Primeiro Amor
6 Capítulo 6
Os exames realizados por Emma finalmente se encontravam nas mãos do Dr. Whale. Ao lado de Regina, ele aguardava a família Swan para que pudesse lhes dar a grande notícia.
Emma se encontrava receosa, não havia conseguido dormir à noite anterior, uma vez que seus pensamentos pessimistas temiam o conteúdo nos resultados dos exames. Acompanhada por sua mãe e sua irmã, Emma chegou ao hospital e rapidamente fora conduzida à sala do médico responsável pelo seu caso.
O choro foi inevitável, bem como os sorrisos carregados de esperança e alegria, uma vez que segundo o Dr. Whale, Emma tinha 90% de chances de recuperar a sua visão, embora um trauma ocular exigisse um atendimento médico rápido, o que não foi o caso de Emma, todavia, segundo ele, uma cirurgia poderia sim devolvê-la a capacidade de enxergar.
— Daqui a três dias realizaremos a cirurgia, senhorita Swan — disse ele, exibindo um largo sorriso.
Regina os acompanhou até o estacionamento do hospital. Enquanto caminhava, ela explicava os cuidados que Emma deveria tomar antes e após a operação. Apesar de não ser sua especialidade, Regina passava horas estudando a respeito de diversas áreas do ramo da medicina, uma vez que para ela, quanto mais conhecimento, melhor.
Após se despedir da família Swan, Regina retornou para seu posto e o restante do dia transcorreu de forma tranquila.
…
Enquanto dirigia em direção ao apartamento de Milah, Regina recebeu uma ligação de Ingrid Swan, convidando-a para jantar em sua casa. Embora cogitasse recusar o convite a princípio, mediante a insistência da senhora Swan, ela acabou por aceitar.
— Uns amigos meus marcaram um encontro num restaurante recém-aberto à beira mar. Queria que você viesse comigo — disse Milah, enquanto distribuía beijos molhados pela nuca de Regina.
— Não posso querida, tenho um compromisso — ela disse, mantendo-se atenta à tela do laptop apoiado em suas coxas.
— Você não me falou de nenhum compromisso — ela comentou, de joelhos sobre o colchão da cama. — Que compromisso é esse?
— A dona da universidade onde proferi aquela palestra, me convidou para um jantar em sua residência.
— Essa mulher vive te ligando! Por acaso ela está interessada em você? — Milah indagou, num tom nada amigável.
— É claro que não! Ela apenas quer me agradecer por ajudar a filha dela!
— E não pode recusar esse jantar?
— Não, não posso.
— Por quê? Está interessada na filha dela?
— Milah, não me tire a paciência, por favor.
— Desde que chegou daquela bendita palestra, você vem me tratando com indiferença.
— Se você quer tanto ir a esse encontro com seus amigos, pode ir.
— É claro que eu posso ir! Você está pouco se lixando se saio, com quem saio ou se deixo de sair!
— O que você quer que eu faça? Que te proíba de fazer o que quer?
— Sim, Regina! Eu queria que você me proibisse, que brigasse comigo, não porque está mal-humorada como quase sempre, mas por ciúmes! Coisa que você nunca sentiu e acredito que jamais sentirá! — dito isso, Milah se retirou do quarto, deixando Regina perdida em pensamentos.
Algumas horas depois, Regina se encontrava devidamente pronta. Seus trajes elegantes e “comportados” denotavam toda a seriedade existente em sua personalidade. Assim que seu carro ultrapassou os limites do muro da mansão, Regina não conseguiu evitar que as lembranças novamente lhe invadissem a mente, trazendo à tona aquele gosto amargo dos amores impossíveis.
Parada diante da porta, ela suspirou, respirou fundo, e ao fazer menção de apertar a campainha, a porta se abriu. Seus olhos se fixaram em Úrsula, a governanta da família, a mesma que a conduziu até a porta dos fundos da mansão há quinze anos. Só agora se dava conta do quanto havia mudado, uma vez que a governanta, em momento algum, demonstrou qualquer surpresa ao vê-la.
— Seja bem-vinda, Dra. Mills — disse Ingrid, cumprimentando-a com um beijo em ambos os lados do rosto.
— Obrigada, senhora Swan, mas pode me chamar de Regina — ela disse, esboçando um meio sorriso.
— Só se você me chamar de Ingrid — replicou, retribuindo o sorriso ao mesmo tempo em que seus olhos azuis se mantinham fixos nos olhos castanhos.
Por uma fração de segundos, as duas mantiveram firme aquela troca de olhares, e talvez, tivesse durado um pouco mais se não fosse pela interrupção de James.
— Boa noite — ele disse, exibindo seu habitual semblante sério.
— Boa noite — as duas responderam em uníssono, todavia, Ingrid se apressou em apresentá-los.
