Seu Pedro não estava feliz com a quantidade de vezes que Gina havia ido com Ferdinando para Antas, e não era para menos,pois mesmo Nando já havia ouvido os mexericos da cidade sobre sua relação com a filha dos Falcão e esse fora o porque de aceitar se casar com ela, apesar da vontade da jovem. Claro que havia Viramundo e certo que o violeiro só tinha olhos para a sua Milita, mas o candidato a prefeito já o havia pego, mais de uma vez, cantando com Dona Tê e a filha e como o rosto da moça se iluminava em sorrisos, isso sem duvida fora uma influencia forte, no fim das contas haveria tempo para “doma-la” mais tarde se não a perdesse.
E ele não tinha motivos para reclamar. Gina estava se comportando melhor do que nunca e, mesmo Coronel Epaminondas, concordava com isso, não que tenha sido fácil convencer o pai de que o filho traria “aquela uma”, como ele dizia, para dentro da casa dele, tampouco fora fácil convencer a esposa de morar lá, mas, no fim, havia conseguido apaziguar os ânimos e manter uma relativa paz na casa Napoleão, mesmo assim a jovem preferia não conviver com o pai e, principalmente, com a madrasta do esposo.
Ambos dividiam uma enorme cama no antigo quarto de Nando que, durante a primeira semana, permitiu que um grande espaço fosse posto entre eles como a ruiva preferia, mas isso não fazia com que Ferdinando dormisse melhor. Ele tinha total consciência do corpo dela ressonando levemente ao seu lado e do peito subindo e descendo com a respiração e isso o levava a loucura. Fora só depois dos primeiros sete dias que as coisas começaram a mudar.
Ele não entendia bem porque Gina havia subido tão cedo e sem ao menos falar com ele, mas quando chegou ao quarto ela já estava deitada e parecia dormir um sono agitado. Foi só mais tarde quando ela virou-se para ele e abriu os olhos que percebeu o que podia ser.
- Um pesadelo? – perguntou, mas ela apenas assentiu – Pois venha cá – disse puxando a levemente pelo braço.
- Ará, o que ocê vai faze Ferdinando? – perguntou ela um pouco receosa, a verdade é que ela nem ao menos havia cedido aos beijos dele ainda – Se ocê tenta...
- Eu não vou tentar nada Gina – respondeu ele apoiando a cabeça da amada em seu peito – Lembra quando eu prometi que ia te proteger Gina? – disse fazendo cafuné nos rebeldes cachos ruivos – Intão... Eu vou lhe proteger de tudo, de tudo.
- Ará, má ocê deixe de bestage Ferdinando – respondeu ela se afastando dele – Eu num preciso de proteção ninhuma e cumé que o ocê vai me protege de um pesadelo.
- Confia em mim Gina – disse ele a encarando com os grandes olhos azuis, daquela maneira que a deixava desconcertada – Ocê sabe que eu gosto muito do ocê não sabe? – perguntou levando uma das mãos dela até o peito dele onde o coração batia descompassado – Eu lhe amo e, mesmo que não posso lhe proteger de um pesadelo, eu quero ocê aqui perto de mim – respondeu colocando uma mão no rosto dela e se aproximou – Eu quero beija ocê toda a noite e todo dia – disse baixinho enquanto roçava os lábios nos dela e deixava uma mão escorregar para sobre o seio esquerdo, sobre a camisola que ela havia ganhado de presente de casamento da professora Juliana, ali ele podia sentir o coração batendo tão rapidamente quanto o seu próprio – E eu sei que o ocê também.
Por um momento pensou que ela iria afasta-lo, mas não fora isso que aconteceu. Ela simplesmente apertou os dedos dele de forma gentil e deixou que ele a beijasse com carinho e ternura, bastante diferente de como havia sido da primeira vez. Ele deixou que os lábios seguissem sem muito curso até encontrarem o local onde o ombro se ligava ao pescoço e só então a ouviu sussurrar algo.
- Eu também lhe amo Ferdinando – havia dito em voz baixa e sufocada, mas havia dito.

Só ali, depois de tudo que acontecera, que Ferdinando conseguira dormir com a cabeça de Gina encostada em seu peito e os espessos cachos ruivos enrolados em sua mão.

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