha tempo para amizades.
— Como ela é? Digo, assim…fisicamente — indagou Emma, procurando disfarçar seu interesse. Lembrava que havia feito essa mesma pergunta a sua mãe, todavia, não obteve resposta, uma vez que seu pai interrompera a conversa.
— Você não a viu no hospital?
— Não…quando recebi alta, ela já tinha viajado a trabalho. Nem tive como agradecê-la nem nada.
— Bom, devo confessar que é uma mulher muito bonita, de postura firme e elegante. Nas vezes em que estive com ela, só a vi sorrir uma vez. Ela é extremamente séria.
— Exatamente como imaginei…quer dizer, a voz grave e quase que severa nos dá essa impressão — Emma falou, claramente desconsertada com o olhar que recebeu de sua irmã. — Mas você não me disse muita coisa sobre o físico dela — acrescentou, se esforçando para não demonstrar tanto interesse.
— Bom, não é muito alta, mas também não é tão baixa. Tem o corpo bonito, em forma, os cabelos são curtos e negros, os olhos castanhos e a boca do tipo perfeita — fez uma pausa como se estivesse pensando, e em seguida, retomou sua fala. — Mas o que mais me chamou a atenção, foi a cicatriz que ela carrega no lábio superior — acrescentou, ouvindo apenas o barulho do vaso espatifando-se no chão. — Emma! Você está bem? — indagou Elsa, aproximando-se com uma expressão assustada.
— Sim…foi apenas…foi só um mal-estar — ela disse, enquanto assimilava aquela informação.
As lembranças daqueles momentos vividos há tantos anos, vieram à tona de forma arrebatadora, fazendo com que suas mãos suassem e tremessem apenas com a possível possibilidade da Dra. Mills e seu primeiro amor, Regina, se tratarem da mesma pessoa. Para ela, aquelas características não poderiam se tratar de uma mera coincidência. O mesmo nome, a mesma cor dos cabelos e da pele, aquela voz grave capaz de fazer estremecer qualquer ser humano, e o mais incrível de tudo…a cicatriz. Qual seria a possibilidade de duas pessoas diferentes possuírem uma cicatriz no mesmo lugar? Emma se perguntava, enquanto os flashes em sua mente davam voltas e mais voltas.
— O que aconteceu? Ouvi um barulho de algo se quebrando… — Ingrid falou, interrompendo-lhe os pensamentos.
— Eu me distrai e quebrei esse vaso, não foi nada, mamãe — ela disse, afastando-se para que uma das empregadas limpasse a sujeira.
— Você disse que sentiu um mal-estar, Emma — Elsa falou, nitidamente preocupada.
— Não foi nada! Eu preciso sair — disse Emma, se dirigindo em direção à porta.
— Para onde vai? Você precisa de repouso, filha!
— Já repousei o suficiente!
— Para onde vai, Emma? — Elsa perguntou.
— Eu preciso respirar ar puro! Não se preocupem, eu não demoro! — dito isso, ela se retirou.
Enquanto dirigia em direção ao hospital onde a Dra. Mills trabalhava, Emma sentia o coração bater mais forte e mais acelerado à medida em que se aproximava do destino desejado. Embora o Dr. Whale tivesse informado que a médica havia viajado, Emma decidiu arriscar, uma vez que muitos dias tinham se passado e talvez, Regina já se encontrasse a postos. Tão logo estacionou, Emma se dirigiu à recepção e assim como imaginava, a Dra. Mills estava de plantão. Ao ser reconhecida por uma das enfermeiras como a filha da dona de uma das maiores universidades privadas de Augusta, Emma não teve dificuldades em ser acompanhada até a sala de Regina Mills.
— Quer que eu avise que a senhorita está aqui? — indagou a enfermeira.
— Não, obrigada. Eu falei com ela por telefone antes de vir — mentiu, embora soubesse que veria Regina independente do que dissesse.