Poucos minutos depois, Emma apareceu acompanhada por Elsa. Enquanto cumprimentava Regina, Emma voltou a sentir aquele mesmo arrepio e calor em seu corpo como há muito tempo não sentia. A presença da Dra. Mills a intrigava, bem como sua voz. Havia algo familiar naquela voz, no tom grave e rouco, mas ela não conseguiu identificar.
— Espero que a comida seja do seu agrado, Regina — disse Ingrid, tão logo sentaram-se à mesa.
Emma que estava prestes a levar o copo com água à boca, deixou-o cair no exato momento em que sua mãe pronunciou aquela palavra. Seu coração de súbito disparou, e seus olhos, embora estivessem impossibilitados de enxergar, se arregalaram naturalmente.
— Filha? Está sentindo alguma coisa? — indagou Ingrid, tocando-lhe o ombro.
— Não, mamãe…o copo escorregou da minha mão, desculpe — ela disse, procurando disfarçar seu desconserto.
A simples pronuncia daquele nome trouxe de volta à sua mente, a imagem daquela garota, que apesar da idade, mostrava-se mais “criança” do que ela. Naquele momento, Emma se deu conta de que Regina nunca lhe falou seu sobrenome, ela tampouco o fez. Sendo assim, tratou de afastar aquelas lembranças da sua cabeça, uma vez que em seu raciocínio, seria impossível que aquela médica sentada à mesa de sua casa e aquela garota humilde do interior, se tratassem da mesma pessoa. Regina, por sua vez, fingiu não dar muita atenção aquele acontecimento, e dessa forma, o jantar transcorreu de forma tranquila.
James não se mostrou muito receptivo em relação a presença de Regina em sua casa, principalmente pelo fato dela ter revelado detestar a política, ressaltando que nessas horas, agradecia aos céus por ter nascido em um país onde o voto não era obrigatório. Embora James tivesse deixado explícito que pretendia se candidatar a governador do estado, Regina não se importou com tal informação mantendo firme o seu ponto de vista.
Ao final do jantar, Emma se queixou de um mal-estar e após quase desmaiar, James e Ingrid a conduziu para o quarto, enquanto Regina, buscou sua maleta em seu carro, alegando que daria uma olhada em seus batimentos cardíacos e na sua pressão, apenas para se certificar de que não era nada demais. Assim que retornou para dentro da mansão, Elsa acompanhou Regina até o quarto de sua irmã.
— Eu estou bem, foi apenas uma tontura — disse ela.
— A Dra. Mills vai te examinar — Ingrid falou. — Vamos James, Elsa…
— Porque precisamos sair do quarto? — ele perguntou, claramente aborrecido.
— Não precisam sair do quarto, Sr. Swan — Regina falou, aproximando-se com sua maleta.
— Vamos deixá-las à vontade, Dra., com licença — Ingrid falou, ignorando os protestos de seu marido e se retirando do quarto junto com ele e Elsa.
Regina não esperou que a porta fosse fechada para desabotoar os primeiros botões da camisa que Emma usava, Em seguida, com o estetoscópio, pôde ouvir os batimentos cardíacos daquela mulher tão linda e tão frágil deitada na cama, que por sinal, estavam um tanto acelerados. A pressão se encontrava um pouco abaixo do considerado normal, mas nada que pudesse levar a crer que algo grave demais estivesse se passando com ela.
— Você tem se alimentado normalmente? — Regina perguntou, travando uma batalha dentro de si na tentativa de impedir que seus olhos se focassem tanto no decote aberto e convidativo de Emma.
— O que seria se alimentar normalmente para você?
— Não pular nenhuma refeição se encaixa no quesito se alimentar normalmente.
— Bom… — ela murmurou, suspirando em seguida, e embora não pudesse enxergar naquele momento, Emma sentia o olhar de Regina sobre si. — Confesso que estou nervosa com a cirurgia e por isso, não me alimentei hoje, exceto agora a pouco, no jantar — ela confessou, e no mesmo instante, Regina a repreendeu.
— Você precisa se cuidar, precisa estar bem para a cirurgia.
— Eu sei, desculpe.
— Bom, está tarde e a deixarei descansar. Tenha uma boa noite — Regina falou, e ao fazer menção de se levantar, Emma tateou a cama, na tentativa de tocá-la para retê-la.
— Dra. Mills?
— Sim?
— Deixe-me conhecê-la.
— Conhecer-me?
— Sim — ela disse, sentando-se na cama e estirando ambas as mãos.
Embora não estivesse segura se aquilo seria uma boa ideia, Regina se aproximou um pouco mais, pousando suas mãos sobre as mãos de Emma. Naquele momento, nenhuma delas se atreveu a dizer uma palavra que fosse, permaneceram em silêncio. Regina se mantinha atenta a cada movimento que as mãos de Emma realizavam sobre as suas, especialmente quando os dedos delicados passaram a deslizar sobre os seus braços, chegando aos ombros até que lhe tocassem a face. Instintivamente, os olhos de Regina se fecharam. Sua pele queimava mediante aquele toque, seus pelos se eriçavam e sua respiração, começava a ficar alterada.
