Primeiras Cores
1 I - Uma Chance?
Notas iniciais
Uma nova chance de vida, eles tinham me dito. Depois da minha tentativa – bem falha – de suicídio, eu perdi totalmente a esperança nas pessoas e na forma em si de viver. Mais da metade das pessoas no meu facebook me tachavam de ridícula e estúpida, pensando eles que meu maior motivo de ter engolido aqueles remédios foi o meu término de namoro com Pierre. Tolos. Mal sabem eles o quanto eu simplesmente não ligava muito pra aquilo que um dia tivemos. Eu não conseguia sentir atração por aquele garoto. Melhor ter terminado assim.
Mas o que me preocupou fora a reação dos meus pais. Logo quando eu voltei pra casa, minha mãe caiu aos meus pés e chorou mais do que chorara no divórcio de seu casamento. Minha irmã me abraçou e tentou iniciar um diálogo comum, de gente normal, mas acabou em uma discussão desnecessária e sem sentido. Uma Adams não consegue ter uma conversa madura com outra Adams. Meu pai chegou a me ligar. Ouvir sua voz em um tom normal me deixou com vontade de dar risada. Até quando o assunto era a quase morte de sua filha, ele se mantinha controlado. Imagino se minha mãe fosse querer fazer “A” cerimônia em minha homenagem ao me enterrar. Aposto que ele surtaria novamente. (Não o leve a mal, mas o senhor meu pai só se altera emocionalmente quando o assunto é dinheiro e gastos em geral. Sabe como é, não? Engenheiros...)
Depois de todos aqueles cumprimentos, eu pude finalmente ir para o meu quarto. O perfume delicado de incenso de rosa branca se espalhava pelo cômodo. Minha mãe sabia o quanto eu amava aquele cheiro. Tinha que me lembrar de agradecer a ela. Sem contar que ela organizou meu quarto. Mas olhar pra ele ainda me dava alguns vislumbres, flashbacks do que fiz. Na beira da cama, onze pílulas separadas por ordem de tamanho. Cada uma, um remédio diferente. E logo depois, me vi deitada no chão, vomitando o pouco do excesso que continha no meu estômago. Suspirei e fiz aquele pensamento ir embora. Não era hora de imaginar aquilo. Não posso reviver aquele momento. Assim, puxei minha mochila para o lado da minha cama – a qual estava infestada de travesseiros – e simplesmente me deitei. “Nada vai ser como costumava ser”, pensei comigo mesma. E fechei os olhos.
• • •
— Se eu fosse você, eu abria a janela e saía agora mesmo deste quarto. — ouvi uma voz feminina enquanto algum cilindro gelado e cheirando a atrito era encostado na minha testa. Consegui saber logo após de quem se tratava.
— É tão irônico você apontar uma arma para uma suicida, Bauni. — comentei, abrindo os olhos logo em seguida.
Sua risada não tem mudado em nada. Rouca e um pouco estridente ao mesmo tempo, pôde ser ouvida nos quatro cantos mais distantes de casa. Dizem que seu cabelo é vermelho escuro, mas agora estava um pouco mais claro, pelo o que eu conseguia ver. Estava com uma das mesmas camisetas que ela tinha, da banda “Matanza”. Bauni, como eu assim chamava a minha melhor amiga, era uma cabeça mais alta e pesávamos quase a mesma coisa. Disseram-me uma vez que seus olhos eram verdes intensos e claros. Que nem a grama das colinas da Irlanda poderiam simplesmente ser ainda mais claras do que sua íris. Eu às vezes desejava poder apreciar a beleza das pessoas da mesma forma que os seres humanos normais. Depois de ela rir por alguns instantes, ela se atirou ao meu lado na cama e acabei me forçando a virar o corpo para ela. Seu olhar me assustava em um bom sentido.
— Você ao menos pensou em mim, sua idiota? – ela indagou. – Em alguma daquelas pílulas, tinha o meu nome cravado? Ou sei lá. Você ao menos pensou no Patrick? No Pierre?! Ele pode ser seu ex-namorado, mas ele ainda gosta de você, caso você não percebeu até agora. – ela finalizou.
E outra coisa que eu mais odiava era esse tom delicado e dócil que ela usava para saber das coisas, para ganhar informações de acontecimentos que eu não quero expor. Revirei os olhos delicadamente e suspirei.
— Você sabe muito bem por que eu tentei me matar, Bauni. Por mais que eu ame você, o Patrick e adore o Pierre... Não é fácil viver com isso. Não é nada fácil. – comentei.
— É sério que foi por isso? – perguntou ela, indignada. – Você vai deixar uma doença ultrapassar o amor que você tem pelos amigos?
— Conviva com essa doença. Pare de ver as cores do jeito que as outras pessoas veem e comece a observar o mundo do meu jeito. Seu cabelo é vermelho mesmo? Eu não consigo ver isso. Porque pode ser que eu esteja vendo o que seria o roxo pra vocês, pessoas normais! – berrei a resposta.
Bauni me olhou de uma forma que deu pra entender. Minhas palavras foram como lanças atravessando o coração dela. Eu odiava quando eu agia daquela forma. Não sou desse jeito. Não sou explosiva. Mas tudo tem andado difícil pra mim. A ruiva abaixou os olhos e suspirou.
— Bom... Você tem razão. É difícil. Mas você já tem dezesseis anos. Convive com isso há muito tempo já. Deveria começar a se adaptar. Eu te ajudo a reconhecer as cores, você sabe que eu tenho paciência, Achilla... – ela sussurrou em resposta. – De qualquer forma, eu falei com a sua mãe. Ela te matriculou no meu colégio. Com toda a certeza você sofreria bullying no teu antigo colégio, e eu quero evitar mais sofrimento pra você. Amanhã você vai comigo pra escola
— Tudo bem...
Eu não tinha me dado conta de que já era domingo. Não me lembrava de que dia da semana eu tentei tirar minha vida e lembro muito menos do tempo que passei no hospital. Pareceu uma eternidade, e jurei que tinha durado mais ou menos um mês e meio a minha internação. A ruiva se levantou da cama e foi até a porta do meu quarto. Novamente precisei girar meu corpo para vê-la. Antes que ela pudesse sair, ela encostou a mão na parede e olhou pra mim, novamente com aquele olhar preocupado.
— Dê uma chance à vida, Achi. Você merece viver tanto quanto as outras pessoas. Por você ver o mundo de forma diferente, você será idolatrada um dia. Guarde minhas palavras. – ela comentou antes de finalmente apagar a luz e me deixar ali deitada.
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