Tão logo a enfermeira se retirou, Emma bateu duas vezes à porta, adentrando o cômodo quando a voz grave da Dra. Mills lhe deu autorização. Em silêncio, ela fechou a porta atrás de si, analisando aquela figura vestida toda de branco de costas para ela.
— Boa tarde, Dra. Mills — Emma falou, e instintivamente, o coração de Regina disparou.
Ainda de costas, Regina tentava controlar as reações de seu corpo mediante aquela presença. Reconheceria aquela voz em qualquer parte do mundo, bem como aquele cheiro que mesmo depois de tantos anos, continuava o mesmo. Suas mãos se mostraram trêmulas e seu coração continuava acelerado. Discretamente, ela puxou o ar com força para logo em seguida, soltá-lo devagar, virando-se para encarar aquela mulher que ainda conseguia fazê-la estremecer.
— Boa tarde, Srta. Swan — ela falou, e então viu a dois palmos de seus olhos, outros olhos esverdeados e brilhantes, o rosto lívido, os lábios petrificados pelo susto do amor.
O tempo parecia ter parado naquele momento. Uma encarava a outra em silêncio, e embora não fosse possível ouvir, o coração de ambas batia mais forte do que o normal. Regina mantinha a expressão habitual, séria, dura, enquanto Emma, não conseguiu esconder a surpresa ao comprovar que aquela mulher diante de si, se tratava da mesma e única garota que conseguiu provocar aquela famosa sensação de borboletas no estômago.
— Você tinha razão quando disse que a esperança é a última que morre. Apesar de tudo, bem lá no fundo do meu coração, vivia a esperança de que um dia nos encontraríamos — disse Emma.
— O que deseja, Srta. Swan? — indagou Regina, ignorando todas aquelas palavras.
— Acho que temos alguns esclarecimentos que não foram feitos quando deveriam ter sido.
— Não sei do que está falando.
— Sim, você sabe. Você sabe quem eu realmente sou? — Emma perguntou.
— É claro que sei! Você é a garota rica e mimada que se divertiu à custa de uma pobretona idiota do interior! — exclamou Regina, num tom exaltado.
— Isso não é verdade! Eu lembro perfeitamente que te pedi para me esperar enquanto…
— Enquanto o que? Enquanto dava uma volta no carro importado do seu namoradinho?
— É claro que não!
— Escute bem, Srta. Swan…o que aconteceu há tantos anos já não me importa mais, ficou no passado! O que quer que tenha para me dizer agora, não fará diferença alguma.
— Eu não queria que…
— Meu amor… — disse Milah, abrindo a porta sem se anunciar. — Oh, perdão! Não sabia que você estava com uma paciente — justificou-se, e ao fazer menção de se retirar, Regina se pronunciou.
— A Srta. Swan já estava de saída — ela falou, mantendo seus olhos castanhos fixos nos olhos verdes.
— Com licença! — Emma falou, se retirando em seguida.
[…]
— Foi impressão minha ou você estava discutindo com aquela mulher? — Milah perguntou.
— Impressão sua — disse Regina, mantendo-se atenta ao trânsito.
— Está chateada?
— Não gosto que me interrompa quando estou trabalhando, principalmente que entre em minha sala sem ser anunciada.
— Você gosta de alguma coisa que eu faço, Regina?
— Milah, por favor…não quero discutir.
Enquanto Regina retornava para casa ao lado de Milah, Emma permanecia no estacionamento do hospital trancada em seu carro. Apesar de a surpresa ao descobrir que a Dra. Mills e Regina eram a mesma pessoa de seu passado, estava feliz por finalmente tê-la encontrado, embora tivesse quase certeza de que Regina já tinha alguém em sua vida, uma vez que ouvira claramente aquela desconhecida chamá-la de “meu amor”.
— Desta vez não deixarei você fugir de mim, Regina…eu juro — Emma falou, em pensamento.
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