— Eu preciso ir, Srta. Swan — murmurou Regina, quebrando o silêncio e o contato entre elas.
— Obrigada…por tudo — disse Emma, tão ofegante quanto.
— Até breve — dito isso, Regina se retirou, deixando para trás, seu primeiro, verdadeiro e até então único amor perdida em pensamentos.
Tão logo desceu as escadas, James e Ingrid a abordaram, todavia, se tranquilizaram quando Regina esclareceu que tudo se tratava da alimentação irregular dos últimos dias. Ingrid se comprometeu a ficar atenta a esse quesito, e não hesitou em acompanhar Regina até o carro.
Assim que chegou ao seu apartamento, banhou-se e se jogou em sua cama. Agradeceu o fato de Milah ter decidido ir ao encontro dos amigos, só assim ela poderia descansar sem antes precisar debater o mesmo assunto de sempre.
Enquanto folheava um livro, Regina imaginava qual seria a reação de Emma ao descobrir que ela era aquela garota do interior, sonhadora e apaixonada.
— Talvez ela nem lembre de mim, do meu rosto, dos meus traços…ela nem reconheceu a minha voz… — murmurou consigo mesma, levando em consideração que a governanta da família não a reconheceu e talvez, com Emma, acontecesse o mesmo. De qualquer forma, preferia não vê-la, preferia não ter mais contato com aquela família, embora Ingrid e Elsa tivessem se mostrado pessoas simpáticas e simples, diferente de James que fazia questão de impor superioridade diante de tudo e de todos. Por fim, resolveu que apenas cumpriria o prometido: acompanharia a cirurgia de Emma e depois, cada qual seguiria seu caminho.
[…]
Finalmente o dia da cirurgia chegou. Regina já se encontrava ao lado do Dr. Whale, conversando a respeito da operação. Dessa vez, a família completa estava presente, todavia, aquele fato em nada agradou a morena, uma vez que as expressões de superioridade apresentadas por James a incomodavam demasiadamente. Não demorou para que Emma fosse conduzida até a sala de cirurgia. A seu pedido, Regina a acompanhou e permaneceu ao seu lado conversando amenidades com o intuito de distraí-la e tranquilizá-la.
— A cirurgia começará dentro de alguns instantes. Você será sedada, então, fique tranquila, tudo dará certo — Regina falou.
— Você vai embora? — ela perguntou, procurando a mão de Regina com a sua.
— Estarei por perto — ela disse, segurando-lhe a mão, soltando-a apenas quando o efeito do medicamento se fez presente, e Emma “adormeceu”.
Alguns minutos depois, a equipe médica apareceu, organizando-se para dar início à cirurgia. Regina se retirou, uma vez que sua presença ali não seria de extrema necessidade. Antes de se dirigir à sua sala, Ingrid a abordou para questioná-la sobre o estado de saúde de sua filha. Regina esclareceu que a cirurgia, a essa altura, já deveria ter começado, e que não havia o que temer, uma vez que a equipe médica responsável pela operação era de extrema confiança.
Algum tempo depois…
— E então, Dr., como foi a cirurgia? Como está a minha filha? — indagou Ingrid, num misto de desespero e aflição.
— Sua filha está bem, a cirurgia foi tranquila — ele disse, e no mesmo instante, James envolveu sua esposa num abraço apertado, suspirando aliviado com aquela notícia.
— Ela pode enxergar? — James perguntou, afastando-se de Ingrid.
— Só saberemos quando os tapões forem retirados de seus olhos, o que levará algumas horas, Sr. Swan.
Algumas horas depois, Emma pôde receber a visita de sua família, ao mesmo tempo em que o cirurgião, ao lado do Dr. Whale, informava que os tapões já poderiam ser removidos.
— E a Dra. Mills? — Emma perguntou, ao ouvir todas as vozes dos que se encontravam no quarto, exceto a que mais desejava ouvir.
— A Dra. Mills está na sala de operação nesse exato momento, Srta. — disse Whale.
Ao notar que o médico se aproximava para retirar os tapões, Ingrid segurou a mão de sua filha como se buscasse passar toda a confiança do mundo mediante aquele momento. Embora gostasse de todo aquele carinho e preocupação da sua família, Emma desejou que no lugar da mão de sua mãe, fosse a mão da Dra. Mills.
— Pode abrir os olhos, Srta. — o médico falou.
Lenta e hesitante, Emma fez o que lhe foi instruído, todavia, agitou-se na cama ao se dar conta de que tudo continuava escuro.
— Não consigo enxergar…não consigo! — ela disse, num misto de raiva e decepção.
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